faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quinta-feira, 30 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 25

25.

“Mas não quer, ao menos…, uma boleia? Nem quer que os levemos a casa?”, ainda ouviu, distraído, o Homem.
“Não, não… muito obrigado. Até amanhã.
Depois, amanhã, passo pela Agência e, de lá, telefonarei ao Senhor Administrador, se me puder atender, claro…”
“Com certeza, com certeza…”
, disseram os dois, enquanto a porta do elevador se fechava para eles, com o Homem dentro e a caminho do encontro com a Mulher.

O encontro não se conta. O que já foi dito (pelo Narrador) e assim se cumpre.

Na rua, de mãos dadas como se ainda abraçados, com os olhos húmidos, os dois, a Mulher e o Homem, caminhavam pela cidade como se toda a cidade deles fosse. E era.
Se o Homem não quisera que a Mulher subisse àquele gabinete e se, em duas palavras, lhe dissera porquê e tudo o resto, tudo o resto estava por dizer.
Mas tinham tempo. Todo o tempo do mundo. Refaziam um caminho. O caminho que fora o do Homem quando, naquele já tão longínquo fim de manhã, saíra do gabinete do Senhor Administrador e do banco.
Mas, agora, fazia esse caminho com mãos dadas nas suas.
Até ao Cais do Sodré, atravessado o largo e a avenida como que passando, os dois, por meio das pessoas e dos carros que abriam caminhos. Aquele caminho.
Tomaram um comboio. O primeiro que iria partir para Cascais. Sentaram-se. Era ali, frente a frente, olhos nos olhos, sempre com as mãos dadas, que iriam contar-se tudo o que acontecera, o vivido e adivinhado.

Foi uma viagem bonita. Com uma história para ser contada. De que todos sabemos o enredo, mas contada por ele para ela. Ouvida por ela, por ela chorada e comentada.
Assim chegaram a Cascais. E quando chegaram fizeram o que entre os dois tinham decidido: ir ao posto da GNR procurar o Guarda Republicano.
Na brevíssima troca de palavras quando descera do helicóptero, o Homem ainda dissera ao Guarda Republicano, emocionados os dois, “ainda hoje o procuro…”. O outro sorrira. Apenas sorrira.
Depois, no minuto seguinte, que chegou após um intervalo de horas de entendimento, o Guarda Republicano acrescentara “não tenha pressa… mas não se esqueça que tem lá a pasta no posto…”.

O Homem repetia, ao começo da noite, o caminho que fizera, há muitas horas, acompanhado, sentindo e retendo a funda impressão de que não estava sozinho. Que outros homens, seres humanos, havia.
Assim o sentira, como quem toma consciência, quando, sentado na rocha, rodeado pelo mar que subia, rugia e o ameaçava, se apercebera que o vulto ao longe que com ele se esforçava por comunicar e dar força era o do Guarda Republicano.
Agora, fazia o mesmo caminho com a Mulher, com a companheira. De mãos dadas.

terça-feira, 28 de abril de 2009

ou... "Uma História com Final (aparentemente) Feliz" - 24

24.

A quase surpreendente atitude serena e firme do Homem veio frustrar o que o Senhor Administrador planeara, em que o jantar poderia servir para tentear a receptividade do Homem e da Mulher para uma campanha publicitária em que “o caso” e os personagens fossem tema, discreto, subliminar. “O banco que salva…” ou “Não desespere… conte sempre com este banco” ou “O banco que está onde se (des)espera”. E outras ideias que os criativos trabalhassem.
Mas tudo dependeria, claro, da aceitação do Comendador. A última palavra pertenceria, como sempre, a este. Que comandava tudo. O Senhor Administrador estava apenas a congeminar.
E, enquanto congeminava em como dar a volta à situação, e apenas projectos, em que o jantar era um passo, apercebeu-se que o Director da Agência ainda esboçava uma insistência. Interveio logo “não… não há que insistir… temos de compreender a necessidade do casal conversar… conversaremos noutra altura… até porque tenho algumas ideias…”. Como quem pisca o olho.
O Homem foi um pouco seco:
“O Senhor Administrador desculpe… agradeço a sua compreensão…
Por outro lado, não sei que ideias possa ter... e em que eu entre. Nem quero, agora, saber. A única coisa que pretendo é uma resposta para o problema da livrança, situação conhecida, e que eu, aqui neste gabinete, tomara por decidida – o que muito me perturbou – e que, afinal, não estaria… interpretei mal…
O que aconteceu entretanto nada altera… a não ser, evidentemente, o facto, para mim merecedor de uma gratidão sem preço, do banco ter dado um enorme contributo para me ser salva a vida, que – já o disse – estupidamente pus em risco.”
Caiu algum embaraço entre os três homens. Que pouco durou porque quase logo veio o anúncio, trazido pela Secretária, a prolongar extraordinariamente as horas extraordinárias, de que o motorista telefonara, já em Lisboa, e estava a chegar com a Mulher do Homem.
O Homem voltou a surpreender:
“Os senhores desculpem… peço-lhes que não a façam subir. Que ela espere por mim lá em baixo, à porta… eu vou ao seu encontro.
Compreendam… Queria encontrar-me com ela lá em baixo, fora deste gabinete em que nenhum de nós, nem os senhores nem os dois, ela e eu, estaria à vontade num encontro tão especial para os dois…”
“Com certeza, com certeza…”
, disseram os outros dois com muito pouca certeza do que estariam certos. Mas fizeram, logo, com que as coisas acontecessem como o Homem queria que acontecessem.
E se, com certeza ou sem ela…, os senhores, Administrador e Director de Agência, se viram forçados à descrição, não seria este Narrador, que discreto deseja ser, que iria trazer para aqui, para a praça pública, o primeiro encontro, íntimo e emocionado, do casal que tinha tanto para conversar. Mas lá entre os dois!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Às vezes...

... às vezes fico muito triste, e mais ainda preocupado, quando confronto o desejo de tanta gente em ver o argueiro no olho do outro, em atirar pedras aos eventuais telhados de vidro do vizinho, gente que não se apercebe da poeira que lhe atiram para os olhos, que não sabe, nem procura saber, de que matéria são feitos os seus telhados.
É evidente que o sinto mais quando o argueiro é no meu olho, o telhado (que não é de vidro!) é de minha casa. O que também me dá que pensar.

domingo, 26 de abril de 2009

26 de Abril de 2009


Há dias que transbordam,

como um copo que não contém a água que nele se deita,

como um rio que não suporta as margens que o oprimem,

como um corpo que não cabe na roupa que o cobre,

como um lençol que se puxa para o pescoço e deixa os pés ao frio,

como um fogo que vence as trincheiras da segurança.


.

Como os dias que ultrapassam as suas convencionadas 24 horas,

como um dia de Abril que ignorou calendários de rotina,

como um dia de Abril de 1974 que não foi apenas passo no tempo medido,

como um dia de Abril de 1974 que não foi apenas passo na vida tensa, contida,

como um dia de Abril de 1974 que foi salto para outros dias de futuro,

como um dia de Abril de 1974 que foi salto para uma vida outra, viva.

.

Como um 25 de Abril de 1974 que abriu portas para depois do dia acabado,

como um 25 de Abril de 1974 que rasgou caminhos dos que se fazem caminhando,

como os 25 de Abril sempre, de todos os anos, que não se deixam esquecer,

como os 25 de Abril sempre, de todos os anos, que não deixam esquecer

como este 25 de Abril para um 25 de Abril de novo,

como este 25 de Abril de 2009 que continua hoje, e amanhã, e nos dias que vierem!

sábado, 25 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 23

23.

Com o pé em terra firme, era evidente que o Homem, “recuperado” pelo Senhor Administrador e o Director da Delegação, estava num estado a precisar de cuidados. Desde os sapatos encharcados até à cabeça zonza.
Já tudo fora providenciado pela logística do banco, som ordens rápidas e prontamente cumpridas. Enquanto um carro (com condutor, claro) viria na A1 com a Mulher do Homem, excitada mas contida, outro carro (com motorista, claro) viera buscar os três - o Homem, o Director da Agência e o Senhor Administrador - e levara-os para a sede do banco.
Ali, com a Secretária a fazer horas extraordinárias que a função justificava que lhe não fossem pagas – tal como as dos motoristas – e a esperar a chegada, já com uns sapatos novos, umas meias, fatinho completo e camisa, colocados nos anexos ao gabinete do Senhor Administrador.
O Homem, logo que reentrado naquele lugar de onde saíra para a sua “aventura de um dia”, fora encaminhado para a sala de banho, tomara um reconfortante duche, vestira-se lavado e novo, usara o champô do Senhor Administrador para lavar a cabeça. Por dentro e por fora.
Já se sentia outro, ele, quando voltou ao gabinete, onde o Senhor Administrador e o Director da Agência olhavam a televisão e trocavam impressões.
Tudo eram sorrisos e palmadinhas nas costas “o que tu foste fazer…”, disse o Director da Agências, “o que o senhor foi fazer… (falou o Senhor Administrador) o meu amigo deve ter interpretado mal as minhas palavras… a resposta que lhe dei não foi uma recusa… era, sim, um abrir de hipóteses, de perspectivas, de alternativas…”
O Homem sentia-se outro, mas ele. De repente, sabia o que queria e o que dizer “agradeço muito aos dois – e ao banco – terem-me salvo a vida que, estupidamente, pus em risco… mas agora queria afastar-me um pouco deste episódio… Se me permitissem, queria ir para casa e amanhã falaríamos do caso da livrança. Pode ser?”.
“Claro… (tartamudearam os dois)… mas tínhamos convidado a sua esposa – que deve estar a chegar – para irmos jantar todos…”
“Eu sei... agradeço muito… mas assim que ela chegar quero ter uma conversa a dois… percebem?!... tenho de lhe pedir desculpa pelo que a fiz sofrer… e explicar outras coisas… a sós!… é prioridade absoluta… desculpem… amanhã falarei convosco.”

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hoje é dia de véspra

Hoje, é dia de véspera!
Porque amanhã é sábado,
hoje é véspera de sábado.
Hoje, é dia de véspera!
Porque amanhã é 25,
hoje é véspera de 25
Hoje, é dia de véspera!
Porque hoje é 24 de Abril,
hoje é véspera de 25 de Abril!

Há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Era para ser véspera
de mais um dia de prisão,
de mais um dia de isolamento
de mais um dia de tormento
de um dia de julgamento
(no tribunal plenário);
talvez véspera de começo de interrogatório
talvez véspera de tortura
talvez de café escuro e de pão duro

Há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Era para ser, lá fora,
um dia de véspera de um dia mais
de véspera de um dia de sol triste
de trabalho triste,
de viver triste;
de esperar sem esperança,
de viver calado,
de viver amordaçado,
de viver censurado,
de viver oprimido,
de respirar um ar sem liberdade,
de respirar um ar pesado, denso, tenso
de olhar o outro com desconfiança,
um dia de amores com carácter de urgência,
do amor escondido e perseguido,
de fazer contas para o embarque para a guerra,
ou da fuga da terra para Franças e Araganças.

Hoje, há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Mas de uma véspera outra,
foi um dia de véspera do Dia,
do Dia de Sol,
de Alegria,
de Esperança,
de Vozes ao alto,
de Escrita sem censura,
de Ar livre e puro,
de olhar o outro como amigo,
(o povo unido jamais será vencido!),
foi o dia de começar a amar com amor,
só com amor e enquanto o amor,
de acabar com guerras,
de começar uma vida nova,
um mundo novo,
todo o futuro num ovo.

Hoje, há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Foi um dia de véspera do dia de todas as vésperas
das vésperas que começaram,
das vésperas que estão por cumprir,
das vésperas que foram tão atacadas,
que foram tão perseguidas,
e que tão atacadas,
e que tão perseguidas são.

Mas…


Hoje estamos e somos
o que os 25s de Abris quisemos
e deixámos
que fizessem de nós.

Há 35 anos, como hoje,
todos os dias são dias de véspera,
De vésperas de um futuro,
Se não esperarmos que se faça a hora,
se pelo futuro lutarmos,
agora!,
unidos comos os dedos da mão,
para chegarmos ao fim desta estrada
ao som (ou ao sol…) desta canção.

Hoje, 35 anos passados, hoje é dia de véspera
de Abril
de novo!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 22

22.

É agora a altura do Narrador ter uma palavrinha. Sabe, este, que a sua participação é normalmente perturbadora, nem sempre cumpre os cânones da escrita literária (ainda que de cordel...), e tem os seus detractores contumazes, mas não resiste.
Vem ele, o Narrador, dizer que não vai perder tempo a narrar o mais espectacular, o que poderá eventualmente ser aproveitado para quem desta narração queira fazer um filme: a operação de salvamento, com o helicóptero a sobrevoar o Homem e a “pescá-lo”, o poisar logo ali a poucos metros, o emocionante aparecimento e descida do encharcado homem do passaroco metálico, as palmas, a sua atitude confusa, assarapantada e sem jeito, o abraço do Director da Agência, a calorosa recepção do Senhor Administrador, a emoção do Guarda Republicano... essas cenas todas. Cenas que ficaram registadas para virem a passar no jornal das oito. Quem as não tenha visto no “jornal” televisivo, terá a oportunidade de procurar num desses chamados “aparelhos de busca”, ou no respectivo canal, ou num You Tube qualquer.
Por isso, o Narrador passa nesta jogada.
Afasta-se, discreto. Não sem registar um abraço a que dá muito valor porque quer que ele fique na história que está a narrar: o abraço e a breve troca de palavras entre o Guarda Republicano e o Homem.


E assim poderia terminar O Caso do Homem do Guincho, com a transmissão das emocionantes imagens, que se repetiriam quanto as audiências o justificassem e até em guião para o filme de ficção (do cordel) se já se insinuou ter veleidades de poder ser.
Mas, para tudo isso, e também para aqui, onde vendo sendo contado, O Caso ainda não terminou.
Ainda há uns finais para contar.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O Caso do Homem do Guincho - 21

21.

A centena e meia de quilómetros, a transmissão do directo O Caso do Homem do Guincho criara um enorme alvoroço, em jeito de bola de neve.
Há sempre alguém que está de televisão ligada num dos canais em que se passam as coisas, nem que seja na cozinha em que se prepara o jantar. No entanto, a Mulher do Homem não vira nem ouvira nada.
Estava na livraria, ocupada em atender clientes. Ou, talvez melhor, a falar com passantes que, eventual e raramente, iam comprando um livro.
Ficou por isso espantada quando começou a ver chegar gente que, do lado de fora, através das montras, espreitava para a ver... e parecia hesitar. Até que uma vizinha mais ousada tomou a dianteira. Entrou pela loja dentro e
Oh Mulher… tenho que lhe dizer… vá ver a televisão… já não vai apanhar… olhe que o seu marido está com problemas e apareceu na televisão…”.
“… quê?, o quê?! Diga lá, diga lá depressa… estou à espera que ele me telefone desde a hora do almoço… depressa, diga-me… aconteceu-lhe alguma coisa?...”
A vizinha contou o que vira e o que ouvira. À sua maneira, interpretando e ajuntando pontos, pormenores e comentários seus, pontos e comentários completados por outras e outros que, caminho aberto, também tinham invadido a loja e ganho coragem para entrar numa espécie de coro grego em redor da Mulher do Homem.
Esta, depois da enorme aflição, que aflita estava desde que esperava o telefonema que não viera e as respostas que não tivera para os seus esforços de ligar para o Homem…, mostrou-se à altura dos acontecimentos. Serena, sem arrepelos de cabelos, arrumou as coisas, fechou a loja, com a dificuldade de pôr toda aquela gente da porta para fora, pediu que a deixassem ir para casa e ver o que fazer. Se precisasse de ajuda, pediria e muito obrigada.
Foi quando recebeu um telefonema do Director da Agência que, em seu nome pessoal (e amigo, acrescentou…), e do Senhor Administrador, lhe fez o ponto da situação e a acalmou. Estava tudo sob controlo, e o helicóptero estava naquele momento a levantar com bombeiros e material para irem buscar o Homem.

Fora iniciativa do Director da Agência ligar para a Mulher. Lembrara-se e, depois de ter falado com o Senhor Administrador, fizera-o.
Informou-a e procurava acalmá-la, embora calma – e muito preocupada! – ela se mostrasse.
“Não! Ainda não conseguimos falar com ele, e o telemóvel ficou na pasta que deixou na Boca do Inferno… mas parece calmo e a recuperar da perturbação que terá tido… Porquê?! Não sei bem… até porque a conversa, hoje de manhã, com o Senhor Administrador – o Senhor Administrador está aqui comigo e manda muitos cumprimentos e toda a solidariedade – não, não teria corrido mal... o Senhor Administrador até me manda dizer que correu bem… que tudo se vai compor… que pode ficar tranquila… sim, sim… olhe o Senhor Administrador diz que um carro do banco a vai aí buscar… já não chegará a tempo de ver o helicóptero a chegar com o seu marido, mas o Senhor Administrador faz questão de convidar os dois para jantar… pode ir a casa preparar-se que dentro de uma hora estará aí um carro com motorista a buscá-la… até já!”

sábado, 18 de abril de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 20

20.
Do seu estacionamento no terraço da sede do Banco, o helicóptero içou-se aos céus. Nele, o Senhor Administrador, o Director da Agência, o Chefe da Segurança. Além do condutor ou piloto, claro… Mas estes raro contam nas histórias que se contam. Já os chefes da Segurança, não. Estes têm tanta coisa que fazer que, por vezes, merecem algum protagonismo, quando não vedetismo.
Este Chefe da Segurança, que vai com o Senhor Administrador e o Director da Agência, fizera o muito que havia a fazer no curto tempo de alguns telefonemas para que o helicóptero ficasse habilitado a levantar voo daquele terraço e a pousar em espaço aberto lá perto da praia do Guincho. Tudo em minutos…

A chegada do helicóptero foi mais um acontecimento a juntar ao caso do Homem do Guincho. Acontecimento que levantou ondas de poeira, no meio das quais o Zé da TV ordenou à equipa sob sua direcção que captasse uns planos de grande impacto.
(E que não tivesse ordenado, o operador estava ali para isso, e era um profissional competente e amante da sua profissão…)

Lá ao largo, o Homem sentia-se cada vez menos sozinho e cada vez mais figura secundária, após a brevíssima passagem por um protagonismo que nunca desejara. As ondas que passavam a seus pés iam deixando ficar sempre mais água, que subia, subia, e já lhe entrava pelos sapatos. Mas, como não se cansava de lhe gritar o Guarda-republicano, o único para quem parecia que o mais importante era mesmo ele e não o que estavam a fazer a pretexto dele, o que era preciso era manter a calma, muita calma.
A espectacular chegada do helicóptero com as grandes pás a passarem por cima da sua cabeça e a pousarem o volumoso bojo lá adiante entretivera-o uns segundos e julgou-se a ver uma cena das séries inevitavelmente estado-unidenses… Recuperava-se, sorrindo a coisas que pensava… sem ser na livraria, na livrança, no banco, na casa. E pensou na Mulher, preocupado com a preocupação em que deveria estar… se já soubesse.
A enorme libélula metálica pousara e regurgitou apressados vultos, onde lhe pareceu reconhecer o Director da Agência e o Senhor Administrador.
O Homem ficou espantado com a importância que lhe estavam a dar. Tudo por causa de uma livrança de 50 mil euros?!

A reforçada equipa de socorro reuniu logo, com o enorme pêso dos recém-chegados, a quem o Comandante dos Bombeiros e o da GNR prestaram devido tributo de admiração e respeito para não se ser excessivo e não dizer vassalagem.
Sob a superior orientação do Senhor Administrador, com a coadjuvação apagada do Director da Agência, orientação que se resumia a um “faça-se”, para os outros ficavam os pormenores técnicos do “fazer-se”, acertados entre os Comandantes e o Chefe da Segurança, e, também, o piloto do helicóptero, chamado a ter alguma importância na operação.
Tudo a postos para o espectacular salvamento sob os atentos olhos e ouvidos das máquinas encarregadas de levar o evento ao jornal das oito, se é que o Zé da TV não ia conseguir o directo que, afanosamente, negociava pelo portátil, desses que tudo têm e fazem. Negociações difíceis, porque as oito se aproximavam naquele fim de tarde mas, pelo menos, iria conseguir uma chamada a abrir o noticiário: O Caso do Homem do Guincho...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou...

19.

O Senhor Administrador preparava o seu fim de dia.
Fora uma tarde calma. Acertando uns pormenores, assinando expediente e cartas. Nada de excitante.
Satisfeito consigo, esperava-o um jantar “de negócios”, talvez uma ida a lugar reservado de diversão nocturna, com encontros de vário tipo se o jantar lhe desse disposição para mais umas horas antes de recolher a casa.
Comunicara à Esposa o programa, em que ela não entrava e que ajustara à informação adequada, ouvira de novo os anseios e as preocupações sobre “a casa para a nossa Menina”.
Já preparara com a Secretária a agenda para o dia seguinte, e autorizara-a a, após o encerramento do expediente e envio de mensagens, terminar o dia de trabalho.
Descontraidamente, sentou-se no confortável sofá, e começou um zapping inconsequente.
Numa passagem, ouviu falar de O Caso do Homem do Guincho. Deteve-se, por desfastio.
Até que se começou a interessar, e mais que interessado ficou quando, após depoimentos inócuos, viu a imagem do homem, isolado numa rocha no meio do mar que o ia rodeando e breve submergiria. Reconheceu o Homem que ali estivera naquela manhã.
Depois, no testemunho de um GNR, do Guarda-republicano, algumas informações mais precisas, sobre o seu conhecimento daquele homem desde manhã, a pasta deixada na Boca do Inferno, a referência ao problemas financeiros e a uma reunião num banco…
Saltou do sofá. Correu a tempo de apanhar a Secretária, já vestida para sair. “Veja se ainda aí está, nos Recursos Humanos ou noutro sítio qualquer, o senhor Director da Agência de… ele que venha falar comigo. Imediatamente. Vá, despache-se!”
E voltou para a televisão. Ouviu mais uns pormenores sem interesse sobre o salvamento do homem, e o anúncio de que, no jornal da noite, haveria actualização da reportagem se não se viesse a justificar interrupção para um novo directo.

A Secretária introduziu o Director da Agência no grande gabinete. Encontrou o Senhor Administrador nervoso, excitado.
“Não viu a televisão?!...”
“Não, Senhor Administrador… tenho estado nos Recursos Humanos… um problemazito…”
“Deixe isso… quero lá saber… aquele fulano, o seu amigo que me mandou cá hoje de manhã está a dar bronca… e da grossa…”
Contou o pouco que sabia pelo que ouvira na televisão.
“Tem de se fazer alguma coisa. O nome do banco está envolvido… E eu lixado, claro. Ajude-me a organizar uma grande operação de salvamento. Temos de ser nós! Fale aí com a Secretária, mobilizem a segurança, tratem de tudo. Já!”

Assim que o Director da Agência saiu, foi ligar para o Comendador. Não queria que este soubesse do que quer que fosse antes dele o informar… e que estava tudo controlado. Por ele.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Brel falando de Beethoven


Na Europe1, na sua emissão 1964, Brel falou de Beethoven (que me permito traduzir, por gozo pessoal):


«Estou certo que se vos disser Ludwig!, acrescentarão, a uma só voz: van Beethoven! o gigante, o generoso, mas também o dorido, o solitário, o misterioso Beethoven .

Nas vitrinas das lojas de música do mundo inteiro, nos quartos de alunos dos liceus, e mesmo em t-shirts de estudantes americanos, a sua juba leonina é a mais popular de todos os músicos.

Um desejo apaixonado de liberdade, de verdade, já animava Beethoven quando tinha apenas 17 anos. Escreveu no seu diário: "... fazer o bem onde se possa amar, a liberdade acima de tudo, não faltar à verdade, ainda que seja diante de um trono".

Aqui estão sentimentos que deviam escandalizar muitas cabeleiras empoadas na Alemanha de 1787»


ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 18

18.

Com o regresso dos jovens, os GNR sentiram-se acompanhados. Esperavam, um pouco impacientes, que chegassem outras e mais eficientes ajudas.
O Guarda-republicano insistia, pelo inter-comunicador, alertando repetidamente para a subida da maré. O Comandante irritava-se mas moderava a irritação com a percepção de que a situação poderia mesmo tornar-se grave. Pelo seu lado; também insistia com o Comandante dos bombeiros para que se apressasse e levasse o material necessário.

A chegada de um carro dos bombeiros fez algum alarido, e o Homem, lá ao largo, cada vez mais no meio do mar, apercebeu-se, vendo o vermelho da viatura batido pelo sol.
O Comandante dos bombeiros começou a dirigir as operações de salvamento, coadjuvado de perto pelo Guarda-republicano.
Alguns passantes na estrada passaram de curiosos a grupo de figurantes naquele espaço antes de ninguém. E foi preciso montar um cordão de segurança.
A situação não era fácil. Era indispensável que o Homem não entrasse em pânico, que não tentasse fazer coisas que pudessem prejudicar as operações. O megafone dos bombeiros era mais potente, e o vento mudara um pouco de feição ajudando a levar o som até onde ele estava.
De terra firme começaram a conseguir fazer-se ouvir, e o Homem correspondia com sinais de que estava a escutar as instruções. Sobretudo, muita calma, nada de impaciências. Se o mar lhe molhasse os sapatos que não se incomodasse. Eles estavam ali e conseguiriam ir tirá-lo daquela situação. Calma!
E de repente, na esplanada em preparativos de salvamento, irrompeu um carro que rompe o frágil cordão de segurança, e dele saiu uma equipa da televisão. Surpresa para os Bombeiros e GNR, que logo se aperceberam ter havido conluio com os dois jovens namorados.
Não era altura para tirar isso a limpo. Ficaria para depois. Por agora, antes de tudo, talvez pudessem reforçar a equipa de salvamento.

Antes de tudo, o Zé da TV queria “apresentar serviço”. Pôs-se à disposição dos bombeiros e dos guardas-republicanos para o que fosse preciso, mas começou logo a trabalhar para a reportagem.
Em ligação permanente com o estúdio, relatou a situação, exigiu tempo de emissão em directo, orientou os operadores de imagem e de som, começou a procurar colher depoimentos.
Quem era o homem? Que se sabia dele?
Do Guarda-republicano ouviu algumas informações, escassas, sem grandes pormenores, mas muito úteis… para começar. O Guarda-republicano quase teve de o sacudir de pé de si, impondo a autoridade fardada, lembrando-lhe que a prioridade era salvar o homem e não dar informação mediática sobre o caso.
O Zé da TV foi falar com os jovens, colheu imagens e depoimento, com grande colaboração da Rapariga e algum frio distanciamento do Rapaz. Ia juntando material e enviando. A preparar directos com impacto.
Entretanto, o operador de câmara ensaiava o maior zoom que podia usar, e começara a ter imagens do Homem lá ao longe mas que se aproximava dentro da câmara que podia transmitir e ganhar audiências.
Logo ali ficou dado o nome à reportagem, com o amadrinhamento da Rapariga, que primeiro o dissera: O Caso do Homem do Guincho!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Brel fala de

Porque me parecia injusto que, depois do Georges Brassens e da Jeanne Moreau, a Amália não tivesse tido fotografia, aqui se repete (em nova versão) da emissão de Brel na Europe 1, em 1964






de Amália Rodrigues (*) disse (traduzo... com alguma liberdade mas sem trair):


.
"De passagem, ofereço-me uma pequena flor, quer dizer, agarro uma pequena nuvem que nos chega de Portugal. Na verdade, só porque dali o vento sopra pouco e raro é que nunca o vimos subir de Portugal até Paris... Mas... ouçamos Amália Rodrigues, o que é, sempre, uma velha paixão. Que querem?, é o meu vício..."
____________________
(*) - Jacques Brel escrevia (e dizia) Rodriguez

domingo, 12 de abril de 2009

pinça mentes

de um pedaço de toalha de papel que, na máquina de lavar roupa, se salvou num bolso de camisa:

Há momentos em que um tipo se pergunta: para quê?
e só pensa: quando é qu'isto acaba?
e só quer: atirar a toalha ao chão...
Tudo... para quê?
Ora... porque!
.
O grande problema é ter de "rebocar" tantos,
e tão pesados...,
outros (e nossos!) que não se perguntam para quê?
e não se respondem... porque!

sábado, 11 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho"...ou - 17

17.

De súbito, o Homem como que despertou. O sol baixava sobre o mar e, rompendo entre as nuvens, atirou-lhe uma chapada de luz e calor.
Como quem acorda de um sono de uma noite, começou por não saber onde estava. foi tomando consciência. De si e do lugar. Nunca perdera a noção das coisas que lhe iam acontecendo mas estivera sempre envolto numa nuvem que o penetrara e o tomara de todo e por dentro.
Salpicos de água e, por vezes, pequenas vagas que lhe molhavam os sapatos e os pés, ajudaram ao recuperar-se. Por inteiro.
Reviu tudo, num relance. A conversa com o Senhor Administrador, a sonâmbula caminhada até ao Cais do Sodré, a viagem de comboio, o encontro com o Guarda-republicano, os passos até à Boca do Inferno, o novo encontro com o Guarda-republicano, de novo a caminhada sem destino. Até ali. Numa rocha no meio do mar que muito subira desde que ali chegara e se deixara ficar.
Assustou-se.
A rocha em que estivera encostado estava, agora, quase isolada e muito mais longe da terra firme de onde viera. Lembrou-se da pasta. Tê-la-ia perdido naquele acidentado percurso que tentava reconstituir?
Apercebeu-se que, ao longe, havia movimentação. Começou a distinguir com clareza as pessoas que, a uns bons metros, no terreno vago até às primeiras rochas, gesticulavam e procuravam contactar com ele, tentavam comunicar.
Quase com timidez, levantou os braços, e começou a dar sinal que os via e que queria corresponder.
Como sair dali?
Num esforço de auto-domínio decidiu que não poderia entrar em pânico. E que precisava de ajuda. Da ajuda que estava ali perto e que se esforçava por ajudá-lo.
Viu, com o fundo de algumas sombras, a perfeita silhueta que empunhava um megafone e que gesticulava. Conseguiu reconhecer que vestia uma farda. Seria o Guarda-republicano de que se lembrava?

O mar, batendo nas rochas, roncando debaixo e à volta dele, não o deixava ouvir.
Os gestos que até ele chegavam, ou de que se queria aperceber, aconselhavam calma, que não se precipitasse.
Olhou em volta se si.
Tomou a aflitiva consciência de que, sozinho, não conseguiria sair dali.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Jacqus Brel falando de Jeanne Moreau

Brel, na Europe 1, em 1964, quando Moreau acabara de gravar "J'ai la mémoire qui flanche":

"J'aime beaucoup l'espèce de précision de Jeanne Moreau, qui donne beaucoup de valeur aux mots. C'est une chose qui devient assez rare. Le mot est en géneral tué par la note actuellement et je donne quand même la priorité aux mots."
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ADENDA:
Nesta de músicas e músicos... sem culpar a memória de fraquejar (embora...), venho dizer que não esqueci o 9 de Abril e o aniversário do Grande Adriano. Vi-o e ouvi-o por blogs companheiros. Obrigado!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Jacques Brel falando de Georges Brassens




"BRASSENS, c'est certainement l'homme qui écrit le mieux, qui manipule le mieux la langue française. Il a le génie du verbe qui est absolument incompréhensible."
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ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 16

16.

Mal entraram na estrada, os dois namorados olharam-se. Estranhando-se.
Perguntou ele, que ia ao volante: “Não percebo… de repente quiseste zarpar. Logo tu que costumas ser tão solidária, que procuras ajudar em casos como este… embora nunca tivéssemos encontrado nada parecido com isto…”
Respondeu ela: “Pois… eu vi que não tinhas percebido…e quase o mostraste aos GNR… eu queria afastar-me. Podias ter esperado que eu te explicasse em vez de mostrar estranheza…”
“Bom… não vamos desconversar… então qual era a razão da tua pressa?”
“É que quero telefonar já, já, ao Zé da TV e dizer-lhe o que se passa… Como sabes ele foi há pouco nomeado para as reportagens ou lá o que é e pediu-me, pediu-nos, que o avisássemos de qualquer coisa que pudesse interessar…”
“Pediu-te a ti… que a mim não me pediu nada… mas tudo bem… e achas que este caso pode interessar?”
“Que te parece? Um homem que se põe em risco de vida perto do Guincho, a GNR a procurar ajudá-lo e evitar que ele se mate…”
“Um suicídio em directo com a GNR a tentar evitá-lo…”
“ Não brinques que o caso é sério… agora cala-te que já marquei o número do Zé…”
“… do Zé da TV!…”
, resmungou ele. Parou num espaço para parque.
“Estou… Zé? Sim, sou eu. Olha, estava aqui perto do Guincho e vimos (…) sim, estou com ele, claro… e vimos um homem meter-se pelas rochas mar adentro e, pouco depois, chegar um jeep da GNR, com dois mangas, que até nos pregaram um susto, e que estão a fazer um esforço dos diabos, especialmente um deles, para salvar o homem (…) Sim, o homem vê-se, está sentado lá longe, mas vê-se bem. Parece estar a pensar, a olhar para o mar. (…) Sim, está em perigo… e com a maré a subir maior será o perigo (…) O quê? (…) Sim, é naquele espaço aberto (…) Sim, nesse (…) Vamos para lá…”
Um curto silêncio. Ele mostrava, sem o querer esconder, que aquela conversa não lhe agradara. Ela percebia-o. Já várias vezes ele mostrara que aquela amizade lhe desagradava e, antes de vir a pergunta como é que o Zé da TV localizara tão depressa o lugar, antecipou-se:
“Olha, querido, o Zé ficou mesmo interessado. Parece que nem está longe, com uma equipa com operador de câmara e de som e tudo. Aliás, conhece bem estes locais por causa de um ou dois casos de pescadores em perigo, e vem já a caminho… Oh, amor, estávamos nós tão bem os dois…”
E, carinhosamente, pôs a mão no joelho do Rapaz, e deu-lhe um beijo brincalhão na face. Ele esqueceu tudo o resto, só disso se lembrou:
“Pois… estávamos nós tão bem… Vamos embora daqui? Vamos para outro lado?”
“Vamos, vamos, amor… mas, antes, vamos para lá, para onde está o homem e os guardas…”
“É isso que queres?”
“Claro. Este caso do homem do Guincho está a interessar-me muito… e gostava de poder ser útil ao infeliz… ia agora deixar o homem assim…”
“Pronto, está bem!… Não sei em que o possamos ajudar… mas também me custava voltar as costas… Estávamos nós os dois tão bem…”
Foi a vez dele pousar a mão na coxa dela. Como quem, resignado, se despede.
Beijaram-se. Com carinho. Antes de arrancarem, de fazerem meia volta e voltar ao local onde tinham deixado o Homem e os guardas-republicanos a vigiá-lo.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Hoje, Brel faria 80 anos!

Uma novidade (será?) sobre Brel:Em 1964, Jacques Brel animou uma série de emissões de rádio a que deu o título genérico "Je vous ai apporté des chansons", em que fazia uma introdução sobre diversas personalidades da música e difundia som a propósito. Desde Beethoven a... Amália Rodrigues!
De Amália disse (traduzo... com alguma liberdade mas sem trair):

"De passagem, ofereço-me uma pequena flor, quer dizer, agarro uma pequena nuvem que nos chega de Portugal. Na verdade, só porque dali o vento sopra pouco e raro é que nunca o vimos subir de Portugal até Paris... Mas... ouçamos Amália Rodrigues (*), o que é, sempre, uma velha paixão. Que querem?, é o meu vício..."
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(*) - Jacques Brel escrevia (e dizia) Rodriguez


terça-feira, 7 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 15

15.

O outro guarda-republicano e os dois jovens namorados, que entretanto se tinham aproximado, juntaram-se ao Guarda-republicano que via, ao longe, a silhueta do Homem, mais adiante de onde, tantas vezes, tivera de ir socorrer, com apoio de bombeiros, amantes da pesca em situação perigosa.
Gesticulou, gritou – gesticularam, gritaram – mas a distância era muita e o Homem, via-se àquela distância…, não tinha olhos nem ouvidos que não fossem para dentro de si e para o mar que o cercava.
“Temos de fazer alguma coisa…”, disse o Guarda-republicano e pensaram todos.

Os guarda-republicanos dirigiram-se para o jeep, os jovens encaminharam-se para o carro. “Podemos fazer alguma coisa?”, perguntaram. “Não, não me parece… por agora… mas deixem os vossos contactos aí ao meu colega”, respondeu o Guarda-republicano. E foi comunicar com o posto.
Quase exigiu que se montasse, de imediato, uma operação de salvamento, em cooperação com os bombeiros. O Comandante recebeu as informações, respondeu com alguma secura àquela insistência, garantiu que ia pôr tudo em marcha.
O Guarda-republicano voltou a telefonar e quis, ainda, saber o horário das marés. Parecia-lhe fundamental. Quando foi informado que a maré estava a encher e que, daí a umas quatro horas estaria no máximo, mais insistiu para que tudo andasse depressa.
O Comandante quase se irritou: “Oh homem, tenha calma… já falei com o comandante dos Bombeiros de Cascais, deve estar a sair uma viatura para aí. Não saia do local. E tenha calma senão a gente ainda se chateia!”
O outro GNR veio ao encontro do jeep. Os jovens tinham partido, depois de deixar os contactos. “Eh pá!, aqueles dois estavam na marmelada… estragou-se-lhes o arranjinho… apanharam dois sustos seguidos… pouca sorte. Mas eram simpáticos. Iam muito impressionados com a situação do homem lá longe. Disseram que iam fazer umas coisas (não percebi o quê, abalaram aceleradíssimos, especialmente ela) e disseram que talvez voltassem”.
“Está bem, está bem… vou ver se consigo chegar perto do homem… ou se se consegue comunicar com ele…”
“Tu é que sabes. Mas, se fosse a ti, não me metia nisso. Não vêm aí socorros? E como está isso de marés?”
“Espera aí… não temos aí um megafone? Vai lá buscar.”
Aproximaram-se do mar e das rochas. O Guarda-republicano ainda arriscou avançar pelas rochas mais acessíveis, e usou o megafone.
Chamou. Gritou.
Mas, para além da distância e da indiferença em que poderiam estar a embater os sons gritados do megafone, o ruído das ondas à volta do Homem deveria ser tão forte que ele não devia ouvir nada.
Voltou, frustrado, para junto do colega. Que resmungava.
“Raio de chatice. O trabalho que este gajo nos está a dar… Tu tinhas razão, o fulano está mesmo mal. Mas, também, se se quer suicidar que se suicide, porra!”
“É verdade, pá. Desde o Cais do Sodré que parece que ando com ele ao colo. Mas… sabes?... estou convencido que ele não se quer nada matar… está é muito perturbado. E parece-me bom sujeito.”
“Tá bem, pronto. Mesmo que quisesse matar-se teríamos de tentar impedi-lo… mas o gajo caiu-te em graça, estás a levar muito a sério esse papel de anjo da guarda… republicana.”

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Histórias ante(s)passadas - 38

O meu pai, quando saiu do Zambujal (e de Vila Nova de Ourém), andaria pelos 20 anos, foi para Lisboa, depois de curada uma doença chamada “fraqueza” por ter abusado da juventude, e na procura de outra vida começou pelo comércio em papéis. Não destes “papéis” de que tanto se fala e com cotação na Bolsa, mas papéis para escrever, à mão e à maquina, em todas formas e funções correlativas. Ligadas às escriturações, escolares, de escritórios, cartas comerciais, familiares e de amigos, entre namorados.
E nunca mais deixou o ofício, de loja em armazém de empresas, até se “estabelecer por conta própria", ali à Rua do Sol ao Rato, como “agente comercial”, já eu era nascido e tinha 4 anos.
Por isso, cresci no meio de papéis, de resmas de cartolina, de envelopes, blocos, pastas, fazia visitas frequentes a clientes, a tipografias (ah! o cheiro do chumbo), a encadernadores, e os primeiros trabalhos que fiz foi passar guias de remessa e facturas, e recibos do “agente comercial” Joaquim Ribeiro.
Por isso, a notícia da insolvência da Papelaria Fernandes despertou-me recordações. A Papelaria Fernandes foi uma das empresas em que o meu pai trabalhou. E marcou-o muito. De vez em quando, falava dela. Com boas e más recordações. Como a de um “patrão” que teve na altura, capitão Agostinho Lourenço, que foi director da PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado –, criada em 1933, antepassada da PIDE, para onde transitou como director até 1950.
Também não me é indiferente que a PF seja no Largo do Rato, e muitas vezes entrei naquelas lojas, e sempre as senti como minhas vizinhas, ao lado da Camisa d’Ouro e de outras lojas que desapareceram. E fico com o amargo sentimento de que algo se perco com o desaparecimento da Papelaria Fernandes, mesmo que outra coisa, resultado das “engenharias financeiras”, venha a, aparentemente, continuá-la.

Extractos de “dias incomuns” ou de “dias primeiros” (se ainda estivesse a escrevê-los) - 1

04.04.09
Depois de almoço, arranquei-me do Zambujal até ao terminal rodoviário de Fátima. Apanhei o expresso das 14, e fui lendo “o expresso”. O costume… a leitura com irritação à mistura e notas para talvez futuros “posts” ou outras coisas. Também algumas outras leituras. Uma hora e meia dá para muito…
De Sete Rios, fui até ao Museu da República e da Resistência. A homenagem ao Álvaro Rana, numa sala a deitar por fora (como ele merecia), foi comovente e contida, séria e sentida. Por vezes, até às lágrimas porque estava ali a família. Disse o que queria dizer, satisfeito por ter recordado, nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, o extracto do relatório ao 4º Congresso em que se define a posição perante os “sindicatos nacionais”, e que o Rana e eu nos conhecemos, lá para 1967, no cumprimento dessa linha política revolucionária. E na Paz. E na OIT. Um camarada que foi (é!) um exemplo e é uma saudade.
Depois, como havia tempo, fui ver o recomendado Gran Torino do Clint Eastwood. Valeu a pena. Um retrato dos Estados Unidos, feito por um homem lúcido a protagonizar de forma dorida, sofrida, o remorso da Coreia, vivendo ao lado de vietnamitas, no meio de gangs, num País feito de retalhos (dos tempos e dos espaços onde imperializou). Do filme falarei (talvez) noutra oportunidade..
Acabado o filme, fugi à “grande superfície", cheia de gente que me é estranha e andei a pé – com o pesado saco ao ombro… as Obras Escolhidas pesam – por uma Lisboa quase deserta. Jantei num restaurante encontrado aberto (tantos que procurei, por memória antiga ou recente, fechados), a (re)ler trechos do Ávaro Cunhal. Que regalo! Logo a abrir a lição sobre o querer, a necessário substituição do “não queremos” por “queremos não”, da vontade como “não independente, consciente, positiva”. Quanto se aprende!

Extractos de “dias incomuns” ou de “dias primeiros” (se ainda estivesse a escrevê-los) - 2

05.05.09 - 1
Acordei com a intenção de trabalhar durante a manhã, enquanto não chegasse a hora de ir almoçar e de me virem buscar para a iniciativa em Miratejo. Mas... pela janela entrava um sol quente e convidativo. Pensei em alterar o programa. Telefonei para ver se se podia alterar, até porque facilitava a vida a quem me viesse buscar. Podia.
Aliviei o saco às costas, ou aliviei um pouco as costas, fui até ao metro, atravessando uma Venda Nova a entrar e a sair do supermercado. Nem dei pelo longo percurso até ao Cais do Sodré, em carruagens quase vazias, tão diferente dos dias de semana!…, ocupado em leituras deixadas para quando possível.
No Cais do Sodré, entrei numa tenda de livros, comprei um pelos apelidos da autora – Vaz Velho –, e fui satisfizer o inusitado desejo: atravessar o Tejo de cacilheiro. Como há anos (décadas?, séculos?) não o fazia.
Como se fosse um turista/Não em viagem habitual/Como se estivesse de visita/Para ir almoçar à Floresta do Ginjal
Que maravilha aquela travessia! Nem abri um jornal, ou o livro comprado. Só tinha olhos para o sol, o Tejo e a ponte, os barcos e as velas, Lisboa ao fundo, bela, bela.
Em Cacilhas, encaminhei-me logo para o passeio do Ginjal. Aviso à entrada: perigo de desmoronamento de fachadas; a Floresta (“since 1934”!), fechada, o Gonçalves, também; alguns “pescadores” numa luta inglória para apanharem não sei que peixe, ali à borda dos barcos.
Passeei entre restaurantes, “hoje há petinga fresca e grelhada”. Entrei noutra tenda de venda de livros. Tanto se publica e tão pouco se lê. Tanto livro vendido ao peso de papel. Em saldo.
Acabei por almoçar em O Farol, o mais perto da Floresta, com um painel de mosaico à minha frente – Cacilhas, 1890 –, e logo ali, à janela, a ver o Tejo e Lisboa, a ver atracar o Palmelense.
Tomando notas no caderninho. Estas.

Extractos de “dias incomuns” ou de “dias primeiros” (se ainda estivesse a escrevê-los) - 3

05.04.09 - 2
O camarada veio buscar-me. Como combináramos.
Um jovem. Que bom! Já nos conhecíamos, vagamente, de outras iniciativas. Conversando, atravessámos o concelho de Almada e passámos a fronteira para o concelho do Seixal. Logo ali, em Miratejo, na delegação da Junta de Freguesia de Corroios.
A sensação de ter avançado muitos, muitos anos. De luta.
A vida faz-se assim. Ora nos recordamos do passado, ora encontramos sinais do futuro por que lutamos. Dizendo-nos sim, é possível. Sempre a luta.
Começámos por temer um insucesso. Domingo, uma tarde de sol a convidar para passeios pelos espaços em volta, que dá gosto ver na passagem, ou, mais longe, pelas praias perto.
Mas foram chegando. Desde a Alice de 5 anitos, viva, esperta, atenta a tudo, até aos de idade de serem avós de Alices ou de netos bem mais adiantados na idade.
E jovens. Na origem da iniciativa, e tudo fazendo para que tudo estivesse em condições de funcionar. Agradavelmente, e com todos os meios que apenas perguntados se existiam foram conseguidos com algum esforço. Power-points e essas coisas.
E foi a sessão, com as habituais intervenções de introdução – foi a primeira vez que estive numa destas com o camarada Zé Lourenço, e parece-me que nos completámos bem – e o debate, os comentários, as perguntas, a vida a vir para a mesa.
Ali estivemos, Mais de vinte. Com pena de não sermos centenas. Mas foi bom. Valeu a pena. Como vale sempre.
Depois, um casal jovem, muito simpático, deu-me boleia até Sete Rios, ao terminal da Rodoviária. Muito conversámos pelo caminho. Sobre Sociologia e o mestrado que ela está a fazer, sobre informática e o trabalho dele na IBM. Gostaria de ter continuado a conversa.
No autocarro, adiantei um pouco o sono porque o desconhecido parceiro de viagem me pediu, com bons modos, que não acendesse (ou que apagasse) a luz que me permitia ler, trabalhar.

sábado, 4 de abril de 2009

pinça mentes

Há uma coisa que me irrita seriamente: quando há qualquer notícia ou não-notícia sobre crime, corrupção, fraude, ou correlativos, a primeira preocupação de algumas pessoas que conheço é a de ver a que partido pertence o criminoso, a vítima, o corrupto, o corruptor, ou correlativos, e reagir conforme... para apagar umas culpas e sobrevalorizar outras. E, até, lançar as ondas de fumo negro das "campanhas".
Chamo a isto sectarismo na forma mais estreme e condenável.

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 14

14.

No jeep, os GNR percorreram, devagar, a estrada até ao Guincho, perscrutando as margens.
Não viram o Homem.

“É pá! que idade terá o gajo… vê aí na pasta…”
“Já vi, já vi… ‘inda não tem 50 anos. Está quase. Parece que vive numa aldeia de que nem fixei o nome. Se percebi bem é um reformado, ou um desses que foram despedidos e receberam uma indemnização das gordas…”
“Sorte a deles…”
“Achas que sim? Não me parece grande sorte receber uma porrada de massa para ficar desempregado…”
“Pois… o emprego é muito importante e, se calhar, não há preço que o pague…”
“… olha ali!, olha ali…”
“Não, não é o gajo... não vês a mochila?!”

Tinham ido muito longe. Voltaram para trás.
De repente, o Guarda-republicano gritou para o camarada que conduzia:
“Entra aí!,… entra aí à direita…”
O outro guinou para a grande esplanada natural que se abria até às rochas e o mar.
Num carro parado, dois jovens namoravam.
Quando deram pelo jeep se aproximar e parar, assustaram-se.
O Rapaz saiu do carro como para proteger a Rapariga.
“Algum problema, senhores guardas?...”
“Não, não… nada com vocês… tudo bem.”
A Rapariga também saiu do carro.
“Boa tarde!”
“Boa tarde… vocês não viram, por acaso, um homem passar por aqui?”
Os dois, a Rapariga e o Rapaz, olharam-se. Interrogando-se cúmplices (“lembras-te?”).
Ele: “Lembras-te daquele homem que passou por aqui há um bocado de tempo, sei lá… um quarto de hora?”
Ela: “Lembro… se lembro!, foi cá um susto… passou mesmo mesmo ao lado da minha janela… até me assustei” (e lembrou-se como um beijo fora interrompido, como se assustara).
“Sim, está bem!... e notaram alguma coisa de particular?”
“Não… isto é, o homem parecia sonâmbulo, sei lá…, fora deste mundo…”.
“… e para onde foi?...”
“… sei lá… não reparámos bem… mas ia direito às rochas aí em frente… não sei”.
O Guarda-republicano deixou o camarada a conversar com os jovens namorados e correu direito ao mar e às rochas.
Ao longe, muito ao longe viu a silhueta do Homem, sentado numa rocha rodeada de mar pouco calmo, pouco lago. Como se fosse um pescador, dos corajosos. Daqueles que já tivera de socorrer, de recuperar do arrojo, da insensatez.
Mas este sem cana de pesca. Recostado, como numa poltrona.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mãe

Faria, hoje, 99 anos.

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 13

13.

Logo que os dois GNR se afastaram, o Homem perguntou ao dono do bar, com voz sumida, se devia alguma coisa. Agradeceu, deu as boas tardes e fez-se à estrada.
Não deu por se ter esquecido da pasta, durante a manhã o seu apoio mais precioso, que já fora a sua bengala. Agora imprestável. Esquecida.
A conversa aliviara-o um pouco.
Se conversa fora aquela troca de palavras. Mas estas tinham tido o calor da solidariedade. Para mais, vindas de guardas-republicanos, de dois homens vestidos de fardas que ele se habituara a ter como referências desagradáveis, só recuperadas por uns que foram chamados “capitães de Abril”, e de que ouvira falar em casa e um pouco (pouco e mal) nas escolas por onde ainda andara alguns anos.
Sentia-se melhor.
Recomeçara a caminhada. Assim, caminhando, parecia-lhe mais fácil pensar. Pensar?!… Nem era bem isso. Como que estava dentro de uma nuvem que o envolvia e por ele entrava, que o aturdia. Como se estivesse sonhando. Ou sonambulando.
Esperando que, enquanto as pernas o levassem onde quisessem, o tempo escorresse. Depois, lá adiante, onde e quando fosse, se veria o que pensar. Que rumo dar a quê.
Andou, andou, andou. Muito? Pouco? Não tinha medida. Nem em metros, nem em minutos.
Saiu para fora, e longe, da berma da estrada por onde carros iam passando, alguns em alta velocidade.
Caminhou por um espaço aberto, largo, direito às rochas e ao mar. Onde, em idos tempos, nos domingos dos “passeios dos tristes” – casa, marginal, Estoril, Cascais, Boca do Inferno, Guincho, Sintra, Algueirão, Amadora, Lisboa, casa – vira, de longe, homens-estátua de cana de pesca na mão.
Deixou de andar. Saltava, equilibrando-se, de rocha em rocha. Com o mar perto, cada vez mais perto e, por vezes, entrando por baixo e pelos espaços entre as rochas.
Parou numa das rochas, numa que lhe pareceu já afeita a muitos corpos de pescadores. Sentou-se.
Talvez ali tudo se arrumasse dentro de si.