faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

No Chico Santo Amaro... TO BE OR NOT TO BE!

«(...) Se fosse a ressonância magnética do cérebro de Yorick para o qual Hamlet estivera a olhar, até ele teria ficado sem palavras. (...)»
.
Leio "isto" (Património, Philip Roth) e levanto os olhos do livro. Olho à minha volta.
Ninguém - nem uma, nem um -, ninguém dos que aqui estão perceberia o que Philip Roth quis dizer. E era tão importante para eles/elas...

Cada tempo tem a sua moeda

Cada tempo tem a sua moeda
Já contei tostões
tostão a tostão.
Agora,
agora há quem conte cêntimos
cêntimo a cêntimo.
Eu já não!
Mas olho em volta
e vejo tantos que sim
… e tanto que sentimos!
.
Cada tempo tem sua moeda,
e, cada moeda tem o seu verso,
isto é, cara ou cunha,
melhor ainda: punho ou pulha!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Cá e lá livros há

Por uns dias vou juntar, ao mar dos livros que há cá por casa, uma mão cheia de poemas em livro de Martinho Marques, para deles tentar “cucar” um.
Hei-de depois devolvê-lo, meu que também o livro é, à estante dos livros lá de casa dela, da Zé.
Foi assim que veio. À condição de devolução...

No "expresso" de hoje à tarde

Viagem para Fátima

Se já tantos escreveram,
se Saramago escreveu*,
se Mário Castrim escreveu**.
porque não hei-de escrever eu?

* - No ano da morte de Ricardo Reis
** - A caminho de Fátima

1.
Parecem metralhadoras
as ininterruptas faladoras!
‘Inda por cima em crioulo
… dão-me cabo do miolo!

2.
Um bebé que chora
toda a hora
(e meia)

3.
A mãe embala,
docemente,
a tia (?) adormeceu,
crioulamente.

4.
Um pé grande, grande
( p’raí 44, no mínimo)
vem do banco de trás
e zás!
instala-se no banco vazio
aqui ao lado do meu.

5.
Um pé grande, enorme,
todo mulato menos na sola,
branco na planta
aqui está,
a fazer-me companhia,
um pé que dorme
e só lhe falta ressonar
(faça-se justiça,
não há que dizer:
bem lavadinho e unhas cortadas)

6.
Nos lugares à frente
6 – orientais – 6,
três casais
em peregrinação
de 3-gerações-3.
Vieram de longe,
cheios de fé.
Vão até Fátima!

7.
… e eu também...
faço escala de curta paragem,
estou de obrigatória passagem.
Sou o peregrino acidental
para chegar ao Zambujal.
Aleluia!

6.
Há os que seguem para Braga
Boa viagem!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

de que me queixo?
.
ou
-
de quem me queixo?
-
- Só posso queixar-me de mim,
pelo que não tenho de que me queixar!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mas como é que...

- Mas como é que vocês conseguem falar tanto e tão ininterruptamente...
- ... ora... falando...
- ... sobre quê?
- Ora... sobre tudo...
- ... sobretudo sobre quê?
- ... sobretudo sobre nada!

domingo, 22 de agosto de 2010

Passeio entre parenteses

(Quase) todos os dias

(poucos, poucos, corrige ela)

damos grandes passeios pelos caminhos dos campos.

Caminhos de terra batida

(pelos nossos e outros pés)

ou simples veredas por onde não se atrevem motores

(dos que fazem barulho e levantam poeira)

salvo o de algum raro aventureiro

(que tanto incomoda...

mais que as moscas que insistem em nos acompanhar).

E em passo estugado, caminhamos,

em silêncio ou falando de tudo

(o que, por vezes, é igual).

(Em todo lado, com os Castelos em fundo)

Nem sempre de mãos dadas

(mas sempre de mãos dadas!)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

"Deite-se já aqui!"

Conhecem aquela estória de um amigo meu que, no tempo do fascismo, deu o nome de Salazar a um cão para ter o prazer de o chamar e de, dedo espetado, lhe dizer: "Salazar, deite-se já aqui!". Coitado do cão! Parece que o dono, apesar de gostar muito dele, um dia perdeu a cabeça e não resistiu a dar-lhe um pontapé... mas depois chamou-o por uma alcunha - "Anda cá, Fiel..." - e deu-lhe um biscoito.

Ao que me consta, esse meu amigo, que não vejo há que tempos e vive lá para um monte no Alentejo, tem uma quantidade de cães com nomes muito curiosos...

A propósito, que nome é que hei-de dar a um cão que vou adoptar? Ando hesitante... É que em ditadura é mais fácil, em democracia é maior a escolha... "Vá, anda cá, ..?.. , deita-te já aqui, não faças mais asneiras... olha que levas!"

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O puto reguila - adenda

Há uns três anos, numa série de 10 "posts" em que contei, aqui, uma ficção do cordel a que chamei O Puto Reguila, germinada – como todas a ficções, de cordel ou não – em vivências, estas de uns anos antes, escrevi o que segue:
.
«(…) Um dia, mostrei lhe um calendário, daqueles pequenos, tipo auto-colante, que me fora enviado pelos serviços de turismo de um qualquer país longínquo. O Toino ficou entusiasmado. Sem que ele mo pedisse, porque não era do género de pedir coisas, dei lho. Os olhos riram-se-lhe, meteu-o dentro da camisa e abalou com um obrigado em surdina mas bem lá do fundo dele.
Assim se criou uma espécie de costume. Ele começou a fazer colecção de calendários com motivos vários, e eu passei a ser o seu fornecedor.
Nalguns casos, acompanhado o fornecimento por pequenas conversas sobre os motivos escolhidos para nos informarem, ou influenciarem, no verso, a pretexto de, no reverso, nos fazerem a oferta de um pequeno rectângulo de cartolina com a organização dos dias do ano que está para chegar ou que começou há pouco.(…)»
.
Anos passaram sobre isto que escrevi e publiquei, estes que nos trouxeram ao ano em que estamos, e encontrei hoje o inspirador do “puto reguila”. Na Festa do Zambujal. Está com 27 anos, vive (e trabalha!) em Paris… faz a sua vida. Fiquei contente.
Só que. Só que falámos sobre o passado, e sobre o que escrevi a propósito de um certo puto reguila. Começou por de rir, depois como que uma cortina desceu sobre os seus olhos: “… sabe?... cheguei aos 17 mil calendários e auto-colantes… arrumava-os, metia-os em pastas… eram o meu tesouro!... um dia, meu pai, numa das suas fúrias, foi-se a elas e queimou-as todas… mas não quero falar disso!”.
Eu também não! Ou quero?... Talvez noutra ocasião.
Felicidades lá por Paris, “puto reguila”.

sábado, 7 de agosto de 2010

«Curtas (mas verdadeiras)»... diz ele - (suite)


... ou "falas de mano-velho", contributos inestimáveis para a valorização deste espaço familiar.
Aí vai mais uma.




«4.




Ela - Vocês não têm vergonha, num restaurante como este, de trazerem açucar com o chá?... O chá deve beber-se sem açucar...

"Chinês" - ... pois é... mas há clientes que pedem...

Eu - ... traga-me um chá... com açucar!»

______________________


Venham mais!



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aproxima-se a festa do Zambujal

É sempre a 15 de Agosto!
Continua a ser a "2ª melhor festa do mundo" (para mim, claro!), embora me pareça que algum do seu antigo sortilégio esteja um pouco esmorecido, ou esmaecido.
Há como que uma desertificação urbana (melhor: aldeã) e aquele dinamismo que os emigrantes dos idos anos 60 lhe emprestava foi desaparecendo, deixando só alguns sinais. E nada substitui. O fecho da escola tornou-se um verdadeiro símbolo, e infelizmente por muitos outros lados, de um apagamento de vida, absolutamente ao invés do que seria desejável, acelerando uma tendência que deveria ser contrariada.
Mas não foi para isso que aqui vim.
Foi para deixar estas duas fotografias de umas festas de há décadas, de há, seguramente, meio século. Aqui ficam. Com saudade e muito afecto.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Longa jornada para um regresso - 5

V

Retraite,
como "vacanças", como boulot, como sécurité, como maison,
palavras novas, coisas novas e novos sons.
E projectos e sonhos.
.
Logo logo 40 anos
a somarem-se aos pouco mais de 20 com que partira.
Era tempo de decisões,
decisões preparadas, mais sonhadas que pensadas.
.
Filhos e filhas encaminhados por caminhos seus,
uns em universidades e politécnicos por aqui e por ali,
alguns em Portugal, outros e outras fincando raízes em outros países,
era dele e dela, agora, a escolha de onde viverem,
… sem de vista os netos perderem!…
.
Voltar à terra, à aldeia,
ainda que com regressos frequentes às Franças e Araganças,
por tantas pontas e pontes lá deixadas,
por affaires não arrumados
por maladies e souvenirs.
.
Uma alegria calma e, por vezes, contrariada.
Tudo bem na saúde, capaz de agarrar de novo na enxada,
de ir ao campo de jornada,
mas por gozo, por desfrute.
Sedes guardadas para serem “matadas”
com a ajuda de amizades antigas,
em lanches por aqui e por ali,
em jantaradas oferecidas a familiares.
.
Mas algumas sombras!
A pena de ver a escola fechada,
o lugar de aprender para tantos e tantos,
e para ele dera muitos francos de contributo;
e ver partirem,
ou saber de abalada,
sobrinhos, de irmãos que por cá tinham ficado,
netos de companheiros das moças idades,
vizinhos com os anos que ele há mais de 40 tinha,
a partirem por caminhos que tinham sido os seus,
não “de salto” mas deixando mulher e filhos,
“vamos ali, já voltamos…”,
não para não irem à guerra
mas para lá por fora fazerem outra guerra,
a de sempre, a da luta pela vida,
a da luta contra o desemprego.
.
Muito mudara,
muito ele tinha mudado.
Mas tanta coisa continuava na mesma!
.
Pensava e sorria. Satisfeito.
... também com alguma tristeza
por a jornada ser tão dura e curta
para uma vida assim
... e tão curta.

domingo, 1 de agosto de 2010

Longa jornada para um regresso - 4

IV

Tantos anos foram,
desde os 40 do seu nascimento
aos primeiros do novo milénio.
.
Nunca ele, por um momento, parou para pensar.
A sua vida foi só trabalhar e mais trabalhar,
labuta e mais labuta.
Desenrascou-se, "debruiou-se" c’est tout.
.
E disse e voltou a dizer que nunca nada quis com a política,
que a sua política sempre foi o trabalho!
(Como se o trabalho não fosse a política!...)
Mas sempre humano, solidário,
ajudando como ajudado fora.
.
Sabia, agora, que não gostara do fascismo,
que, no “salto”, também fugira à guerra colonial,
festejou e sentiu orgulho quando a sua Pátria foi Abril,
que abria as páginas dos jornais,
na admiração e na esperança dos demais
- foi quando pôs a bandeira portuguesa, bem à vista!, no vidro traseiro do Renault –
… mas depressa passou, apesar do muito que ficou.
Acreditou nas reacções que a reacção inventou,
no sangue nas ruas, no Alentejo a ferro e fogo,
num País com fronteira em Rio Maior,
e pior!
.
Por essas alturas, viera à terra, à aldeia,
aqui, ouviu do mel e do fel, cantou Grândola e viu a coisa feia,
chegou a entrar em conversas e discussões,
falou de experiências e do Marchais,
contou, com algum entusiasmo, da CGT e de manifs
que nunca fizera mas soubera,
mas foi, também, anti-comunista,
no meio de tantas invenções e provocações.

Aos poucos, triste, voltou às suas tamanquinhas
- de que nunca saíra... -,
sem saber quanto ganhara, quanto perdera,
quanto ficara nele desse tempo que, sendo nosso, dele fora. E é!
.
Talvez, desse tempo, tenho guardado a vontade do retorno,
foi então que vendeu (pouco), trocou, comprou (umas coisitas…),
e começou a pensar em construir.
Para quando chegasse a retraite!

Finalmente!...


... rendida ao marxista.
A influência do corte de unhas dos pés...
private joke

Longa jornada para um regresso - 3

III

Mais de vinte anos passaram,
de viagens de ida-e-volta là bas,
curtas mas repetindo-se ou prolongando-se.
Às festas da santa padroeira,
por alguns natais à lareira,
e aos casamentos de parentes
e aos baptismos de afilhados,
sempre em Agosto para eles estarem presentes,
com boas “visitas” e melhores legados.
.
Ça vas, ça vas, ça ira!
.
A ela dele também ajudou -… e se ajudou!...-
Foi concierge, fez ménage chez les dames,
umas coisas de couture,
o costume que tanto é...
tudo o que há e a que tão pouco valor se dá,
enquanto se fazem filhos nascer e crescer
e se mantém a casa arrumada e limpa,
e a roupa alindada, e as refeições a horas
… porque o homem trabalha… lá fora!
.
Assim se encarreirou a vida,
com filhos e filhas a tirarem bac
e, alguns…, a irem mais au-delà.
.
Ele ganhou peso e pose,
e quereres, e posses, e mandos,
numa pequena oficina, ou em travaux publics,
ou em jardinage, ou em hotelllerie
(Ele foram tantos, e tantos os caminhos de cada um!…)
.
Nas vindas à aldeia, aos poucos ganhou ares e senhoria,
e até deu uma ajuda importante para o clube da terra,
e – mais importante ainda! – para o edifício da nova escola.
.
E dizia, orgulhoso, que não era esmola,
estava só a ajudar a conhecer melhor
o que ele não conhecera nada,
nem pela rádio nem pela televisão,
e apenas descobrira pelo “salto” para que fora empurrado
e pelo que aprendera com a vida.
.
Depois de obras na velha casa,
a nova maison crescia,
preparando nova fase de vida.
Na vida a ele devida.