faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As palavras em volta

Despego os olhos do computador, levanto-me devagar, muito de vagar, da cadeira onde me pareço aparafusado. Dou uns passos pelo espaço em volta, dou… passos em volta. Com os dedos percorro lombadas, tiro e folheio um ou outro livro. Daqui e dali, ao acaso. Dos mais queridos, dos mais amados. De autores companheiros.
Agarro um Eugénio de Andrade, rente ao dizer, que está pousado, ali, na banca de trabalho d’ela, e desfruto da delicadeza das palavras, palavra atrás de palavra. Logo aqui, o Aquilino, a cavalgar no seu cavalo de pau, e, mesmo de fugida, apanho a luminosa chapada da língua que é a nossa, laborada em discorrer elegante e vernáculo, como água límpida, por vezes de cores estranhas, a rolar sobre calhaus. Ao lado, o Zé Gomes – tanto Zé Gomes, e sempre tão pouco Zé Gomes – e, na memória das palavras, a pergunta o que torna as coisas belas?, com o aristocrata que em cada um de nós mora a deitar a cabecinha de fora. Vizinhos, os da poesia. Neruda, Guillén, Manuel da Fonseca (ah! Manel, Manel), o professor António Gedeão gémeo do poeta Rómulo de Carvalho. E o Brecht, que salta do teatro, para o romance, deste para as poesia e as pequeninas histórias de um senhor K. E o Zé Saramago, com a saudade amarga da sua presença amiga e das suas dedicatórias fraternas, camaradas.
Recupero! De estar zangado? Não! Era o que faltava…
Recupero da tristeza, talvez um pouco irritada, por haver gente assim. Tão outra. Tão sectária de nada. Ou sectária de ser violentamente, brutamente, contra o que não entende porque se foi tornando incapaz de tentar, ao menos de tentar..., respeitar o outro-que-não-ele-e-os-iguais. Gente tão cega, tão vesga, tão agressora. Tão indigente.
Encho-me da delicadeza dos poemas, da elegância e vernáculo das prosas, do amor e respeito pelos outros que encontro em tantos e tantos, como podia ter procurado na música ou só no passeio a dois pisando o mesmo chão. De mãos dadas. Encho-me do que procuro, e por isso encontro, em (quase) todos. Talvez mais do que em todos nos analfabetos, nos humilhados e ofendidos. Mas solidários. Mas solidários.
Não esqueço. E não me quero habituar. Não quero ser vencido pelo costume. Não quero encolher os ombros e deixar andar. Não! Como li, agorinha mesmo, no Aquilino, quero-me, até ao fim, “inveterado endireita do mundo torto”. É que ele está mesmo torto, e injusto, e cruel, e sempre contra os mesmos tantos para proveito dos mesmos poucos! Ou não?...

4 comentários:

Maria disse...

Este post não é comentável. É para ler e reler...
... e é tão bonito!

Abraço-te

cristal disse...

Que bom ler-te nesta breve espreitadela aos blogues. Foi tão bom saber que continuas tão tu que não pude deixar de, mesmo à pressa, dizer-to. Mantenhas

Anónimo disse...

"Inveterado endireita de um mundo torto" ... só podia ser do grande e querido Mestre Aquilino. E assenta-te que nem uma luva.

Campanica

GR disse...

Adoro ouvir os teus pensamentos que fazes em voz alta.
Direito nasceste e continas, Sempre! o mundo esse, continua torto!

Um gd bj,

GR