faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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sábado, 11 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho"...ou - 17

17.

De súbito, o Homem como que despertou. O sol baixava sobre o mar e, rompendo entre as nuvens, atirou-lhe uma chapada de luz e calor.
Como quem acorda de um sono de uma noite, começou por não saber onde estava. foi tomando consciência. De si e do lugar. Nunca perdera a noção das coisas que lhe iam acontecendo mas estivera sempre envolto numa nuvem que o penetrara e o tomara de todo e por dentro.
Salpicos de água e, por vezes, pequenas vagas que lhe molhavam os sapatos e os pés, ajudaram ao recuperar-se. Por inteiro.
Reviu tudo, num relance. A conversa com o Senhor Administrador, a sonâmbula caminhada até ao Cais do Sodré, a viagem de comboio, o encontro com o Guarda-republicano, os passos até à Boca do Inferno, o novo encontro com o Guarda-republicano, de novo a caminhada sem destino. Até ali. Numa rocha no meio do mar que muito subira desde que ali chegara e se deixara ficar.
Assustou-se.
A rocha em que estivera encostado estava, agora, quase isolada e muito mais longe da terra firme de onde viera. Lembrou-se da pasta. Tê-la-ia perdido naquele acidentado percurso que tentava reconstituir?
Apercebeu-se que, ao longe, havia movimentação. Começou a distinguir com clareza as pessoas que, a uns bons metros, no terreno vago até às primeiras rochas, gesticulavam e procuravam contactar com ele, tentavam comunicar.
Quase com timidez, levantou os braços, e começou a dar sinal que os via e que queria corresponder.
Como sair dali?
Num esforço de auto-domínio decidiu que não poderia entrar em pânico. E que precisava de ajuda. Da ajuda que estava ali perto e que se esforçava por ajudá-lo.
Viu, com o fundo de algumas sombras, a perfeita silhueta que empunhava um megafone e que gesticulava. Conseguiu reconhecer que vestia uma farda. Seria o Guarda-republicano de que se lembrava?

O mar, batendo nas rochas, roncando debaixo e à volta dele, não o deixava ouvir.
Os gestos que até ele chegavam, ou de que se queria aperceber, aconselhavam calma, que não se precipitasse.
Olhou em volta se si.
Tomou a aflitiva consciência de que, sozinho, não conseguiria sair dali.

1 comentário:

Maria disse...

A percepção da "quantidade de coisas" que lhe aconteceram (ou que se passaram) em tão poucas horas...
Bem me parecia que o Homem iria ser "resgatado". Vai?

Até terça?