faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

No dia em que a raínha faz anos

A rainha faz anos. É uma cidade que transborda. É um país que desagua. Num dia de festa sem sentido. Sem porquê. Ou com o porquê da rainha fazer anos.
E há gente, gente, gente. E um som, uma batida insuportável (… sem se estar bêbado ou a caminho). Tudo na rua. Holandeses e turistas. E alguns portugueses. Uns turistas, outros nem por isso.
Muita, muita gente mascarada de cor de laranja (que orange é a família real, mas se fosse cor de rosa seria igual…).
De canal para canal. De ponte para ponte. De praça para praça.
De manhã, todos os vendedores habituais e muitos vendedores ocasionais. De roupas e coisas velhas, de discos de vinil e artefactos mil. Tarecos e bugigangas. Tantas!
E uns tantos (tantos e tantas!), desde a noite de ontem pelo dia todo de hoje, de cerveja em cerveja até à bebedeira final. Com direito a mergulho num canal.God save the queen, em neerlandês.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Janelas e fachadas de Amsterdam

Andar por Amsterdam é... fácil. Desde que não chova!
Andam-se quilómetros e quilómetros, e as únicas subidas que se encontram são umas leves inclinações em algumas das pontes inúmeras que atravessam canais e mais canais.
É fácil, apesar das biclicletas que aparecem de todo o lado, às vezes com uma família inteira em cima das duas rodas. Todas conduzidas com uma perícia quase circense, num bailado a que os peões se vão habituando. Mesmo quando atraídos (e distraídos) por tanta coisa que apela a uma fotografia. Como aquelas fachadas desafiadoramente fotogénicas.
Da última vez que por aqui andei, ao recolher-me da chuva encontrei, do lado de dentro de uma janela de vidros coloridos e martelados, um motivo de que me atraíu.
Agora, hoje, foi ao olhar uma fachada, e quem descortinei do lado de dentro de uma janela, que fiquei preso, e não resisti a tentar guardar o momento.
No primeiro andar de um prédio de Amsterdam, por cima de uma loja, uma jovem trabalha a um computador. O reflexo do cimo da fachada do prédio em frente parece um cenário que a prolonga, a integra. Ou, talvez, a proteja.
Estava sol em Amsterdam.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pois então!

Com que então, Amsterdão, hem!?

Vais a Amsterdão?

Que bem!

Pois eu vou também.

Com que então...

vais a Amsterdão, hem?!

A Amsterdão, pois então!

.

E já cá estamos... com o Nuno!

Fotografias ficam para depois e mais no "quarteto".

Aqui, agora, só recordo esta que me ficou de Novembro como das melhores coisinhas que eu terei feito:

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O dia acordado

Acordaram para o dia
ainda nem madrugada era
(mas tantos não acordaram para o dia
porque dormido não teriam…)
Acordaram para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4
e do ano de 74
Vestiram a farda de capitão
e juntaram mais um galão
aos três do regulamento,
o galão de um cravo.
Acordaram para o dia
que iam fazer o dia novo
o dia povo
o dia ovo.
----------
Acordou para dia,
sozinho na cela,
com a unha riscou na parede suja
uma outra manhã acordada em Caxias.
Acordou para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4
e do ano de 74.
Lembrou os camaradas,
em Peniche e noutros lugares
punham mais um risco em paredes sujas
como calendários de dias assim contados.
Seria aquele o dia de ir para a tortura?
NÃO!
Acordava para o dia
que ia ser o dia novo,
o dia ovo,
o dia povo.
-----------
Acordaram para o dia,
na casa clandestina,
para mais um dia de luta,
de sobressaltos, de tarefas.
Acordaram para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4
e do ano de 74.
Reviram as agendas e as gentes a ver
um encontro, uma reunião,
o chumbo para a tipografia,
o papel para imprimir o avante!,
uma luta no seio da luta.
A vigilância, camaradas,
a segurança, camaradas,
não falhar um pormenor, um sinal
que tudo e tantos poria em risco,
de prisão ou até mortal.
Poucos sabiam que acordavam para o dia
que vinham preparando
dia a dia, todos os dias,
o dia novo,
o dia ovo,
o dia povo.
-----------
Acordou para o dia,
no leito vazio e frio,
já cansada de espera,
mais um dia de trabalho e luta
Acordava para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4
e do ano de 74.
Preparou o pequeno-almoço,
acordou o miúdo,
ajudou-o a vestir,
levou-o à carrinha,
ouviu a pergunta de todas as manhãs
desde que o tinham levado…
“Mãe… quando é que o pai volta?... será hoje?”
Respondeu, com um sorriso triste,
“Não sei, filho, era tão bom que fosse…”
Foi!
Acordava o dia
que ia ser o dia novo,
o dia ovo,
o dia povo.
-----------
Acordaram para o dia
com a rádio a dar notícias estranhas,
depois do “Depois do adeus”
e de “Grândola, vila morena…”
para mais um dia de trabalho.
Acordaram para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4
e do ano de 74.
Hesitaram,
entre as recomendações para ficarem em casa
e a vontade de ir para as ruas,
de serem massas e revolução.
Saíram à procura de cravos e liberdade,
juntaram-se no Largo de Carmo,
exigiram a libertação dos presos políticos
e da Pátria que recuperavam.
Acordava o dia
que ia ser o dia novo,
o dia ovo,
o dia povo.
-----------
Do outro lado da vida,
acordaram estremunhados
e não querendo acreditar.
Alguns saberiam de alguma coisa,
muitos apenas se preparavam
para ir prender e torturar.
Acordaram para o dia,
para o dia que 25 era
e do mês 4

e do ano de 74.
Uns, em desespero,
e assustados com gente e gente nas ruas
que julgavam suas,
ainda disparam os últimos tiros,
ainda cometeram os últimos assassinatos.
Acordava o dia
que ia ser o dia novo,
o dia ovo,
o dia povo.








23 de Abril de 2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Palavras (ou expressões) aparentemente próximas e que estão nos antípodas - 5

Ih! são tantas (a assembleia durou o dia todo!). Conto p'raí 40!
Vou só deixar mais algumas, pela ordem por que foram saindo:

ajudar e mandar
solidariedade e caridade
propor e submeter
debate e discurso
camarada e colega

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Palavras (ou expressões) aparentemente próximas e que estão nos antípodas - 4

compromisso e promessa
convencer e esmagar
argumentar e afirmar

Palavras (ou expressões) aparentemente próximas e que estão nos antípodas - 3

lealdade e servilismo
firmeza e radicalismo
respeito (pelo colectivo) e sectarismo

domingo, 20 de abril de 2008

Palavras (ou expressões) aparentemente próximas e que estão nos antípodas - 2

disciplina e obediência
autoridade e prepotência
franqueza e agressividade

Palavras (ou expressões) aparentemente próximas e que estão nos antípodas - 1

Enquanto decorria a Assembleia da ORSA (Organização Regional de Santarém), fui anotando uma série de palavras que se opõem e, tantas vezes, se confundem. E nem sempre inocentemente.
Algumas dessas antinomias andam comigo, e pelos meus papéis por aí espalhados e perdidos e por vezes achados, há muitos e muitos anos. Mas sempre que as começo a arrolar, outras novas logo me surgem, talvez para tomarem o lugar das que ficaram pelo caminho.
Como este é um blog de palavras, e não têm de ser todas necessariamente "do cordel" - até porque nenhumas o são -, aqui abri uma série, para as registar. Aquelas que, neste dia, me ficaram em mais um papel.
Vou colocá-las em conjuntos de três, mas começo por uma que, para mim, é fundamental, decerto a "mãe" de todas as outras porque foi a primeira:
ortodoxia e dogmatismo

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Até parece ficção... o que não quer dizer mentira!

Um jogo de futebol, e logo entre o Sporting (em casa) e o Benfica (fora de casa), cujo evoluir do resultado foi 0-1, 0-2, 1-2, 2-2, 3-2, 3-3, 4-3, 5-3 é tão estranho que parece ficção.
Não vi o jogo na televisão, porque estava a assistir (não a participar...) a um outro triste "espectáculo" (que talvez comente noutros lados e oportunidades), mas chegavam lá os ecos e só pode ter sido um grande jogo de futebol. Até porque não houve, ao que julgo saber, cartões vermelhos e essas coisas...
Palavra que fiquei satisfeito! E não foi por ter ganho quem ganhou. Tivesse sido ao contrário e também o teria ficado. Embora não tanto, confesso...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Penitência ao jeito de sermão

Às mães (e não só) desses filhos...

Às mães daqueles filhos (e filhas, que também as há que abundem) que me fazem desabafar a vós ofendendo,
o meu pedido de perdão.
Por muita culpa que tenhais no cartório, pelo que lhes destes a beber com o leitinho materno e eventualmente nefastas educações e exemplos,
não mereceis expiar as culpas que só deles (e delas) são.
Tendes as vossas, mas dai a chamar-vos o que, por culpa deles, vos chamo não há justificação. Por isso, perdão vos peço.
Mas deveis compreender, e apelo faço à vossa tolerância, que é demais.
E um homem, não sendo de pau, também não pode aguentar o que, nem que de ferro fosse, aguentaria. Assim, acontece que, por vezes, me excedo face aos excessos em que se comprazem os filhos (e filhas) que vossos são.
Que outro nome lhes chamar, sem vos atingir ou a vós, ou aos respectivos conjugues, que, na mor das vezes, também não justificam, por comportamentos seus ou aparências suas, os epítetos que, procurando a eles, aos tais, atingir, anatematizam as esposas (e os esposos) que fieis lhes serão? O que, acrescento, é pena porque não mereceriam eles essa mercê da vossa fidelidade.
Pelo que: também junto daqueles e daquelas que terei já, injusta e involuntariamente, insultado como conjugues, por causas e comportamentos apenas serão imputáveis ao outro conjugue em caso de não haver comunhão de adquiridos,
me penitencio. Mas de longe, a respeitosa distância...
Perdoai-me todas e todos.
Perdoai-me… mas aceitai que a catarse é necessária, é mesmo indispensável, e chamar-lhes, aos vossos filhos e conjugues, o que eles são, uns bandalhos, é pouco. Não alivia os humores.
No entanto, prometo-vos que vou tentar conter-me em vossa intenção.
Mas, anuí, tendes cá cada filho (e cada filha) e cada esposa (e cada esposo) que só mesmo…
bom!... contive-me!

domingo, 13 de abril de 2008

Devaneio

Agora… ficava aqui


Ficava aqui, aqui a olhar estes verdes que se desdobram.
Ficava aqui, aqui a beberricar este copito desta garrafa de bom tinto.... e de outras garrafas que a viessem substituir quando esta estivesse vazia.
Ficava aqui, aqui a descobrir que os verdes já não são apenas verde, são também o roxo das glicínias que se enroscou pela oliveira acima e rompeu lá no cume dos ramos verde oliva.
Ficava aqui, aqui olhando, beberricando, vendo, descobrindo coisas lá fora e cá dentro, muito cá dentro.
Ficava aqui … até à eternidade. Até que eternidade fosse. Ficava aqui.
Ficava aqui. Enquanto houvesse verde, enquanto houvesse garrafas, enquanto houvesse. Até à eternidade. Talvez, em fundo, esteja o Montgomery Clift a fazer aquele comovente toque de trompete. (Ele, que nunca tocou trompete... e em homenagem ao Frank Sinatra. A este, que nunca mereceu aquela - ou outra - homenagem. Mas é assim a vida em filme…)
Ficava aqui. Com a vida e os filmes, e os filmes da vida. Deixando escorrer o tempo e o tinto.
Ficava aqui… assim.



11.04.2008
(depois do almoço)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Extracto da "cronyca" de uma visita a Toledo

"... A meio da escada, um texto de Neruda, la armonia y la fúria, que ficou lendo, e saboreando, antes de subir o resto dos degraus, até entrar numa segunda exposição. De Miguel Prieto. De quem tinha vagas informações, e onde, em bem curto tempo – porque pressionado –, andou, mirou e remirou, com todas as suas idiossincrasias a encontrarem ecos.

E para não fazer desta "cronyca" uma crónica sua, o "cronysta" deixa apenas um apontamento (talvez dois ou três...) sobre a paz, a guerra, a luta, fugindo à vontade de deixar a biografia toda de Miguel Prieto. (...)"



















La armonia y la furia

Prieto, pequeño árbol de ojos azules, nutre sus raíces en el terreno pedregoso y polvoriento de la soledad castellana, y de pronto es todo ramas y flor, primavera incandescente y palpitante, por entre los azules pasa el crepúsculo frío, el fuego de las aldeas, los solitarios costados del mar. Joven pintor acendrado y devorador, árbol de mucha miel, hay en su ser la armonía y la furia: las dos sales del mundo
. Pablo Neruda

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ex-citações

Estou a meio de uma viagem. Fiz, agora, uma paragem neste apeadeiro que tenho à minha guarda. Recuo mais de 50 anos em encontro com quem, então, estava a muitos anos de nascer.
No caminho que até aqui e agora me trouxe, tropecei em duas frases de que muito gostei e vou reproduzir:
.
"... o tempo ainda deu para esplanar, ler e namorar frente ao mar!"
Rosa dos Ventos
"A saudade que te tenho não tem medida..."
maria, Cheiro da Ilha

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Histórias ante(s)passadas - 17

A memória é um lugar de encontros. Quantos já o terão dito e escrito? Não importa. Serei mais um.
Mas tudo é, ou pode ser, um lugar de encontros. Exemplo disso, e bem actual, são os blogs. Por aqui nos encontramos. Às vezes, com a memória a trazer-nos surpresas e ajudas. A quantos de nós, praticantes deste “desporto”, não aconteceu já ter, num comentário, uma surpresa e um encontro, uma ajuda (ou até um desafio) para um post a colocar?
Nestas histórias ante(s)passadas estava longe de vir a ter a surpresa que tive num comentário. E se estas histórias ante(s)passadas têm por razão de ser a memória que não se quer deixar perder de todo de familiares e amigos, quem me trouxe a esta estória – que nem estória será, porque a estória é a do encontro desta maneira – foram recordações familiares longínquas, de amizades há muito aparentemente esquecidas (há quantas décadas?).

O meu tio Adrião (por afinidade… não é assim que se diz?, mas acabaram por não ser lá muitas!), se não tinha, com a minha tia Guilhermina, filhos ou filhas, tinha irmãos e sobrinhos. Que, de afinidade em afinidade, meus familiares ainda serão. Diz-me a memória que decerto meus familiares foram. Com recordações bem agradáveis. Muitas vezes, cá pelos hóqueis por onde me perco, falo pelo meu relacionamento com o Fernandinho, o Fernando Adrião, que foi o melhor jogador de hóquei de todos os tempos e lugares (isto digo eu, plenamente convicto), e dos encontros que tínhamos quando vinha de Lourenço Marques para aqui ser o “médio” (então era assim) da selecção nacional. Mas isso é para outras estórias… E do Carlos Adrião! Deste, a recordação é outra e de outra importância. Abriu-me os olhos para a leitura, estimulou-me com os seus escritos. Foi, sem dúvida, um dos responsáveis por alguns caminhos que percorri e percorro. Mas isso é para outras estórias…
Para esta, que nem estória será mas o pretexto para, a propósito de um comentário neste blog, publicar a fotografia, é a lembrança da Lena Adrião.
Com mais uns anitos que eu – agora já não... – a Lena veio lá de Moçambique, formosa e segura, e foi um vendável para o adolescente que eu era. Trazia aquele desempoeiramento que a vida em África dava aos jovens como ele era. Muito conversámos, muito dançámos, alguma coisa andámos de bicicleta. E amigos fomos, com uma amizade que só era possível, entre jovens como nós éramos, com as cabeças limpas de teias de aranha pelos ventos que sopravam na que hoje se chama Maputo.
Os Adriões, sobrinhos de um tio meu por afinidade? Sim, senhor, excelentes recordações. De todos (porque mais há que estes três), mas hoje, nesta estória, voltei a andar de bicicleta aqui pelo Zambujal. E muito bem acompanhado! Como então diziam uns invejosos...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Histórias ante(s)passadas - 16

Vamos povoando o nosso cemitério interior. Foi em Santiago, na Praia, que um húngaro, Imre Marton, num seminário sobre Amílcar Cabral, no 10º aniversário do seu assassinato, me deu este mote. Foi em 1983, e Marton começou a sua intervenção dizendo que Amílcar fazia parte do seu cemitério interior, aquele em que mantinha vivos os que já nos tinham deixado e que preciso era que vivos continuassem.
De vez em quando lembro-o. Naturalmente. Porque alguém morreu e vem povoar o meu cemitério interior, onde vivo quero que continue enquanto vivo eu for. E bem povoado ele está! Porque, nestes 25 anos, tanta gente passou a só estar viva dentro de mim. E enquanto.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
Eugénio de Andrade



A minha mãe era uma mulher curiosa. A mais nova das “3 irmãs”! Aparentemente submissa. Quem a conhecesse mal talvez a visse como a sombra do meu pai. Que ela acompanhava, como se sombra fosse, para todo o lado… em que ele não arranjasse as coisas para que até a sua sombra estivesse ausente.
Meu pai era o "chefe de (ou da) família", a minha mãe a “dona de casa”. Sendo "chefe do governo”, mas não do “governo da casa”, o meu pai acumulava com o lugar de “ministro das finanças”, dotando a “dona de casa” de um orçamento diminuto para a gestão corrente (e regateado ao centavo). Só ele é que trabalhava (!), ele é que ganhava e repartia as receitas, ela é que geria a casa, de que era “dona”, com os escassos meios à sua disposição.
Já então o défice era obsessão e o “chefe do governo” e “ministro das finanças” era intransigente. Nada de orçamentos rectificativos... e cumpria escrupulosamente as ordens do FMI e os PEC, atacando sempre pelo lado das despesas.
Também já então o crédito aparecia como saída. E a “dona da casa”, a menina Judite para os donos das lojas da rua, tinha crédito! E usava-o quando se via aflita… ou queria comprar ou mandar fazer um vestido novo. E mais aflita ia ficando porque o dito chefe não o podia saber, e menos ainda que o crédito subia e estava tudo a ficar mal parado.
Até que, era inevitável..., surgiu a crise. E lá teve de intervir um jovem candidato a economista, talvez a sua primeira intervenção séria no seio do governo e relativamente ao estado da nação.
Não foi fácil. Mas a crise – essa - foi ultrapassada.

sábado, 5 de abril de 2008

Histórias ante(s)passadas - 15

Não haveria ficção sem a memória. E a memória perde-se, esfuma-se, torna-se, por vezes, ficção involuntária. De muitos que nós somos só resta a memória dos que por cá ainda andam. Todos temos pai e mãe, mas nem todos estamos certos de ter filhos e netos que nos lembrem nas histórias por nós ante(s)passadas.
Sinto necessidade de contar algumas. Para que não acabem comigo alguns restos da vida daqueles a quem tem tanto devo do que sou, e – até! – a quem devo o ser.

Judite, a senhora minha mãe que, quando escrevi este texto completara 96 anos de vida, era a mais parecida das três irmãs com a minha avó Damásia. Não sei – nunca o saberei – onde terminava a ingenuidade e o desconhecimento e onde começava uma sabida auto-defesa, uma certa fuga à realidade.
Sobre ela e esta dúvida, que nunca resolverei, tenho algumas histórias ante(s)passadas, de um viver submisso escondendo uma latente rebeldia.
Esta não será uma história exemplar, por várias razões, mas ainda hoje rio quando a lembro.
A “criada” (assim se dizia) que estivera lá em casa, estranhamente não ida de Ourém, logo nos primeiros dias se mostrara muito atrevida nos “avanços” ao menino da casa que eu era. E se um homem não é de pau, quando não se tem ainda 20 anos e o sangue pulsa a carne é ainda mais fraca...
O caso é que pouco tempo lá esteve connosco porque era, como logo me apercebi, uma ave de arribação e outros voos.
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Naquela tarde, em que ficara em casa a preparar um teste a caminho, quando passava de onde estudava, para a casa de banho, fui surpreendido com a chegada, pela porta da cozinha, da que fora nossa “criada” e de uma irmã mais velha. Queriam falar com a minha mãe e as caras eram de poucos amigos (ou amigas).
Recolhi à mesa de trabalho (ou fugi?), mergulhei nos livros e apontamentos, mas a minha atenção estava a uns escassos metros dali e atravessava portas fechadas que não impediam que me chegassem aos ouvidos vozes relativamente alteradas.
Que se estaria a passar, perguntava-me a não muito tranquila consciência?
Depois, houve uma porta que se fechou com algum estrondo e um silêncio. Pesado, anunciador de tempestade.
Logo me entra a minha mãe onde eu estava e, em lágrimas se agarra a mim e soluça “Ai, Sérgio, o que o teu pai fez?! Tirou a virgindade à rapariga…”.
O meu riso, de surpresa, quase garagalhada nervosa, de descompressão, incontrolada, mudou por completo o cenário. As lágrimas de minha mãe estancaram repentinamente. Num relance deve ter percebido tudo.
Só disse “Vocês…” e saiu porta fora.
Não chegou a haver crise…

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Faria hoje 98 anos!

Chegou a fazer os 96. Embora já antes nos tivesse deixado... mas estava, como está, em mim.

Um amigo, em Outubro de 2006, ofereceu-me aquela fotografia, e esta que também ele tirara:

com este texto:
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Uma mãe é uma árvore vigilante. Pode estar sozinha no meio de uma planície, custosamente medrando num deserto ou apenas ser um ranúculo num rio. As suas raízes crescem na casa quando os filhos estão presentes e ausentam-se quando eles estão ausentes. Perto ou longe, em qualquer lugar do mumdo. Como pode uma árvore abandonar as suas folhas e frutos?, repetir-se-á. Acompanhá-los-á com o seu sonho, mesmo que eles não queiram. Protegê-los-á, sob a sua copa, dos desmandos da intempérie. Acordará a brisa quando for Agosto, o luar quando anoitecer e reclamará o sol quando descerem pela colina as primeiras neves de Janeiro. "Aninhai-vos aqui", dirá, é uma árvore feliz, úbere e resignada.

.

Obrigado, Pedro!