faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

sábado, 10 de agosto de 2019

Do ouro (e outras matérias) ao nada

dos "reis" aos "escudos"
dos "tostões" aos centavos"
dos "malreis" aos "contos"
dos "écus" aos "euros"
dos "escudos" aos "euros"

dos milhões aos zeros

Coisas...


Ser velho
é queixar-se da solidão

e o que mais deseja
é estar só
no aconchego do seu canto
no sossego das suas memórias
no contar das suas histórias


SOU UM VELHO

terça-feira, 30 de julho de 2019

O táxi e o GPS, em Lisboa

Ela e ele deixaram o carro estacionado perto do apartamento na Venda Nova e, cansados da viagem e um pouco atrasados, pouparam-se da caminhada até o metro e procuraram um táxi que passasse. Só o encontraram, parado e livre, na praça que de táxis é, já depois das Portas de Benfica.
Ele, cavalheiro que se preza nestas coisas de entradas e saídas, abriu a porta para Ela se acomodar e, quando conseguiu meter lá dentro o corpo todo (o que já foi mais fácil em tempos idos) e deu as urbanas salvações ao taxista (não correspondidas, aliás), já estavam os dois comunicando entre si sobre o destino da chamada corrida.
"Bento  da Rocha... quê?, Cabral?...", "... isso...", "... ora deixe cá ver...", quando se meteu na história um 4º personagem chamado GPS ... 4º personagem?, não!, porque os protagonistas ficaram reduzidos a 3 uma vez que Ele desistiu de tentar dizer que conhecia bem a tal rua, que é calçada à ilharga da sede do PS, no Rato, redondezas que conhece bem pois  morou na Rua do Sol (também do ou ao) Rato, de 1939 (!) até... não interessa quando... uma vida; deixou os três entenderem-se, esclarecerem as dúvidas (que eram muitas), os itinerários para que cada um de dois dava palpites enquanto o introduzido 4º (promovido o 3º) se ia adaptando e apontava setas, sem aparentar melindre por não lhe seguirem as indicações anteriores.
Ele aninhou-se no cantinho direito do banco de trás do carro, e fez-se espectador distanciado.
Quando desciam a Rua D. João V, antes de entrarem no Largo do Rato, saiu do seu anónimo e silencioso recolhimento e disse, peremptório, firme mas sem acrimónia: "Pare aí, por favor!", pagou e saíram os dois iniciais deste contar, viraram à esquerda (a pé e de mão-dada), caminharam serenos passando em frente da tal sede do dito Partido Socialista (que não o é), contornaram-no na primeira calçada à esquerda. E estavam na Calçada Bento da Rocha Cabral.

Fim de história (o taxista deve ter ficado a trocar impressões com o GPS sobre o trânsito de Lisboa e o melhor percurso das Portas de Benfica ao Largo do Rato) 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

A cura do que é incurável

O paciente falou, falou, contou, contou...
E continuava a contar...
O médico ouvia... pacientemente...
Resolveu intervir.
"Desculpe lá, tenho de o interromper... já tenho dados suficientes para lhe fazer o diagnóstico..."
"'Tá bem, s'tor. Mas ainda não acabei de contar. Há pontas soltas que tenho de ligar..."
E recomeçou a contar.
Contou, e recontou, e alinhavou pontas...
O médico... pacientemente... ouviu, ouviu...

Ouvia, há horas, o paciente e resolveu intervir, de novo e em desespero e destemp(er)o.
"Está bem, está bem! O meu diagnóstico está mais que confirmado:
O QUE O SENHOR TEM É EXCESSO DE MEMÓRIA! Doença que, sendo de inevitável cura (com o tempo), é incurável para já. 
Não sei que lhe receitar... 
Olhe: trate-se... E FAÇA POR ESQUECER!" 

sábado, 13 de julho de 2019


COMO É QUE CADA UM PODE SER TÃO DOENTIAMENTE EU 
                                                                                     E ESQUECER OS OUTROS?!

Um dia assim


25.06.2019

Separam-me anos-luz de gente com que convivo dia-a-dia!

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Gente que é minha contemporânea, conterrânea, co-espacial, do mesmo tempo e lugar…

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vizinha mas em infindas léguas à distância do que eu sei, e eu nas lonjuras do que essa gente sabe,

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… e também do que são as vidas, ou dos viveres dessa gente.

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Do que são as nossas vidas tão próximas, tão comuns… e nós tão estrangeiros uns e outros, essa gente e eu.

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E tão nós, e tão sós!...,

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tão do mesmo espaço e tempo, lado-a-lado, ombro-com-ombro, por vezes juntos nossos corpos, tão corpo-a-corpo e tão separados nós…

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Todos tão iguais na concepção, no nascer, no morrer.

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Nos risos, nas lágrimas, no que nos faz chorar e rir.

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Sempre eu-sou-os-outros, o-outro-e-eu-somos… nós.

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Que faço eu?,

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escrevo – faço, edito, distribuo – livros para os outros lerem, livros que os outros não lêem ou que nem sabem que foram escritos.

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Que digo nos livros?

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Digo o que julgo ser, conto como penso ter chegado ao que sou, atrevo-me a projectar que iremos ser, com o que quero que seja o meu contributo.

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Foi o dia em que fui buscar as histórias ante(s)passadas à tipografia, algumas das histórias antes passadas em família e com amigos.

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Tem, sempre, um pingo de emoção,

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mesmo que não seja a enxurrada que já foi e pode voltar a ser…

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Já o dei à co-autora (quase… por tão grande a ajuda),

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à Rosa, ao Zézito (do "Galinha"), ao Carlos/Susana, já me faltam poucos para esgotar a edição.

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E… adiante…

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Tive uma manhã de eficácia após uma noite… esquisita e curta – apaguei a luz às 2 levantei-me não eram 8! –

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… há qualquer coisa que não está a funcionar mas o certo certo é que devo dar-me por muito satisfeito por ainda haver algumas coisas que funcionam.

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Foi curiosa a reacção do Zé “Galinha”… a aliciar-me para colaborar num estudo sobre o Zambujal, ao que parece em gestação no seio da catequese.

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É uma ideia interessante para o Centro de Documentação, em colaboração (como?) com a tal da catequese.

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Andei à procura de coisas… para recomeçar a entrevista e outras cousas.

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Está bem encaminhado!

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Lembranças...

De um papel ao acaso

O homem em velho sido ficou só.
De súbito, 
ela fora a correr acorrer a um chamado.
a um miado, a um a pêlo.
O homem ia dizer qualquer coisa,
sobre que discorria lentamente,
sobre um filme, sobre a dolce vita,
a propósito dos ilúcidos envelhecimentos.
Embuxou,
e bebeu um trago já,
já tardio...
Pôs-se, sozinho, a conge minar...
e engatilhou uma frase:
fui posto abaixo de gato,
que desacgato,
que desgoasto!  


que saudades do Mounti!

quarta-feira, 8 de maio de 2019

AQUI, HOJE


Cada luta é parte de uma outra-a-mesma luta. 
A minha luta é a tua luta 
         ainda (pois!, ainda...) que tu o não saibas 
         mesmo que lutes contra a que é a nossa luta.

aqui,
por querer fugir ao gongórico
(ao rebuscado, ao pretensioso)
hoje,

porque a actualidade m'o pede
porque não sou capaz de calar!

sexta-feira, 3 de maio de 2019

passo-a-passo

Passo-a-passo

A cada passo me encontro,
a cada passo me desencontro

Passo adiante…

Passo nesta jogada?
NÃO!, nunca!

Dou o próximo passo!
De encontro?, de desencontro?
de caminho a fazer!

domingo, 28 de abril de 2019

Mesas ao lado...

Ele há cada cretino...
este, ali de perfil,
convencido e cheio de si,
isto é, VAZIO

a falar de Salazar e da 2ª guerra,
de Goa, e de Dadrá e Nagar-Aveli

Fala, fala, fala
     e bate com a mão na coxa...
Pode (será possível?) estar a dizer coisas certas...
     .... é um cretino, um velho tonto!

Um casal jovem
face a face
que não se olham nos olhos
que não se vêem
que dedilham 
(cada um de seu lado da mesa)
o seu  telemóvel...