faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Para que fique claro - 3

... contra as metáforas... que tudo baralham!

6. não há pés de chumbo, há ouvidos duros e corpos rígidos;
7. não há pés de barro, há cabeças tontas;
8. só não muda quem é burro (se não é que dizem é parecido...), mas há uns que teimam em mudar de cavalo para burro.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Para que fique claro - 2

4.- não há mãos de seda, há mãos que (de) seda (se) fazem;
5.- não hã mãos de ferro, há mãos que o ferro moldam;

sábado, 23 de maio de 2009

Para que fique claro - 1

1. não são os dedos que parecem pinças, são as pinças que foram feitas à imagem e semelhança dos dedos;
2. não são os olhos que ajudam os faróis, são os faróis que completam o que os olhos alcançam;
3. não é o caminho que faz o andar, são os pés que, andando, fazem o caminho;
4. não são as verdades que são como punhos, são os punhos que, ao alto, confiantes e em marcha de protesto e luta, são a verdade.

domingo, 17 de maio de 2009

Portugal (ou a Espanha) fora da moeda do €uro

Fui convidado a participar num programa de rádio integrado no enquadramento mediático da campanha para as eleições europeias. Tratava-se de ouvir antigos deputados contar estórias da sua passagem pelo Parlamento Europeu. Aceitei não sem que, antes, tivesse sentido o incómodo acicate de ter sido convidado por outros, que melhor gostariam de ali ouvir em troca de recordações, já terem morrido. Sou, ao que sinto ou me fazem sentir, um sobrevivente...



E, se sobre recordações de vivências no PE muito teria a contar por ter sido questor durante 5 anos, isto é, vivido nas entranhas daquela "máquina" como membro da vertente política da sua complexa administração, alguns "casos" curiosos seleccionei, de comportamentos vulgares (ou menos que isso) de gente famosa. "Casos", aliás, que guardo para o cumprimento de um projecto de publicação para que existe uma proposta e "portfólio" à espera de resposta desde 1999... Adiante., basta de... "queixas".



O facto é que a Maria Flor Pedroso me surpreendeu, na minha apresentação, referindo um caso de que fui protagonista, e que tem a ver com a criação do euro. Surpreendido - agradavelmente - com a recordação, aqui a reconto com a tranquilidade que, no chamado debate, não teria tido suficientemente.



Avançava-se para a moeda única e, nessa caminhada, eu estava na trincheira dos que lutavam contra a sua criação, pelo modo como estava a ser feita, ao serviço de que interesses (de que classe), com os sacrifícios que iria inevitavelmente implicar, quer na criação, quer na implementação, quer nas suas consequências económicas e sociais (que se estão, aliás, a comprovar, por mais areia que se atire para os olhos...).


Nesse processo, passaram-me pelas mãos e debaixo dos olhos, as maquetas das que viriam a ser as notas e as moedas, já depois de terem passado por instâncias várias e virtualmente responsáveis. Enquanto questor, vi essas maquetas com cuidado e descobri que, nas moedas, o desenho do mapa dos Estados-membros - então 15 - fazia a cuidadosa separação dos países, com o pormenor do minúsculo Luxemburgo estar claramente separado da Bélgica e da Holanda... e haver uma Península Ibérica em que Portugal e Espanha estavam juntinhos como se um único país Estado-membro fossem.



Claro que fiz barulho, todo o barulho possível, incluindo recusando a interpretação simplista de que Portugal estaria incluído na Espanha mas levantando a questão se era a Espanha que chegava, com as suas nações, até ao Atlântico sudocidental ou se seria Portugal que chegava aos Pirenéus incluindo as hispânicas nações!



E a emenda foi feita (embora continuem a faltar Açores e Madeira...). Como se pode verificar, olhando para as moedas que, rapidamente, nos passam pelas mãos. Foi uma batalhazinha que venci na grande luta em que estávamos. E continuamos.



Foi-me agradável tê-lo ouvisto recordado, eu que do episódio estava esquecido.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Da mesa do canto...

... observando em < (brechtiano) tipos & cromos ficcionados:

1. Qual a diferença entre o falar sozinha daquela senhora ali, e que por isso tomam por tonta, e este meu gatafunhar na toalha de papel, esquecido da comida. Se calhar, se eu fosse analfabeto ou iliterado, dizia em voz alta isto que estou escrevendo...

2. Naqueloutra mesa está uma "troika" de gente sem idade. Não sei de quem a mulher é mulher, qual é o filho, ou o primo, ou só o vizinho, e qual é o seu homem. Ou será que estou mesmo a trocar tudo e ela é filha do que mais me pareceu, primeiro, ser seu filho, ou primo ou apenas o vizinho que veio com eles "à vila" ajudá-los a tratar de coisas, talvez de heranças e partilhas, talvez de. Estão fora do seu aquário - dois mais que um -, a boiar no mar da burocracia e das iniquidades. Das que não chegaram ainda às aldeias.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Isto da crise...

- É o professor doutor XL?

- Sou... quem fala?

- Boa tarde, professor. Daqui fala Rosa Cheirosa, da RDP-RTP, e vinha fazer-lhe uma pergunta, se me permitisse...

- Com certeza, Rosa... pergunte, pergunte.

- Não é bem uma pergunta... queria que o professor comentasse os últimos dados do BP que referem que o endividamento doméstico está a 130% do rendimento liquido das famílias.
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- Acho uma excelente questão, e liga-se um problema central da economia portuguesa. Vivemos acima das possibilidades, as pessoas querem ter tudo, ir a todo o lado, e endividam-se. Há que pôr um travão. Melhor: deveria ter sido posto um travão a este consumismo desbragado.
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- Mas, professor... as pessoas querem ter aquilo que lhes oferece a televisão, a publicidade, e os bancos aparecem a facultar crédito...
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- Ora aí está... e as pessoas não têm cabecinha? Há que saber até onde se pode ir... Quem não tem dinheiro não tem vícios...
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- No entanto, há quem defenda que se os salários fossem mais altos, as pessoas não tinham de se endividar... pelo menos tanto...
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- Outra questão da maior relevância. Não temos competitividade porque a nossa produtividade é baixa... as pessoas não podem ter salários mais altos. Aliás, acho um disparate essa coisa do salário mínimo, e estes aumentos de 2,9% numa altura de crise são completamente despropositados. Muito acima da inflação prevista. Há que conter os níveis salariais... até para evitar que se tenha de atacar o subsídio de Natal e o subsídio de férias. Em tempo de crise, não há viagens ao estrangeiro, luas de mel nas Caraíbas e esses luxos a que as pessoas se habituaram. Parece que ainda não se aperceberam que estamos a viver uma crise. E grande.
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- Obrigada, professor.
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- De nada, Rosa... sempre ao dispor.
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- Já agora, professor... como esperamos dentro de dias as previsões do Eurostat sobre o último trimestre, e vamos fazer um debate na televisão, estaria disponível para participar nele?
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- Claro que sim. Estou sempre disponível. Mas só se for antes de quarta feira da próxima semana porque nesse dia parto para umas curtas férias nas Comores (conhece?), e só voltarei no fim do mês. Sabe? Estou estoirado. Isto da crise...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Há dias em que...

A ver, enquanto jantava num restaurante, o Braga-Belenenses

Há dias em que ganhamos todos os ressaltos
Há dias em que todas as bolas perdidas nos encontram
Há dias em que as dúvidas dos árbitros se decidem todas a nosso favor
Há dias em que o vento sopra nas nossas costas e muda ao intervalo
Há dias em que a baliza dos outros tem mais uns centímetros de altura e de largura e as bolas entram todas

Pois... mas

Há dias em que perdemos todos os ressaltos
Há dias em que nenhuma bola nos encontra por mais que a procuremos
Há dias em que o árbitro apita sempre contra nós
Há dias em que o vento sopra de frente e forte nas duas partes
Há dias em que a baliza dos outros estreita uns centímetros e nas traves e postes esbarram todos os nossos remates

Há dias assim
E há dias assim não
(a porra é que é que estes são cada vez mais que aqueles!)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Esta é minha...

- Está aqui no pátio uma rosa que é um espectáculo..., disse ela!

Com alguma relutância, arranquei-me do poiso de trabalho - porque os seus critérios de espectacularidade me atraem... - e fui ver.


- Vou lá acima buscar a máquina!, disse ela quando perto cheguei e vi... o espectáculo.


A minha estava mais perto. Por isso me antecipei... e esta foto é minha!


Espero a saudável concorrência nos sítios que dela são.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Amizade e amigos

Os amigos escolhem-se, às vezes sem se saber porquê, mas razões há. De certo.
A amizade vive-se. Alimenta-se. Não raro de ausências. Sempre em cumplicidade. E só assim. O que não quer dizer em permanente acordo. Ou, até, coexistindo e reforçando-se em frequentes desacordos.
Há amizades que morrem. Porque os amigos deixam de ser. Porque os caminhos, deles e nossos, nos afastam. Irremediavelmente. Às vezes, uma palavra, uma simples palavra é bastante. Pelos significados tão diferentes que lhe damos, os que amigos éramos, tão antagónicos que explicam tudo. Como... por exemplo... disciplina.
Eu, por mim, serei até ao fim - ou espero, ou tenho esperança de - o mais disciplinado dos não obedientes.
Muitas - tantas! - vezes, cerrei os dentes e enterrei unhas na palma das mãos, com a quase certeza de que o amanhã me viria dar a razão que o colectivo, naquele dia, não foi capaz de ter. Quase certezas que, felizmente, com muita frequência foi negada pela realidade. Mas nem sempre... E dói, mas há que continuar. Até pelas certezas que temos. Mergulhadas nas dúvidas.
Depois, bem... depois, os amigos que temos, os que escolhemos, os que deixam de o ser, dizem, também e muito - se não tudo -, quem somos. Os amigos que escolhemos são a escolha do que queremos ser, ou que seremos sem saber que o queremos. E são o espelho em que, tantas vezes, nos deixamos de olhar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" - 27

27.

O Homem apresentou a Mulher ao Guarda Republicano como quem dá a conhecer, ao vivo, um amigo, um irmão. A Mulher beijou-o, como se beija um amigo, um irmão, e agradeceu-lhe muito. Tudo.
Houve algum embaraço, que depressa passou. O Guarda Republicano disse que ia sair de serviço, não disse que adiara essa saída de serviço à espera do que aconteceu, e disse que podiam – “se não estivesse a mais…” – ir comer qualquer coisa num restaurante simpático que conhecia, ali perto.
Assim fizeram. Depois do Homem assinar uns papéis sobre a ocorrência, burocracia que não se esgotaria nesses papéis que assinou mas que ficaria para completar depois, mais tarde, noutro dia.
Petiscaram fraternalmente. Conversando sobre as vidas. Falando da “crise”, mas evitando que a conversa se afunilasse em bancos, créditos, livranças. Capazes de rir com episódios do que fora, horas antes, tão dramático.
Mostraram-se fotografias. Riram de histórias outras. Combinaram encontros próximos. Lá na terra, na casa da aldeia. Depois na dele, do anjo da guarda... republicano, lá mais para cima e para a raia. E despediram-se, já na estação.

No final daquele dia, o Homem estava cansado, muito cansado. Mas rejuvenescido. Ia voltar à luta. Fortalecido pelo breve momento de desorientação e fraqueza que tivera, recuperado das esperanças que já nascem frustradas.
Assim concluíram. Ele e a Mulher.
Resolveram dormir em Lisboa, num hotel ali perto do Jardim Zoológico, e só regressar a casa no primeiro “expresso” da manhã. Uma grande tranquilidade era superior ao cansaço. Sabiam que aquele dia não mais se apagaria das suas vidas.






O Narrador vem pôr o ponto final. Vem dizer, para fechar, que muito ficou por contar mas que isso não acontece por sua exclusiva culpa. Dos Senhores não lhe apetece, a ele, dizer mais por agora – e se havia coisas para dizer… –; do Homem e da Mulher, do seu novo amigo e de outra gente, acabado este caso, por agora só há que dizer que voltaram à vida, à luta. Como aqueles dois disseram no final do dia.

sábado, 2 de maio de 2009

ou... "Uma História com um Final (aparentemente) Feliz" - 26

26.

Os dois homens, o Senhor Administrador e o Director da Agência, ficaram sem saber que dizer. Ali, à porta do elevador que se fechara para eles.
“Bom..., disse o superior hierárquico, querendo agarrar rédeas que lhe fugiam, … não esperava por esta… vamos lá reagir! “
“Realmente…”, disse o outro, e nada mais disse com receio de dizer coisas que não devesse dizer.
Mas o Senhor Administrador não era homem para longos silêncios e elucubrações.
“Vamos lá a ver… o jantar fica sem efeito (chamou a Secretária, deu-lhe as ordens derivadas da decisão e, magnânimo, ainda lhe deu permissão para ela terminar o seu longo dia de trabalho) … mas ainda podemos aqui fazer uma rápida reunião de trabalho antes de você partir lá para a terra…”.
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Sentaram-se e ele continuou: “Temos de fazer as contas de quanto isto tudo nos custou e rentabilizar o custo desta operação que é bem superior à reforma da livrança … para já, vamos fazer a reforma ao homem e vamos avançar com mais quaisquer apoios à livraria, que passará a ter o nosso patrocínio…Vou engendrar um plano de publicidade a partir da publicidade de borla que a televisão nos fez do salvamento do homem… há que a rentabilizar… ainda não sei bem como… veja lá se tem ideias…”.
Enquanto falava, ia pensando nas adaptações ao esboço inicial e, sobretudo, preparava a conversa com o Comendador, que sabia não ir ser fácil mas a que tinha de “dar a volta”. O custo da operação de salvamento era, com certeza, muito mais elevado do que o eventual prejuízo de uma operação de pouco risco como a daquela livrança que o Comendador não esqueceria que estava na origem do caso. A proposta de rentabilização publicitária tinha de ser muito convincente e introduzir qualquer conversa em que se avaliasse o caso na perspectiva de previsíveis – e seguros – benefícios.
O Senhor Administrador nem ouvia os esforços do Director da Agência para contribuir para o que procurava adivinhar serem os desígnios do Senhor Administrador. Por isso, a curta reunião foi mesmo curta. Até porque o Senhor Administrador, de repente, se lembrou de um outro problema, e bem delicado, que se aproximava. O regresso a casa e a conversa com a Esposa sobre a compra para a Menina… Outra solução teria de encontrar, e tinha algumas “em carteira”. Não tão boas como aquela que se frustrava, mas convenceria a chorosa Esposa que melhores seriam.
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Assim sendo, despachou rapidamente o Director da Agência, que, despachado, deu graças por regressar a boas horas ao lar, ainda a uns bons quilómetros.
Regresso a lar, seu e de sua Esposa, a que o Senhor Administrador resolveu adiar umas horas à conta de jantar num restaurante daqueles em que se come bem e acaba com whisky, e sortida ao "clube de cavalheiros" que frequentava. Ia ser uma chatice se ainda estivesse acordada...