faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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domingo, 26 de maio de 2013

DIREcTO... adverbiando

tanto li e tanto escrevi,
que não sei onde li,
que não encontro onde e quando escrevi.
Se tivesse esperado tudo aprender
para alguma coisa  tentar ensinar,
nada teria divulgado.
Escrevi demais?
Talvez...
De certo, deveria ter escrito melhor

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O "senhor Horácio"

O “senhor Horácio” era um dos meus “chóferes”. Era assim que se dizia…

Horário era o nome de um  funcionário que, naqueles idos anos de 1975, tinha a tarefa de motorista da Direcção-Geral do Emprego, adstrito prioritariamente a transporte do “senhor director-geral". Que era eu.

E eles eram dois. O Espadinha, em primeiro lugar, que logo se apresentou como camarada e como tal se comportou sempre. E continua. Com encontros frequentes, embora espaçados. (Amanhã talvez nos abraçaremos em Belém). O Horário, nessa tarefa de me transportar, substituía-o, por conveniência ou arranjo de serviço. Para que o director-geral pouco tinha a ver…

Muitas vezes o fez mas de duas vezes me recordo. Porque foram especiais.

Uma, porque foi desagradável, ou porque ele, o Horário, não escondeu o desagrado ou a inconveniência que o serviço lhe provocara.

Foi numa ida inesperada a Arraiolos, por causa da Cooperativa Fraternidade, dos tapetes, e para que o Espadinha não estava disponível, por causa de outro qualquer serviço, ao serviço da D-G.

Não havendo Espadinha, lá teve de ir o Horácio, o que veio complicar a sua organização de vida... onde se incluía um turno de taxista. O que vim a saber ao cuidar de conhecer a razão do seu inhabitual ar carrancudo, que o pagamento de horas extraordinárias não apagava.

Mas lá se compôs tudo… e o regresso, já tardio, foi feito na costumeira conversa amena.

A outra, terá sido por arranjos outros. Foi o caso de uma ida a Viseu mais beiras interiores, terras que dele eram, e em que havia pernoita. E, por isso, o secretariado (da Direcção-Geral) arranjou as coisas por forma a que eu fosse conduzido pelo Horácio. Tudo certo. 

Eu deveria ficar num hotel qualquer, mas o secretariado não reservara e – foi-me dito – isso ver-se-ia com o delegado do director-geral de Viseu.

Mas havia ali alguma “conspiração”... e, no começo da viagem, o Horácio, com algum tacto, pôs-me a questão se eu teria problema em considerar dormir na casa dele, na aldeia. É que assim tudo se conciliaria. O serviço e os interesses pessoais. Eu logo o pus à vontade, dizendo-lhe que, se era um convite, o aceitaria de bom grado.

E a viagem de ida decorreu em ainda melhor disposição. Sempre boa, apesar de, de vez em quando, o Horácio extravasar preconceitos anti-comunistas e afirmar a sua postura “social-democrata” (ou seria “socialista”?...).

Ao fim do dia de trabalho, que nunca terminava cedo, lá fizemos os quilómetros que nos separavam da aldeia e casa familiares do Horácio, e (se bem me lembro) fui recebido pelos pais com a hospitalidade costumeira, e terei adormecido debaixo de uma montanha de cobertores que, nem por isso, apagaram a memória de que rapei muito frio.

De manhã, relativamente cedo, banquetearam-me com um pequeno-almoço (melhor se diria pequeno-banquete), e o "senhor Horácio" fez questão de me mostrar a propriedade.

Visitei a casa e os seus baixos e anexos. E não me esqueço de um pormenor para que o Horácio me chamou a atenção. Na vastos baixos com adega e lagar, segundo ele seu recente contributo para a casa paterna, fizera as obras por forma a que, a vir a haver (ou quando houvesse…) partilhas entre os seus três filhos, ainda crianças, tudo fosse fácil e as “partes” fossem iguais, e havia pilares que poderiam continuar-se por paredes a dividir o espaço em três.

Impressionou-me aquela preocupação sobre herança e partilhas a longo prazo. Tanto que aguardei como memória inapagada. Talvez resultado da “qualidade” de filho único de filho único.



Mas… o "senhor Horácio"… que será feito dele?, e dos três filhos (se por aí se ficou)?

O que a memória nos traz!