faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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terça-feira, 21 de abril de 2009

O Caso do Homem do Guincho - 21

21.

A centena e meia de quilómetros, a transmissão do directo O Caso do Homem do Guincho criara um enorme alvoroço, em jeito de bola de neve.
Há sempre alguém que está de televisão ligada num dos canais em que se passam as coisas, nem que seja na cozinha em que se prepara o jantar. No entanto, a Mulher do Homem não vira nem ouvira nada.
Estava na livraria, ocupada em atender clientes. Ou, talvez melhor, a falar com passantes que, eventual e raramente, iam comprando um livro.
Ficou por isso espantada quando começou a ver chegar gente que, do lado de fora, através das montras, espreitava para a ver... e parecia hesitar. Até que uma vizinha mais ousada tomou a dianteira. Entrou pela loja dentro e
Oh Mulher… tenho que lhe dizer… vá ver a televisão… já não vai apanhar… olhe que o seu marido está com problemas e apareceu na televisão…”.
“… quê?, o quê?! Diga lá, diga lá depressa… estou à espera que ele me telefone desde a hora do almoço… depressa, diga-me… aconteceu-lhe alguma coisa?...”
A vizinha contou o que vira e o que ouvira. À sua maneira, interpretando e ajuntando pontos, pormenores e comentários seus, pontos e comentários completados por outras e outros que, caminho aberto, também tinham invadido a loja e ganho coragem para entrar numa espécie de coro grego em redor da Mulher do Homem.
Esta, depois da enorme aflição, que aflita estava desde que esperava o telefonema que não viera e as respostas que não tivera para os seus esforços de ligar para o Homem…, mostrou-se à altura dos acontecimentos. Serena, sem arrepelos de cabelos, arrumou as coisas, fechou a loja, com a dificuldade de pôr toda aquela gente da porta para fora, pediu que a deixassem ir para casa e ver o que fazer. Se precisasse de ajuda, pediria e muito obrigada.
Foi quando recebeu um telefonema do Director da Agência que, em seu nome pessoal (e amigo, acrescentou…), e do Senhor Administrador, lhe fez o ponto da situação e a acalmou. Estava tudo sob controlo, e o helicóptero estava naquele momento a levantar com bombeiros e material para irem buscar o Homem.

Fora iniciativa do Director da Agência ligar para a Mulher. Lembrara-se e, depois de ter falado com o Senhor Administrador, fizera-o.
Informou-a e procurava acalmá-la, embora calma – e muito preocupada! – ela se mostrasse.
“Não! Ainda não conseguimos falar com ele, e o telemóvel ficou na pasta que deixou na Boca do Inferno… mas parece calmo e a recuperar da perturbação que terá tido… Porquê?! Não sei bem… até porque a conversa, hoje de manhã, com o Senhor Administrador – o Senhor Administrador está aqui comigo e manda muitos cumprimentos e toda a solidariedade – não, não teria corrido mal... o Senhor Administrador até me manda dizer que correu bem… que tudo se vai compor… que pode ficar tranquila… sim, sim… olhe o Senhor Administrador diz que um carro do banco a vai aí buscar… já não chegará a tempo de ver o helicóptero a chegar com o seu marido, mas o Senhor Administrador faz questão de convidar os dois para jantar… pode ir a casa preparar-se que dentro de uma hora estará aí um carro com motorista a buscá-la… até já!”

2 comentários:

Maria disse...

Isto dava um filme... quase trágico.
Pois se trágico é o aproveitamento das TV de situações destas, que por acaso esta é apenas por acaso.
Ah, e como admiro os "bonzinhos" do capital que se querem aproveitar do Homem e pelos vistos por todas as formas...

Até quinta!

Anónimo disse...

Isto está cada vez melhor, a intriga está a aumentar.
Até quinta

Campaniça