faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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domingo, 28 de dezembro de 2008

... o céu será o limite, o mar chamam-lhe da China, a terra é o Vietnam, os pés são meus.
(e nada disto é ficção!)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas - na prisão - 11A

Na organização do tempo da sala, o Viriato Camilo sugeriu informação sobre o coro da Academia de Amadores de Música. O cancioneiro popular. As "heróicas".
Foram horas intensas. Com aulas práticas. Porque cantávamos. Nem sempre bem. Ou quase nunca bem (então eu!)… Apesar dos esforços do exigente Viriato.
Foi ali que descobri o Zé Gomes Ferreira.
Nesse entretempo, nasceu a Susana. A filha mais nova da Teresa e do Viriato.
Horas de alegria, de ansiedade, de sofrimento. Porque, nas condições finais da gravidez, com a Teresa numa angústia e numa excitada “roda-vida”, o parto foi muito complicado e fecharam-se as fontanelas da Susana (se isto que escrevo tem alguma coisa de científico nas relações causa-efeito…).
Para a Susana escrevera o Fernando Lopes Graça, que já era padrinho da Sílvia, a peça “para uma criança que vai nascer”.
A evolução da situação foi uma sucessão de choques que começámos por acompanhar. Ali. Impotentes. Procurando ser solidários. Foi um enorme choque, e uma vida e uma família toda a viver anos e anos esse grave problema. Com um cuidado e um carinho que acompanhei. Fica um pensamento muito solidário para a Teresa e a Sílvia, uma vez que o Viriato Camilo já há alguns anos morreu.

Ainda contaria, até para não acabar assim, que foi nessa sala que o Viriato nos falou a todos da Prelo Editora, e que eu comecei a entusiasmar-me com aquela coisa das editar livros. Até porque, nesse ano, uma edição da Prelo – o Matai-vos uns aos outros – recebera o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, e o autor, o Jorge Reis, escreveu um discurso que foi lido no jantar de entrega do prémio, e que foi lido por nós naquela sala da cadeia.
A entrega de um prémio a um livro, num jantar, com o autor exilado em Paris e o editor preso pela PIDE no Aljube. Que tempos aqueles…
Mas… mas na “sala dos operados”, foi curta a estadia. Foi um intervalo. De trânsito para Caxias.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Historias ante(s)passadas (na prisao) - 11A

Tudo organizado naquela sala. Entao o Maia Rebelo - esqueçamos o avô poeta conhecido pelas ameijooas -, como bom engenheiro, fazia questao de ter o tempo todo aproveitado. Acordar, ginastica, estudo, convivio, repouso, leitura, tudo à hora ou ao minuto. E insistia na necessidade de todos nos -os outros três - fazermos como ele.
Tudo certo. era mesmo necessario estarmos organizados.
So que havia um pequeno problema. O Alvaro, grande, desajeitado, muito nervoso e mexido, programava tudo excelentemente no papel. O pior era a pratica.
Começava todos os dias com um quarto de hora de atraso, e os atrasos iam-se somando ao longo do dia. De tal forma que ele chegava ao fim do dia em completo desespero.
Mas garantindo que, no dia seguinte, ia ser de um rigor absolutamente engenheiro.
Grande amigo!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 10A

Naquela sala – dos “operados” – a vida já estava organizada. E eu integrei-me bem. E depressa.
O Fernando Rodrigues era “um senhor”. Tisiologista de reconhecidíssima competência, era um homem muito afável, que se via que estava a sofrer, depois do que passara nos interrogatórios, Por muitas razões, até familiares. Dentro de si, um turbilhão sob a aparência calma que não escondia o sofrimento. Disso não vou falar.
Falo, sim, de ter então sabido que Fernando Rodrigues tinha casa e consultório com frente para o Jardim da Parada. Em Campo de Ourique. Para onde dava também a minha varanda. E, no prédio ao lado do dele, morava o Noales. Que “brinde” para os pides! Um desses criminosos oficiais, instalado num banco do aprazível jardim, podia vigiar, ao mesmo tempo (e decerto por turnos), três portas de entrada de casa de três suspeitos. Ou mais do que suspeitos porque houvera quem se encarregara de dar informações sobre as nossas pessoas à “instituição”. Mas também não é disso que vou falar.
Nalguns momentos de descontracção, raros, o Fernando Rodrigues contava que, nos dias de calor, fazia consultas com as janelas abertas e perguntava como é que lhe era possível ser médico e sério com um vendedor ambulante, desses de grande lábia e altos berros, no jardim abaixo das janelas abertas a fazer propaganda do que vendia, uma pomada milagrosa, persistindo na científica informação que lhe entrava pelo consultório dentro:

“O dente não dói porque o dente é osso e o osso não dói; a “engiva” e não dói porque a “engiva” é músculo e o músculo não dói; o que dói é o micróbio… e para o micróbio tenho aqui esta pomadinha milagrosa…”
Com aquela concorrência, o cientista sentia-se perturbado e via-se aflito para fazer, com seriedade, o seu trabalho!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As últimas folhas...

Antes dos ramos nus e secos, onde restam presos pedaços apodrecidos de fruta não colhida, neste final de outono ainda há folhas que resistem, teimando em vestir as árvores. Merecem o nosso olhar e que se registe a sua perene idade.Numa outra árvore, talvez mais exposta. talvez mais frágil, algunas poucas folhas prendem-se aos ramos como se à vida se prendessem. Como se a vida prendessem.

E uma, lá bem no alto, é o símbolo, o estandarte, a bandeira resistente. Contra as núvens carregadas de chuva. Uma folha, uma só, que a chuva que cair, ou o vento que soprar, irá atirar por terra. Até à primavera que virá como se adivinha nuns botões que já se mostram.

Esta...

... só de comunista!

Em aspalavrassaoarmas.blogspot.com !!!
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Já estou "augadinho"...

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 9A

Quando veio a ordem “arrume as suas coisas para mudar de sala”, senti que entrara noutra fase daquele período da minha vida. Depois dos “curros”, dos interrogatórios, da “enfermaria geral”, mudar de sala era a… estabilidade. Deixava a transitoriedade.
No entanto, a mudança foi pequena. Sai da sala grande e, no mesmo corredor, passei para um quarto ao lado, conhecido pela “sala dos operados”, pois era para onde iam os doentes depois de sujeitos a intervenção cirúrgica quando aquele andar era dependência hospitalar das prisões. Independentemente das implícitas conotações, a “sala dos operados” teria sido aquilo que, há pouco tempo, vim a conhecer como “sala de recobro”.

Os que iam para ali deviam ser os “seleccionados” para ir a julgamento. E estavam lá três. Num assarapantamento normal, entrei num espaço reduzido e já habitado por três “operados”.
Começámos pelas apresentações habituais, que iam muito para além das formais. Não nos conhecíamos, embora talvez os nossos nomes não fossem estranhos entre si.
Os nomes… Foi logo o primeiro quiproquó. Já lá vou…
Eu disse quem era, a profissão, que vinha ali do lado, num resumo resumidíssimo do resumo; depois (não sei se foi a ordem…), Viriato Camilo, desenhador de arquitectura, editor, cineclubista,; a seguir (teria sido?), Fernando Rodrigues, médico, tisiologista, IANT, um “senhor”; por último (talvez…) Álvaro Bulhão Pato de Maia Rebelo, engenheiro, grande, caloroso…
E veio o tal quiproquó. Inevitável. “Bulhão Pato?”. “Sim! era meu avô…”. “… o das amêijoas?”. Irritação: “… o poeta, o meu avô era poeta, as amêijoas foram uma graça …”. “Pois… mas são bem boas…”. Irritação: “… os versos são bem melhores…”. Timidez: “… não conheço… desculpe…”.
Não se pode dizer que tenhamos começado bem. Mas, depois, melhorámos muito. E o querido camarada Álvaro Maia Rebelo foi um bom companheiro e amigo naquela sala e em Caxias, para onde fomos transferidos mais tarde. E também cá fora, sempre grande, sempre caloroso.
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Mas, sobre a “sala dos operados” há mais estórias.

Diálogo entre suicidas (salvos sejam!)

Diz um (o M) em maisangular (isto sem a devida autorização para transcrever...):
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M sentia-se pleno, cheio. De repente tão cheio que precisou de alguns minutos sentado naquele banco virado ao rio antes de olhar à sua volta. O mundo pareceu-lhe fora de si, tão estranhamente fora de si que quase não respirava. Não se mexia, sentia-se tão sensível e atento que o mais pequeno gesto o transtornava. Respirava devagar, sentiu o peito subir, tão cheio de vida que a muito custo segurou as lágrimas que o surpreenderam. Há muito, muito tempo que não chorava. Para dizer a verdade não consta que M tivesse alguma vez chorado. No dia em que nasceu a mãe chorou por ele. O médico quando o viu, pálido e sem reacção, considerou-o morto. Mas não estava, cresceu e depois de todos estes anos forçosamente vividos estava decidido a validar o diagnóstico do médico. Matar-se-ia com força e sem hesitações. Mas... Mas... caralhosefoda o mas! No momento em que o desgraçado suicida se acerca de tamanha resolução é abalroado por uma coisa tão pequena quanto fodida... uma pontada de vida. Uma filha da puta de uma pontada de vida. Se o médico o visse agora naquele banco virado ao rio, talvez dissesse.. o Sr está com uma pontada de vida aguda. É grave! Tenha cuidado, se não tomar as devidas precauções ainda acaba por gostar de cá andar. Tome soda caustica e vá a banhos. Atire-se de uma ponte, meta-se à frente de um comboio que isso passa-lhe. Mas cuidado, o caso é sério!
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Responde-lhe o outro, este de aqui, de antes de...:
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Boa, M!
Diria mesmo... muito boa, companheiro!
Uma pontada de vida?! Sofro disso há quase 73 anos... espero que seja incurável... até não ter cura!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 8A

Uma última (talvez…) da “enfermaria geral”.
Naquela “leva”, diria mesmo verdadeira hecatombe, a PIDE tinha duas “escolhas”: os que apenas ficavam fichados para eventuais efeitos futuros e os que “iam dentro”; destes, os que “iam dentro” para dentro ficarem e os que “iam dentro” para apanharem um susto e o transmitirem a amigos e conhecidos. Isto digo eu, a esta distância e juntando pontas… e acrescento que a “selecção” não seria rígida e, no decurso da “operação”, a PIDE teria ido buscar alguns que era para não “irem dentro”, teriam ficado dentro uns que era só para apanharem um susto, teriam saído mais depressa que o projectado outros que teriam sido “recuperados” e “merecedores” de tal mudança nas intenções que para eles haveria.
Entre os (talvez) “escolhidos” pela PIDE para um susto de uns diazitos de prisão (de detenção, se faz favor…) estava um jovem técnico das Nações Unidas a trabalhar no estrangeiro que, embora conhecedor do vendaval que por cá andava, resolveu, quase em desafio, "vir à terra”, o que a PIDE terá achado descaramento demasiado, pelo que o “colheu” directamente do aeroporto para a sala da “enfermaria geral”.
Entrado naquele local de trânsito, já noite dentro, ficou eufórico ao ver amigos em quem inteiramente confiava, que tiveram de o chamar à parte para o pôr ao corrente da situação e dar-lhe a conhecer que as coisas não estavam nada fáceis e que havia ali… alguns “casos”, se é que não éramos todos e cada um, incluindo ele, um “caso”. Passou-lhe a euforia…
E teve, chamado à razão, uma reacção à sua maneira. De manhã, para se preparar (dizia ele), começou a fazer, em largas passadas, os cerca de 15 metros do comprimento da sala, e a dizer, baixinho mas suficientemente audível, sobretudo quando passava perto de algumas orelhas, “quem fala na PIDE é cabrão, quem fala na PIDE é cabrão…”.
Tremendo castigo para quem viera dos interrogatórios a justificar o seu comportamento com “está tudo perdido… não vale a pena qualquer resistência ou sacrifício… só há que confirmar tudo o que eles já sabem…” e que, facilmente se descobrira, fora mais fácil presa dos esbirros por estes terem usado o seu recente casamento com uma jovem, muito mais nova que ele, para o ... "recuperar" com a promessa de rápido regresso para junto da jovem e sozinha esposa.

Estas estórias não são só divertidas. São de vida vivida!