faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009


... para memória ficou esta foto e um balde cheio de amêndoas!

sábado, 26 de setembro de 2009

Crónica de uma tristeza

As árvores (e os homens...) morrem de pé

Há muito pouco tempo, deste tempo cada vez mais relativo, foi a ameixoeira. Sempre a vi naquela pequena elevação, à mão de apanhar os frutos sempre muitos e bons. De vez em quando, há muitas décadas, ali ia acabar o almoço e comer a sobremesa. Fazia parte do meu canto, porque desde sempre ali estava. Deu-lhe… a velhice. Tive pena.
Hoje, foi a amendoeira. Também sempre ali a vi. Resistindo a todas as mudanças de “cenário”, mais muro, menos muro, mais garagem menos adega. Ali estava. Centenária. Embora, às vezes, mostrasse algum cansaço. De qualquer modo, todos os anos nos oferecia flores e umas amêndoas. A que pouco ligávamos. Fazia parte da paisagem...
Não era como a nespereira. Ambas enormes (depende da escala…) e companheiras, ou só vizinhas, mas a senhora nespereira só ofertando nêsperas nos anos em que lhe dá na real gana. Feitios…
Pois outro dia, trabalhava eu aqui, ao computador, ouvi um barulho de choque. Fui ver. Fora um camião enorme que, ao encostar muito à direita, batera num dos troncos altos e fortes da amendoeira, e provocara tal abalo que rebentou a base do muro e fez levantar o chão onde se enterravam as raízes.
Chamado um amigo-vizinho ou um vizinho-amigo, o diagnóstico foi rápido e brutal: condenada!
Foi hoje abatida.
Estou triste.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Alternância é democracia?



O grande - o enorme - Zé Gomes Ferreira, o "poeta militante", deixou-nos este "brinde". Para hoje, como foi para ontem, com será para sempre:





Democracia é alternância


repetiu de novo a embalar o tédio


um senhor de sono espesso.


Como se fosse possível - ó gloria! ó ânsia! -


construir um prédio,


mudando de vez em quando


os mesmos tijolos do avesso


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A ouvir, a esta hora que devia ser de sesta, galos a cantar na vizinhança. A deshoras... mas já nem os galos sabem a quantas andam.

A casa.
O telhado. As telhas. Algumas que ali estão desde o século XIX.
A porta que foi janela.
O pátio.
O bem-estar.
O efémero.

Remédio eficaz

O José, o António e o Manuel são três amigos. Na “casa dos 60”. Sim, porque se fosse na “casa dos 30/40” seriam o Tiago, o Diogo, o Hugo. Adiante... que a estória é outra.
O José chega ao pé do António esbaforido, ainda “a ferver”.
«É pá!, porra… sacana do Manel, um dia chateio-me a valer com o gajo…»
«… coisas do futebol, não?»
«Pois. Veio emerdar-me
(os três foram emigrantes e estão na “retraite”). Que o Liedson já deu o que tinha a dar, que o Benfica vai dar-nos um bailarico…»
«E é caso para te chateares? O Manel gosta de te picar…»
«Picar, picar… O gajo é mas é um provocador…»
«… e tu cais nas provocações. Deve dar-lhe cá um gozo…»
«Uma merda! Dar-lhe gozo? Vá gozar com tia dele…
«Vocês até são amigos. Tu devias acalmar-te, não reagir assim, relaxar…»
«… posso lá… há coisas que não suporto. E pára de me dar conselhos, gaita…»
«Como teu amigo, até te vou dar um. Toma aquele medicamento que um médico me receitou e que me tem feito um bem bestial ao sistema nervoso.»
«… não me chateies… mas dá-me lá o nome dessa coisa…»
Duas semanas depois, encontram-se o José e o Manuel. O Manuel “entra a matar”:
«Viva, Zé, não te via há que tempos... ‘tás porreiro? Deves estar, o Liedson parece que ressuscitou, 'tá a safar aquela desgraça de equipa. Foi alguma “vitamina” que vocês lhe deram? Mas não vai durar muito. O gajo é mesmo levezinho… e aquele Paulo Bento é cá um cromo. Então não dizes nada?»
«Não. Se calhar até tens alguma razão…»
«Agora no Porto vão levar com um aperitivo para depois, com o Benfica, levarem cá uma coça. Vai ser cabazada.»
«Talvez não…»
«’Pera aí. Tu estás diferente, pá. Não vês que te estou a provocar…»
«Vejo. Mas deixei de responder a provocações… Vamos beber um copo com o António?»

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amores-perfeitos

advertência:
este é um blog intimo
(quase confessional),
onde toda a gente pode entrar,
mas onde apenas têm entrada desejada,
querida!,
os amigos íntimos,
isto é, os amigos
Tive amores-perfeitos.
Ah!, pois tive...
Mas,
afinal...,
não eram.
Porque não há amores-perfeitos.
Há é amores desfeitos.
Ah! isso há!

Depois dos amores-perfeitos,
parece que encontrei
(ou seja, que encontrámos)
um amor (per)feito… um para o outro.
Sim, senhores, encontrámo-nos!
E encontrámo-nos há três décadas,
(no J(á)amor, na Festa, veja-se lá…)
... e venham lá dizer-nos que não somos (per)feitos…
… um para o outro!)
Até porque nos temos vindo a aperfeiçoar,
a(per)feiçoando-nos ano a ano, dia a dia.
Não que todos os 365 dias destes tantos anos
(mais um para os já vários bissextos…),
ou todas as 24 horas destes incontáveis dias
tenham sido perfeitos (os dias e os anos)
ou perfeitas (as horas).
Não!
Nem pensar…
Mas temos vindo a melhorar
as imperfeições dos anos,
as imperfeições dos dias,
as imperfeições das horas.
Somos os amores-perfeitos
… como é (im)possível sê-lo…
Tu, o meu;
eu (espero e venho-o confirmando…) o teu.
Cheios de imperfeições,
mas está tudo bem
no que respeita a estas possíveis perfeições
que são,
como já está dito e redito...,
impossíveis!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Declaração de amor

Há muitos anos (ih! tantos… tantas décadas) apaixonei-me por uma colega do liceu. Teria sido a primeira paixão “a sério”, das que nunca esquecerão. Como é que ela se chamava? Bem… não interessa. Tímido como era (e como continuo…) vivi um drama. Como dizer-lhe? Sim, como declarar-lhe todo o meu amor? Juvenil, primeiro, mas para sempre.
Até que - ah!, disto lembrei-me agora mesmo… - descobri a fórmula, o “eureka”. Foi em Os Lusiadas, de Luiz de Camões, nestes, edição de 1916 da Parceria António Maria Pereira.E lá fui eu, todo corajoso, explicar à jovem bela, linda como a mais linda das flores do mais lindo jardim, um estranho fenómeno que – dizia eu – era decerto amor. Único, igual a nenhum outro (cretcheu, como viria a saber muito mais tarde que se diz em crioulo).
Expliquei-lhe eu que cada vez que abria o livro, em que famigeradamente tínhamos de dividir orações - mas antes isso que desconhecê-lo... -, e defrontava na capa o pobre do zarolho com uma coroa de louros na cabeça, se dava um estranho fenómeno. Aquela gravura mudava, transfigurava-se, e era a cara dela, daquela bela que era ela (mas como é que a miúda se chamava?...) que eu via, ficando ali, pasmado (como acontece com os computadores, agora), a olhá-la, embevecido.
E, já meio atrapalhado, metendo os pés pelas mãos, e o Luís (com z) pelos Lusíadas (sem acento no i), concluía que aquele fenómeno só podia ser o resultado de um grande, de um enorme, de um eterno amor.
Confesso que não me lembro da resposta… e, rai’s parta esta memória!, como é que a miúda se chamava?
Acontece que, outro dia, em Nova Iorque, em Times Square, fiz figura semelhante.
Andei tempos que tempos foram em posições e preparativos para tirar uma fotografia em que um W se transformasse em Zé. Consegui! Estou mesmo apaixonado.
Mas agora é a sério. Para sempre e etc.

sábado, 12 de setembro de 2009

Para registo pessoal, aqui

Uma foto... especial.


Feita, e oferta, por uma jovem camarada, no auditório 1º de Maio, na Festa de 2009, enquanto ouvia, emocionado, Samuel cantar Adriano.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As palavras em volta

Despego os olhos do computador, levanto-me devagar, muito de vagar, da cadeira onde me pareço aparafusado. Dou uns passos pelo espaço em volta, dou… passos em volta. Com os dedos percorro lombadas, tiro e folheio um ou outro livro. Daqui e dali, ao acaso. Dos mais queridos, dos mais amados. De autores companheiros.
Agarro um Eugénio de Andrade, rente ao dizer, que está pousado, ali, na banca de trabalho d’ela, e desfruto da delicadeza das palavras, palavra atrás de palavra. Logo aqui, o Aquilino, a cavalgar no seu cavalo de pau, e, mesmo de fugida, apanho a luminosa chapada da língua que é a nossa, laborada em discorrer elegante e vernáculo, como água límpida, por vezes de cores estranhas, a rolar sobre calhaus. Ao lado, o Zé Gomes – tanto Zé Gomes, e sempre tão pouco Zé Gomes – e, na memória das palavras, a pergunta o que torna as coisas belas?, com o aristocrata que em cada um de nós mora a deitar a cabecinha de fora. Vizinhos, os da poesia. Neruda, Guillén, Manuel da Fonseca (ah! Manel, Manel), o professor António Gedeão gémeo do poeta Rómulo de Carvalho. E o Brecht, que salta do teatro, para o romance, deste para as poesia e as pequeninas histórias de um senhor K. E o Zé Saramago, com a saudade amarga da sua presença amiga e das suas dedicatórias fraternas, camaradas.
Recupero! De estar zangado? Não! Era o que faltava…
Recupero da tristeza, talvez um pouco irritada, por haver gente assim. Tão outra. Tão sectária de nada. Ou sectária de ser violentamente, brutamente, contra o que não entende porque se foi tornando incapaz de tentar, ao menos de tentar..., respeitar o outro-que-não-ele-e-os-iguais. Gente tão cega, tão vesga, tão agressora. Tão indigente.
Encho-me da delicadeza dos poemas, da elegância e vernáculo das prosas, do amor e respeito pelos outros que encontro em tantos e tantos, como podia ter procurado na música ou só no passeio a dois pisando o mesmo chão. De mãos dadas. Encho-me do que procuro, e por isso encontro, em (quase) todos. Talvez mais do que em todos nos analfabetos, nos humilhados e ofendidos. Mas solidários. Mas solidários.
Não esqueço. E não me quero habituar. Não quero ser vencido pelo costume. Não quero encolher os ombros e deixar andar. Não! Como li, agorinha mesmo, no Aquilino, quero-me, até ao fim, “inveterado endireita do mundo torto”. É que ele está mesmo torto, e injusto, e cruel, e sempre contra os mesmos tantos para proveito dos mesmos poucos! Ou não?...