faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do Mundo"
(numa barraquinha de artesanato na Feira hippy de Ipanema)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Em todo o lado, mas sobretudo nos tarrafais

Ontem

Despertar aqui
é como morrer
sem ter vivido


............... 15.5.70


.............................................Hoje

.............................................Despertar aqui
.............................................é como ressuscitar
.............................................sem ter morrido

................................................................16.5.70

Da arte de viver

Na efemeridade, ou na efémera idade, ou na efémera condição de sermos matéria organizada como tu e eu, valem-nos as efemérides. Entre outras coisas desta arte (destarte) de estarmos vivos.

A língua!, instrumento vivo sempre a crescer...

Trécolarécar, verbo transitivo em circuito fechado a dois ou, melhor, a duas... escrevamos a 2 para não ferir susceptibilidades femininas, conversa a 2 ao telefone em que se saltita do preço de terrenos no mercado e regulamentos municipais para pormenorizados tratamentos dentários e respectivos orçamentos, depois de passar por impressões de viagens e de crítica literária, fora tudo o que me passou ao lado das desatentas orelhas direita e esquerda.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

De visita à literatura de cordel no Brasil

Na Feira de S. Cristóvão, de tradições e música nordestina, em homenagem a Luiz Gonzaga, o Gonzagão.

Na Academia da Literatura de Cordel

sábado, 26 de dezembro de 2009

Nataliando

Os aniversários só há que aniversariá-los; os natais só haveria que nataliá-los…
Por mais que tentemos fugir-lhes, todos os anos aí estão.
Este, aí esteve! Muito especialmente. Porque em família.
.
Os natais! Ao mesmo tempo enternecedores e irritantes.
Enternecedores porque trazem ao de cima o melhor de nós: o gosto de oferecer, o prazer de receber, a solidariedade, a total desinibição na afirmação de que gostamos uns dos outros.
Irritantes pela razão da comemoração, por algum exibicionismo, pelo que se escondem provisoriamente.
.
Neste, tudo isto poderia ser ilustrado. Sob o olhar-testemunho, frio e mudo, de Bento XV.
Mas guardo, para guardada ser, uma funda recordação deste natal. A imagem de uma família que nos acolheu e adoptou. "Gente boa", muito boa, Com um encantador casal de nonagenários, verdadeiramente sublimando ternura, os dois o centro de tudo, o nó afluente e irradiante. Bonito, muito bonito.
E angustiante. De várias maneiras, sendo a minha a de quem está tão mais perto deles, do casal de tão simpáticos velhinhos, e tão certo de saber que comigo não será assim se vier a durar quanto eles.
.
Natal? Nunca mais! Até para o ano…

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Coisas simples

Coisas simples (talvez irrisórias...)

• Pass(e)ar cruzando gente,
muita gente,
gentão,
sem um atropelo,
sem um empurrão.

• São setenta e quatro.
Tantos anos!,
tanto lastro
de ser humano.

• Uma vida!
Bem vivida.
Por vezes sofrida,
outras vezes divertida.
Tantas vezes sofrida,
muitas vezes encontrada.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Será que...

Será que este gajo não me deixa em paz?...
Um almoço num ambiente excepcional. Na Lapa. No Cosmopolita, que de restaurante cosmopolita nada tem, mas sim de tradicional, de amigo, de familiar. Em família.
Levanto-me para ir arranjar espaço para mais uns "chopes". Passo pelos recortes nas paredes. a dizer que... é o melhor restaurante do Rio, ou será o melhor do mundo? E, logo abaixo três ou qautro nomes de referência. Entre eles o de Mário Soares. Tinha de ser. Onde quer que vá,seja em que recanto do mundo... já ele já esteve e tem o nome (ou até a fotografia) nas paredes.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sabias disto, ó burguês?

Há gente que fecha a torneira
no mio de duas escanhoadelas,
que não toma banho na banheira
e não gasta água entre ensaboadelas.
Por causa do ambiente? Para seguir os bons conselhos?
Não! Por causa do fim do mês!
Sabias disto, ó burguês?


Há famílias que não têm apetites,
que compram pão e papas, e não bolos,
que cortaram cerce nos acepipes,
magros, magros, elas e eles como tolos.
Por causa da moda? Ou, antes, elegantes?
Não! Por causa do fim do mês!
Sabias disto, ó burguês?


Há seres humanos que humanos são
e vivem como se humanos não fossem,
eles que, tendo tudo ao alcance da mão,
nada têm do que teriam… se quisessem.
Por causa de alguma crença? Por falta de força?
Não! Por causa do fim de mês!
Sabias disto, ó burguês?


Há condutores de fim-de-semana
que vão deixar de o ser, de passear,
com a família fica de quarentena,
sem “gasosa”, nenhum carro pode andar.
Por causa do “peak oil”? Porque caminhar dá saúde (e faz crescer)?
Não! Por causa do fim de mês!
Sabias disto, ó burguês?


Há mães e pais com os "rebentos" a estudar
e tudo a crescer… e os "mais que tudo", as crianças…
sem professores para ensinar, com novos manuais a comprar,
eles, os pobres pais, vivem o começo das aulas em ânsias.
Por causa da ministra? Porque os miúdos saem caros?
Não! Por causa do fim do mês!
Sabias disto, ó burguês?


A saúde é de todos e de todas um direito,
diz a República Portuguesa na sua constituição
e as gentes, doentes ou ainda não, queixam-se sem jeito,
nem a mente está sã nem o corpo está são.
Por causa da moderação? Por culpa dos médicos e enfermeiros?
Não! Por causa do fim do mês!
Sabias disto, ó burguês?


A democracia está aí desde um certo Abril
além de muito mais, todos com direito a votar
com muitas portas abertas para caminhos mil
e ninguém está contente, todo o mundo a protestar.
Por causa da ingovernança? Por culpa da inoperância?
Sim! E por causa do fim do mês!
Sabias disto, ó burguês?

sábado, 5 de dezembro de 2009

Cumbersas

- Atão?
- Cá vou... meio-constipado.
- Ah! Sim?
- Entre o meio constipardo e o meio-constiparvo.
- Vê se te curas...
- Não há meio.

sábado, 21 de novembro de 2009

Três mulheres e um carrinho de bebé


Almoçava com um amigo quando elas entraram. Três mulheres. Empurrando um carrinho de bebé. Discretamente.
No entanto, a entrada no pequeno restaurante não podia passar desapercebida. Eram, as três mulheres, altas e belas nas suas idades. E empurravam, como numa nuvem, um carrinho de bebé.
De longe, do canto da sala onde almoçava com o amigo, saudei as três mulheres. Tão discretamente como elas tinham entrado e ocupado o espaço onde se arrumaram e, com cuidados mil pelas três repartidos, ao carrinho de bebé.
Tudo parecia de novo tranquilo e rotineiro, como sempre estivera embora eu tivesse sido sobressaltado pela entrada das três mulheres empurrando um carrinho de bebé.
A conversa com o amigo continuava fluente. Sem pausas ou hiatos. Sobre coisas de nada. Ou de tudo. Mas, assim que houve uma brevíssimo silêncio, como quando se muda de ponto na ordem de trabalhos, ou na agenda de conversa, por um dos pontos se ter esgotado e faltar uma imediata “ponte”, pedi licença e levantei-me.
Fui saber notícias de quem, no seu carrinho de bebé, a tudo indiferente, dormia nos seus poucos dias de vida. Fui informado. Pela mãe, pela avó, e pela bisavó. Fui informado, de forma carinhosa, porque só assim falavam de quem ali estava e não por ser comigo, de que tudo correra bem, do nome: Pedro, da receptividade dos irmãos dois mais velhos, tão novinhos ainda.
E voltei ao meu lugar, e à conversa não interrompida, não sem antes deixar a muito repetida e inevitável recomendação "então agora tem de vir uma menina…", também com os muito repetidos e inevitáveis sorrisos doces e cheios de ternura das três mulheres. Uma bisavó, uma avó, e uma mãe. E um bebé num carrinho.

domingo, 15 de novembro de 2009

Elo-cubrações, com-vocações, &vocações


1. Às vezes, mas só às vezes..., tenho a sensação que a corrente saltou da roda dentada e que estou a pedalar em vão… só para dar às pernas!

2. Não sei nada!
Sei, apenas, que deixei passar a oportun(a)idade de hoje saber o que, hoje, sei que não sei.
Mas não desisto!
Há que aprender, aprender, aprender sempre. Até ao fim dos nossos saberes!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O envelhosermos

"...enquanto saboreamos ternamente o envelhecimento!"

justine (algures)

Ser democrata

No meu humilde pensar e na minha modesta prática (decerto nem sempre coerente ou consequente), ser democrata é também um modo de estar ao serviço da comunidade, mesmo quando cause dano a uma pessoa ou a um grupo de pessoas, a interesses individuais ou a interesses de grupo (ou a grupos de interesses), sem o cálculo se assim estar traz, para si, vantagem ou prejuízo. Será estupidez? Talvez… esta coexiste adrede com humildade e modéstia.
anónimo do século xxi

sábado, 7 de novembro de 2009

Ele há cada descoberta...

... acabo de descobrir, via antena 1, que aquele fulano que eu julgava um covarde, afinal também é um cobarde.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sobre amizade e amigos - casos que põem em causa

Prezo muito a amizade. Por isso, de poucos direi sou amigo. E, depois, há casos recentes (será da minha idade?) que têm posto em causa amizades, algumas muito antigas, das que julgava para sempre.
Entre mais pequenas feriditas cicatrizadas, dois casos me afrontam como cicatrizes que não há meio de fecharem. Em definitivo. Para ficarem, arrumadinhas todas, ao lado de uma outra, grande e só minha, que não é por ser cicatriz que deixou de ter sido ferida. Menos ainda esquecida. Que foi grande, enorme. E fazedora de vida.
Podiam, essas duas, até ter sido, apenas, nódoas negras. Ou passado por terem sido, apenas, nódoas negras. Das tantas que passam com o tempo e uma pomadita. Mas não querem (será da minha idade?). Parece terem-se instalado como cicatrizes mal fechadas.
Um caso, depois de palavras e gestos meus esperançados que fossem esclarecedores de situações, terminou com a maldita “última palavra” (que frases foram): “Fomos amigos, podemos viver com essa recordação. Outros têm menos.” Outros terão menos. Mas isso não me compensa. A recordação não ajuda a cicatrizar.
Outro, foi o caso de divergências em campanha eleitoral e tomadas de posição, em que admito ter-me talvez excedido num ou noutro termo usado, e apanho com a definitiva (e para mim inaceitável) conclusão: «última nota. para que Sérgio Ribeiro não fique a ver o espectro de eu estar a “esconder uma opção pessoal por debaixo da capa de uma pretensa objectividade”, dou publicidade ao facto de o post que ele escreveu ter tido a utilidade de fazer-me rever uma das intenções de voto que tinha para amanhã». Que forma mais arrevezada de me dizer, como “última palavra”, não vou votar em si!; não merece o meu voto depois do que escreveu. Como castigo, como “pena” que puniria considerados desaforos? Reajo, hoje, ainda mais “a quente” do que, então, “a quente” reagi:
“A minha incurável transparência obriga-me, talvez desastradamente, a traduzir coisas que … arranjou maneira sinuosa de dizer: a lista da CDU para a AM terá perdido um voto! Tenho pena. Não pela perda do voto - e deste voto para mim tão significativo! Mas pelo processo que a tal terá levado, resultando no fecho de um episódio que me entristece. Que não quero que seja mais que um episódio, dado haver coisas e relações muito mais importantes para mim que isto de campanhas eleitorais e de votos. Muitos amigos tenho que não votam nas listas que integro, muitos amigos tenho que fazem campanha e/ou estão em listas em que não voto.”
Ainda mais “a quente”, hoje, porque me corrijo. Reiterando o que escrevi ao começar:
“Prezo muito a amizade. Por isso, de poucos direi sou amigo”.
E custa muito perdê-los, ou correr esse risco. Sobretudo quando, dos homens ou mulheres, se mantém a admiração pelo que são, e reconfortante ser (ou ter sido) dizer é meu amigo.

Pinça mentes

A Paz não é necessária para. Não é necessária para que haja mais escolas, mais hospitais, melhor educação, melhor saúde. E mais e melhor muitas outras coisas que são necessidades em si.
A Paz é necessária. Ponto final. Como necessidade em si. Porque, sem ela, a Humanidade corre perigo. De sobrevivência.
anónimo do século xxi

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pinça mentes

Saber ler é preciso, ler é bom, ler muito é óptimo, tresler é uma (des)graça.
Disse!

anónimo século xxi

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Borsalinadas

Desta vez, não almoçava sozinho. Aliás, a conversa saltitava de e para outras mesas. Havia alguma promiscuidade...
Na televisão, vinha à baila (ou"ao baile"?) a "face oculta". Da outra mesa, ouviu-se a boca do culpado vir a ser o contínuo, que tudo iris ficar em "águas de bacalhau", e da mesa onde estava, saltou boca parecida. Não se confia na justiça, 'tá visto! Eu apenas quis sublinhar que há sujeitos que, indo ou não ser condenados, já estão... condenados.
Voltei à nossa conversa. A dois. Eu explicava ao meu amigo a "mecânica" da Assembleia Municipal e o que tinha acontecido na sessão de sexta-feira, um pouco empolgado pela lição que foi, e pelo papel que nela desempenhara.
De repente, saiu-me "uma". Que, se estivesse sozinho, se o papel da mesa ainda fosse o mesmo, onde se pudesse escrever e não aquele novo (espero que provisório...), preto, teria ficado registada a borsalinada. Para memória futura (g'anda frase popularizada pelo caso Casa Pia).
Não a trouxe no papel, mas trouxe-a na cabeça:
A incongruência deste tempo: havendo tanta gente aqui na terra com qualidade (enumerei uma larga lista de nomes, tão larga que nela me inclui!), estamos (!) todos ausentes de responsabilidades formais e efectivas na vida em sociedade, e esta está entregue a mediocres, cujas únicas "qualidades" são a ambição pessoal e a falta de escrúpulos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Borsalinadas

Quando almoço sozinho, escrevo nas toalhas de papel frases à tôa. Depois, nalguns casos, transcrevo para aqui e rasgo.
Agora, agorinha mesmo, a arrumar (?) papéis, saltou um que, presumo, não foi transcrito, com coisas que me apetece transcrever, para arquivo.... São o fruto do que vou observando enquanto almoço.
.
Gosto... das gentes!
.
Ela parla, ela parla, ela parla... en franciu.
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As carnes aBUNDAm!
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Vocês não "fazem" o futuro, estão à espera dele, e esperam n'ele entrar à boleia dos que o "fazem".
Nós, não. Nós estamos na labuta desta luta filha da puta.
.
Noutros tempos, os homens queriam e as mulheres abriam-se... mesmo sonolentas e frias.
Nos tempos de hoje, as mulheres querem (quando acordam) e os homens concordam, mesmo que não completamente acordados, mesmo que sonolentos. Foi muito bom, não foi? Bom dia!
.
A curiosidade mata o gajo! Estou a vê-lo e a ouvi-lo: "Quem é aquele velhote de barbas? Conheço-o de qualquer lado... toda a gente lhe fala e o cumprimenta, e ele come sozinho e escreve, escreve, que estará ele a escrever? Raio de coisa."
.
"Olá, camarada amigo... "meu" secretário-geral do "nosso" Partido!"
.

S/data

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

4 em 1

Cada um de nós é i) o que é, é ii) o que julga ser, é iii) a avaliação que os outros fazem de si, e é, ao fim das contas feitas, iv) a amálgama destas três coisas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Direitos humanos e associativismo - o que faz e o que não faz sentido

Aqui, no meu bairro (poderia ter escrito na minha aldeia), o meu avô e mais alguns amigos do seu tempo, tão reformados como ele, formaram um grupo de jogadores de dominó.
Ao princípio, eram só quatro que se sentavam à mesa, e o grupo só existia para ocuparem umas horas das tardes reformadas.
Depois, as coisas começaram a complicar-se. Aparecerem mais reformados (isto da idade não perdoa...) e começou a ter de se organizar e regulamentar o acesso à mesa e às pedras do dominó. Para isso, formou-se o Clube dos Jogadores de Dominó do Jardim Cinema.
Pediram a um neto de um deles que fizesse uns estatutos, constituíram-se em assembleia constituinte que, por eles constituída, e sob o alto patrocínio técnico-jurídico do neto do avô, cumprindo todas as formalidades legais e administrativas e deram vida à personalidade jurídica com nome registado tal como antes decidido.
Isto já se passou há um bom par de décadas. Organizaram torneios, que fizeram história e antecedentes, criaram escolas de aprendizagem de dominó, foram alargando actividades sempre em torno do dominó e foram passando o testemunho de geração em geração.
Dos sócios fundadores já nenhum sobrevive. Alguns mexeram as pedras até à última “dobla” e curva da vida, outros foram praticar diferentes lazeres que mais os aliciaram, outros ainda retiraram-se da actividade pura e simplesmente.
Ainda há uns vagos netos entre os muitos que se dedicam à modalidade, também por homenagem respeitosa aos avôs, mas o certo é que a colectividade resistiu bem a alguns períodos de crise, que tocam a todos…, e está vivinha na prática e em prol do dominó.
É certo que, de vez em quando, aparecem uns recalcitrantes a fazer propostas, às vezes nem as levando às assembleia gerais mas procurando pressionar de fora para dentro, para que o Clube dos Jogadores de Dominó abandone o dominó e se dedique, por exemplo, às damas ou ao xadrez ou ao golfe, ao que lhes vem à cabeça, ou na cabeça lhes é metido por quem quer aproveitar o interessante património material e cultural do Clube.
Não têm conseguido, porque a maioria dos sócios não quer abandonar o dominó, e ao dominó está mesmo dedicada de alma e coração. Gostam, sobretudo, do ruído das pedras batidas nas mesas.
Mas os outros não desistem. Agora, há um, que até já recebeu prémios mundiais na sua arte, sempre se afirmando fiel ao dominó, que tem insistido em contrariar a direcção do Clube. Não há nada que esta faça com que esteja de acordo; apoia direcções e membros de clubes concorrentes; está sempre a dizer que o dominó é coisa ultrapassada, logo acrescentando que continua a ser adepto do jogo embora não o pratique.
E, muito recentemente, veio com uma ideia nova, novíssima, genial como ele, o direito à dissidência. Isto é, poder continuar-se sócio do Clube dos Jogadores de Dominó estando contra quem joga dominó, e defendendo o jogo da bisca, da sueca ou da canasta como substitutos do dominó.
A resposta a dar-lhe é que ele tem todo o direito à decisão… de deixar de fazer parte do Clube.
Que direito é esse de ser dissidente de onde não se está?
É assim como um ateu reivindicar o direito à heresia. Pois se ele é herético, como reivindicar ser o que é? Não faz sentido!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Buganvília










Branca a buganvília explode
no odiado muro em frente

à volta a vida berra crente
e o negro sangue estanca

vermelha a buganvília
rompe o muro da frente


José Luandino Vieira
(Luanda, fins de 1962)

domingo, 18 de outubro de 2009

Conversas na manhã

- Bom dia, vizinha!
- Deus o salve…
- Frescote, hem?
- Pois ‘tá. E inda agora no rádio diziam que lá p’ró Algarve as praias estão cheias…
- É... Têm estado. E aqui o sol vai levantar.
- E atão… tão cedo cá por fora?
- Vim tratar de umas coisas da rega… vai até à missa?
- Vou ver se Deus
(disse assim, com D) me ouve... s'Ele existe. (disse assim, com E)
- Ó vizinha!... se ele existe?
- Eu cá acredito que sim...
- Se a vizinha acredita que existe, ele existe para si.
- Lá está o vizinho c’as suas coisas. Olhe qu’Ele existe...
- Boa missa! E fale-lhe alto.
(se fosse ela a escrever, ou se ela escrevesse, teria escrito Lhe)
- E olhe que vou rezar por si.
- ‘Brigadinho!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Assim é!

A vontade, a vontade que não é livre porque também somos os outros, que tem de ser consciente, que só pode ser positiva... por vezes parece esmorecer, como que num anoitecer de que diz um belo poema da Lícinia Quitério.
Só há que reagir. É esta (e assim) a vida. Mas não é esta (e não é assim que tem de ser) a vida. Temos de a agarrar pelos cornos enquanto temos mãos e força e ajudar a mudá-la. A fazê-la outra. Enquanto somos. Para os que agora connosco são, e para os que depois de nós vierem
.


E as coisas simples. as simples coisas...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Lucidamente desesperado. Às vezes...

Não desejo – e pouco desejável seria… - que “todos fossem como eu”. Sou único e nada exemplar.
Mas, às vezes, sinto-me desesperado por, em alguns, tão poucas parecenças encontrar com o que sou - e como estou na vida -, sobretudo quando toca a certos aspectos da nossa vida que são verdadeiramente definidores do que somos – e de como estamos na vida. Aspectos verdadeiramente definidores, essenciais… para mim, claro. O que é critério de nula validade.
A não ser para mim. Claro.
Lucidamente desesperado. Ou será desesperadamente lúcido?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009


... para memória ficou esta foto e um balde cheio de amêndoas!

sábado, 26 de setembro de 2009

Crónica de uma tristeza

As árvores (e os homens...) morrem de pé

Há muito pouco tempo, deste tempo cada vez mais relativo, foi a ameixoeira. Sempre a vi naquela pequena elevação, à mão de apanhar os frutos sempre muitos e bons. De vez em quando, há muitas décadas, ali ia acabar o almoço e comer a sobremesa. Fazia parte do meu canto, porque desde sempre ali estava. Deu-lhe… a velhice. Tive pena.
Hoje, foi a amendoeira. Também sempre ali a vi. Resistindo a todas as mudanças de “cenário”, mais muro, menos muro, mais garagem menos adega. Ali estava. Centenária. Embora, às vezes, mostrasse algum cansaço. De qualquer modo, todos os anos nos oferecia flores e umas amêndoas. A que pouco ligávamos. Fazia parte da paisagem...
Não era como a nespereira. Ambas enormes (depende da escala…) e companheiras, ou só vizinhas, mas a senhora nespereira só ofertando nêsperas nos anos em que lhe dá na real gana. Feitios…
Pois outro dia, trabalhava eu aqui, ao computador, ouvi um barulho de choque. Fui ver. Fora um camião enorme que, ao encostar muito à direita, batera num dos troncos altos e fortes da amendoeira, e provocara tal abalo que rebentou a base do muro e fez levantar o chão onde se enterravam as raízes.
Chamado um amigo-vizinho ou um vizinho-amigo, o diagnóstico foi rápido e brutal: condenada!
Foi hoje abatida.
Estou triste.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Alternância é democracia?



O grande - o enorme - Zé Gomes Ferreira, o "poeta militante", deixou-nos este "brinde". Para hoje, como foi para ontem, com será para sempre:





Democracia é alternância


repetiu de novo a embalar o tédio


um senhor de sono espesso.


Como se fosse possível - ó gloria! ó ânsia! -


construir um prédio,


mudando de vez em quando


os mesmos tijolos do avesso


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A ouvir, a esta hora que devia ser de sesta, galos a cantar na vizinhança. A deshoras... mas já nem os galos sabem a quantas andam.

A casa.
O telhado. As telhas. Algumas que ali estão desde o século XIX.
A porta que foi janela.
O pátio.
O bem-estar.
O efémero.

Remédio eficaz

O José, o António e o Manuel são três amigos. Na “casa dos 60”. Sim, porque se fosse na “casa dos 30/40” seriam o Tiago, o Diogo, o Hugo. Adiante... que a estória é outra.
O José chega ao pé do António esbaforido, ainda “a ferver”.
«É pá!, porra… sacana do Manel, um dia chateio-me a valer com o gajo…»
«… coisas do futebol, não?»
«Pois. Veio emerdar-me
(os três foram emigrantes e estão na “retraite”). Que o Liedson já deu o que tinha a dar, que o Benfica vai dar-nos um bailarico…»
«E é caso para te chateares? O Manel gosta de te picar…»
«Picar, picar… O gajo é mas é um provocador…»
«… e tu cais nas provocações. Deve dar-lhe cá um gozo…»
«Uma merda! Dar-lhe gozo? Vá gozar com tia dele…
«Vocês até são amigos. Tu devias acalmar-te, não reagir assim, relaxar…»
«… posso lá… há coisas que não suporto. E pára de me dar conselhos, gaita…»
«Como teu amigo, até te vou dar um. Toma aquele medicamento que um médico me receitou e que me tem feito um bem bestial ao sistema nervoso.»
«… não me chateies… mas dá-me lá o nome dessa coisa…»
Duas semanas depois, encontram-se o José e o Manuel. O Manuel “entra a matar”:
«Viva, Zé, não te via há que tempos... ‘tás porreiro? Deves estar, o Liedson parece que ressuscitou, 'tá a safar aquela desgraça de equipa. Foi alguma “vitamina” que vocês lhe deram? Mas não vai durar muito. O gajo é mesmo levezinho… e aquele Paulo Bento é cá um cromo. Então não dizes nada?»
«Não. Se calhar até tens alguma razão…»
«Agora no Porto vão levar com um aperitivo para depois, com o Benfica, levarem cá uma coça. Vai ser cabazada.»
«Talvez não…»
«’Pera aí. Tu estás diferente, pá. Não vês que te estou a provocar…»
«Vejo. Mas deixei de responder a provocações… Vamos beber um copo com o António?»

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amores-perfeitos

advertência:
este é um blog intimo
(quase confessional),
onde toda a gente pode entrar,
mas onde apenas têm entrada desejada,
querida!,
os amigos íntimos,
isto é, os amigos
Tive amores-perfeitos.
Ah!, pois tive...
Mas,
afinal...,
não eram.
Porque não há amores-perfeitos.
Há é amores desfeitos.
Ah! isso há!

Depois dos amores-perfeitos,
parece que encontrei
(ou seja, que encontrámos)
um amor (per)feito… um para o outro.
Sim, senhores, encontrámo-nos!
E encontrámo-nos há três décadas,
(no J(á)amor, na Festa, veja-se lá…)
... e venham lá dizer-nos que não somos (per)feitos…
… um para o outro!)
Até porque nos temos vindo a aperfeiçoar,
a(per)feiçoando-nos ano a ano, dia a dia.
Não que todos os 365 dias destes tantos anos
(mais um para os já vários bissextos…),
ou todas as 24 horas destes incontáveis dias
tenham sido perfeitos (os dias e os anos)
ou perfeitas (as horas).
Não!
Nem pensar…
Mas temos vindo a melhorar
as imperfeições dos anos,
as imperfeições dos dias,
as imperfeições das horas.
Somos os amores-perfeitos
… como é (im)possível sê-lo…
Tu, o meu;
eu (espero e venho-o confirmando…) o teu.
Cheios de imperfeições,
mas está tudo bem
no que respeita a estas possíveis perfeições
que são,
como já está dito e redito...,
impossíveis!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Declaração de amor

Há muitos anos (ih! tantos… tantas décadas) apaixonei-me por uma colega do liceu. Teria sido a primeira paixão “a sério”, das que nunca esquecerão. Como é que ela se chamava? Bem… não interessa. Tímido como era (e como continuo…) vivi um drama. Como dizer-lhe? Sim, como declarar-lhe todo o meu amor? Juvenil, primeiro, mas para sempre.
Até que - ah!, disto lembrei-me agora mesmo… - descobri a fórmula, o “eureka”. Foi em Os Lusiadas, de Luiz de Camões, nestes, edição de 1916 da Parceria António Maria Pereira.E lá fui eu, todo corajoso, explicar à jovem bela, linda como a mais linda das flores do mais lindo jardim, um estranho fenómeno que – dizia eu – era decerto amor. Único, igual a nenhum outro (cretcheu, como viria a saber muito mais tarde que se diz em crioulo).
Expliquei-lhe eu que cada vez que abria o livro, em que famigeradamente tínhamos de dividir orações - mas antes isso que desconhecê-lo... -, e defrontava na capa o pobre do zarolho com uma coroa de louros na cabeça, se dava um estranho fenómeno. Aquela gravura mudava, transfigurava-se, e era a cara dela, daquela bela que era ela (mas como é que a miúda se chamava?...) que eu via, ficando ali, pasmado (como acontece com os computadores, agora), a olhá-la, embevecido.
E, já meio atrapalhado, metendo os pés pelas mãos, e o Luís (com z) pelos Lusíadas (sem acento no i), concluía que aquele fenómeno só podia ser o resultado de um grande, de um enorme, de um eterno amor.
Confesso que não me lembro da resposta… e, rai’s parta esta memória!, como é que a miúda se chamava?
Acontece que, outro dia, em Nova Iorque, em Times Square, fiz figura semelhante.
Andei tempos que tempos foram em posições e preparativos para tirar uma fotografia em que um W se transformasse em Zé. Consegui! Estou mesmo apaixonado.
Mas agora é a sério. Para sempre e etc.

sábado, 12 de setembro de 2009

Para registo pessoal, aqui

Uma foto... especial.


Feita, e oferta, por uma jovem camarada, no auditório 1º de Maio, na Festa de 2009, enquanto ouvia, emocionado, Samuel cantar Adriano.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As palavras em volta

Despego os olhos do computador, levanto-me devagar, muito de vagar, da cadeira onde me pareço aparafusado. Dou uns passos pelo espaço em volta, dou… passos em volta. Com os dedos percorro lombadas, tiro e folheio um ou outro livro. Daqui e dali, ao acaso. Dos mais queridos, dos mais amados. De autores companheiros.
Agarro um Eugénio de Andrade, rente ao dizer, que está pousado, ali, na banca de trabalho d’ela, e desfruto da delicadeza das palavras, palavra atrás de palavra. Logo aqui, o Aquilino, a cavalgar no seu cavalo de pau, e, mesmo de fugida, apanho a luminosa chapada da língua que é a nossa, laborada em discorrer elegante e vernáculo, como água límpida, por vezes de cores estranhas, a rolar sobre calhaus. Ao lado, o Zé Gomes – tanto Zé Gomes, e sempre tão pouco Zé Gomes – e, na memória das palavras, a pergunta o que torna as coisas belas?, com o aristocrata que em cada um de nós mora a deitar a cabecinha de fora. Vizinhos, os da poesia. Neruda, Guillén, Manuel da Fonseca (ah! Manel, Manel), o professor António Gedeão gémeo do poeta Rómulo de Carvalho. E o Brecht, que salta do teatro, para o romance, deste para as poesia e as pequeninas histórias de um senhor K. E o Zé Saramago, com a saudade amarga da sua presença amiga e das suas dedicatórias fraternas, camaradas.
Recupero! De estar zangado? Não! Era o que faltava…
Recupero da tristeza, talvez um pouco irritada, por haver gente assim. Tão outra. Tão sectária de nada. Ou sectária de ser violentamente, brutamente, contra o que não entende porque se foi tornando incapaz de tentar, ao menos de tentar..., respeitar o outro-que-não-ele-e-os-iguais. Gente tão cega, tão vesga, tão agressora. Tão indigente.
Encho-me da delicadeza dos poemas, da elegância e vernáculo das prosas, do amor e respeito pelos outros que encontro em tantos e tantos, como podia ter procurado na música ou só no passeio a dois pisando o mesmo chão. De mãos dadas. Encho-me do que procuro, e por isso encontro, em (quase) todos. Talvez mais do que em todos nos analfabetos, nos humilhados e ofendidos. Mas solidários. Mas solidários.
Não esqueço. E não me quero habituar. Não quero ser vencido pelo costume. Não quero encolher os ombros e deixar andar. Não! Como li, agorinha mesmo, no Aquilino, quero-me, até ao fim, “inveterado endireita do mundo torto”. É que ele está mesmo torto, e injusto, e cruel, e sempre contra os mesmos tantos para proveito dos mesmos poucos! Ou não?...

domingo, 30 de agosto de 2009

Preferia que fosse nas autárquicas em Ourém

Volta a São Paulo
30 de Agosto de 2009 21:06h
Sérgio Ribeiro vitorioso

Artigo
Por Sapo Desporto c/ Lusa

O português Sérgio Ribeiro (Barbot-Siper) confirmou hoje a vitória na Volta a São Paulo em bicicleta, no Brasil, na curta nona e última etapa de consagração, ganha pelo uruguaio Hector Figueras.

sábado, 29 de agosto de 2009

Cá por coisas da vizinhança... uma sonatina

Já me servi desta imagem - quantas vezes? - para contar a historinha de uma andorinha e de uma nadadora-salvadora e de um gato que miava e que por ali andava. Quantas vezes! Ainda nos meses de Março e Abril mais próximos andava por aí, convidado de escola em escola, com a historinha a tiracolo. E voltava sempre feliz, porque tinha vivido uns quartos de hora de bem-aventurança. Bem-aventurança que, pelo menos duas vezes, se prolongou por prendas lindas que me mandaram, uma delas a historinha recontada pelos meninos a quem eu a contara.
Por isso, sim, por isso, ver este pedaço de fotografia nossa a servir de pretexto para uma mensagem de palavras, de sons, de poesia pura (ou natural?) foi bom. Foi, mais uma vez, bom. Ou, dizendo melhor, foi bem-aventurante nesta aventura de estar vivo. E vivo estar.
Além disso, a imagem ganhou uma nova força nos olhos e comentário de uma poeta, talvez ajudada pelo Shostakovski, a força de ser, também, uma pauta musical em que as notas são as andorinhas que escrevem a sinfonia dos sons e dos silêncios destas tardes de ainda verão.
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Que pena a máquina fotográfica ser tão pobrezinha... mas, se calhar, nenhum sofisticado aparelho de milhares de € transmitiria o que esta foto me/nos transmite. Que é a riqueza humana (e andorinha...) que contém as imagens, ainda que não valorizada pela técnica e pelo talento!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Umas coisas que acontecem e outras que "me" são feitas.

"Esta" não me volta a acontecer!
... e a minha vida segue como se nada me tivesse acontecido...

Nunca mais me fazem "isto"!
... e "isto" continua a ser-me feito...

domingo, 23 de agosto de 2009

Não esqueço nada!

Nasci em 1935. Já quase em 1936. Poderia ter sido um novo heterónimo de Fernando Pessoa a sobreviver à morte do seu criador. Não fui. Mas vivi o primeiro ano da minha vida no ano em que morreu Ricardo Reis.
Cresci e, como é de uso dizer-se, formei-me num tempo sem televisão, sem computadores, sem telemóveis, sem GPSs.
Cresci e formei-me numa casa e numa família sem telefonia, sem frigorífico (Frigidaire…), sem automóvel, sem outros desses acessórios de vida já então existentes mas ainda raros.
Cresci e formei-me a ir ao teatro, pouco ao cinema, a uma ou outra tourada, uma única vez ao futebol, que ficou inesquecível e fez com que, já crescido mas ainda (sempre) em formação, passasse a ser assíduo frequentador até deixar de o ser.
Cresci e formei-me cuidando do meu físico. Procurando moldá-lo à minha vontade de ser Charles Atlas.
Cresci e formei-me lendo. Lendo muito, ganhando o vício de querer perceber. Aprendendo, aprendendo sempre.
Cá vou vivendo. Enquanto o corpo aguentar. Sem esquecer nada. Ou lembrando tudo. Habituando-me. Habituando-me à televisão, às máquinas de calcular, aos cartões perfurados, aos computadores, aos telemóveis, a seguir ao GPS. Procurando ser do tempo em que sou.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

On n'oublie rien

...c'est tout!
.

On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout
Ni ces départs ni ces navires
Ni ces voyages qui nous chavirent
De paysages en paysages
Et de visages en visages
Ni tous ces ports ni tous ces bars
Ni tous ces attrape-cafard
Où l'on attend le matin gris
Au cinéma de son whisky
Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout
Ni ces jamais ni ces toujours
Ni ces je t'aime ni ces amours
Que l'on poursuit à travers cÂœurs
De gris en gris de pleurs en pleurs
Ni ces bras blancs d'une seule nuit
Collier de femme pour notre ennui
Que l'on dénoue au petit jour
Par des promesses de retour
Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout
Ni même ce temps où j'aurais fait
Mille chansons de mes regrets
Ni même ce temps où mes souvenirs
Prendront mes rides pour un sourire
Ni ce grand lit où mes remords
Ont rendez-vous avec la mort
Ni ce grand lit que je souhaite
A certains jours comme une fête
Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout
.

(como eu gostava de ser capaz de escrever coisas destas -já nem digo cantar... Hei-de traduzir isto!)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Terei lido bem, ou terá sido mal transcrito?

«...o líder do PS de Santarém garante que o candidato a deputado "tem toda a confiança política" do partido apesar dos termos que João Galamba utilizou num espaço público de debate. Acrescenta Paulo Fonseca que "a democracia chegou ao tempo de maturidade suficiente para começar a responsabilizar aqueles que faltam ao respeito aos outros".»

Este "líder" teve a grandiloquente tirada, como lhe é apanágio, sobre a maturidade da democracia e a responsabilização daqueles que faltam ao respeito aos outros, depois de ter garantido toda a confiança política (do partido) a um (seu) candidato que, por uma diferença de opiniões "entre terceiros" em que um disse que o outro era filho de quem é e a ele saía, com uma apostrofação ao "estilo de flatulência política do papá", este candidato a deputado merecedor de toda a confiança política era, em contra (não sei se hei-de escrever contrapartida ou contradiçao), desresponsabilizado de ter faltado ao respeito a outrém, apesar de ter vindo, em espaço público de debate", tomar a defesa de um e chamar filho da puta ao outro.

Palavra que estou baralhado. E tudo aqui, ao pé de casa...

Isto só em ficção... da corda! Até porque, como cantava o Brel, tous les enfants sont fils de quelq'un!

domingo, 16 de agosto de 2009

Num imenso Zambujal...

No Por Ourém, ao regressar da festa do Zambujal, talvez um pouco traumatizado..., coloquei ontem um post com o vídeo do Chico, que supunha ser o do filme Fado, de Carlos Saura.
Afinal não é, e encaminharam-me para este Fado Tropical, chamando-me a atenção para o segundo 40!
Aqui, neste "blog" mais ou menos privado, o deixo com uma ligeira (?) comoção e agradecendo a quem encaminhou para ver este vídeo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Incon'ciência?!

Cá por casa ainda não se elaborou nenhum plano de emergência para gripe AH1N1!
Valha-nos S. Roche (lê-se che e não que...)
(estou a escrever isto com os dedos cruzados, a "fazer figas" para que o deus das gripes aviárias e porcinas não me/nos castigue)

Talvez

Talvez este silêncio,
Talvez este silêncio de vozes,
...... talvez esta quietude de casa adormecida
...... mas povoada de gente,
...... com os seus ruídos que só agora se ouvem,
...... dos respirares das pessoas e das coisas,
...... dos estalidos da madeira,
...... dos raros carros que passam, noctívagos.
Talvez!
.
Talvez esta penumbra
Talvez esta luz de luzes apagadas menos a deste candeeiro
...... talvez só o luar que espreita lá de fora
...... pelas portadas que o calor não deixa fechar,
...... estas sombras em volta,
...... estas só silhuetas, contornos, manchas,
...... talvez a cor da noite.
Talvez!
.
Talvez este estar assim
Talvez este estar comigo, sozinho mas acompanhado
...... talvez este cansaço e sono
...... que não se rende ao sonho,
...... este contar de horas poucas e lentas
...... crescendo num dia novo,
...... este apagar-me na necessidade de dormir
...... talvez este querer continuar acordado,
...... vivo.
Talvez!
.
Talvez o silêncio,
...... a penumbra
...... estar assim,
...... sozinho mas não só,
...... este estar comigo.
Talvez!
.
Talvez seja isto…
talvez seja esta a hora das horas.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Valham-nos os netos... de outros.

Num fim-de-semana prolongado, de 5ª a ontem 2ª..., estivémos de avós! Para evitar confusões (e eventuais melindres dos propriamente ditos) eles chamam-nos "tios". E fizeram destes dias uns dias cheios, felizes... e derreadores!

Obrigados, Abel e António (por tudo, em particular pela ajuda informática, de um, e a supervisão engenheira em tudo o que são portas, fichas, chaves e fechaduras, do outro).
___________________________________________________
Publicidade não paga: Aqui por casa está a pensar-se convocar uma assembleia geral para alterar os estatutos e juntar ao "turismo rural", como uma das finalidades da "firma", a de "centro de apoio a pais e avós" para seu (deles) repouso e nosso cansaço voluntário, agradecido e gratuito.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Será?

Será que, ao caminharmos para velhos (nunca somos velhos, caminhamos para...),vamos ficando menos compreensivos e tolerantes, mais irritadiços, com as manifestações de velhice de quem mais perto está de nós, de quem caminha para velho/a a nosso lado, de mãos dadas?
(a ter em atenção autocrítica!)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Rai's part'ó bento!

Cansado de ser flagelado pelo vento norte, ou fustigado pelo vento sul (nisto venham os que sebam de origem de ventos e de gramáticos e decidam), o homem resmungou, rezingão: "A norte do sistema Montejunto-Estrela?!... mas aqui é o sistema da Serra d'Aire-Candeeiros!, e mais: ali para baixo, logo depois da curva, o vento amaina... Se isto é verão, não sei nada de estações e de apeadeiros... p'ra qu'é que raio mandei fazer a piscina?... rico investimento!... nem netos, nem nada! Ora bolas! , já estou como aquele lá do norte, tão do norte que até era escandinavo que dizia oxalá que o verão este ano seja num domingo. O Mário Soares, e o Cavaco, e o Durão e este Sócrates deram cabo de tudo... Rai's part'ó bento!...eu disse bento? Também serve... aquele Sporting! Isto é que está uma vida!"

domingo, 2 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Será menino ou menina?

Fui filho e sou pai do tempo em que havia alguma expectativa que se prolongava por meses: será menina ou menino? E hesitava-se no nome a dar ao/à bébé, para o que os padrinhos também metiam a colherada. Maria João ou João Maria?
As salas de espera das maternidades eram locais de roer unhas. Por todas as razões e mais esta de Será menino ou menina?, isto quando os partos não eram em casa porque, nestes casos, que muitos eram - sobretudo quando fui filho... nascido no rés-do-chão da Rua Tomás da Anunciação, ali à esquina de Campo de Ourique -, os pais (e os avós e mais parentes e amigos) esperavam, ansiosos, num qualquer compartimento da casa, se houvesse..., pela novidade. Será menina ou menino?
E os enxovais eram feitos na dúvida. Em cor-de-rosa a atirar para o azul ou em azul a atirar para o cor-de-rosa.
E havia palpites, a partir da barriga da mãe ser mais ou menos bicuda. mais ou menos arredondada.
E levava-se o bébé, ou a bébé, ao registo e, na grande maioria dos casos, à pia de água benta para a, ou o, lavar do pecado original de ter sido concebido/a em acto pouco digno do paraíso.
Tudo mudou. Não bem tudo... mas já se sabe, quase logo a seguir à concepção, se será menina ou se será menino, se se chamará Maria ou Manuel, se estes nomes ainda se usassem...
Mas, agora, há uma outra novidade, a substituir a novidade que era a da resposta ao sexo da criança. Agora, o recém-nascido parece que vai ter logo logo, a juntar ou até antes do nome... uma conta bancária. De 200 €.
Por este caminho, ainda transferem a Conservatória do Registo Civil e a tal pia baptismal para uma dependência da Caixa Geral dos Depósitos (se a concorrência não entrar em jogo, ou não vivamos nós numa livre "economia de mercado").
Os/as bébés vão aprender a dizer banco antes de balbuciarem papá ou mamã. E, ao crescerem um pouquinho, só vão aprender a tabuada depois de decorarem o seu número de conta e o código do multibanco.
Pois é, nestes tempos em que gostaria de ser avô, em vez da dúvida será menina ou menino?, será neto ou neta? vamos todos, pais, mães, avós e avôs, ter a certeza de que os pobres nascituros vão ter um número de conta bancária!

Acordei cansado... Acontece!

Não me sinto cansado
Sinto-me cansado DE
Sinto-me cansado de algumas coisas
... coisas de merda!

Não estou cansado de lutar
Estou cansado de lutar EM
Estou cansado de lutar em certas lutas
... lutas filhas-da-puta!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Desabafo triste

O meu pai dizia, em jeitos de fanfarronada, que de homem para homem não vai força de boi. Dizia-o ao contar contar algumas das suas aventuras de rapaz, com boémia e brigas, aqui pela terra e quando à conquista de Lisboa, e queria ele dar a saber que não tinha medo de ninguém... que humano fosse porque de homem para homem não havia diferenças que não fossem humanas. Gravei o dito e pouco (ou nada) usei o que talvez quisesse ser uma lição.
Porque desarquivei, esta manhã, esta lembrança? Porque me vi a pensar em como são diferentes os homens (e as mulheres), e como elas se reflectem nas fragilidades de alguns (algumas) que, de tão estranhas, bem pouco humanas me parecem. Há pequenas coragens que quando não se assumem como ínfima e humana coerência se revelam grandes cobardias.
Ah!, olho à volta e vejo que de homens (e mulheres) para homens (e mulheres) vão diferenças de força que ultrapassam fronteiras que humanas deveriam ser.
Pronto, desabafei. Não me venham é alguns (algumas) dizer que são isto mais aquilo quando não têm força para o traduzir numa tomada de posição consequente, na assumpção que é dar a cara (ou o nome), numa assinatura num papel.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nâo há mais nada para dizer...

De vez em quando, e com uma frequência quer me desgosta, irrito-me com o que o homem (o camarada?) escreve ou diz. Vocifero, zango-me.
(isto sem falar de outras zangas, mais pessoais, maias mágoas, mais fundas, mais tristes porque menos da razão).
Mas, também de vez em quando, rejubilo com o que o escritor põe no papel ou noutros receptáculos do que pensa e com que faz prosa, não como o Monsieur Jourdain, de Molière mas como tão bem sabe. Como ninguém. Por isso, é Nobel.
O homem pensa. Sempre. Nem sempre bem (a meu critério, critério que eu cuido que dele também deveria ser). O escritor escreve o que pensa, e escreve, sempre, bem. Tem bem que gozo ler. Mesmo quando me irrita, me faz vociferar, zangar-me.
Acabo de ler um texto do homem-escritor, e quero aqui reproduzi-lo. Para que os raros vistantes saibam que docordel.blogspot.com também alberga textos de excepção.
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Julho 24, 2009 por José Saramago
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De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer.
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(em O Caderno de Saramago)

Começar de novo, sempre!

Para um amigo que não conhece estes (e tantos mais não conhece, como eu não conheço tantos que ele bem conhece...), e Simone e Ivan merecem ser conhecidos, e logo num vídeo que também é prova de uma grande amizade, da amizade que tanto prezamos:
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terça-feira, 21 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 16

Tenho de partir para outra. Mesmo que a outra seja... Nova Iorque. Ou o Zambujal!
Parece que fico agarrado às viagens feitas. Saboreando-as com a ajuda das fotos e das recordações que elas me trazem.
Não que as outras coisas não vão acontecendo, mas o esvaecer do vivido nestas últimas viagens tem sido (talvez) demasiado lento. Sobretudo S. Tomé, Vietname, Nova Iorque. Uma pulsão a empurrar para falar de, para escrever sobre. Para mais, partilhada. Lembras-te de...? E então quando...?
É bom, mas como tudo que é bom, é preciso não abusar. Por isso, já foi posto o ponto final (o que não quer dizer definitivo...) nas novaiorcadas do anónimo, vou agora colocá-lo aqui. Talvez com uma do cordel que melhor ficaria como reflexão lenta no anónimo. Deixá-lo...
O caso é que, no jardim das esculturas do MoMA há um pequeno lago. Logo junto à cabra do Picasso dos nossos encantos e repouso e convívio. Pois nesse lago, na tão imitada Nova Iorque, que tanto precisa de imitar para se adornar com um passado de séculos e séculos antes de Hudson e dos holandeses, há quem atire moedas como se em Roma estivesse. E uma senhora ali petrificou, marmorizada, não se sabe bem se no gesto turístico de atirar moedads para o pequeno lago, se no esforço para recolher algumas que outros tenham para lá atirado. Ela ali está. Toda nuínha, rechonchuda, em posição incómoda e em risco de "ir ao banho".

Ela ali está. E eu vou partir para outras. Não sem antes contar o que me fez sorrir, e que foi ver um puto, não sei de que nacionalidade mas bem impregnado do novaiorquismo à tio Patinhas, no afã de mergulhar o bracito na água e de retirar moedas do lago e, às mãos cheias, as ir levar à família, ali discretamente a um canto e, também sorridente como eu, muito compreensiva... e metendo as moedinhas nos bolsos!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Com tristeza

Vivo com uma imensa alegria. Mas, de vez em quando, dá-me cá uma tristeza...
E pergunto-me como é possível.
Pergunto-me como (me) é possível viver ao lado, como se indiferente me fosse, do Festival de Teatro de Almada.
Pergunto-me como é possível acontecerem coisas como a que a Folha Informativa nº 13 nos conta. (ver aqui).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 15

No final do cruzeiro à roda de Manhattan, que foi um dos "pontos altos" desta viagem e estadia em Nova Iorque, eis que descobrimos, no meio de porta-aviões, transatlânticos monstruosos, arranhacéus que se multiplicam com os reflexos uns nos outros, no meio dessas enormidades uma bandeirita portuguesa a tremular. "É a Sagres!, é a Sagres!" disseram-se, todos contentes quase eufóricos, os tontos dos portugueses misturados naquela gente toda a excursionar.
E, depois de desembarcados, lá foram eles à procura do sítio em que estaria a caravela!
Encontraram-no, claro, percorridos caminhos portuários, ou para-marítimos de que são peritos nas descobertas. E fotografaram-se. Patrioticamente.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 14

As malas feitas, fazem-se horas... à espera do táxi. Tempo aparentemente perdido porque tempo de não fazer nada. Tempo de reflectir, como em todo o outro tempo. Mas, neste, de reflectir.

À espera do avião... ou o avião à espera de nós para nos regressar.

Foram férias? Decerto, e talvez não. Talvez não porque estivémos como se daqui fossemos, em "nossa casa" (obrigados, Danda), com vizinhos, num 16º andar de um prédio com 34 (baixinho, baixinho), indo às lojas... como se daqui fossemos. Talvez não porque faltou o tempo extra habitual de estar "num sítio", de "apanhar sol", de ler e escrever como se não houvesse mais nada para fazer...
Bye, New York!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 13

Um dos emblemas de Nova Iorque são os yellow cabs. Utilizámo-los algumas vezes, até porque são acessíveis (apanham-se facilmente e não são nada caros). Quanto aos condutores, há de tudo e melhorámos substancialmente a impressão que nos deixou o primeiro, o que nos trouxe do aeroporto a casa da nossa amiga.
E pensávamos despedir-nos de NY a bordo de um desses objectos, mas a nossa amiga - que nos "estragou com mimos"... -, como mais um "mimo" requisitou um outro táxi, a uma companhia de que habitualmente se serve... e foi um sarilho.
O carro era bom, diria mesmo excelente, mas o motorista era um... cromo. Atípico como todos os "americanos" típicos. Para além de falar uma língua que não chegámos bem a perceber qual era, não parou um segundo de fazer outras coisas enquanto conduzia e, por último, para culminar a sua actuação, depois de nos ter perguntado em que companhia viajávamos, e de lhes termos dito ser a KLM, aproveitou para uma longa dissertação sobre aviões e companhias respectivas, em grande parte ininteligível, e deixou-nos na porta da Air France... porque, decretou ele, a KLM já não existia. Resultado: tivémos de percorrer uma parte do aeroporto Kennedy, de aerotrain e a pé (com as malas!), para chegar ao terminal 4 de onde partem os aviões da KLM, que tem uma ligação com a Air France e com a Delta... essas coisas dos negócios e negociatas.
Olha se não temos ido com tempo de folga!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 12

- Vamos lá parar um bocadinho e descansar os pés...

- Boa ideia... já não posso mais. Depois de tanto museu...

- ... aqui... neste banco do Central Park.

- Uff... um banco para (as)sentar, como tu já escreveste.

- A propósito... não disseste nada sobre o meu "post" a teu respeito...

- Foi pior a emenda que o soneto...

- O quê... não te fiz justiça?

- Mas eu não queria que me fizesses justiça... queria é que não me tivesses tratado como uma dondoca... sopas depois do almoço...

- ... sabes que não é isso que penso de ti...

- ... às vezes parece... e achas que é equilibro os museus mais a dondoquice?!... olha que no MAD estavam lá umas dondocas novaiorquinas...

- É verdade. Até fazia impressão. Mas tu não é isso. Não é esse equilíbrio... tu é também a literatura, o cinema, as fotos, a arquitectura...

- Pára com isso. Gosto do que é bonito, e nisso incluo roupa e essas coisas.

- Também eu gosto do que é bonito... é por isso que...


E a conversa (de ficção!) continuou.

terça-feira, 7 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 11

O "cronista" penitencia-se. Expontaneamente. Antes de reclamações e indemnizações devidas. Ela não são são só montras e compras. De modo nenhum. De museus, gentes e bichos também faz as suas (e nossas) viagens. Que organiza com equilíbrio... e com aquela "queda" para as montras e compras.

O que ela desfrutou do centenário do Bacon - um dos seus preferidos - no Met! E aí vamos nós, hoje, a caminho de outros museus que ela meteu no programa. Se houver umas lojistas no caminho, ou nos próprios museus, não perdoará. Mas tem toda compreensão deste que se vai cronicando, às vezes injustamente, e que se assina .

segunda-feira, 6 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 10

Depois do encontro casual com uma equipa de agitação e propaganda, numa esquina ali mesmo ao pé do Teatro Apollo, no âmago de Harlem, fiquei com vontade de passar pela Revolution Books. Confirmei a morada na "net".
Como a rua era compatível com intenções e projectos de ela, foi muito fácil tudo conciliar na manhã de hoje. E aí fomos nós.
Não foi difícil encontrar, não foi como com a Tifanny's...
Mas, depois de um fim de semana prolongado em que muitas lojas estiveram fechadas, esta "revolution books" terá prolongado o encerramento. E não descobri nenhum aviso de quando é que a "revolution" iria abrir!... Paciência.
Mas não foi por isso que não entrei em lojas. Depois de Chelsea, em Greenwich Village, sobretudo na Beecker St., e no Soho, foi um fartote, com um almoço pelo meio.
Ela não perdoa! Lambuza as montras, entra aqui e ali, e ali e acolá. Às vezes, o que mais me cansa, depois de longas camnhadas, é o entrar numa loja, de coisas giras ("lindas de morrer", dit-elle), mas que vejo e revejo num quarto de hora, e ficar por lá enquanto para ela um dia não chegaria... porque nunca apreciou tudo como desejaria e, se pudesse, voltaria no dia seguinte. Sem eu estar a pressioná-la... como me acusa.
Mas, hoje, descobrimos uma solução de compromisso. Há os bancos de (as)saltar, que são muitos, mas há, também, os bancos de (as)sentar em jardins perto de lojas. Que também são muitos, nesta cidade. Está-se bem, a observar gentes e a escrever notas para "estas coisas".

novaiorquinas (do cordel) - 9


E há gente, gente, gente. De todas as cores, idades e tamanhos.

Nativos, poucos. Mesmo que se alargue estes aos que o passaram a ser considerados como naturais, ao longo de gerações. Sim, porque os nativos nativos eram de pele vermelha e foram quase todos exterminados, ou estão em reservas. E houve outros vermelhos que ou se pintaram de outra cor, ou exterminados foram, ou continuam, como se reserva fossem, a resistir. Para o futuro. Também aqui

Gente, gente, gente. De todas as origens, cores e tamanhos. Com abuso do tamanho grande. Muito por culpa da comida. Comem muito e mal. Desde pequeninos, quando a gordura é formousura. Por isso ficam grandes, gordos e feios (nem todos, nem todas!....). Alguns e algumas com pneus em socalcos ou conglomerado-se num só pneu tipo TIR. E barrigas rotundas, gordas maiores e diferentes das das grávidas. E há grávidas! O que é, sempre e em todo o lado, muito bonito!

E nós, contentes. No meio de gente.

domingo, 5 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 8

As cidades são feitas de contrastes. Quanto maiores as cidades, maiores os contrastes são. E se a cidade se chama Nova Iorque, que dizer?

Encontrar pequenos quintais na Venda Nova, entre Amadora e Lisboa, é quase natural.

Aperceber-se o viajante, em Nova Iorque, que em cada recanto se colocou um pequeno jardim, que há parques a rodear arranha-céus (ou vice versa?, como é o caso do Central Park) vai sendo natural, após ter começado por surpreender um pouco. Agora encontrar, ao virar de uma esquina - se bem que em Harlem... -, um quintal "à nossa maneira", com tomates, feijões e outras verduras, e uma casinha de madeira muito bem arranjada lá no fundo... ah! isso, depois de um certo encantamento, merece foto. E ser contado.

sábado, 4 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 7

Neste dia da independência, o dia será dedicado a mais visitas. A museus ainda não visitados. Certos de que será no meio de gente, de muita gente. Nestes lugares e espaços habitados de gente. Por isso vivos. E, a propósito de gente, uma estória de ontem, ao jantar.
Entrámos no restaurante italiano, depois de bem analisada a informação sobre os preços e terem parecido acessíveis (mais as inevitáveis taxas e tips formais e informais mas obrigatórias...).
Uma jovem, muito jovem, atende-nos, com profissionalismo e simpatia. Enquanto fazíamos a escolha, pergunta-nos de onde somos. "... de Portugal?, de onde?". Para não entrar em pormenores, a Zé respondeu que éramos de Lisboa, antecipando-se à que poderia ser a minha resposta que, claro, meteria Ourém e mais proximidades...
Espanto nosso! A jovem começou a falar, com entusiasmo, de Lisboa. Que visitara com um grupo de outras jovens. Do que gostara e muito, e parece que tudo foi. Sobretudo das pessoas.
Lá fizemos o nosso melhor para não desmerecer a imagem que ela trouxera da nossa terra.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 6

Afinal... estava lá!

É certo que havia informações confusas no "guia" que nos aconselha, na "net" que nos guia, mas... "quantas vezes já aqui passámos!?", "é verdade, duas ou três...".

Quem não estava era a Audrey e o seu pequeno almoço! Mas ela, além do gozo da miragem gulosa da montra (e de um salto ao interior da loja), teve uma satisfação extra: foi mesmo ali, à porta da Tiffany & Co., que um dos pedintes que por aqui há, com animais que lhes servem de apoio para a mendicância, passou. Com uns "gatinhos amorosos", irresistíveis (veja-se o miúdo!):


E a troco destas festinhas debaixo do queixo do gatinho (na verdade, "amoroso"), lá foram uns trocos para o dono-patrão.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 5

De repente (mentira... foi a pouco e pouco), a sandália "deu o berro". Em pleno Central Park, farta de andarilhices, escancarou a bocarra! Ainda tentei andar descalço (ninguém notaria, aqui anda-se de toda a maneira), mas os meus mimosos pés não aguentaram mais que uns metros. Única solução à vista: alugar um "transporte público", uma "byke". Das que se nos andavam, insistentemente, a oferecer-se para nos transportarem, puxando por nós à custa de pedalada.
Lá se fez o contrato com um jovem alto e de bom aspecto (apesar do cheiro a suor). Lá nos instalámos e lá fomos.
Confesso que não me sentia muito bem, e tive ganas de, nas subidas (felizmente poucas e pouco íngremes), saltar do banco e ir dar uma ajuda, empurrando.
O "puto" era simpático no seu estranho linguajar para-pedagógico, de guia meio improvisado. Era o seu trabalho de verão, disse-nos. Mas feito com profissionalismo, pois escolhia bem os ângulos panorâmicos e contava coisas aprendidas, embora privilegiando informações, digamos, de revistas de sala de espera de dentista: o John Lennon, a Madona, o Michael, a Jacqeline Kennedy Onassis, o Woody Allen, o Elton, a Cosa Nostra, os seus apartamentos, os custos, os pormenores de vidas íntimas e (pouco) privadas, sempre com filmes e concertos a servirem de referência.
E fez questão em levar-nos até ao museu onde queríamos ir, pelo meio do trânsito novaiorquino.
À despedida, depois das contas feitas, ao trocarmos nomes como se fossem cartões, a grande surpresa-coincidência: chama-se Serguei, é de origem russa! Acabámos a tratar-nos por Serioja e, cheios de pena, a despedir-nos com obrigados e spassibas.
Ele há coisas!
.
(as próximas, aqui, também trarão ilustração... que é que são menos que as lá do anónimo?)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 4

Ao fim do terceiro dia, o ritmo abrandou um pouco com a chuva e com a ida de metro e comboio a Newark. Talvez tenha sido o que me valeu...
É que, de manhã, cheguei a assustar-me. Ela parecia querer esgotar Nova Iorque ao terceiro dia. Saiu para fotografar um fogo, e o aparato bombeiral. Depois, voltou e aí fomos nós à procura do pequeno almoço na montra de Tiffany's. Não a encontrámos. Nem à montra, nem à Audrey Hepburn que, desconfio, já se "apagou"... tinha um ar tão frágil... (se calhar - diz ela - só um "certo ar" era frágil).
Mas ela não desistiu desse cinematográfico pequeno-almoço. Além de que NI é inesgotável, eu é que não sei se o serei. Com tanto andar, por este andar...
Ainda de manhã, de repente vimo-nos numa outra flor(est)a, no meio e parte de uma outra fauna. Em Times Square. Foi giro!
E a tarde também o foi, com a ida a Newark. Um mergulho num meio de emigrantes portugueses. Ouvindo e falando em português, vendo o noticiário da RTP. Uma experiência.
A chuva é que começou a cair e estragou um bocado os encontros.
Amanhã, há mais Nova Iorque!

terça-feira, 30 de junho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 3

As pernas pesam, os pés doem, o corpo está cansado. Sobretudo o pescoço protesta por tanto ter olhado para as alturas, para os inalcançáveis cimos dos prédios.
As sirenes passam a dar a desgradável música ambiente, mas há, para nós dois, um certo encantamento no ar. Às vezes, é como se passássemos para o outro lado do écran de tantos filmes vistos, de tantos livros lidos.
E durante o dia de caminhada cruzámos gente, e gente, e gente. De todas as cores e vestimentas. Algumas muitas bonitas (e alguns, decerto).
Esta cidade é nosso património. Das nações unidas. Que serão.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 2

A Zé foi às compras! Surprise...
Fruta, iogurtes, essas coisas e outras para o frigorífico.
Vinha eufórica. Tinha andado uns metros em solo manhattanniano. E com uma boa estória para contar.
Na loja onde comprou o que preciso era, tanto terá comprado que, na altura de pagar, o dono da loja (devia ser...) meteu mais fruta no saco. Como bónus, ou prémio de fidelidade. Futura!
Assim ou assado, foi simpático.
Ah! Estou a escrever isto porque ela saiu outra vez. Foi... às compras. De uns jeans pretos de que estava mesmo a precisar, e que viu ali numa loja da esquina. Olha se não tem vindo a Nova Iorque!, lá ficava sem os jeans de que tanto estava a precisar...

novaiorquinas (do cordel) - 1

Nunca encontrei um motorista de táxi tão antipático. Eles há de tudo - como aquele da manhã ainda lisboeta que era cá um "cromo"... -, mas tão antipático como este nunca tinha encontrado. Bom profissional, faça-se-lhe justiça. E deve achar, e bem, que não tem que ser também funcionário de agência de turismo...
Um outro primeiro impacto nos provocou com uma realidade novaiorquina, a do "tip", a portuguesinha gorgeta, que, aqui, viemos a confirmar, é instituição: há a que está na conta e mais a informal mas "obrigatória", no mínimo mais metade daquela.
Pois que seja. Mas não gosto. Acho degradante. Para quem dá (?), e para quem recebe. Feitios.

domingo, 14 de junho de 2009

Histórias de exemplo

3.
Contei aquela estória do Toino e o meu camarada sorriu. Um sorriso um bocado amarelo…
“Também tenho dessas para contar…”
O meu camarada vive ainda mais para o norte e para o interior. Mas a estória que me contou também podia vir do sul ou do litoral.
Começou por me dizer que, tal como eu, tem um enorme respeito pelos vizinhos e um excelente relacionamento com toda a gente. Apesar de algumas excepções, claro… e apesar “dessa coisa das políticas”!
E contou-me que, aqui há uns anos, numas autárquicas, deu para falar um pouco com um vizinho mais próximo sobre as eleições, e que as conversas tinham sido interessantes e úteis.
“O vizinho tem razão”, dissera-lhe o outro, “estes fulanos só se têm servido e aos empreiteiros, e não fazem nada cá pela terra… vou votar em si e lá no seu partido”. E tê-lo-á feito, contribuindo para o grão a grão que vai compondo o nosso magro papo por essas paragens.
Como homem de muita labuta e poucas letras, aquele gesto foi importante para o vizinho do meu camarada. Ter-lhe-ia quebrado um preconceito, melhor, um pré-juizo. Depois de ter passado anos a votar nas setinhas – nunca, até então, na foice e martelo… t’arrenego! – aquele voto foi como que libertador. O meu camarada confirmou que todos tinham ficado contentes e que as conversas entre eles tinham passado a encaminhar-se mais para aqueles temas de que antes fugiam, ou que não os agarravam.
E vieram as “europeias”. O meu camarada contou que, à calma do fim dos dias, comentaram episódios, confrontaram campanhas, indignaram-se com o evidente tratamento discriminatório da campanha da CDU e com a manipulação para se encaminhar o descontentamento generalizado ou para um partido “nas palminhas” e “ao colo da comunicação social”, ou para a abstenção, ou para outra qualquer atitude de protesto que nunca para a CDU. O vizinho do meu camarada estava mesmo a descobrir coisas…
E assim se chegou ao voto e ao convívio na tarde ensolarada daquele domingo.
“E calcula lá tu o que ele me veio contar, todo satisfeito!... Que quando recebera o boletim de voto ficara um bocado atrapalhado, nervoso mesmo. Ainda são coisas que enervam um bocadinho, disse ele, justificando-se com a pouca prática de mexer em papéis e esferográficas. Vira logo na segunda linha o malmequer ou o girassol ou lá o que era, mais a foice e o martelo, prantara-lhe a cruz, e quando se preparava para sair da cabine de voto ainda viu, mais abaixo na folha, outra foice e martelo, disse-me que hesitou um bocado mas que, para não haver falhas, resolvera também pôr lá uma cruz. Antes a mais que a menos, concluíra ele… e pediu-me para eu lhe explicar aquela coisa… Eu expliquei-lhe mas já era tarde… para estas eleições!”
Ainda conseguimos rir. Embora amarelamente!

sábado, 13 de junho de 2009

Histórias de exemplo

1.
Vidas. Vidas com rumos diferentes. Porque com começos diferentes.
O Toino cedo começou a andar à jorna com a prática adquirida na labuta da terra ajudando o pai nas suas courelas. Eu... “segui os estudos”.
Encontrávamo-nos nos fins-de-semana prolongados e nas férias. Nas minhas... que ele nem sabia que era isso. A amizade não esmorecia. Antes parecia sempre a fortalecer-se nas diferenças cavadas pelos rumos diferentes.
Ele fez a tropa. Eu fiz a tropa. Antes da guerra colonial. Ele aproveitou o serviço militar para conhecer outras terras e outras gentes. Para mim, foi um adiamento e um tardio serviço cívico que nem prejudicou os estudos e a licenciatura.
Parecia indestrutível a amizade. E era! Mas tão diferentes as vidas…
Episódios relevantes? O Toino emigrou. De "salto". Safou-se. Eu fui preso. Não me safei…
Os anos passaram somando décadas.
Aconteceu um 25 de Abril. Fizemo-lo… e ao que se seguiu à data e ao golpe.
O Toino começou a vir às festas na aldeia. A construir uma casa com fenêtres e muitas sales de bain. Encontrávamo-nos e era uma alegria. Molhada. E gargalhada com as recordações. Entendendo-nos com as meias palavras e os ça va a que eu respondi com uns ça ira.
Mais décadas passaram. Depressa. A correr. Ele ia-se demorando mais tempo, mas a ter de voltar por causa de questões da retraite. Eu instalei-me aqui para aqui viver a recta final.
Bebíamos os nossos copos, conversávamos como se em linguagens diferentes nos entendêssemos. A mulher trazia “criação” e primícias que iam amanhando, a convivência entretecia-se.
Ele gostava de me perguntar coisas sobre “isso da política” de que eu não desistia, “forte cisma” comentava ele. E eu procurava explicar-lhe alguns porquês.
Até que um dia, numa altura de campanha eleitoral, ele me disse que já falara com o senhor prior e tudo, que quase se desavira com ele (“e por tua causa, vê lá tu…”), e que ia votar. “Explica-me lá isso melhor”, pediu-me ele. Tentei… Pareceu-me fácil. Ele era um homem de trabalho e luta.
No dia seguinte à eleição, passou por minha casa. Vinha todo contente. Consigo mesmo. “Afinal não custa nada”, disse-me ele, “foi só pôr a cruz à frente da foice e do martelo”!


2.
Quando começara a olhar para os resultados eleitorais com intenção de os estudar, achei estranho que na minha aldeia tivesse havido tanto voto no MRPP, quase mais que na CDU. Desconfiei.
E não era só na minha freguesia e naquela mesa de voto, mas ali, conhecendo eu quase toda a gente, aquilo fez-me espécie…
A conversa com o Toino como que provocou uma chispa de compreensão dentro de mim.
“Olha lá, ó Toino… tu votaste na foice e no martelo, foi?”
“Sim, claro. O padre disse que eram coisas do demo e outras baboseiras dessas, mas não me importei nada. São ou não instrumentos de trabalho? E eu não sou um homem de trabalho? Toda a vida! Foi o que tu me disseste… e eu já vi aí por tua casa uns quadros e uns pisa-papéis com umas foices e uns martelos como aqueles que estavam lá no papel do voto…”
“Espera aí, ó Toino, espera ai… puseste a cruz no quadrado em frente de um partido com uma foice e um martelo entrelaçados e sem mais nada?”
“Pois!… olha, como esses que tens aí nesse jornal e que eu, lá na França, conhecia de ver
L’Humanité e noutros jornais… e nos sindicatos, embora nunca lhes tivesse ligado muito… já sei, já sei que devia ter ligado mas tinha lá tempo… só queria era ganhar o meu…”.
“Não é isso, pá... É que havia lá outro partido, ou outra coligação em que está o Partido Comunista, e também tem a foice e o martelo e um girassol, que é do Partido dos Verdes. Esse é que era. Esse é que é o meu. E o teu... Tu votaste no MRPP, pá… é outra coisa.”
“Sei lá disso. Vocês são mesmo complicados… e olha que fui eu, a minha Maria e mais o pessoal todo lá de casa… tudo na foice e no martelo!”
“É pá, desculpa lá. Nem sei que te diga! Agora nem estou capaz de falar. Vamos beber um copo, falar do Cristiano Reinaldo… voltaremos a conversar sobre isto noutra altura. Antes das próximas eleições, antes das eleições…”