faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

croniqueta sobre estórias em papéis perdidos e uma fotografia não encontrada

Há 25 anos, em Moçambique, escrevi umas estóriazinhas e fiz uma fotografia. Para quebrar a aridez do trabalho, ou melhor, para doutra forma "agarrar" o que vivia. Intensamente. Em Lichinga, em Metângula, lá no norte, perto do Niassa.
Estoriazinhas que recordo quando me preparo para partir para Moçambique. Com tudo tão diferente. Diferenças também em mim mas, se acaso não é ilusão minha, sou o que menos terá mudado.
Não vou ter a alegria de ir para casa de amigos, com quem tinha uma relação quase fraterna, não vou ver, na televisão, Samora Machel fazer um dos seus gestos espectaculares, com o derrube de letreiros que dividiam moçambicanos que enchiam uma plateia, não irei a Lichinga e Metângula...
À excitação de um regresso, passageiro mas regresso, junta-se a tristeza do que não vou encontrar. Outras razões para alegria encontrarei.
As estoriazinhas que então escrevi estão entre os papéis em que naufrago. Encontrá-las-ei quando não as procurar.
A fotografia, essa, não estou certo de a vir a encontrar.
Era do que chamei "monumento a uma guerra colonial". Entre os ramos de uma enorme árvore africana, perto de Lichinga (ou de Metângula?), lá no cimo e sob os focos de um sol que os fazia brilhar, os restos de uma viatura do exército português que uma mina fizera saltar.
Pedi para pararem o carro e, no meio do maior silêncio, fiz a fotografia. Há 25 anos. Veio no rolo para Lisboa, mandei-a revelar, vi-a, várias vezes, sempre emocionado. Não a encontro.
Mas não desisto, apesar da pouca esperança.
Outras trarei desta viagem. Até porque vou acompanhado... de companheira que fotografa e não perde papéis avulso e outros documentos!

«De todas as sementes lançadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas»
- legenda da gravura do José Dias Coelho, como me foi lembrado por um amigo.
E como há quem não queira que haja searas, tudo se faz para apagar da memória colectiva que houve mártires que derramaram o seu sangue. Não o consentiremos... porque cremos nas searas. E queremos as searas!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Hoje, agora...

Chove,
os pingos, grossos, tamborilam nas claraboias.
À volta,
tudo está cinzento, triste, magoado.

É o som e é a cor do dia,
mas, mais que o som e a cor do dia em volta,
é como oiço e vejo, bem cá de dentro, o som e a cor do dia,
oiço a chuva e vejo(-me) cinzento, triste, magoado.

19 de Dezembro,
hoje de 2007,
19 de Dezembro que também é,
- e que, pelo que foi, sempre será -
19 de Dezembro de 1961!

Mas, hoje, o dia 19 de Dezembro é de 2007!
E hoje, agora, há que lembrar
mas, e depressa, há que reagir,
há que continuar a vida e a luta que é a vida.

Começo a ouvir os pingos grossos de chuva como música,
ensaio tons para pintar de outra cor o cinzento do dia,
não deixo o pastor que chora pintar doutra cor as papoilas dos trigais,
estou, aos poucos, a trazer o vermelho vivo cá para dentro
... é o seu lugar!

Um dos últimos desenhos de José Dias Coelho


19 de Dezembro de 1961!

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.
Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.
- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)
- Comes outra fatia, camarada?
- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...
Através da janelado quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.
Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.
Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.
Mário Castrim
(«Viagens», edição da Célula do PCP da Renascença Gráfica/Diário de Lisboa, para a Festa do Avante/77)

Com um apertado abraço de reconhecimento ao Fernando Samuel e ao Cravo de Abril

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

ninguém dá lume ao Jorge Palma

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

De outros...

E porque:
pedras contra canhões disse...
se tivesse de escolher uma foto para ilustrar este conto, seria esta. muito embora, claro, dentro dessa casa não se passem destas tempestades.
apenas a imagem. sem outras ideias.
.
(comentário a esta foto, e sua legenda,
em foto&legenda)

De outros...

Thursday, December 13, 2007

o mito segundo narciso
quando ela morreu, o mundo, infelizmente, não cessou. e os dias passavam agora penosos, eras a cada lua. na floresta onde caçavam, vagueava inconscientemente, entorpecido. havia um vazio nos seus olhos que só viam saída nas lágrimas cheias que pendiam, permanentes.


quando ela morreu, o mundo, infelizmente, continuou. e ele, perdia a continuidade do seu ser, um pedaço de alma, como um pedaço da vida. narciso arrastava os pés por entre as árvores. eco seguia-o sentindo a dor.


nas sombras oblíquas da floresta, por onde haviam passeado as musas nas horas matinais que se iam e por onde hades passearia nos instantes que se seguiam em busca de perséfone para se saciar, jazia um lago que reflectia o céu por entre folhagens. quando caiu, debruçou-se, infinitamente triste, sobre as águas espelhadas e serenas.


ali, mesmo ali, jazia a imagem gémea dela. não mais desviou seus olhos da água que chorava com ele. eco, bela, olhou seu corpo moribundo e chorou. no lugar onde narciso adorou a sua irmã, deixou uma flor que ali cresceu.



(posted by pedras contra canhões at 10:52 PM em open-source poetry.blogspot.com)

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Porque!

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

ninguém dá pela vida
porque
ninguém dá sangue

(isto é o que se pode deduzir de um cartaz, ali ao Lagarinho...)

domingo, 16 de dezembro de 2007

apeteceu-me, pronto!,
publicar esta foto do Nuno Abreu...

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

ninguém dá nada por mim
ninguém dá nada por ti
ninguém dá nada por ele
ninguém dá nada por nós
ninguém dá nada por vós
ninguém dá nada por eles

Pinçamentos, sintenças e afodismos

ninguém dá horas
(nem o relógio de pulso, nem o sino da capela)

sábado, 15 de dezembro de 2007

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

ninguém dá avanço ao adversário*
* - a não ser o Juventude Ouriense ao FêCêPê
E hoje por aqui me fico, porque
ninguém dá mais de 2 por dia

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

Digo eu, debaixo do duche, o tempo não dá para nada!
E logo me lembro do que ele, o homónimo Faria, anda p'raí a escrever danadamente, a partir da cesariana das neves sentença de que não há almoços grátis, que é digna dos tribunais plenários de antanho, mas não tão antanho como isso porque eu os vivi.
Vai daí, com a devida informação a quem tem direitos de autoria (e imprimatur genérico por ele concedado), passei o resto do dia em catárt(astróf)ica anotação.
Sai o primeiro afodismo, que outros virão vindo(-se):
.
ninguém dá a César o que é das Neves

"Pinçamentos, sintenças e afodismos"

Amigos meus (alguns só conhecidos) insistem na ideia de que tenho muitas vitudes e outras qualidades para mais isto e mais aquilo. Mas logo acrescentam que as terei apesar de ser comunista. Pelo que nem isto nem aquilo ou só um bocadinho. E a levar porrada em todas as oportunidades.
Hoje, apetece-me escrever o que tantas vezes sinto e penso. Sou o que sou e como sou porque sou comunista. Ponto final.

sábado, 8 de dezembro de 2007

"Desfruitando" e cronicando

Aqui estou eu, com os meus maduros anos colhendo o doce fruito (ando com esta do Camões metida na cabeça, que é que se há-de fazer?!) desta manhã esplendorosa. Agora posto em sossego, que talvez melhor se dissesse em ressaca, depois de uma noite... agitada.
E sobre ela reflectia. Sobre a noite e o seu final. Que intempestivo foi, com abandono de agradável jantar de empresários do concelho (onde estava como membro da Assembleia Municipal e empresário, pois então), e aproveitamento da deserção para ir assistir, num "café da noite", à representação de textos a que dei as versões finais. O que não estava no programa das "minhas festas".
Mas é que ele há coisas!
Quando, no jantar, começavam as hostilidades pós-repasto que iriam desembocar numa "oração de sapiência" de Bagão Félix sobre a empresa, que até estava com curiosidade de ouvir, eis que a preliminar entrega de prémios, medalhas e essas coisas, aos empresários distinguidos no ano, começou com um relambório a justificar a entrega da 1ª medalha de ouro da ACISO (associação do comércio, indústria e serviços de Ourém), como se fosse um relato histórico com início em 13 de Maio de 1917 e uns pastorinhos que viram (não foi que teriam visto... foi que viram!) uma senhora em cima de uma azinheira, mais brilhante que não sei quantos sóis, e que disse coisas(teria dito, digo eu, até porque tem havido alterações ao que dito foi que teria sido dito...), coisas que depois foi repetindo até Outubro e por aí fora.
Primeiro, fui apanhado de surpresa, a seguir tomei-me do siso que estaria faltando ao aciso relato em jeitos de crónica histórica, e abalei porta fora. Nem a tempo de saber quem iria receber a tal primeira medalha de ouro dos empresários oureenses, mas já confirmei que foi o santuário. Pois... empresário com medalhinha de ouro.
Resmungando, melhor diria blasfemando, fiz os alguns quilómetros entre para lá de Boleiros e Ourém, e aproveitei para ir ao tal "café da noite" ver a dita representação. E cheguei a tempo de em tudo participar. Em mais uma manifestação de ausência de respeito pelos outros, com o espaço dividido em dois públicos, um desinteressado, perturbando, agredindo com "bocas" e aplausos soezes o que não ouviam, outro interessado, a ver e a fruir da esforçada (naquelas condições...) e excelente interpretação de "o cliente nunca tem razão" e "vende-se coração".
E ainda sobrou para, na casa de banho dos deficientes, se juntar o grupo todo a fazer o "briefing" (isso...), para que também fui convidado e em que participei com todo o gosto, tentando ajudar a levantar alguns "estados de espírito", alguma moral que estava, injustamente, pelas ruas da amargura.
Cá por mim, gostei de ouver, assim dito e representado, o que teve a minha redacção final. Naquelas condições, foi excelente. Noutras, mais excelente será.
.
E o sol aquece-me os pés desclaços e a alma. Vamos lá a ver o hóquei daqui a bocado, lá para o fim da tarde.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

De um livro "em estaleiro": quando o assassinado é "culpado" do assassínio...

continuação
«Mas, se foi este o libelo acusatório, isto é, acusação, com base na legislação, para os factos provados, suas agravantes e atenuantes (isto na “tradução” de um leigo…), a sentença não deu como provada a intenção de matar para poder convolar (o que quer dizer passar rapidamente de um estado a outro) a acusação do crime previsto punido pelo tal art.º 349.º (homicídio voluntário) para a do crime do art. 361.º do mesmo Código, que é apenas o de “ofensas corporais voluntárias de que resulta privação de razão, impossibilidade permanente de trabalhar ou a morte”.
(...)
Se o libelo acusatório referia 4 agravantes – espera, noite, especial obrigação e arma – o tribunal militar decidiu que não existia a agravante espera… “pois até à chegada da vítima o réu não formulou o propósito de sobre ele disparar” o que é verdadeiramente inacreditável, pois, existindo a espera, se poderia perguntar como formularia o réu o propósito de disparar e de matar (ou de causar ofensas corporais…)? Disparando tiros para o ar, ou treinando-se atirando sobre outros alvos que não Dias Coelho?
Mais inconcebível ainda considero o apagamento deste agravamento por, relativamente ao objectivo deste meu escrito…, me considerar testemunha privilegiada para a agravante “espera”, pois dela tive a percepção e sensibilidade quando, pouco antes das 20 horas circulava pelas cercanias para tomar posição para o encontro com Dias Coelho no lugar antes marcado.
Por outro lado, o mesmo tribunal acrescentou quatro atenuantes, que deu como provadas, o bom comportamento anterior do réu;
. a confissão espontânea;
. o possuir vários louvores;
. o ter agido, com os seus disparos, para evitar que se frustrasse a missão que estava desempenhando.
Custa a acreditar!
Quanto à primeira “atenuante”, não resisto a usar, em resumo que me imponho, parte da argumentação do advogado da recorrente, invocando imagem comparativa com a quadrilha de Al Capone: «só por ridículo, com efeito, se diria que um gangster “filiado” em semelhante quadrilha, e em ablativos do seu primeiro assalto, ou do seu primeiro assassinato, pudesse considerar-se bem comportado pela simples razão de ainda não ter nem roubado nem morto ninguém.»
A confissão espontânea não existiu, até porque, entre outras coisas, o Tribunal deu como provada a voluntariedade do disparo e o réu negou a voluntariedade do disparo… mas confessou (e não espontaneamente!) o que era de todo impossível de negar: que disparou! E, em tudo o mais, foi falso e mentiroso. Como se comprovou.
Relativamente à atenuante “louvores” que o réu possuía, chega a ser surrealista que eles tenham sido concedidos pela PIDE, e é escandaloso que o primeiro louvor tenha sido atribuído a 27 de Dezembro de 1961, oito dias depois do crime de assassinato para que serve de atenuante. Ler esse louvor define bem a instituição criminosa que era a PIDE e como era servida por criminosos. Apenas o deixo em rodapé[1].
Por último, a atenuante de que o réu teria disparado para evitar que se frustrasse a missão que executava nem merece que com ela se percam muitas palavras. O réu teria disparado dois tiros, o segundo à queima-roupa (!)[2], sobre um homem agarrado por um seu “colega”… para que a sua missão não se frustrasse! A não ser que a missão fosse a de matar um homem por ser suspeito de pertencer ao Partido Comunista Português. Quase só faltou acrescentar que a culpa do assassinato foi do assassinado, de Dias Coelho por ter tentado fugir à prisão e, assim, impedir os agentes da Pide de cumprirem a sua missão de o prenderem.
A cada passo me confronto, ao recordar ou ao informar-me sobre o “caso Dias Coelho”, com questões verdadeiramente essenciais.
E não termino esta introdução ao que era minha intenção inicial de escrever sobre os meus 50 anos de economia e militância, sem sublinhar o “pequeno pormenor” deste julgamento e desta sentença de que me aproveitei para contar o dia 19 de Dezembro de 1961, ter sido a seguir ao 25 de Abril de 1974, com finalização em 1976/princípio de 1977, tempos de que memória dos mais novos está envenenada com “informação histórica” completamente contrária ao que estes factos revelam.
A luta de classes nunca deu tréguas em Portugal (nem noutro lado qualquer) e os fautores desta sentença serviam uma classe, a mesma que era servida pelos agentes da PIDE, que prendiam, torturavam e matavam, e que, quando a relação de forças obrigou a que fossem julgados, tiveram quem os defendesse em vez de os julgar, ao menos com neutralidade na aplicação das leis. Para aqueles juízes, acima de tudo, antes de tudo, José Dias Coelho era comunista!

.
[1] “…louvo o agente de 2ª classe António Domingues porque, cumprindo sempre com zelo, dedicação e espírito de sacrifício, as missões que lhe foram confiadas, contribuiu grandemente para que fossem capturados elementos subversivos qua na associação secreta denominada Partido Comunista Português desenvolvem larga actividade directiva e cuja acção representa ameaça e perigo para a ordem social estabelecida”.
Ordem de serviço nº 361/61 da Pide, assinada por Homero de Matos.

[2] - A morte de Dias Coelho
I. O disparo sucessivo de dois tiros de um agente da Direcção Gerai de Segurança sobre um suspeito, militante do Partido Comunista Português, sendo o segundo tiro com a arma muito próxima da roupa da vítima, perfurando a bala o esterno, a cartilagem da 5ª. costela, o pericárdio e o coração, provocando a sua morte, consubstancia a prática de um crime previsto e punido pelo artigo 361 § único do Código Penal de 1886 (ofensa corporal que produz a morte).
(revista Sub Judice 25 - Justiça e Memória, Almedina)

De um livro "em estaleiro": O assassinato de José Dias Coelho... mais um "único" crime da PIDE?

Ontem, no Público-P2, havia larga referência, com chamada na primeira página, ao assassinato, há 42 anos, do dr. Ferreira Soares, pela PVDE, depois PIDE, depois DGS, pela criminosa polícia política do fascismo. No seu blog - o tempo das cerejas -, Vitor Dias colocou um post que, pela sua oportunidade e pertinência, transcrevi em o anónimo do séc. xxi.
No entanto, ficou a roer-me cá por dentro aquela qualificação de "único", embora interrogativa, para o crime, e a insídia de que assim teria o PCP construído mitos, criando os seus mártires.
Tudo isso é tão baixo!
Único... o assassinato de Ferreira Soares? Não resisti a antecipar-me à que será a eventual publicação no próximo ano de um livro que estou a preparar, e a transcrever um curto trecho que ficará entre as suas primeiras páginas:Sei, sei hoje, que este acontecimento, que o assassinato de Dias Coelho, aquele dia 19 de Dezembro de 1961, se tinha gravado bem dentro de mim.

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«(...) É certo que frequentemente referia o episódio a camaradas e amigos, e que, de vez em quando o lembrava, ou ainda que, nalguns dias 19 de Dezembro e quando o enterro de amigo ou familiar me levava ao cemitério de Benfica, ia visitar a pequena campa do camarada, onde um quase desapercebido grupo escultórico de uma mãe amparando um filho (uma “Pietá”) assinalava o local.
É certo que, depois do 25 de Abril de 1974, segui atentamente o julgamento dos pides que o assaltaram e assassinaram, e senti a vergonha das sentenças. Mas também é certo que, talvez por pudor, por não pretender qualquer protagonismo em tais circunstâncias, não tomei posições, embora ao mesmo tempo sentisse alguma pena por ficar completamente à margem de acontecimento de que fora testemunha (ou quase).
Mas tive a prova da enorme importância que tem para mim o assassinato de Dias Coelho a partir de dois factos.
O primeiro foi o de, ao acordar de uma anestesia, parte de uma delicada intervenção cirúrgica a que fui submetido em Julho de 2006, ter sido dos acontecimentos da minha vida que mais depressa me vieram ao consciente, com todos os seus pormenores.
O segundo foi o facto de, ao decidir fazer esta espécie de “balanço” da minha vida, ou melhor, do meu meio século de economista e de militante do Partido, antes mesmo da lembrança do encontro com Carlos Aboim Inglês, em Junho de 1958, me ter lembrado do dia 19 de Dezembro de 1961, e o primeiro documento que procurei (embora não tenha a intenção de fazer muitas buscas documentais, e querer, sobretudo, contar aquilo de que me lembro e como o vivi) foi o pequeno caderno O caso Dias Coelho, da autoria de Fernando Luso Soares, advogado de Maria Tereza Tengarrinha Dias Coelho, assistente no recurso para o Supremo Tribunal Militar da sentença do julgamento de António Domingues, o assassino confesso de Dias Coelho.
(...) com esse caderno, e a possibilidade de conhecer a vergonhosa sentença de que se recorria, fiquei a saber, em pormenor, o que acontecera naquele dia.
Dizia o libelo acusatório:
«O Ex.º Promotor de Justiça (…) acusa o réu António Domingues (…) de ter cometido um crime previsto e punido pelo art.º 349.º do Código Penal, concorrendo as agravantes 11.ª (espera), 25.ª (noite) e 28.ª (arma) do art.º 34.º do mesmo diploma porquanto, no dia 19 de Dezembro de 1961, os então agentes da pide António Domingues, Manuel Lavado e Pedro Ferreira (…) foram encarregados pelo seu chefe de brigada da mesma polícia, José Gonçalves, de localizar e prender José António Dias Coelho, também identificado nos autos e militante do Partido Comunista Português. Para tal efeito, deslocaram-se à zona da Rua dos Lusíadas, desta cidade de Lisboa, onde se colocaram já de noite, pelas 19 horas, a uns cem metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido José António Dias Coelho. Tendo este passado pela Rua dos Lusíadas cerca das 20 horas e tendo-se apercebido até da presença dos referidos agentes, começou a correr pela mesma artéria, derivando depois para a Rua da Creche no sentido do Largo do Calvário. Em sua perseguição correram os agentes referidos. Já na Rua da Creche, sensivelmente em frente do nº 30 de polícia, foi o José António Dias Coelho agarrado pelo agente Manuel Lavado. Entretanto, chegou junto dele o réu que desfechou dois tiros de pistola marca “Star” – calibre 7,65 mm, examinada nos autos e que lhe estava distribuída – sobre o referido José António Dias Coelho.»
continua

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Há muitos anos, tantos que somam umas boas décadas, havia uma colecção de cadernos, creio que se chamava “mosaico”, que publicava contos de autores conhecidos.
Muito jovem, lia-os com sofreguidão e de alguns me lembro com frequência. Ainda agora, neste fim-de-semana, ao olhar para uma capa de um semanário, o que me veio à memória foi um conto sobre “o homem que deixara de dormir”, que estou quase quase certo que era de Pitigrilli mas não consegui confirmar.
Contava esse conto, a que talvez eu acrescente ou diminua uns pontos, uma entrevista que uma jornalista fora fazer a um homem que estava a ser famoso porque… deixara de dormir.
A jornalista começou, naturalmente, por perguntar, ao homem que deixara de dormir, porquê essa sua decisão. E o homem respondeu que resolvera deixar de dormir porque achava que dormir era uma perca de tempo, que era assim uma espécie de antecipação da morte, ou uma morte a prestações. Perguntado, depois, como conseguia ele esse objectivo, o homem explicou que fora um esforço de vontade, algum treino, alguns truques.
A jornalista, interessada no tema, continuou a colocar perguntas, a fazer comentários, e a conversa parecia animada quando, no final de um dos seus comentários, talvez um bocadinho longo, a jornalista perguntou, ao homem que deixara de dormir, se não tinha saudades de uma boa soneca. Não teve resposta. Estranhou. Levantou os olhos do caderno onde tomava notas, olhou mais atentamente o homem, no sofá em que estava amodorrado, e percebeu: o homem adormecera!

Que me perdoe o Pitigrilli, se acaso é dele o conto e se puder…, porque o conto só mais ou menos seria assim.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Como se fosse ficção (do cordel)

Estória de um adormecer e de um acordar
com gato
Regressara tarde (isto é, a más horas) da digressão hoquista. Nevoeiro e paragens necessárias tinham atrasado a chegada.
Despi-me na casa de banho para não perturbar o sossego em que já estava posta a casa e a bela, mais ou menos como Inês antes de chegarem os horríficos algozes, ou carrascos, que deram cabo dela. Carrasco que, neste caso, seria eu, ao dar cabo, mas só do sono!, da minha Inês, que nem Inês se chama….

Quer dizer, deixando os Lusíadas para outra altura…, enfiei-me na cama sorrateiramente, com a grande preocupação de não incomodar quem nela dormia. Para não agravar as coisas…
Adivinhava o adormecer resmungado “…nunca mais chega… já estou cheia de sono… vou mazé para a cama… amanhã conversamos… vai ouvir das boas… isto dos hóqueis! … ainda por cima não telefonou”.

Pois não. Não telefonara. E não fora por esquecimento. Conhecedor dos hábitos da casa e dos seus moradores, receara, quando me apercebi do atraso, que já fosse tarde demais e já ela tivesse tomado a decisão de ir para a cama… e, se estivesse a começar a adormecer quando tocasse o telefone, seria pior a emenda do telefonema que o soneto do atraso na chegada.
Em resumo, retomando o contar e deixando as reflexões e justificações para a conversa matinal, enfiei-me na cama sem minimamente perturbar o sono de quem já lá estava.
E rapidamente adormeci, até para recuperar dessoutro atraso, do atraso relativamente a quem já teria o avanço de umas boas meias horitas de sono.

Só fui acordado, mas pouco…, pelo levantar dela, cauteloso para não me incomodar – não fez mais que retribuir o que eu já tinha feito ao deitar-me…–, e resolvi fazer o que se faz nestas circunstâncias, virar para o outro lado…só mais um bocadinho!

Foi nessa altura que me apercebi de movimentações na cama que é de nós dois mas que um terceiro também considera sua. O senhor Mounti, esse mesmo, hesitava e deambulava. Hesitava entre acompanhar a dona no seu levante ou acompanhar o dono em mais uns restos de sono. Deambulava, em cima da cama – e de mim! –, enquanto hesitava.

Eu, cá pelo lado, na minha decisão de ficar mais uns quartos de hora, procurava a posição mais confortável. E estaria quase a encontrá-la, quando, numa das voltas que estava a dar ao corpo, coloquei o pé de maneira que o dito Mounti achou a adequada para se aninhar. Encostou o corpito todo à concha do pé e decidiu-se: é aqui que fico!
E pronto, tive eu de parar ali, assim naquela posição, tive eu de parar, ali e assim, com a busca da que poderia ser a minha posição e deixei-me ficar, sossegadinho, com o gajo-gato aconchegadíssimo ao meu pé.

Bom, para acabar a estória, em vez de quartos de hora alonguei para meias-horas o que me poderia ainda faltar de sono. Por culpa dele. Que ainda lá ficou quando me levantei e vim para aqui fazer desta. Que assino

Sérgio Ribeiro

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Assim vão as coisas...

Artigo que mandei para o jornal da minha terra e que acho que, como prosa, me não me saiu mal:
Assim vão as coisas…

… e, por assim irem as coisas, há quem desista, há quem desespere, há quem procure “soluções”, há quem nem saiba que fazer…

Mas, por assim irem as coisas, o que me parece que há a fazer é redobrar os esforços para tentar perceber porque é que vão assim as coisas. E, consequentemente, ou coerentemente, procurar contribuir para que as coisas assim não vão.

Pelo meu lado, tento. Mas, confesso que, muitas vezes, me tenho de lembrar do poeta. Daquele que terminou o seu poema gritando (mais ou menos…) que a raiva cresce e a esperança se multiplica.

Então não é que andei, com mais umas centenas ou milhares de gente que pensa como eu ou próximo do que penso, a estudar o País, a fazer trabalhos, a juntar e a procurar tornar consistentes dados e conceitos (dos ditos operativos), fizemos o que as regras (as nossas, por nós adoptadas) mandam, juntámo-nos todos numa grande sala, éramos quase dois mil, tínhamos convidados (muitos, embora nem todos os convidados tenham ido, saibam lá eles porquê…), e tínhamos também os que, muitos!, não sendo nem delegados nem convidados, estavam lá porque queriam estar e participar, assistindo e ouvindo e aprendendo, e chegámos a uma proclamação e a uma decisão (nossa, mas decisão a todos endereçada)… e não é que nada ou pouco nos ligaram?!

Estarão no seu, deles, direito, no direito de não nos ligarem a nós, a nós que somos o que somos. Mas eu fico assim. Fico aborrecido, para não dizer pior! E procuro romper os muros do silêncio. O que nem me é muito difícil porque, ao longo da vida, muitas vezes me vi obrigado a este exercício.

E, por isso, venho juntar-me a outros como eu, ou de mim próximos, que acharam estranho, mais: escandaloso, que no mesmo jornal, um jornal de referência, como se costuma dizer, um jornal público, no dia seguinte a todo o trabalho que tivemos, de meses, e de gentes, e de estudo, e de reuniões, e de proposta, e de discussão, e de proclamação, tivesse dedicado pouco mais de uma meia centena de linhas ao discurso de encerramento feito pelo nosso secretário-geral, enquanto que, repito, na mesma edição do mesmo jornal, quase uma centena de linhas fosse preenchida com a referência e as citações que um outro líder partidário proferiu, por tal sinal de um partido com menos votos que o que chamo nosso porque meu é, num jantar para comemorar uma data. Não está bem… ou talvez esteja, lá a critério deles.

Fiquei bera, pronto. Achei injusto. Não para mim, não para nós, mas para quem não é informado como tinha o direito a sê-lo. E que se fica. Assim…

E não resisto a deixar um parágrafo do que tive a oportunidade de dizer lá no tal encontro final de todo o nosso trabalho, que durou dois dias, sobre umas coisas chamadas produtividade e competitividade:

“…o mesmo número de horas de trabalho, com a mesma intensidade de trabalho, produz diferente valor acrescentado num outro contexto, quer de meio ambiente ou infra-estruturas, quer de organização do processo de trabalho, quer em outras condições materiais e financeiras exógenas ao processo produtivo. Por exemplo, em termos de “economia de mercado”, o diferencial entre os valores acrescentados por Manueis e Marias com as mesmas horas de trabalho em França e em Portugal, mostra que o produto desse tempo de trabalho é mais competitivo em França do que em Portugal, ainda que os salários em França sejam substancialmente mais elevados. De onde se concluiria que os mesmos Manueis e Marias têm maior produtividade em França, apesar dos salários serem mais elevados que em Portugal. Porque as outras determinantes são… outras! (…)”

Só tinha 7 minutos (havia muito mais gente que queria falar e dizer destas e doutras coisas, sobre questões económicas e sociais), mas fiquei satisfeito por as ter dito, depois de muito as ter estudado e pensado. E não me venham dizer que isto são… rabujices da idade de quem quer andar a dizer coisas. Estavam muitos mas muitos, mas mesmo muitos, muito mais novos que eu.

Será por isso que não querem que se saiba?!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Um grande cansaço...
e a recordação de um muito velho escrito (dos do cordel):

Dói-me este silêncio em volta da minha luta
dói-me este silêncio em volta da luta
dói-me este silêncio em volta
dói-me este silêncio
dói-me!

(talvez mais do que todos os silêncios... dói-me "este" silêncio)

Mas a luta continua. Contínua!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

2 que sairam assim... de 1 vezada

O falso e a idade
(esta é de… falsário)

As falsidades
… as falsas idades
As universidades
… as universais idades
As adversidades
… as adversas idades
As contrariedades
… as idades ao contrário:

estou a um mês de a fazer 27 anos!
(estou um homenzinho...)






Quando não estás

Quando não estás aqui
… faltas-me
Às vezes, estás aqui
… e faltas-me
(mas é só às vezes,
e raras são as vezes).

Pelo que és para mim
… faltas-me
… quando comigo não estás.


21.11.2007
O teu rosto
o teu esboço

o teu braço
o teu abraço

contigo, o passo
contigo, o nó
... muitas vezes, o nós

em nós, o traço,
em nós, o laço,
o mais largo
troço de vida,
... tua e minha!

refazendo o que em cada dia - e madrugada - se refaz

domingo, 18 de novembro de 2007

Uma janela em Amsterdam... e não só

Esta foto teve alguns comentários que, a meu juizo, são muito curiosos. Aqui e no anónimo do séc. xxi.
E eu, calado e regaladinho, a ler os comentários diferentes de alguns amigos/as, não é?
A fotografia desta janela foi uma daquelas coisas boas que, às vezes, aparecem na vida cá das gentes...
.
Recuperava de quilómetros de andarilhança, no cimo do meu beliche, naquele quarto não sei se de reformatório se de coisa parecida, e atirei uma vista de olhos lá para fora para ver como estava o tempo. E, pelos olhos dentro, entrou-me uma visão parecida com esta que vou reproduzindo.
Quis guardá-la e, para isso, fiz um percurso agitado até conseguir dispor da máquina de fixar momentos, depois tentei escolher o melhor ângulo, fazendo acrobacias e contorcionismos que já não são para a minha idade... e saiu isto. Para mim... melhor que a encomenda!
Quis, e quero, mostrar.
Ora, como diz a Justine, num dos seus judiciosos comentários, há comentários muito diferentes e significativos, e ela até enveredou pelo tema das sensibilidades de género. Talvez fosse um caminho...
Cá por mim, cheguei a elucubrar sobre as janelas... enquanto vistas para fora e vistas de fora para dentro, sobre o que elas mostram e o que elas escondem. E esta, particularmente esta janela do "hotel" de Amsterdam, desafiava-me para essas elucubrações... mas embrulhei-me e desisti. Por agora.
Por agora, e entrando nessa do género - embora não seja o meu género! - apenas deixo dois comentários, nesta cronicazita, sobre os comentários vindos do lado do... meu género.
O Samuel ironiza com a sua inveja por a janela não ser sua. Só lhe dou razão pelo que a janela permitiu fixar de um momento em Amsterdam, e esse foi meu e acho que, sim, senhor, merece "inveja". Não por ela, janela, que até tinha um vidro partido, não estava lá muito bem limpa (o que terá ajudado aos efeitos fotográficos), e fazia parte de um conjunto (interior) pouco "invejável". Mas as janelas fazem parte, também, parte de um conjunto que lhes é exterior e esse... bem, bem, não me vou embrulhar outra vez. Por agora.
Quanto ao PG, que lhe hei-de dizer sem entrar em conversas "sérias"?
Essa conotação de Amsterdam com "outras janelas" (mehor - ou pior! - vitrinas, montras...) e com outras coisas, podem dar algum sal e pimenta à imagem da cidade mas ela, cidade, não só não precisa como as dispensa e não as merecerá. Desta vez não calhou passar pelo "red light", e não foi por não ter andado quilómetros, léguas, maratonas..., e até me parece que senti melhor a cidade sem esse infeliz folclore.
Mas... adiante, até porque estou a pensar nas excelentes fotos que o tão sensível fotógrafo que se assina com as duas iniciais faria para dentro de algumas janelas de Amsterdam (essas, por exemplo), ele que tão bem capta o corpo, a face, o humano, as situações.
.
Amsterdam... uma cidade para fotografar. Bem agasalhado!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Com saudades de por aqui viajar... e vossas!

Quando, depois das visitas ao museu Van Gogh,
e à casa Rembrandt,
e ao museu da cidade,
e de tanto e tão belo termos visto,
quando, equilibrado no beliche da espécie de hotel onde ficámos,
usei a máquina fotográfica para fixar a imagem que queria guardar,
e ela me devolveu esta desejada (mas inesperada...) composição,
nasceu em mim um desejo dos raros que nunca tive,
o de pintar!

sábado, 10 de novembro de 2007

Já depois de encerrada a xafarica, ainda dei uma volta antes de dar as voltas às chaves que encerram tudo deixando-nos de fora e de partida. Até ao nosso regresso.
E, procurando um "danado" que me anda a faltar aos encontros, vim encontrá-lo em sítio onde raro o procuro, e por onde também s'alberga.
Lá estava, com última presença em dia chamado de fiéis defuntos. Com esta "sentença" por oferta:
.
sentença
hão-de morrer os poetas, como morrem os outros
e os loucos. e tu, que és só e tudo o que és,
hás-de morrer não tarda, a bem ou a mal, por bem
ou por mal. matar-te-á o tempo, se nada antes. s. d’o.
.
(em almanaque de ironias menores)




"Sentença" com décadas
de vida:
.
é pelo S.Martinho
que o homem sabe o que é
em-velho-ser


sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Apontamentos e historiazinhas do quotidiano - 5

Todos os dias,
no "expresso" das 14,
que vem de a 20/30 metros da qui,
da caixa que é geral e dos depósitos
(e outras coisas foi),
ele chega.
Para cumprir,
rigorosamente,
o horário:
almoço às 14 e 8!

Traz,
debaixo do braço,
o diário económico,
ou o jornal de negócios,
ou um jornal ou diário de notícias,
aberto na página económica,
que, agora, só de negócios é.

Vem,
sempre,
de casaco pelas costas
e gravata de botão desabotoado;
cumprimenta.
sorridente e simpático,
os que ainda não acabaram
o seu (deles) almoço.

Come lendo
ou lê comendo,
meticulosaamente.

Sai às 14 e 54, e está de regresso,
ao seu posto de trabalho,
às 14 e 58!

Todos os dias,
salvo sábados,
domingos.
feriados,
e nas férias do contrato individual de trabalho.

Nunca alguém
o viu constipado,
ou soube de outra inibição,
que o impeça de cumprir esta rotina.

É,
ou parece ser,
a vida
... dele

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 12 (e fim)

Agarrei-a por um braço, tentei que me olhasse. “Júlia!... que se passa?… porque não me disseste nada?... porque não me dizes nada?... que se passa?... diz-me tudo?”.

Respondeu-me com um sorriso triste. Talvez o único que lhe vi. Os olhos estavam baixos, mortiços, sem desafio. “’Teja quedo. Veja lá a sua mãezinha que deve estar quase a levantar-se…”.

Escapou-se-me para o abrigo do seu quarto. Quase logo (ou foi muito tempo depois?) voltou. Recuperada. A Júlia.

Passou por mim, parado onde me deixara, imóvel. Deu-me um pequeno encontrão. "Acorde! Vá mas’é p’rás aulas. A sua mãezinha está mesmo a levantar-se. Veja lá se quer que ela saiba mais do que já desconfio que sabe…”.

Quase me empurrou até à escada e fechou a porta comigo do outro lado.

Ao passar, no canto da cozinha, perto da porta de serviço por onde saíra, jvi uma mala e uns sacos atados com corda forte que já estavam preparados para a partida.

No autocarro, a caminho da faculdade, uma lágrima teimou em escorregar-me pela cara abaixo. Sei, hoje, que algo da minha adolescência acabava. Em definitivo.
.
.
______________________________________


Olhei aquelas três mulheres. A Júlia, a filha, a miúda, com os seus 12 anitos e tão parecida com a avó quando eu a conheci. Há bem 40 anos!

Pareceu-me ver, nelas projectado, um filme. Um filme em que eu entrava. Com um papel que não sabia muito bem qual era, qual tinha sido. Um papel que, estava certo, nunca viria a descobrir. Um filme que não era “cor de rosa” nem “negro”, um filme com todas as cores que a vida tem.
.
.
FIM... do que talvez venha a ser um capítulo
de uma história mais longa

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 11

“… até estava a dar muito boa conta do recado… Mas vai para França… vai ter com o Xico da Soutaria, que foi para lá há para aí uns dois anos mas que veio cá neste verão. Às escondidas. Parece que acertaram tudo… Vão casar. Vai amanhã. De comboio. Arranjou papéis e tudo … A rapariga é mulher danada!”

O meu pai, já afundado no sofá coçado e perfeitamente afeito aos volumes do seu corpo, mergulhou os olhos no jornal, não sem antes ter deixado a sua sentença, resmungada e quase inaudível, mas que andava à volta de qualquer coisa como ingratos e mal-agradecidos.

A minha mãe continuou, como se nada tivesse ouvido mas respondendo a um e dirigindo-se – parecia-me… – a outro. “Pois é! Vamos ficar descalços… Mas já esperava. Não foi surpresa. Ela tinha-me avisado quando fizemos o ajuste. É namoro antigo… e se calhar eles apressaram-se… É lá com eles. Que sejam felizes. Nós cá nos arranjaremos. Não é, filho?”. Levantei-me da mesa, dei-lhe um beijo e fugi para o meu quarto.

Era verdade, lembrava-me bem do Xico, com mais um ou dois anos que eu, companheiro de brincadeiras de cachopos e, depois, da bola e dos copos. Do que me tinha esquecido é que, entre miúdos, se dizia que ele andava de beicinho pela Júlia, que a queria para conversada. Depois, como se, para mim, ele tivesse crescido de repente, soube que abalara “de salto”, esse caminho feito por tantos e tantos jovens da aldeia, alguns antes de irem às sortes.

Mas estava em estado de choque. Incapaz de juntar duas ideias. Já não sai do quarto, como às vezes fazia quando tinha matérias para estudar. E se tinha!… mas não eram da universidade.

Dormi mal, sobressaltado. De manhã, ainda mais cedo que o costume, levantei-me excitado, nervoso. Não queria tomar qualquer iniciativa. Vi que tinha sido o primeiro a levantar-me. Demorei-me na casa de banho. Ela não foi ter comigo.

Não aguentava mais. Arranjei-me à pressa e procurei-a. Estava na cozinha, atarefada, numa grande (ou simulada) azáfama.
.
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(amanhã termina esta estória, episódio de um "livro na gaveta",
ficções... do cordel)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 10

A Júlia parecia cada vez mais segura de si. Cada vez mais controlava a situação. Um dia disse-me ”só não emprenho porque não quero… havia de ser bonito”. E riu-se!

Pelo contrário, eu estava cada vez mais obcecado, e havia obsessões que vinham juntar-se. Uma começava a tomar-me. Queria dormir com a Júlia. Deitar-me com ela na mesma cama e no mesmo sono depois de, saboreadamente, termos satisfeito os nossos insaciáveis corpos. Estava mesmo disposto a correr riscos. Ela ia adiando. “Um dia, talvez…”. Depois ria-se “... mas isso é só com quem eu casar… não q’eria mais nada!” E recusava que eu sequer entrasse, mesmo de dia, no seu quarto.

Estava a ficar desorientado. Andava na minha vida nova de universitário como um sonâmbulo. O que me valia era que, naquele tempo, o trabalho “a sério” só começava mais tarde, depois de “arrumados” os exames de admissão (de que eu dispensara) e outros da chamada “época de Outubro”.

Até que, de repente, no final de um dia cinzento do Outono lisboeta, a minha mãe, à mesa, ao jantar, disse que a Júlia se ia embora.

Assim. Como se fosse uma notícia indiferente, embora me parecesse descobrir um desconfiado espreitar para dentro da minha reacção. Talvez à espera de uma pergunta. Um talvez ansioso mas porquê?, talvez receoso da resposta.

A notícia fora dada como se se preenchesse um vazio, um silêncio à mesa que estivesse a incomodar.

Consegui controlar-me. Ou julguei que o fazia. O meu pai, calado, aparentemente desatento. Eram “coisas da cozinha”…

O silêncio tinha de ser cortado. Levei para a ironia que completasse o inevitável mas porquê?.

“Mas porquê?... partiu mais loiça que o regulamento permite?”. Com uma indiferença forçada. Com dificuldade de disfarçar e, talvez… sei lá, num tom que me trairia para quem quisesse confirmar suspeitas. Se é que havia…

Ela servia à mesa. Tirava e punha pratos. E fazia de conta que não reparara que se estava a falar dela e que as suas entradas e saídas, pontuavam as falas e os silêncios.

“Não, não! Pelo contrário… até estava a dar muito boa conta do recado…”

domingo, 4 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 9

Depois daquela quinta-feira, no resto das férias, vivi um período difícil. Complicado. De obsessão.

Todos os meus esforços, toda a minha disponibilidade, toda a minha organização de vida, tinham o objectivo de arranjar tempo e espaço para ficar a sós com Júlia. E repetir, em todos os lugares e qualquer que fosse a hora, os mesmos gestos nascidos do desejo.

Ela sabia-o, e geria com grande habilidade o que parecia incontrolável. Moderava impulsos e excessos. Evitava riscos e aventuras, criava condições inimagináveis para que os nossos corpos se encontrassem e misturassem. Apressada, furiosamente.
__

No fim das férias, no regresso a Lisboa, tudo se modificou. E tudo continuou.

A Júlia passara o “período experimental” e fora admitida ao serviço da casa, com aquele paternalismo que os “senhores de Lisboa” praticavam nas relações com a “gente” da terra. Relações em que também havia amizade mútua, que outra não há.

Mas era assim a vida de então.

E tudo mudou. E tudo continuou. Noutros espaços, não livres e abertos, com horários apertados, numa outra ainda mais difícil clandestinidade.

Na universidade, para onde entrara nesse ano, tinham-me colocado numa chamada “turma de empregados”, e as aulas práticas, a que não se podia faltar, começavam às 8 da manhã. Tinha de sair de casa pouco depois da 7, quando os meus pais ainda dormiam profundamente.

Levantava-me muito cedo, deslizava para a casa de banho, e muitas manhãs, quase todas as manhãs, era logo seguido pela Júlia, que ainda mais cedo se levantara e fora para a cozinha começar a labuta.

E eram manhãs loucas. Abraçávamo-nos quase com desespero, beijávamo-nos fazendo de cada manhã uma surpresa, num frenesim as nossas mãos trocavam de corpos e percorriam o do outro em todos os caminhos. Sentava-me na sanita e o seu corpo, rijo, belo, carnudo, fazia-se penetrar pelo meu sexo erecto, rolávamos na banheira ou nos azulejos do chão num abraço em que os dois corpos se misturavam com pijamas, camisas de dormir, toalhas, Sempre numa sôfrega correria, calando gargalhadas, amordaçando os gritos da explosão do prazer.

E a correr, bebido o leite e com a “carcaça” na mão, ia para rua e para o autocarro, enquanto a Júlia, com um controlo e uma eficiência espantosos preparava tudo para o acordar dos meus pais. Desde o apagar dos sinais das nossas “loucas manhãs” até aos pequenos-almoços e outras lidas.

sábado, 3 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 8

“E agora?, e agora?”, perguntava eu. Aturdido. Queria gritar que fora a primeira vez. Que nunca antes…

De um salto, a Júlia levantou-se. “Agora… toca a arrumar e a arranjar esta cama antes que os paizinhos cheguem… salta daí!”. Foi uma ordem, como outras se seguiram, tratando-me, por vezes, por tu.
.
Segura de si, tomou as rédeas do que havia a fazer, depois de um rápido roçar dos lábios pela minha cara e de um piparote cheio de malícia no meu sexo “toc’andar… vai-te lavar e vestir… enquanto dou aqui um jêto; mexa-se, corra!”

Foi uma correria para se pôr tudo como se nada tivesse acontecido. Como se nada tivesse acontecido!... Para a Júlia, até parecia, até parecia que a única coisa que importava era criar um ambiente neutro, inócuo. Como se nada se tivesse passado!...

Surpreendia-me o seu controlo total da situação.

Colocou uma cadeira no sítio certo do pátio, fez-me sentar nela, foi buscar livros e jornais que me meteu nas mãos e atirou para o chão, à roda da cadeira como se a leitura tivesse horas, apagou todos os sinais e marcas detectáveis, nela e em mim e nas coisas, com alguns pequenos gestos de ternura só adivinhada, acendeu a telefonia, arrumou a loiça do pequeno-almoço, começou a descascar batatas e a avançar com os preparativos do almoço.

Sorria…”bem podia ter dado uma mãozinha…”
.
Foi só o que disse. Depois, ignorou-me, Era como se eu ali não estivesse.

Eu continuava aturdido. Lembrava-me como, quantas vezes!..., em conversas, na aldeia, com rapazes da minha idade, sentira uma espécie de inveja (e ansiedade, e temor) ao ouvir as suas experiências contadas com toda a naturalidade. E ouvira, calado, sem nada para contar em troca, rapazinho urbano, sem campos, palheiros, caminhos de escola com atalhos para outras brincadeiras…

Estava assim, absorto, quando os meus pais voltaram, carregados de sacos com vitualhas, para aquele dia e para a semana, até à quinta-feira da semana que a seguia a esta viria.

Tudo estava… normal. Larguei o livro, de que não lera uma linha, ajudei ao transporte das sardinhas e do resto, agarrei no jornal desportivo e voltei para o lugar que a Júlia me reservara na sua encenação.

“Não havia correio no ti’Xico?”. Era onde, então, a meio caminho da vila, se fazia depósito e distribuição do correio. ”Não, filho. Hoje não tinhas nada”, ” … o rapaz devia estar à espera de alguma carta perfumada…”.

Não me dei ao trabalho de responder. Tinha a sensação de que vivera um vendaval a que se sucedia a acalmia. Uma acalmia estranha porque ignorava todos os estragos feitos pelo que a antecedera, surpreendente por ser tão natural, por ter sido tão naturalmente instalada.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 7

“Ai a louça!... Olh’a louça!...”, como se a loiça tivesse alguma importância, como se fosse a coisa mais valiosa no mundo. “Quero lá saber da loiça… pode partir-se toda… quero-te é a ti!”.

Tentou (ou quis?) virar-se. Só afrouxei o abraço quanto bastasse para que se voltasse. Vi-lhe a cara afogueada, os olhos brilhantes, os lábios húmidos. Procurei-lhe a boca. Fugiu com a cara, simulou uma tímida resistência sem palavras.

Enquanto a apertava com um braço, procurava meter a mão dentro da blusa, já meio desabotoada, para chegar aos seios rijos e macios que saltavam do soutien. A toalha caiu-me aos pés, e o meu sexo em riste aninhou-se entre as coxas que, debaixo da saia, se entreabriam e apertavam.

Num cada vez mais estreito corpo-a-corpo, chegámos à minha cama, acabada de fazer, e mergulhámos numa confusão de roupa que se puxava, que se abria, se arrancava, desconhecendo botões, colchetes, molas.

Do silêncio sem palavras passámos às palavras sem sentido, às frases sem nexo, aos pedidos mordidos de boca a boca, às súplicas estranguladas, aos respirares ofegantes. A um ruído surdo.

Arranquei-lhe as cuecas já remendadas como farrapos velhos. Penetrei-a como quem rompe, como quem rasga. Era uma luta, uma batalha. Mas ela lutava comigo, não contra mim. E fincava as unhas nas minhas costas, acelerava com as mãos nas minhas nádegas os meus movimentos.

O meu orgasmo foi rápido, brutal, e inundou-a e à roupa da cama.

O nosso prazer parecia estar na corrida sem freio, não no prazer de correr. Estava no final da corrida. Ou talvez tivesse sido mesmo uma luta, uma batalha. Sem derrotados, mas em que a maior vitória seria a de quem começara por mostrar (ou mostrar-se) que resistia e, aparentemente vencido, se entregara. Mas qual de nós assim fizera? Ou tínhamo-lo feito os dois?

Aquele longo abraço, tão lutado e tão curto, durara a eternidade de uns breves minutos.

Ficámos de costas, lado a lado, olhando o tecto, vendo mais uma vez – mas com olhos diferentes – os desenhos dos nós da madeira.

“E agora?, e agora?”

A morte da adolescência - 6

Refugiei-me na casa de banho e no ritual do duche.

Mas chegava lá a voz que mais alto cantava e parecia perseguir-me.

Preparei o duche, com maior rapidez que o habitual, e deixei cair a água sobre o corpo suado que tremia. E não era de frio…

O cheiro bom ao fumo da lenha, que se misturara na quentura da água deu-me curtas tréguas na obsessão daquela voz, daquela mulher que adivinhava a fazer a minha cama.

Ensaboei-me todo, vagarosamente, e, esquecido do espelho, dos músculos, das poses “à Charles Atlas”, demorei-me a acariciar o sexo, deixando-o crescer, encher-me a mão. Comecei os movimentos que me levariam ao orgasmo, com a espuma do sabão a ajudar a fricção e a aumentar o prazer… Mas parei. Sem dificuldade.

Fiz escorrer o sabão, enrolei uma toalha à volta da cintura e regressei ao sol. Trouxe o espelho para o terraço e comecei, enquanto o sol me enxugava o corpo, a fazer as poses da “tensão dinâmica”, as duas mãos opondo-se e resistindo, torções do tronco em esforço, rodar a cabeça para os músculos do pescoço. Tentando concentrar-me. Não ouvir nada, não (pre)sentir nada.

Mas sabia que não estava só, que era observado pelo canto de uns olhos, através da porta da cozinha. Caíra um silêncio pesado em toda a volta. Ou só se ouvia o coração e as artérias batendo dentro dos corpos.

Era preciso dizer ou fazer alguma coisa, quebrar aquela crosta, sair daquele lago-pântano, saltar das areias movediças “ó! Júlia… há aí leite?”, “atão nã havera d’haver?... quer qu’aqueça?... com tantas ginásticas deve estar com fome… quer que lho leve?”, “não, não!... eu vou aí…”.

Em dois saltos, entrei pela cozinha adentro “ai, credo!, inté m’assustou… veja lá se lhe cai a toalha…”. Riu com os dentes todos. E os olhos. “Se calhar, vias alguma coisa que nunca viste…”, “… se calhar, via… se calhar, não...”.

Os nossos corpos estavam muito perto. Quase se tocavam. Ouviamo-nos as respirações. De costas para mim, a Júlia lavava a loiça do pequeno-almoço. Quando acabei de beber o leite, ao pôr o copo junto da outra loiça, deixei o meu braço roçar o corpo dela “olh’a louça!... ai a louça!”. E mimou um cuidado exagerado para que os copos, e os pratos, e as canecas, não se partissem, enquanto os nossos corpos se tocavam abertamente, o meu peito nu nas suas costas, sem mais palavras ou disfarces. O meu braço rodeou-lhe a cintura e apertou-a contra mim. Riu um riso outro, nervoso, e os nossos corpos moldaram-se. O meu sexo encostou-se ao redondo das nádegas bem desenhadas. As minhas mãos subiram até aos seios, e agarraram, e apertaram, e procuraram a carne quente e fresca, tensa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A morte da adolescência - 5

Com a saída dos meus pais senti o ar da manhã (ainda) mais fresco, mais leve.

A Júlia já passara duas vezes. Para ir à lenha, para ir ao poço de onde trouxera os dois baldes a deitar por fora e a salpicarem-me as costas.

Os dois tínhamos acompanhado com aparente desinteresse, ou bem escondido..., as “negociações” sobre quem ia lá abaixo, â vila. Como se não fosse nada connosco, como se nos fosse indiferente.

Demorou pouco tempo a que a Júlia saísse da cozinha, com os dois baldes a caminho do poço. Naquela manhã a água gastara-se depressa…

Esperava-o. Pareceu-me ler-lhe um sorriso de desafio. Ou quis ler-lhe, no rosto, um sorriso de desafio.

Vieram palavras “em lugar de estar p’raí a fazer forças melhor era que m’ajudasse… isso é que valia a pena… tanta coisa, tantas forças, e se calhar nem é capaz d’acartar uns balditos d’áuga…”, “… até era capaz de te carregar a ti e mais aos baldes ao mesmo tempo…”, “… tamém q’ria ver isso…”.

Hesitei. Estava calor, de repente o ar pareceu-me pesado, tenso. Não, não era bem isso, seria mais a tensão inusitada dos sábados à noite do Vinicius de Moraes que eu “andava a descobrir”. Talvez tivesse parecenças…

Insisti nas flexões, que para isso servem, na expectativa dos pingos de água que viriam no regresso do poço. E não tardaram. Em vez do arrepio, a água escorreu no corpo quente. Fiz menção de lhe agarrar os pés descalços, os tornozelos, a perna forte, firme, de correr atrás dela e dos baldes e daquele riso galhofeiro.

Fugiu, com mais riso e mais galhofa, tudo mais vivo e mais alto que era costume. Fugiu para dentro de casa, numa corrida sem perseguidor. “Não tenho tempo p’ra brincadeiras… vou fazer as camas…”.

E começou a cantar, Com uma voz rouca, cheia de intenções no que dizia e como dizia. Ou como eu adivinhava ou inventava.

Nem me tinha levantado da posição de empranchado. Por terra. “Fiquei-me nas covas”, como se dizia na gíria do atletismo quando as partidas se faziam das covas… Mas ainda arenguei “qualquer dia hás-de pagar-mas todas…”.

A resposta foi um “ora, ora” como novo estribilho na cantiga não interrompida ora, ora… muito ameaça que pouco faz/ora, ora… pouco faz quem muito ameaça/ora, ora… se comigo queres casar vai pedir à nha mãe/ora, ora… se tens pressa em namorar nã no peças a ninguém/ora, ora...

A água fervia na enorme panela em cima do fogão de lenha. Dos quartos vinha ainda o calor dos corpos sacudido dos lençois e das cobertas. E a voz rouca, quente, provocadora ora, ora… vê lá nã te queimes nas brasas dessa lareira/ora, ora mais calor e menos ciscos tens no fogo da minha braseira/ora, ora...

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Vocês...

Às mulheres que estão, agora, nos 60 anos

Vocês são o outono do meu contentamento
Vocês foram as teen-agers dos anos 60
Vocês descobriram (ou inventaram!) a pílula,
…...e o twist e o rock+roll
Vocês leram e escreveram páginas de amor livre
Vocês são os caboucos da mulher-que-ainda-não-é
Vocês atiraram-se ao mercado do trabalho
Vocês não foram todas para Letras
Vocês não ficaram à espera do casamento
…...enquanto davam umas aulitas para entreter a espera
Vocês,
…...quando foram à guerra com “eles”,
…...não se ficaram por serem
…...as-esposas-do-senhor-oficial-
…...que-se-deus-quiser-voltará-vivo-lá-da-“frente”
Vocês secretariaram grandes senhores
…...que, às vossas ordens, pequeninos se fizeram
Vocês começaram a criar e a dirigir empresas
…...sem que isso fosse notícia ou escândalo
Vocês abriram caminhos no caminho do futuro
…...e iguais - homens e mulheres – o faremos
Vocês são, hoje, as reformadas activas, e vivas, e belas[1]
Vocês são o outono do meu contentamento
…...ou melhor:
Vocês são o contentamento do meu outono[2]
.
._____________________________________
[1] - e carmens e carmos e ermelindas e graças e ivas e luísas e margaridas e marias e marianas e odetes e paulas e ritas e zés
[2] - e uma muito em particular

A morte da adolescência - 4

Naquela quinta-feira, como em todas as quintas-feiras, era o dia de mercado semanal. Lá em baixo. Na vila.

O meu pai decidira – o meu pai decidia coisas! – que o almoço seria uma boa sardinhada. E também convidara amigos para um lanche. Ia ser um dia em cheio. E cheio de trabalho para a minha mãe e para a Júlia.

E tudo começava logo de manhãzinha, com a partida, cedo e preparada de véspera, para a vila.

Havia uma certa excitação no ar. O meu pai marcava o rutmo. A toque de palavras de ordem ou de franzires de sobrolho. Só teve uma hesitação ou dúvida, com prerrogativa de endosso de decisão para a minha mãe ”A rapariga também vai ao mercado?”.

Os meus sentidos concentraram-se na resposta, que a minha mãe deu, à sua maneira, não afirmativa, deixando as decisões definitivas para o homem “Como és tu que queres escolher as sardinhas e o que for preciso para o lanche, e pareces disposto a carregar com os sacos, é capaz de não ser preciso… há tanto para limpar e arrumar cá em casa… depois ainda temos o lanche…”, “Tá bem, ‘tá bem… despacha-te!”.

E lá passaram por mim, todo entregue à educação física (ou do físico). Ele, o meu pai, no passo largo e apressado de sempre, ela a minha mãe, logo atrás, em corridinhas de passo miúdo. Ele, a voz paterna, grossa “Não queres vir? Estás sempre a querer ir a Ourém… agora que fazia jeito, não deixas essa porcaria das ginásticas… ’inda me sais um Tarzan!”, ela, a voz materna, meiga “Até logo, filho… vê lá, não te constipes…”

A morte da adolescência - 3

Cansado, suado, passava a uma segunda etapa. Como se fosse um ritual.

Descer o balde com ralo-chuveiro do camarão da trave do tecto da casa de banho, ir buscar o enorme panelão com água a ferver que estava em cima do fogão – ensaiando posições em que os músculos se valorizassem à vista da Júlia se estivesse por perto… e estava quase sempre -, encher o balde-chuveiro, temperar com água fria, subir a uma cadeira, elevá-lo e colocá-lo, cheio e bem pesado, no camarão da trave do tecto.

Era mais um exercício, e o último da sessão de ginástica matinal.

Depois, vinha o duche tão laboriosamente preparado.

Não sem que, antes, procurasse que o espelho, em posição estratégica, me dissesse quais os resultados de tanto exercício e preocupação com o corpo a atingir a sua exacta formação. Posições “à Charles Atlas”, a “tensão dinâmica”, com a ajuda do corpo já ensaboado e a semi-obscuridade.

Admirava-me como quem tem 17 anos (quase 18, quase 18, diria eu então...), se sente cheio de saúde e força, e se desconhece Narciso e a auto-crítica.

Era assim todas as manhãs.

Naquela quinta-feira…

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A morte da adolescência - 2

A Júlia, nas passagens, nos percursos da sua “ginástica” de marcha com baldes cheios de água em cada mão, não escondia os sorrisos de troça, e o seu corpo parecia ganhar ainda mais vida e saúde.

E fazia com que uns salpicos de água saltassem dos baldes para as minhas costas, perturbando as insistências (insiste!, insiste!) das flexões de braços.

A aparente indiferença mútua era disfarce. Era mútuo desafio e era provocação, só insinuados mas cúmplices.

Aquele seu corpo, o modo como o vivia, como o fazia movimentar-se, bulia comigo, nos meus 17 anos.

E quantos teria ela? Tantos como eu, ou um pouco menos, ou um pouco mais, até porque o corpo feito mulher por vezes se escondia para logo se revelar, numa gaiatice, numa vontade de brincar em que havia uma criança a recuperar a infância não vivida.

Mas também não valia a pena perguntar quantos eram os seus anos de vida. Talvez nem soubesse ao certo, ou propositadamente respondia com evasivas “sei lá… parece que vou nos dezoito, já sou grandita… mas não vou às” sortes”… isso da tropa é p’rós rapazes… eles é que têm de saber a idade que têm”.

A vida fizera dela, depressa, muito depressa, uma mulher para quem a idade não contava. Parecendo vender saúde e força, era uma bela mulher. A meus olhos, pelo menos.

E era para ela que eu me exibia. Como para mim próprio, quando olhava os músculos em pose nos vidros das janelas. De soslaio. Com alguma auto-satisfação.

A morte da adolescência* - 1

Então, o sol parecia mais quente. Mais sol. Não porque aquecesse mais. Nem necessário era porque o calor estava dentro de mim. Mas que era um sol mais forte, mais vivo, mais vivo que este que hoje me toca de leve, tantas vezes pálido e triste, lá isso era. Ou parecia…

Cada manhã saltava da cama para o ar livre. Para a última benfeitoria – a daquele ano – introduzida pelo meu pai na casa onde ele nascera, o acimentado terraço, onde começava o dia a saltitar, a fazer flexões, a abrir os braços e o peito ao ar ainda húmido, cacimbento, do dia iniciado.

“Vê lá, João Luís, não te constipes”. Eram os bons dias da minha mãe, espreitando as matutinas movimentações do filho, e preocupada porque me via despir o casaco do pijama, ficar de tronco nu, atirar o corpo empranchado para o chão frio para começar as inevitáveis flexões de braços. Era, também. o sinal de partida para umas corridas à procura de espaço no pequeno quintal, entre a minúscula vinha e as árvores, o poço e o tanque para regas e lavagens.

Mas não era só a minha mãe que por ali andava e me espreitava enquanto eu, ginasticadamente, acordava para mais um dia de férias. Também a Júlia, “a servir” em nossa casa desde o começo do verão, à experiência para ver se iria connosco para Lisboa, fazia parte da paisagem em que os corpos adolescentes eram o centro do mundo. Pelo menos, do mundo deles…
.
Na sua lida doméstica, a Júlia ia buscar lenha para o fogão, ia tirar água do poço com a picota para os baldes que, depois, levava, cheios e um em cada mão, para a cozinha, onde se preparavam os pequenos-almoços, a que me atirava, sempre sôfrego, de passagem e em passo de corrida, pelo meio das actividades ginásticas.
.
* - capítulo de livro
que, com outros escritos, há anos alterna "trânsito" e "gaveta"

domingo, 28 de outubro de 2007

Apontamentos e historiazinhas do quotidiano - 4

Olho o televisor e reconheço o personagem. Mais figurante que personagem… Envelhecido, baço.
Recordei coisas e tempos passados.
Há quase 20 anos, lá para o final dos anos 80, escrevi-lhe uma carta. De camarada para camarada.
Terminava assim (mais ou menos…): “de tão brilhante tornaste-te vedeta, como vedeta fizeram-te instrumento… vê lá onde vais parar?!”
Foi parar àquilo. Secretário de Estado (ou subsecretário?).
Sem brilho. Baço.
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Nunca me considerei brilhante, mas tive o aceno do vedetismo. Senti, talvez…, algum começo de deslumbramento. Mas reagi a tempo, isto é, de imediato, ou então foram canhestros os agentes do envolvimento.
Optei por não engavetar ou adiar ou moderar a coerência. E estou muito satisfeito. Embora… cada vez mais insatisfeito.
Terei, decerto, envelhecido. Mas não me vejo baço. E reconheço-me no “espelho da juventude”.
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(do caderno de apontamentos e historiazinhas do quotidiano)

Apontamentos e historiazinhas do quotidiano - 3

... eu esqueci-me que já tinha acertado o meu relógio pela "hora de inverno", se calhar ontem à noite já meio a dormir, e fico irritado contigo por não teres sido tu a fazê-lo... pois, se tivesses sido tu, não teria sido eu a esquecer-me do que eu fiz.
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... eu digo-te as "coisas", tu esquece-las... e ficas irritada comigo por as teres esquecido.
&-----&-----&
Ah! estas cabecinhas...

(do caderno de apontamentos e historiazinhas do quotidiano)

Apontamentos e historiazinhas do quotidiano - 2

Toca-se o hino!
(ou eu ouço-o...)

Heróis do mar...mas bem mais de surfistas que de pescadores
.....que essa coisa de barcos e pesca nos mares nostros
.....é para outros... "comunitários"
.
Nobre povo...demasiado plebeu para o gosto dos "nobres"
.....que não se querem povo
.
Nação valente...com a diversão da valentia dos do rugby
.....(muito na moda)
.....e dos forcados e dos dos desportos motorizados
.....e não dos que trabalhan muito e ganham pouco e regateado
.
... e imortal...porque resistirá aos federalismos e outros eufemismos
.....para imporem (ao nobre povo!)
.....ainda mais neo-liberalismo e militarismo
.
.
Viva Portugal!

(do caderno de apontamentos e historiazinhas do quotidiano)

Apontamentos e historiazinhas do quotidiano - 1

No "expresso" Fátima-Lisboa:

Estou farto de viajar com beatas (valha-me São Brel e as suas "bigotes")
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E eu que nunca fumei... nem uma ervita... rodeado de beatas por todos os lados, feito ilha perdida... das graças do senhor e da senhora!
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Aquelas duas tagarelas são verdadeiramente incansáveis. Maratonistas do paleio. As línguas devem estar a ficar azuis...
&-----&-----&
Esta, aqui no banco mesmo ao lado, "terça" como se estivesse a fazer crochet. Já estive para lhe dizer que hoje não é terça, que é quinta.
&-----&-----&
Valha-lhe deus, minha senhora! Terá assim pecado tanto?
&-----&-----&
Respeito-a muito - respeito, sim senhora - e à sua tanta crença... mas também tenho direito a uma maldadezinha: vou abrir ostensivamente o ávante!, com a foice e o martelo bem visíveis, e ler um bocadinho do meu "terço", mas eu estou no meu dia... é quinta.
&----&-----&
Ai! que deus me perdõe por ter vindo introduzir um t'arrenego no terço que a senhora terça.

sábado, 27 de outubro de 2007

dedicatória para este retrato de ti

tu, no retrato
tu, fixada no retrato
tu. viva no retrato
tu, no retrato que bem te retratou
.
eu, amando-te
também no retrato
porque és tu que estás neste retrato

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Aqui estive, ontem, como se outro fosse!

Aqui estive,
adormecido e aberto.
Aqui me tiraram, de mim,
o monstro em mim alojado.

Aqui reacordei (ou renasci?),
no recobro do sentir e do ser.
Aqui, regressei da longuíssima viagem
e revi(vi) as caras queridas.

Aqui, nu, estiveram
todas as minhas misérias expostas,
isto é, postas em exposição
... no seu estado mais miserável.

Aqui gritei,
e todas as minhas dores vos foram ditas,
isto é, dores mal ditas
... e ouvistes o que queria calar.

Aqui volto,
e aqui me reencontro
cada vez que aqui volto.

(18.10.2007,
na enfermaria dos HUC onde fui operado a 14 e a 28.07.2006)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Breve crónica

Em Vale de Vargos. Terra (e gente!) heróica na resistência antifascista e na reforma agrária.
Onde se realizava uma sessão da iniciativa "Civilização ou Barbárie", com base em Serpa.
Na sala da Junta, uma "plateia" bem composta naquela manhã de sábado, mais de meia centena de presentes. Depois das intervenções iniciais da mesa (onde estava também o "camarada presidente da Junta"), de um jornalista estado-unidense, de um mexicano, e de dois portugueses, passou-se ao debate.
As análises eram de grande seriedade e muita preocupação relativamente à conjuntura política (estas expressões...), mas o ambiente era caloroso, fraterno, de esperança porque de informação e de luta. Para a luta. Que continua.
E pede a palavra um homem. Daqueles dali. Daquela terra e daquela gente.
Com o seu cerrado "jêto de falari", começou por usar os termos vindos da mesa, agradecendo os contributo e o diagnóstico e, de repente, muda de rumo ao discurso...
Ó amigos... vou mazé contar uma estória:
Numa escola, a professora vê um aluno que lhe pareceu triste "que tens tu, mê filho?" "é que lá na nha casa nasceram uns gaticos...", "atão e não estás contente?", "nã tou não, senhora professora!, nã têm graça nenhuma... são cor de rosa... devem ser do pêesse...". A professora achou por bem não comentar e mudou de assunto. Dias depois, o mesmo aluno parecia muito contente, "olha lá ... já gostas dos gatinhos?", "atão não havera de gostar... já abriram os ólhos! ... são do pêcêpê."
.
(Que pena não ter ficado gravado... tinha muito mais graça!)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Revolução

A revolução não é o revolucionário
.....e a sua luta
.....e a sua coragem
.....e a sua entrega
.....e a sua dádiva
.....e o seu sacrifício

A revolução é os que a fazem
.....com a sua luta
.....com a sua coragem
.....com a sua entrega
.....com a sua dádiva
.....com o seu sacrifício

A revolução não é o protagonista
.....e os seus ideais
.....e os seus gestos
.....e as suas palavras
.....e os seus poemas
.....e os seus actos

A revolução é a luta de todos
.....com as suas ideias
.....com os seus gestos
.....com as suas palavras
.....com a sua poesia
.....com os seus actos

A revolução não é hoje
.....como não foi ontem
.....como não será amanhã

A revolução é todos os dias!

E há os “imprescindíveis”
.....os que assumem e cumprem as tarefas revolucionárias
.....os que fazem as greves anónimas
.....os que não faltam às manifestações
.....os que resistem às prepotências
.....esquecendo o seu “tempo livre”
.....perdendo dias do seu salário tão curto
.....arriscando a repressão surda
.....sofrendo a violência cega e bruta

Mountolive

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

No dia do idoso


As maravilhas do buffet do INATEL

Aquela senhora tem 5 peças de fruta que mal cabem no pequeno prato.
Depois de ter comido 2-pratos de sopa-2, a corvina do prato de peixe, e a vitela do prato da carne, e de ter repetido os dois, vai atirar-se à sobremesa que tem sobre a mesa e deve, ainda, sobrar espaço dentro dela para a gelatina (faz bem às pessoas de idade...) e o leite creme.
Tudo a que tem direito, e em dose dupla. Assim se mata a fome ante(s)passada, ancestral.
.
Isto não é ficção. É um conto curto... com moral.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Intervalo (nas ficções) com extractos de um quase-diário

27.09.2007

(…)

Já que me contei a estória do almoço com o senhorio João, vou publicá-la no ficções do cordel.
Depois do “a falta que me fazem aqueles 50 paus”, da estória recebida do/dedicada ao Eduardo.
E começarei por alterar a cronologia.
Começarei por aqui.
Por esta decisão.
E só depois entrarei na “ordem”… cronológica.

(…)

25.09.2007

(…)

E dei um salto ao senhor Juan Ribeiro Allen, o melhor senhorio de Lisboa!
Não foi um almoço, foi uma festa!
Amanhã, conto… se contar.

&-----&-----&

(…)

26.09.2007

(…)

O almoço… pois… o almoço de ontem com o sr. Juan Ribeiro Allen… conto, não conto?..., acho que vale a pena contar assim a modos de “ainda dizem que não há almoços grátis”.
O sr. João (assim é mais fácil em vez do dito sr. Juan Ribeiro Allen) é o proprietário de uma tasca tasca na Rua dos Remolares, ali ao Cais do Sodré, e há 30 anos, mais precisamente há 29 anos, comprou os prédios que recebi por herança do meu pai e vendi, por tuta-e-meia, para pagar as dívidas que recebi por herança do meu pai (deve ter ficado ela por ela…) e me demitir das funções de senhorio, de que não queria tomar posse.
Desta operação patrimonial/financeira resultou o ter ficado a minha mãe como locatária, isto é, inquilina, do rés-do-chão direito onde ela vivia desde 1939, e eu desde esse ano até me fazer a outras residências… mas sempre com porto de retorno ali ou por ali.
E fui pagando a pequena renda, sabendo das visitas simpáticas a minha mãe do sr. João, ou do senhorio João (fica assim), sempre parecendo quase envergonhado por estar a receber rendas da velha senhora (e ex-senhoria, diga-se de passagem, que aquele património vinha da ascendência materna).
Até à minha ida para as "Europas", tudo corria bem, tirando o envelhecimento da casa (e não só!), as obras a fazer por fazer, ou feitas com grande atraso.
Ora essa ida (com idas e vindas semanais) mudou muita coisa nos meus já deficientes procedimentos administrativos.
O que sei, ou do que me lembro, é que, a partir aí de metade dessa estadia de ida e volta, atrasos na recepção do correio e outras contingências, começaram a engulhar os pagamentos da renda ao senhorio João.
Sem intenção…
E usei o expediente da transferência bancária, que faz com que a gente nem note que está a pagar coisas e mais coisas num sem fim de coisas.
As coisas, estas das rendas, pareciam nos carris, mas num Janeiro qualquer veio a indicação da correcção indexada da renda, que eu deveria comunicar ao banco, meteram-se outras coisas – elas são tantas… – e esta ficou por fazer.
O que sei, mas não bem ao certo, é que, a partir de nem sei quando – mais uma coisa que não sei… –, comecei a sentir que estava em falta com o senhorio João.
Entretanto, sabia, por portas travessas, que o senhorio João parecia ter a intenção de não levantar qualquer questão enquanto a minha mãe fosse viva.
Entretanto, a inexorável roda do tempo rodou – assim é que se escreve! –, a minha mãe veio da sua Rua do Sol ao Rato para o Vilar dos Prazeres em trânsito tranquilo, sereno, acompanhado, para o cemitério da Atouguia, e o caso do senhorio João foi sendo esquecido ou tirado das coisas a ter de lembrar.
Com a morte da minha mãe, aos 96 anos!, o caso da casa da rua do sol tornou-se caso que não podia ser mais adiado.
A Zé meteu-se no caso da casa e, no meio das muitas coisas que tenho para resolver, resolveu ela resolver esta.
Tirou-se de lá o que havia a tirar (toneladas de papéis), deitou-se fora muita coisa (toneladas de papéis), fez-se uma limpeza à casa, que ficou em condições – mais ou menos – de ser entregue a quem de direito (e euros) senhorio é.
Entretanto, e tantos entretantos há, passaram dias, talvez semanas e meses, e, pelas mesmas portas travessas, é-me dito que o senhorio João tinha andado lá pelo prédio que é dele, a dizer que ia fazer obras e que queria falar comigo para se resolver o caso da casa.
Fui à agenda antiga, tentei telefonar para os números que lá tinha, e nenhum deles respondia.
Entretanto – mais um – renovavam-se recados de que o senhorio João queria falar comigo e de que estaria ligeiramente aborrecido por eu não o contactar.
O que não era verdade… nas minhas intenções.
Em resumo, depois de muitas tentativas, lá o apanhei e, muito simpaticamente esclarecida a dificuldade de contactos com as férias (dele) na Galiza, em Pontevedra e outras deslocações galegas, marcámos um encontro, para ontem, na Adega dos Canários,
E foi a essa que fui ontem e aconteceu o que conto hoje.
Convidei o R. a vir comigo, não porque precisasse de guarda-costas ou testemunhas, mas porque ele estava com vontade de almoçar comigo no intervalo da audição da Conferência, e assim se conciliava tudo.
Confesso, de novo, que ia um tanto ou quanto Egas Moniz com o baraço ao pescoço, embora a recepção telefónica tivesse sido animadora relativamente ao ambiente.
Bom, fui recebido simpaticamente, e senti ter tido um excelente impacto a minha disposição de almoçar naquela tasca tasca, onde o senhorio João, fluente no galaico-português, de avental aos quadrados, também serve à mesa, com a equipa familiar a trabalhar e uma caboverdeana na cozinha e para o que for preciso.
Fez questão em nos apresentar os petiscos da casa, que ele-próprio nos serviu abundantemente, e mais abundantemente nos ia trocando os copos vazios pelos copos cheios de tinto que trazia para mesa.
Sobre o caso da casa… nada, e quando eu interrompia aquele vai-vem dizendo “senhor João temos de falar…”, ele passava “señor Riveiro, tenemos tiempo, bamos tomar um cafécito despois… gosta destas bifanas?”
E foram as bifanas, depois da sopa suculenta, e dos filetes de bacalhau, e ainda veio a carne assada e o presunto (em vez da fruta), e – sempre – os copos cheios de tinto.
Até que chegou a hora de eu pedir a conta, e de ter tido uma resposta meio risonha meio indignada “non paga nada!”, e eu a protestar sem qualquer força ou eficácia e a concluir “então vamos ao cafécito (que nunca tomo mas desta vez tomei), que ao menos esse pago eu”
Mas não paguei nada, que ele não deixou.
Ou então foi o dono do café em frente que não quis receber, depois de termos conversado animadamente sobre as belezas e o palhete de Ourém e as memórias que tenho da Casa de Arcos de Valdevez, de onde é este outro proprietário, não de tasca tasca mas de tasca café.
Finalmente, consegui chegar ao ponto da ordem de trabalhos, o caso da casa.
Que o senhorio João rapidamente esgotou com uma pergunta: “O señor Riveiro quier la casa? se não la quier, me dê la xabe...”.
“’tá bem”, disse eu, “mas temos contas para fazer, devo-lhe rendas e vai haver despesas com tirar restos de coisas que ainda lá estão e limpeza…”.
“Quier ainda alguma coisa de lá?... se não quier, está tudo certo, não hay más contas para hacer.” e, perante a minha estupefacta satisfação e protesto, “volte sempre e traga a sua senhora".
E assim foi.

&-----&-----&

Despi a túnica, guardei o baraço, metemo-nos num táxi e voltámos ao Hotel Roma para continuar na audição.
Táxi que o R. fez questão de pagar, verdadeiramente satisfeito com o que tinha partilhado comigo e ligeiramente eufórico (ligeiramente eufóricos estávamos os dois, mas só ligeiramente e em recuperação rápida porque havia trabalho, depois de tantos copos de tinto e apesar de termos recusado os amigável e insistentemente oferecidos bagacitos...).
Saiu-me barata a festa, quer dizer, o almoço... e tudo o resto.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A falta que me fazem aqueles 50 paus... - 9 e último

Um grande silêncio caiu no grupo quando o Eduardo acabou de contar.

Talvez no resto do café continuasse o barulho habitual, de conversas, de chávenas que se tocam, de colheres a mexer o açúcar, de bolas de bilhar que, lá ao longe, se entrechocam. Talvez… mas as duas mesas perto da janela pareciam impenetráveis a todo o ruído.

Um incalculável tempo passou até o silêncio ser quebrado. E foi quebrado por ele, pelo Eduardo, como quem sacode o que está pensando, ou o arruma muito bem muito dentro de si.

“Vocês nem calculam a falta que me fazem, hoje, estes 50 paus…”. E riu-se. Triste.

“Deixa lá… hoje pagamos-te nós o café!”, disse um, por todos e como se a voz viesse daquela cadeira vazia, onde o ausente teria sorrido se tivesse ouvido.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A falta que me fazem aqueles 50 paus... - 8

Aquele sábado, de Janeiro de 2003, aquele dia em que estava reunida a tertúlia, era o primeiro último sábado de um mês, desde há mais de trinta anos, em que o Eduardo não recebera o envelope com o “salário” que o avô decidira pagar-lhe para assinalar que ele dera um passo para ser um homem.

À guisa de curiosidade, o Eduardo ainda contou que nem ele nem ninguém encontrou, em lado algum dos sítios onde o avô guardava as suas coisas, mais quaisquer notas de cinquenta escudos.

Ele bem procurara! Aquelas teriam sido as duas últimas.

A falta que me fazem aqueles 50 paus... - 7

Durante o ano de 2002, até ao último sábado de Novembro, foram doze as notas, metidas em envelopes com o nome do Eduardo escrito em letra de cursivo, que o avô lhe deu.

No mês anterior, em Dezembro, naquele Natal, o avô chamou-o ao quarto onde estava acamado já há dias – “… que cara é essa, rapaz?… isto não é morte d’homem…”, sorrindo como se apenas tivesse dito uma graça –, e entregou-lhe, às escondidas de todos, o último envelope com o nome dele, escrito com letra trémula mas ainda bem legível no frontespício, e duas notas de cinquenta escudos dentro.

O Eduardo saíra do quarto com lágrimas nos olhos.

Fora, talvez, o último gesto que o avô fizera antes de morrer.
.
Assim o contou.

Intervalo para... começar o dia

E assim começa o dia…

Alguma movimentação me despertou ou espertinou.
Apalpo o espaço ao lado e confirmo que ela já se levantou.
São horas!
A noite foi mal dormida
e a manhã mal acordada
(agora é que se estava bem…)
Dificilmente, abro os olhos
e os olhos dificilmente se mantém abertos.
Parecem estar com areia, e "lacrimijam",
antes de eu o fazer por onde e onde o devo fazer.
Os ossos resistem a tomar posição diurna e erecta
(à noite é outra coisa…)
e doem como se fossem todos iguais aos do joelho esquerdo
(ah! este joelho esquerdo…)
O nariz, por dentro,
é mais uma “aldeia dos macacos” no jardim zoológico.
Com uma mão, coço o nariz, por fora,
e a barba e o cabelo e a cabeça
enquanto a outra coça outras partes
(lá para baixo…)
Arrasto os pés que me arrastam o resto do corpo.
Vou buscar o pão lá fora e apanho com o frescor da manhã.
.
Ela já come o seu iogurte
e começou a leitura matinal das leituras atrasadas
Bom dia!
(receio uma espécie de lá começas tu...)
Não!, veio um olá, amor!
(bom!, isto está a ficar melhor…)
Ora vamos lá a tomar um pequeno-almoço a dois.
Já leste isto aqui?, pergunta ela
Ainda não!, é giro?, resposta e réplica
É!, deves ler… tréplica e convite.
Dormiste bem?,
Nem por isso, e tu?,
Assim assim.

E assim (assim assim) começa o dia.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A falta que me fazem aqueles 50 paus... - 6

O que se podia fazer com 50 paus naquela altura, há mais de trinta anos… E ele ainda só a chegar aos 10 anos!

Lembrava-se que aquele dinheiro lhe dava para comprar dois livros. Aliás, como o avô, no mês seguinte, ao fazer o que passou a chamar “pagamento de salário”, chegara a insinuar. Embora sem nada insistir, ou sequer aconselhar, mas só a título de exemplificação como se podiam gastar 50 escudos...

Mas o mais importante, para ele Eduardo, é que, durante mais de trinta anos, todos os meses, o avô, no último sábado de cada mês, lhe entregava um envelope com uma nota de cinquenta lá dentro.

Em determinado momento, adaptando-se ao evoluir social, mas não à inflação!..., por Julho e Dezembro as notas eram em duplicado.

Nesses dois meses eram duas notas de cinquenta escudos que estavam dentro do envelope. A título de subsídio de férias e de subsídio de natal, dissera-lhe o avô na primeira vez que fez, piscando-lhe o olho e dizendo-lhe que assim o dispensava de ir fazer queixa ao sindicato por o patronato não respeitar as conquistas de Abril…

Era quase um ritual. No último sábado de cada mês, exceptuando em Dezembro em que a entrega do envelope era por altura do Natal, mas sempre antes.

Quando o euro entrara nas nossas vidas portuguesas, e o escudo delas saiu, no ano anterior, em 2002, as coisas poderiam ter-se complicado. Mas não.
.
Ao que parecia, o avô tinha guardado um stock inesgotável de notas de cinquenta escudos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A falta que me fazem aqueles 50 paus... - 5

O Eduardo respirou fundo, guardou o lenço, e recomeçou.

Primeiro com alguma insegurança, depois como quem desfia um conto.

Quando ele fizera a quarta classe, já lá iam uns bons trinta, quase quarenta anos, e tivera distinção, a família resolvera fazer-lhe uma festa.

A mãe fez-lhe um almoço de sopa de camarão e lulas recheadas, que eram os seus pratos preferidos, e ainda preparou o melhor arroz doce que alguma vez tinha comido ou viria a comer – e se a senhora tinha fama de fazer bom arroz doce… –, o pai ofereceu-lhe uma caneta e fez uma espécie de discurso solene, apelando à responsabilidade de quem iria, agora, decidir qual seria a sua vida, toda a gente quis mostrar quanto aquele exame, e aquela distinção, era importante, não só para ele, mas para cada um e para todos.

Só o avô se mantivera calado.

Ao almoço e toda a tarde, estivera observando, sorrindo, não fazendo comentários, embora se visse que não estava de acordo com tudo o que ia sendo dito, nem com todas a coisas que iam sendo feitas.

Quase ao chegar da noite, acalmada a euforia pelos “belos resultados do menino” – como começou a dizer quando chamou o Eduardo à parte –, o avô provocou uma conversa séria com o miúdo que era o Eduardo, uma conversa “de homem para homem”.

Procurando corrigir alguns dos erros e excessos que, a seu juízo, se tinham ditos e cometido, quis explicar ao Eduardo que o que ele fizera fora bonito mas que não fora nada de assim tão excepcional e merecedor de tanta festa e de tantos elogios.

Aliás, sublinhara-lhe que esses bons resultados escolares eram mérito seu, mas deviam-se, também e talvez ainda mais, ao ambiente familiar, a ajudas dos pais – a mãe até era professora primária… –, a ter livros e hábitos de leitura na sua vida. O que, lembrava-lhe, não era o caso da maioria dos seus colegas, pelo que os meninos que, sem as ajudas que ele tivera, tinham tido tão bons resultados como os seus, também mereceriam a festa e as prendas que ele tinha tido, mas que as famílias não lhes teriam podido dar.

O Eduardo ouviu, atento, aquelas falas do avô, reviu o que sabia dos colegas de que lhe falara sem que os conhecesse como ele próprio os conhecia, e tomou consciência – sabia-o hoje – de que o avô tinha razão.

De qualquer modo, o avô acrescentara que estava muito contente com ele, que os resultados que obtivera, e a maneira como o via crescer, como o sentia estar a tornar-se um homem, lhe davam uma grande alegria.

E acrescentara, ainda, a jeito de esclarecimento e complemento, umas palavras que o Eduardo nunca mais esqueceria e recordou para os amigos:

“Olha, rapaz – vou passar a chamar rapaz ao meu menino que foste até agora –, estou muito contente porque passaste um exame para homem. Vais no caminho para lá chegar.

Ora uma das coisas que um homem deve ter é alguma independência económica, poder escolher sem que sejam os outros a escolher por ele. A partir de hoje vou dar-te, todos os meses, 50 escudos para tu gastares como quiseres. É uma mesada. Talvez daqui a uns anitos passe a semanada… É um salário! Gasta esses 50 paus como quiseres, e não sintas obrigação de prestar contas de como os gastaste a quem quer que seja… a não ser a ti próprio!”

Disfarçando a emoção, metera-lhe na mão um envelope com o nome dele manuscrito, e com uma nota de 50 escudos dentro, dera-lhe um cachação e dissera-lhe para ir ter com os outros que, distraídos, nem teriam dado por aquela fuga de avô e neto ao convívio familiar.

50 escudos! Uma fortuna naquele tempo.