faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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domingo, 20 de maio de 2018

Um texto antigo, esquecido e recuperado


http://3.bp.blogspot.com/-W_TrVtc1tuE/UyqQ7aRsJXI/AAAAAAAAYDs/_AWHgX3EfBU/s1600/2.jpg
CADEIRAS ENTRE 2 TABULEIROS
As cadeiras, assentes em duas das suas quatro pernas, acabrunhadas sobre as mesas e sem terem quem nelas se (as)sentasse, puseram-se a conversar. Para passar o tempo…
Até que uma, ao espreitar ao redor, o chão e a parede mosaicados em quadrados pretos e brancos, teve uma ideia “… e se nós aproveitássemos a folga e as quadrículas, e fossemos jogar uma xadrezada?”; vai daí, outra disse “boa ideia!… mas essa coisa do xadrez é muito complicada … talvez às damas…”; logo uma mais rabitesa veio de pronto resmungar “… ao xadrez, às damas!… cadeiras a jogar, a imitarem quem nelas s’assenta!, onde é que já se viu?, só de cadeiras tontas…”.
Nenhuma lhe ligou, embora a da ideia tivesse ficado um bocadinho sentida (cadeira que não se sente não é filha de boa gente, né verdade?…), e começaram a organizar um torneio. A formar equipas e, curioso…, todas queriam ser do Boavista por ser axadrezado.
No entanto… no entanto, antes de iniciarem o torneio, ainda houve uma cadeira que se levantou do assento e colocou uma questão pertinente: “jogamos no chão ou na parede?”.
Ficaram perturbadas. Ao chão não chegavam por causa das pernas altas, na parede, o tabuleiro ficaria torto e até as rodelinhas brancas e pretas que podiam fazer de conta que eram damas escorregariam… quanto mais com reis e rainhas, e bispos, e torres, e cavalos, e os peões, todos aos saltos e a comerem-se uns aos outros.
Ainda tentaram – só com as damas… – mas foi uma confusão ao quadrado, isto é, aos quadradinhos. Ensarilharam as pernas todas, as de umas nas de outras, e ficaram num monte. À molhada, como se costuma dizer. Mas quem disse a última palavra foi a rabitesa resmungona que disse “… eu não vos disse, suas cadeiras tontas?!”
Zambujal

segunda-feira, 16 de abril de 2018

nada, tudo, pouco e mais à moda de malmequer(o)

comigo, quando nasci, não nasceu NADA
comigo, quando morrer, não morrerá TUDO
... entretanto,
enquanto viver
- entre NADA, TUDO e tantos -,
sou, e terei sido, POUCO

frustre por convicto de poder ser MAIS
Dos que nasceram no "meu tempo"

Uns nem deram os primeiros passos
outros começaram a andar
alguns meteram-se a caminho

Destes,
uns desistiram no difícil caminhar,
outros demitiram-se ou meteram-se por atalhos
alguns teimaram e continuam,
a par e passo

Eu?
sempre quis estar com estes,
tropeçando (sem nunca cair),
levantando-me (se preciso fosse),

ombro com ombro, braço dado,
cabeças levantadas, vozes ao alto
rumo certo e passo acertado.

Em tudo e em todas!
Porquê, então, em nada fiquei?
Não que tenha estado para ficar,
mas sim para ESTAR e SER!
FUI, mas parece que não estive...

domingo, 15 de abril de 2018

procurando desencurralar-me


Uma “curralada”:

coloco-me fora de mim
            (como o outro que quero ser)
a procurar ver como os outros me vêem

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Dias úteis e anos in úteis

Útil idade dos dias
a contra pôr
à inútil idade dos anos

EUquações

EU = a eu E tu-outros
... o que é muito diferente de
EU = a EU + TU + Tu + tu + tu + tu + ... os outros

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Num dos regressos a/do nicky (o outro)

2018-01-24


Ao Marcelo. Na miséria álacre em que existem - e em que não pouco consentem existir -, os gentios rogam-lhe: afecta-me mais um bocadinho, vai. Como se cantassem tout va très bien, madame la Marquise. Ou o caralho. Nicky Florentino.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

leão que já fui - 3: CTT e serviço público

Era uma vez um rapazito que vinha passar temporadas de férias à aldeia natal do pai. E como eram longos os verões daqueles verdes anos!
Amante do desporto, em acepção boa do vocábulo, o jóvem era sportinguista ferrenho embora não fanático. Como então o futebol também tinha férias, a que se chamava defeso, no verão o interesse pelos acontecimentos desportivos centrava-se no ciclismo. De que era exemplo o que acontecia lá por fora – isto era, por França… –, em que o jornal L’Equipe organizava o Tour para preencher o vazio informativo de um jornal diário desportivo em país sem futebolistas a jogar e sem negócios de transferências (e outros de outras espécies!) para encherem primeiras páginas.
A memória de quem foi esse rapazito traz-lhe a lembrança da ansiedade com que acompanhava as etapas diárias da Volta a Portugal, as vitórias ao sprint do João Lourenço, as escaladas da Serra da Estrela, o Alves Barbosa e o Ribeiro da Silva, herdeiros dos históricos Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
Mas com que dificuldades! Rádio não havia, televisão nem se sonhava, jornais só na sede do concelho e com dias ou até semanas de atraso, sem transporte público (nem privado) para tornar perto a légua de distância. O melhor – ou o menos pior, visto a esta distância de tempo – eram os correios, um serviço público.
E o rapazito, determinado e com a necessária resignação, lá fazia a pé o percurso do Zambujal a Pinhel, à venda do ti’ Francisco da Reca, que tinha posto de correio, levar e trazer a correspondência (como postais dos pais, quando o deixavam ao cuidado da família de outro ti’ Francisco, este de Santo Amaro, em S. Sebastião, ou da família do ti’Zé Alfaiate, ainda mais vizinha)… e do jornal de que fizera assinatura, o jornal do Sporting. Também, quando calhava – e sempre fazia por isso –, para se encontrar e cavaquear com os filhos da casa de Pinhel, o Zé, o Quim, o Amilcar, e os vizinhos Moreira ou Flores (os “Bichos”), em S. Sebastião, o Manel, o Chiquito, as irmãs Maria e Luiza. Se bem se lembra, todos sportinguistas. Vá lá saber-se porquê, talvez por culpa dos 5 violinos…
Entretanto, passaram anos (passam sempre, embora a velocidades sempre mais rápidos…), na vila rasgou-se uma avenida onde veio avultar o edifício dos Correios, que ainda se mantém como referencial. Tudo começou a ficar muito mais perto, com a ajuda, primeiro da bicicleta, depois, do automóvel que já parece ter sempre feito parte da vida de todos nós.
Muito foi acontecendo nos anos que nunca cessam de se suceder. O miúdo cresceu, e tem veleidades que não só por fora. E aprendeu, aprendendo sempre. Andou, correu, caiu e levantou-se na procura de caminhos de, ou para o, futuro. Crendo estar a percorrê-los. Com os outros. Com todos, que de todos os caminhos são.   
Abriu uma estação de correios na Atouguia, sede da freguesia. Toda impante. E sempre que lá tinha de ir – de carro, claro –, para fazer envios ou levantar avisos deixados pelo carteiro porta-a-porta, o rapazito a em velho ser lembrava as caminhadas até Pinhel e rejuvenescia com a satisfação cidadã de estar a dar passos num caminho para o futuro que ajudara, infinitesimamente, a construir. Estava a usar um serviço público cada vez mais ao serviço do público, do povo!
Por isso o chocou (e protestou, com a sua pequena força a querer juntar-se à de muitos para serem e terem força) a privatização dos CTT, e a sequente degradação do que sempre conhecera como serviço público, primeiro incipiente e depois progressivamente melhorando. E, veja-se lá, sendo empresa pública com uma gestão económica de folgados resultados positivos a contribuírem para outros serviços públicos, como os da saúde e da educação.
Triste ficou, tristeza que confirmou quando até o remendo do serviço, que passara a ser (em)prestado numa lojita da Atouguia, encerrou! Tem de ir a Ourém, ao vetusto edifício da Avenida que ainda resiste, em risco de ser pretexto para um negócio qualquer, desde que lucrativo e que encha os atafulhados bolsos dos accionistas ditos investidores privados.
Sente-se, quem já velho é, a dar passos atrás. Mantendo firme a certeza de que o caminho é de luta e em frente.