faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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terça-feira, 31 de março de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 12

12.

“Eh pá! palavra que não estou nada descansado com este gajo… não queria tê-lo deixado ali. Sozinho…”
“… estás mesmo a ser o anjo da guarda do homem…”.
”… pois… já pensei nisso… anjo da guarda republicana…”. E riram os dois.
“Tem calma, pá… o homem ficou bem. Parece muito tranquilo.”.
“Tranquilo?! Aquilo lá por dentro deve estar em polvorosa… teria sido a mulher que o "enfeitou", ou que o deixou, ou uma coisa assim...? A chatice é que quem está como ele às vezes faz disparates.”
Continuaram conversando, com os temas a variar e a bola a prevalecer (aquele penalti contra o Sporting!...), quando, uma boa meia hora passada, o intercomunicador da viatura deu sinal. Era do posto.
Era para lhes ser comunicado que o dono do cafezito da Boca do Inferno telefonara. Para informar que o homem que tinha estado com eles saíra dali quase logo a seguir aos “senhores guardas” mas que deixara ficar a pasta esquecida ao lado da cadeira onde estivera sentado.
O Guarda-republicano nem esperou instruções. Deu a meia-volta com o jeep, e encaminhou-se de imediato para a Boca do Inferno. O outro guarda-republicano nem perguntou nada. Era evidente que o camarada tinha mesmo o problema do Homem nas preocupações.
Rapidamente chegaram ao bar da Boca do Inferno e tomaram posse da pasta. Esta estava aberta, e o Guarda-republicano tirou dela dois ou três papéis soltos e um dos vários dossiers que a enchiam.
Assim identificou o Homem. Nome, números do BI e do NIF e outros dados. E depressa se apercebeu de que havia o problema de uma livrança no banco e a respectiva reforma engulhada. E também da entrevista com o Senhor Administrador daquela manhã.
Disse para o outro GNR “Afinal não deve ser nada com a mulher. O homem está é com problemas financeiros graves”.
O outro permitiu-se gracejar “Ah! ainda bem… se é que é melhor ter a cabeça pesada por causa de uma reforma do que por causa da mulher…”.
Voltaram-se para o dono do bar “Viu para onde ele foi? Notou alguma coisa de especial?”.
“Saiu daqui com aquele ar assaparantado (já o tinha observado antes dos senhores guardas chegarem, ali sentado na pedra… já vi muita coisa por aqui…) e lá foi para os lados do Guincho. Nada de espacial, embora inseguro, de passo incerto… já vi muita coisa por aqui pela Boca do Inferno…”.
Os guardas-republicanos agradeceram, despediram-se e saltaram para o jeep.
“E agora?”.
“Bem… agora, vamos à procura dele…”.
“Para lhe levar a pasta?...”.
“’Tás a gozar comigo, é?... para impedir que o homem faça qualquer disparate!”.
“Estás a pensar em quê? Que o gajo se suicide?!”.
“Claro que estou a pensar há horas no que tu também estás agora a pensar… e vou avisar o Comandante.”
Depois da comunicação às chefias, partiram com o jeep a ver se encontravam o Homem.

domingo, 29 de março de 2009

Quantos de nós...

Interrompo as "viagens", adio os (outros) trabalhos, e venho aqui deixar um apontamento. Mas tão sério, tão vindo cá do fundo que não dá para brincar com as palavras.

Quantos de nós foram assasinados antes de chegar aos 40 anos?
Quantos de nós, imprescindíveis para a luta, foram miseravelmente assassinados?
Aqui ao lado, na criminosamente ensaguentada Espanha,
Miguel Hernandez, Federico Garcia Lorca (deles deixo o nome porque foram estes que aqui me trouxeram, interrompendo a viagem que por eles passava e pelo que cantaram),
ainda em castelhano, mas mais longe no espaço mas mais perto do tempo, Victor Jara
e mais longe, na língua, no espaço, no tempo, os indonésios, os iraquianos,
tantos e tantos de tantos lugares, assasinados antes de chegarem aos 40 anos
por serem comunistas,
ou por lutarem pelo socialismo, viesse ele a ser o que viesse a ser,
e aqui também!
Aqui na nossa terra pisada tantos e tantos anos
por botas fascistas de coroneis, generais e marechais,
da Legião Portuguesa e da Mocidade Portuguesa,
e de mais grupos que portugueses se diziam e só fascistas eram,
e pelos sapatinhos engraxados da Pide, dos governos de Salazar e de Caetano,
e pela indiferença de tantos (alguns descalços) que Portugal desconheciam.
Aqui, Dias Coelho, e mais tantos..., que ainda 40 anos não tinham.
Assassinados!
E os assassinos impunes.
E de "boa memória" para que nós esqueçamos.


















José Dias Coelho

Mas...

Mas mais que lembrar e ressarcir as vítimas,
mais que castigar os criminosos,
(mas mais, muito mais!)
há que não esquecer os crimes,
há que impedir que se contem mal as histórias,
há que não deixar que se falsifique a história,
há que contar o que fez - e como se faz - História.

Com a luta!

sábado, 28 de março de 2009

"O Caso do Homem do Guincho"... ou - 11

11.

O Guarda-republicano, depois de entrar no posto, ainda veio à janela ver o que teria feito o Homem. Vislumbrou-o a dobrar a esquina do quarteirão. Passo inseguro, cabeça baixa. Andar cabisbaixo.
Tentou desligar. Fardou-se. Apresentou-se ao Comandante.
O Guarda-republicano fora a Lisboa tratar de assuntos pessoais e trocara de serviço com um camarada. Ainda pensou referir o caso do Homem mas não o fez.
Almoçou. Tomou conhecimento de algumas situações ocorridas. E saiu em tarde de ronda em jeep, com um outro GNR. De rotina.
De repente, decidiu “Vamos passar pela Boca do Inferno…”.Nada de extraordinário mas pareceu-lhe uma premonição. Lembrara-se do Homem. Não estranhou, por isso, lá o encontrar, sentado numa pedra, absorto, olhando o vazio, como se ali estivesse há eternidades e para sempre.
Enquanto se aproximavam, explicou ao camarada a situação. Em duas palavras.
“Boa tarde!”.
O Homem como que foi arrancado do seu mundo, onde estaria só, tremendamente só. Levantou os olhos. Perplexo. Viu um homem fardado, algo familiar, mas não reconheceu quem o ajudara em Lisboa, quem o abordara no comboio, com quem anadara ruas de Cascais.
"Boa tarde…”.
“Não me está a reconhecer porque estou fardado… sou quem…”.
“Ah!... sim, sim, estou a reconhecê-lo… até me disse que era guarda-republicano…”.
O Guarda-republicano estendeu-lhe a mão, apresentaram-se os três homens. “Quer tomar um café ali no barzito?... já almoçou?”.
O Homem levantou-se, sempre com a pasta que ainda não largara, e acompanhou os dois guardas-republicanos. Como se não tivesse vontade própria. Ou dela estivesse alheado.
“… diga lá… almoçou ou não? Tem de comer qualquer coisa…”, o Guarda-republicano pediu uma sandes e um galão, que o Homem comeu. Com indiferença. Alheado do que o rodeava, indiferente.
“Vamos lá ver… nós só queremos ajudá-lo! O que é que se pode fazer por si?… diga lá…”.
O Homem pareceu reagir à insistência “Nada… Não preciso de nada! Obrigado. É apenas um mau momento. Uma coisa complicada. Muito pessoal. Estou bem. Só quero estar um bocado a pensar… ou deixar que este turbilhão assente …”.
“Bom… quer que o deixemos em paz, é isso?”.
“Sim e não. Quero estar só… mas… palavra!... estou muito reconhecido pelo seu cuidado. Olhe… um dia destes procuro-o no posto da GNR. É em Cascais, não é?!”.
“É sim. Vamos ter de continuar o nosso giro. Veja lá… se precisar de alguma coisa, diga!”. “Obrigado, meu amigo.”.
E o Homem ficou. Sentado. Já não na pedra mas numa cadeira do barzito da Boca do Inferno. A olhar o mar.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Desabafos e devaneios

Desgosta-me a ignorância, lamento a estupidez, abomino o sectarismo.
Há comentários (não neste blog mas é neste que desabafo ou devaneio com fumos pró literato-filosófico por aqui não ter o risco de agravar os anátemas agressivos de "coitadinho", de "incompreendido", de "injustiçado, de "manipulador", e etc. com que mimoseiam) em que o/a(s) autor/a(s) se auto-denuncia(m) ignorante(s), estúpido/a(s), sectário/a(s). Abusa(m). Por acumular(em) estas "qualidades".
E há momentos na vida de um homem (e de uma mulher, seria dispensável dizê-lo) em que além dos centímetros que constam no BI se tem de subir aos ten feet high que, em tradução e arredondamento para português, dá três metros de altura.
Já passei, tantos anos vividos, por alguns desses momento e nem em todos atingi a fasquia. Mas em nenhum fiquei tão longe que me sentisse abaixo do metro e setenta e três centímetros que é o meu exterior desde que parei de crescer por fora.
Olho à minha volta e às vezes fico triste por ter de baixar os olhos, muito para baixo, de ter os pôr ao nível do rés do chão, para lobrigar certa gentinha. Mas a gente, aqueles que formam os colectivos, as massas na dimensão do tempo histórico, depressa me recuperam para a crença na Humanidade. E para a luta. Todos com os olhos (e as vozes) ao alto!

ou... "Uma História com Final (aparentemente) Feliz" - 10

10.
O Senhor Administrador terminou o telefonema para a Esposa, ligou a televisão e foi sentar-se no sofá onde estivera na entrevista com o Homem. Com o comando à (pequena) distância procurou o canal do “boletim meteorológico das Bolsas”, e mal começara a ser informado, a Secretária avisou-o que na linha um estava o Senhor Comendador que lhe queria falar. Ele resmungou “lá vem o comandador…”.
Não era nada de importante. O Senhor Comendador apenas queria comentar a evolução de umas cotações e, claro, “comandar umas operações” que, aliás, estavam a ser executadas pelo corretor. Mas era preciso ter mais opiniões e acompanhar “aquela loucura” e, claro, aproveitá-la… “Isto das crises até trazem grandes oportunidades, ó Administrador!”.
A conversa, que nem conversa foi, acabou depressa com uma lembrança comandada, ou “encomendada”, “… veja lá esse almoço com Secretário de Estado… isso tem de ser bem preparado… aquele negócio não pode falhar… já falei com o Primeiro e os gajos estão a pôr uns problemazitos… eles que não se façam esquisitos que gente para os governos é o que mais falta… a propósito, olhe que você tem hipóteses…”. E não disse mais que “isto dos telefones…”.
Antes de sair para o almoço, o Senhor Administrador ainda telefonou pelo telemóvel para o Director da Agência. Queria dar-lhe informações sobre a conversa com o Homem e ter mais uma informações sobre “a casa”, sem abrir muito o jogo.
“Olhe lá, oh Director, aquela garantia da casa vale mesmo mais que os 50 mil?”.
“Muito mais, Senhor Administrador…!” .
“Você, conhece-a por dentro, claro?”.
Muito bem, Senhor Administrador… ninguém diz, vendo-a por fora… e tem cá um recheio… sobretudo em quadros, originais de amigos que estão a singarr no mercado das artes, e ali há trabalho de arquitectos… o Homem está bem relacionado…”.
“’Tá bem, ‘tá bem… olhe, há-de mandar um croquis desses interiores… por curiosidade…”.
“… mas sabe, Senhor Administrador? ‘Inda agora me telefonou a Mulher, a mulher do Homem, muito preocupada… o Homem ainda não lhe telefonou a dizer como correu a entrevista, já são horas de almoço e ele é sempre muito certinho nos contactos com a Mulher…”.
“… correu bem, correu bem, se calhar aproveitou estar cá por Lisboa e fui aí dar uma curva ou almoçar com um amigo, ou uma amiga… dê lá uma palavrinha da minha parte à Mulher…”.
“Sim, Senhor Administrador. Já agora, informo V. Excelência que vou esta tarde aí à sede por causa de uma situação nos Recursos Humanos… se for preciso alguma coisa estou aí a partir do meio da tarde, pelas 3 e meia…”. “’Tá bem, tá bem…, boa viagem.” E desligou.
Desceu à garagem, o motorista levou-o a casa. A Esposa esperava-o, ansiosa.
Foi um almoço em que, por insistência dela, apenas se falou de um tema. Daquela casa lá na aldeia que tinham visto da outra vez, que era do Homem que o Senhor Administrador recebera.
Com alguma condescendência e enfado, o Senhor Administrador foi acalmando tanta insistência. Falou dos quadros falou da arquitectura interior, que iriam conhecer melhor a partir de um croquis do Director da Agência, do “recheio” em que parece que havia obras interessantes e que, talvez…, fosse de ver e de avaliar se havia algumas coisas a aproveitar, e falou de mais umas coisas que, embora com alguma secura, foi deixando que a imaginação soltasse.
“Mas olha… nada disto está seguro… é apenas uma hipótese… não te entusiasmes demais…”.
“Ora, ora, eu conheço-te bem… sei que se tu quiseres mesmo vai ser possível… e a nossa Menina ia ficar tão contente… aquela casa tem todas as características que dão com ela…”.
“Vamos ver, vamos ver… até porque me parece que seria um bom negócio… mas não está nada certo, não contes com o ovo no cú da galinha… este é um dos segredos dos negócios.”.

terça-feira, 24 de março de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 9

9.

O comboio parou em Cascais. Sem que ele, o Homem, parecesse ter dado conta disso.
O Guarda-republicano não deixara, por um momento da viagem, de estar atento ao Homem. Para si mesmo, gracejou “… era só o que me faltava!… fazer de anjo da guarda… republicana…”.
O facto é que estava preocupado. Vira o Homem não tirar os olhos da paisagem. Indiferente a tudo. A quem entrava, a quem saía. Aos lugares por onde passavam, às paragens que se iam fazendo. E parecia boa pessoa… Que lhe teria acontecido? E que iria fazer?
O Homem ficou no seu lugar. Agarrado à janela. Preso nos seus pensamentos. O Guarda-republicano aproximou-se. Pôs-lhe a mão no ombro e sacudiu-o levemente. “Oh!, homem… já chegámos a Cascais, ao fim da linha. Quer voltar para Lisboa? Desculpe lá estar a meter-me… mas o senhor está a preocupar-me…”.
O Homem olhou-o. Sem o ver. Não deu mostras de reconhecer quem, ao atravessar da Praça Duque de Terceira para a estação, evitara que fosse atropelado. Olhou o outro. Balbuciou “…estou bem, estou bem… obrigado… não se incomode…”. “Veja lá… eu sou guarda-republicano, vou entrar ao serviço, no turno da tarde e começo da noite, pode vir comigo se precisar de ajuda, vou só apresentar-me, fardar-me, almoçar, e posso conversar consigo, levá-lo a qualquer lado… sei lá…”. “Não!, não… eu estou bem… só um problemazito pessoal que me está a fazer pensar… mas isto passa já, isto passa já….”
Saíram juntos do comboio e da estação, e mergulharam no bulício da cidade. Lado a lado, andaram ruas. Um sem dizer nada, o outro sem saber que dizer. À porta do posto, o Guarda-republicano insistiu para que o Homem entrasse, ou esperasse por ele enquanto cumpria formalidades da entrada ao serviço. “Não, não… estou bem… obrigado pelo seu cuidado.”.
O Guarda-republicano entrou no posto. O Homem continuou a caminhar. Como se tivesse um caminho para fazer. Andando.
A alternativa casa ou livraria inundara-o por completo. Afogara-o. Desde sempre aquela casa era o seu “canto”, o seu “refúgio”.
Tantas coisas na memória!... Coisas dele e coisas do pai que para si tomara. Nunca pusera a hipótese de ter outro fim de vida que não fosse ali. Ali. Todas as suas viagens tinham um regresso. Ali. Mesmo a livraria era uma espécie de complemento do seu viver ali. Ali, naquele canto. Seu. A sua única propriedade. O seu espaço. Que fora moldando a si, e ele àquele espaço se moldando.
Mesmo quando dera a casa como garantia para a livrança não o fizera a não ser como hipótese absolutamente virtual, irrealizável, para que aquela garantia pudesse ser… uma garantia.
A frieza com que o Senhor Administrador pusera a possibilidade de se transformar “a quinta” em turismo rural, ou até aliená-la, provocara-lhe um choque de que não se conseguia libertar.
Preparara-se para uma outra conversa. Que, no limite, poria em causa a continuidade da livraria. Mas nunca que a casa pudesse ser uma solução para o problema da empresa, da livraria, daquele outro espaço que criara – via-o agora – como uma extensão da sua casa na aldeia.
Procurava arrumar ideias. Mas o choque fora brutal. Não queria falar com ninguém Só queria estar só. Pensar. Pensar. Recuperar(-se).
Mais do ver-se com o mar ali ao lado, ouvia-o batendo nas muralhas e nas rochas. Deixava que as pernas o levassem onde quisessem.
Reconheceu, surpreendido, estar na Boca do Inferno. Lugar habitual dos passeios dominicais no carro então recém comprado pelo pai. Há bem 50 anos. Há mais de… E a memória trouxe-lhe a presença viva do pai. E da casa onde este nascera.
Não! Impossível. Nunca o trairia! Aquela era… a casa deles.
Estava cansado. Sentou-se. Agora a olhar o mar.

domingo, 22 de março de 2009

Já não não se diz... - 2

Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
vão para casa cozer as meias!
Já não se diz (ou nunca se devia ter dito…)
quanto mais me bates mais gosto de ti
Já não se diz (ou não tem sentido para o gato cá de casa…)
carapaus de gato
Já não se diz (ou está a deixar de se dizer…)
levantar o auscultador do telefone
Já não se diz (ou está a deixar de se dizer…)
pousar o auscultador do telefone


5 de cada vez

sábado, 21 de março de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 8

8.

Ao passar junto da Secretária, esta balbuciou uma desculpa “Oh Senhor Administrador… eu só fiz o que me mandou fazer e quando me mandou fazer… às 11 horas…”. “É verdade, é verdade, mas o facto é que quando entrou no meu gabinete foi muito inoportuna… íamos mesmo falar do que era importante… mas tudo bem… você não teve a culpa, não podia adivinhar… ligue-me à minha esposa...”. E entrou no gabinete.
Sentou-se no confortável cadeirão, cruzou os braços atrás da cabeça, recostou-se e esperou a ligação para a Esposa. Que logo veio.
“Sim? Sou eu… Já falei com o homem. Está mesmo aflito e as coisas podem arranjar-se.”. “Ah! ainda bem... A quintarola é mesmo gira e ficava a calhar para a nossa menina. Perguntaste-lhe se tem ar condicionado e aquecimento central e cómodos?...”. “… Claro que não, mulher! Nem mostrei interesse pessoal. Mas tem isso tudo. Então não viste as chaminés? De qualquer modo, teríamos de fazer obras… Até ao casamento temos tempo… ainda faltam uns meses…”. “Está bem, está bem… é que gostava mesmo de lhe dar essa prenda.”. “Vamos ver, vamos ver…”. “Vens almoçar ou…?” “Vou almoçar, vou. Até já”.
***
O Homem viu-se na rua. Estava aturdido. Incapaz de pensar. Tudo correra diferente do que imaginara e do modo para que se preparara.
Cruzava as pessoas como se não existissem, e elas tinham de se desviar daquele homem que mais parecia um sonâmbulo com uma pesada pasta na mão.
Deu a volta a todo o quarteirão, passou pela Praça do Comércio, entrou na Rua do Arsenal, atravessou a Praça do Município, e chegou à Praça Duque de Terceira. Ao Cais do Sodré.
Depois do largo, como um autómato, dirigiu-se para a estação de caminho de ferro e, ao atravessar a 24 de Julho, por pouco não foi atropelado. Só não o foi porque um homem, que esperava que o semáforo passasse a verde para os peões para chegar à estação, saltou do passeio, o agarrou por um braço e desviou-o dos automóveis que quase o colhiam.
O Homem sussurrou um obrigado, libertou-se da mão que lhe segurava o cotovelo, entrou na plataforma e no primeiro comboio que ali estava. No meio de gente, de muita gente já no intervalo do almoço.
O outro não o perdeu de vista. Ficara impressionado com o alheamento que sentira em quem salvara de ser atropelado. Procurou o revisor, mostrou-lhe o seu cartão de guarda-republicano, disse-lhe duas palavras sobre o cuidado a ter com aquele passageiro, que nem bilhete comprara, e sentou-se perto. E vigilante.
O comboio partiu. O Homem, sentado num lugar junto à janela, continuava alheado de tudo o que o rodeava. Dentro dele um vendaval. A memória do pai impunha-se. Do pai que nascera naquela casa, que a fora acrescentando com as parcas economias, que lha deixara como única herança. E a casa. A casa que ele se habituara a ver como coisa sua, e para onde fora viver a tempo inteiro logo que arranjara condições para isso. A casa onde tudo o que ganhara fora aplicado, quer em arranjos para harmonizar as sucessivas transformações que o pai fizera, quer para a tornar confortável, quer para nela criar um espaço com condições para trabalhar. Para viver. Com ela, com a Mulher.
Nunca, mas nunca!, pusera a possibilidade de se desfazer daquela casa, de a trocar fosse porque palácio fosse, fosse para que Pasárgada fosse. Aquela sugestão do Senhor Administrador deixara-o em estado de choque.
A pasta prolongava-lhe o braço, mas era como se nem ela o ligasse à vida. O telefone tocava e ele não ouvia.
Era, decerto, a Mulher a querer saber “como correra” a entrevista. Mas ele não ouvia, ele não via, embora os seus olhos se perdessem no horizonte que corria ao lado do comboio.

Já não se diz (ou já não se devia dizer...) - 1

Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
atacar os sapatos
Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
abotoar a braguilha
Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
dar corda ao relógio
Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
puxar o autoclismo
Já não se diz (ou já não se devia dizer…)
o Partido Socialista é de esquerda

- 5 de cada vez

sexta-feira, 20 de março de 2009

20 de Março de 2009

Faz-se uma pequena pausa. Viaja-se até ao quintal. E por lá nos quedamos. Em passeio lento.
Como tudo mudou em uma semana, em dias, em horas!
.

Corre-se a casa. À procura da máquina fotográfica (que pena ser "só" esta...).
.

E aqui está! Parece que começa hoje a primavera...
Nós vimo-la chegar, passo a passo, ramo a ramo, flor a flor.

quinta-feira, 19 de março de 2009

"O Caso do Homem do Guincho"... ou - 7

7.

O Homem puxou da pasta, tirou um dossier e começou.
E começou pela história da empresa. Dissera duas frases, e já o Senhor Administrador o interrompera “Ó meu amigo – desculpe… qual é o seu nome? –… desculpe interrompê-lo mas tenho de lhe lembrar que o meu tempo é muito curto. Eu conheço os dossiers, a história da empresa e isso. O Director da Agência informou-me devidamente e eu colhi informações complementares – até porque ele é seu amigo, não é verdade? –, por isso, veja se consegue ir rapidamente ao cerne da questão…”.
“Com certeza, com certeza… Pois, Excelentíssimo Senhor Administrador, é que a livrança de que foi proposta a reforma, é vital para a empresa. Julgo que as garantias e os avales são mais que suficientes para cobrir qualquer contingência relativamente ao cumprimento de amortização e prazos… para além disso, tenho dificuldade em defender a proposta sem falar da história e da importância da empresa… mas tenho aqui mapas e gráficos, alguns que, com certeza Vossa Excelência conhece, que demonstram a viabilidade da empresa se ultrapassado o estrangulamento de tesouraria." O Senhor Administrador deu algum sinal de impaciência. O Homem tirou um dossier da pasta. Procurava ser rápido mas como que se atropelava.
"... até porque as iniciativas programadas têm em vista essa viabilidade económica. Por outro lado, quanto a garantias, temos a casa…”.
Foi interrompido pela entrada, deslizante, da Secretária “Perdão, Senhor Administrador, estão à sua espera para começar a reunião…”.
O Senhor Administrador mostrou-se ligeiramente agastado “… eu sei, eu sei, eles que esperem um pouco” e, voltando-se para o Homem, aproximou-se mais dele “… desculpe… conheço isso tudo de que me fala… mas diga-me mais sobre as garantias, sobre a casa…”.
“Claro, claro, Senhor Administrador… temos a casa onde vivo, na aldeia, que vale bem mais que os 50 mil euros da livrança…”. “… a casa, pois…. vale, decerto, mais que 50 mil euros… sabe que eu conheço-a? Já passei mais de uma vez à sua porta… quando vou visitar o meu amigo, o Senhor Empresário, que tem uma quinta ali perto, a Quinta da Azinheira... conhece, claro?... Pois, numa das vezes que lá fui até espreitei para a sua quinta…”. “Quintal, Senhor Administrador, mais um jardim…”. “Não desvalorize, não desvalorize… aliás, quando estudei o seu dossier, e vi as garantias que oferece, até fiquei com pena que, com tais garantias, tivéssemos de não aprovar a sua pretensão – para mais, sendo eu o responsável pelas novas e estritas decisões que não consentem precedentes…”. “Mas, Senhor Administrador…”. “Meu amigo, é assim: não posso rever a posição que tomámos. No entanto, aceitei o pedido desta entrevista – olhe que o Director da Agência é mesmo seu amigo… – para lhe sugerir que pense numa solução em que entre a casa que apresenta como garantia. Não quer encarar a possibilidade de a transaccionar?”. “Oh Senhor Administrador… nunca tal me passou pela cabeça. É a casa onde nasceu o meu pai, e onde quero acabar os meus dias. Onde enterrei todo o dinheiro que ganhei. Nunca pensei nisso…”. “Pois então pense. Sei lá… turismo de habitação, olhe que tinha condições e está optimamente localizada, ali com a auto-estrada tão perto, mesmo ao lado – e tão afastada! – do santuário. Ou para outros fins… sei lá Pense nisso, pense nisso… e tenho muito pena, mas temos de acabar a nossa conversa. Foi muito agradável…”. Levantou-se.
O Homem fora apanhado de surpresa. Atabalhoadamente, meteu na pasta o que dela tirara, levantou-se e ainda gaguejou “Mas, oh Senhor Administrador, tinha tanta coisa para lhe dizer…”. “Meu caro, o mais importante foi dito… e o resto conheço tão bem como o meu amigo. Pense é nisso do negócio com a sua quinta… e fale comigo… terei muito gosto em o ajudar. Até breve!”.

E acompanhou o Homem à porta, ao corredor e até ao elevador.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Tradução à letra...

Eh pá!, não me quites, pá...

terça-feira, 17 de março de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou...

6.
A sala de espera do último andar da sede do banco tinha um discreto charme. Da burguesia. Talvez melhor se dissesse que era cautelosamente luxuosa.
O Homem sentiu-se relativamente tranquilizado mas também um pouco intimidado. Seria essa a intenção do ambiente. Do mobiliário e da decoração.
Lembrou-se que não telefonara para a Mulher. Logo puxou do telemóvel e marcou o número. “Era só para te dizer que cheguei bem e que estou na sala de espera do Senhor Administrador.” “E como estás? Nervoso? Há-de correr bem…”. “Nervoso? Um bocadinho…”. “Vá. Força!”. Lembrou-se de uma coisa: “Olha… se fazes favor, telefonas ao…”.
A Secretária do Senhor Administrador apareceu à porta, parecendo ter deslizado da sala contígua, e postou-se entre ombreiras, como se esperasse com alguma impaciência.
Ele, o Homem, atrapalhou-se com o telemóvel, teve a reacção de quem fora apanhado em falta, carregou na tecla de desligar, levantou-se atabalhoadamente. A Secretária abriu um sorriso condescendente “… não tem importância… termine a sua chamada…”. Ele tartamudeou “… já tinha terminado...”. Ela manteve o sorriso que afivelara e disse “o Senhor Administrador está a terminar uma chamada para o estrangeiro e já o atende… serão só mais uns cinco minutos… ou menos… fique à vontade… se quiser alguma revista posso arranjar, mas tem aí o jornal de hoje… com licença...”. “… muito obrigado…”.
Sentou-se de novo. Arrumou-se. Pegou no jornal do dia (de negócios…), que estava sobre a mesa baixa em frente do sofá, e folheou-o. Leu os grandes títulos e a legenda das fotos. “… isto está bonito está…”. Numa das fotos, o Senhor Administrador dizia coisas que o jornal transcrevia. Comentários. Mais conselhos ao Governo que opiniões. Era preciso que, e mais que.
Tinha dificuldade em se concentrar na leitura de uma notícia ou de um artigo mais extenso. Olhava, de vez em quando, para o relógio. Já passara um quarto de hora da marcação da entrevista…
A Secretária do Senhor Administrador apareceu, sempre como quem vem dos camarins para a passerelle, com o sorriso profissional “O Senhor Administrador vai recebe-lo… acompanhe-me, por favor…”.
O Homem levantou-se sobraçando a pasta, e seguiu a Secretária, um palmo acima dele, para o que ajudavam uns saltos altos e pontiagudos na base de umas pernas bem torneadas. Apesar de tudo, não deixou de apreciar esteticamente a mulher que o conduzia pelo curto corredor.
Uma porta foi aberta pela Secretária para ele passar e entrar num amplo gabinete, daqueles que se vêem nos filmes, com uma larga janela sobre a Lisboa pombalina, evidenciando que a decoradora (ou o decorador) tinha sido a mesma da sala de espera.
O Senhor Administrador levantou-se da enorme secretária a que estava sentado, e veio cumprimentar o Homem, passando entre a mesa com o computador e a estante com espaço aberto para o visor da televisão. Encaminhou-se para um jogo de maples, fazendo-se acompanhar pelo Homem.
Era mais baixo do que (a)parecia na televisão e nas fotos. Mostrava-se simpático mas distante “Prazer em conhecê-lo… sentemo-nos… desculpe o atraso… foi uma chamada inesperada… sabe? eu sou um escravo da pontualidade… desculpe… e assim o nosso tempo ainda ficou mais curto porque já tenho uma reunião à minha espera… vamos ao que interessa… aliás, recebo-o por insistência do Director da Agência e, embora tenha gosto em falar consigo, espero que compreenda que o meu tempo é escasso…”. ”Com certeza… e muito obrigado por me ter recebido…”. "Toma um café?… uma água? Não?!... diga então…”.
O Homem puxou da pasta e começou.

sábado, 14 de março de 2009

ou ... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz!"

5.

O Homem entrou no táxi pela porta traseira e acomodou-se. Não era o seu costume. Não gostava daquela situação de dois homens num mesmo transporte público, um à frente a conduzir o outro lá atrás, que lhe ordenava onde ir sem qualquer comunicação entre eles. Como se fossem estranhos quando, pelo menos naqueles minutos que poderia durar “a corrida”, estavam ali fechados naquele habitáculo, companheiros de jornada…
Mas, desta vez, queria sossego para se poder concentrar na importante tarefa a que ia, que o esperava. Ou em que o Senhor Administrador o esperava a ele… Sorriu-se de novo.
Depois dos formais bons dias ao motorista do táxi, deu-lhe a indicação da sede do banco, na Baixa, e preparava-se para uma derradeira vista de olhos pelo interior da pasta.
Do banco da frente veio a pergunta que alguns dos taxistas lhe faziam, talvez para corresponderem à sua saudação e sempre correcta indicação de destino, ou apenas por atenção profissional: “Qual é o percurso que prefere?”.
Era assim que, habitualmente, começava uma conversa entre dois homens num táxi, o conduzido a responder que tanto lhe fazia, que o outro é que era o profissional, o condutor a dizer que o senhor podia ter preferências. E a contra-réplica de que não, o senhor é que tem o volante nas mãos e conhece os melhores percursos… mas logo seguido, para que a conversa não morresse ali e prosseguisse, pela indicação de que se fosse ele com o carro próprio iria por aqui e por ali, mas logo acrescentando que isto era sem ter em conta as faixas de rodagem dos transportes públicos… E assim costumava deslizar a conversa sobre quatro rodas, por vezes com apoio do que a rádio ia transmitindo e poderia interessar a dois homens em trânsito.
Desta vez, não. O Homem foi seco sem deixar de ser correcto, urbano. Ou não fosse ele assim e não estivesse na grande urbe. “O senhor é que sabe… é que é o profissional!”. E mais nada.
No entanto, quando um pouco à frente, o rádio transmitia o meio noticiário das meias horas, o condutor daquele táxi, que seria dos que gostam de conversa (porque há os que nem troco dão), ainda tentou comentar o resultado da véspera do Benfica, de que balouçava o galhardete pendurado no tablier. O Homem confirmou não pretender conversar com um polido “não ligo nada ao futebol, desculpe…”, mergulhando nas entranhas da pasta à procura de um papel solto que lhe parecia estar a faltar. Mas não estava.
Naquela hora de manhã a meio, já passada a avalanche do começo do dia e ainda cedo para a vaga intermédia do intervalo do almoço, o trajecto não teve engulhos de trânsito. Desceram a António Augusto de Aguiar, viraram à Fontes Pereira de Melo, rodearam o Marquês, desceram a Avenida e estavam na Baixa, com poucos vermelhos e não tendo pisado nenhum amarelo.
Pago o serviço e deixado o troco, o Homem viu-se à porta da sede do banco com um bem largo quarto de hora de avanço. Entrou num velho café, adaptado a pastelaria-snack e similares onde se faz de conta que se almoça as chamadas refeições ultra-rápidas, bebeu um café e uma água, sem se sentar porque a ansiedade começava a crescer, embora tivesse nascido já bem crescidota.
Encaminhou-se, contando os passos segundo a segundo para chegar à recepção mesmo à hora marcada. Apesar de todos os cálculos e contenções, estava frente à muito produzida secretária do Senhor Administrador com uns minutitos de avanço. Coisa de nada, mas que a esbelta funcionária não deixou de sublinhar com um sorriso muito profissional e o pedido que esperasse que ela o chamasse na sala que para isso servia, na sala de espera, porta ao lado.
Ali se sentou. O Homem e a sua pasta cheia de esperanças.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Histórias ante(s)passadas - fora de séries - Celeste Amorim

Morreu a Celeste Amorim.
A notícia chegou-me inesperada (são sempre inesperadas e brutais as notícias da morte dos nossos amigos!).
Fiquei, como sempre também, triste, pensativo. Lembrando.
E com as lembranças - e tantas são as da minha "comadre", da minha amiga, da minha camarada - veio a vontade de contar uma estória. Uma história ante(s)passada. Como uma muito sentida e grata homenagem.
Na prisão, conheci os camaradas que tinham sido presos em Torres Vedras. Naquela "leva" que nos juntou, também aquela organização local fora severamente atingida.
Mas contava-se, na prisão, a proeza da Celeste Amorim. Que nos fazia rir e dava força.
Vivia a Celeste Amorim em Torres Vedras, e na deslocação que a brigada da PIDE fez à cidade (Torres Vedras seria já então cidade?) para trazer para a António Maria Cardoso e Aljube, primeiro, depois para Caxias, os perigosos subversivos, estava incluída uma "visita" a casa da Celeste Amorim.
Cumprindo o seu roteiro, já com algum "peixe na rede" e circulando, clandestina, a informação, a Celeste estaria preparada para a recepção...
Os pides bateram à porta e a "dona da casa" abriu com aparente descontracção. "Eles" identificaram-se. Era, disseram, uma visita de rotina, coisa sem importância, uma "visita" rápida e umas perguntas breves...
A Celeste Amorim, muito jovem, com aquele seu sorriso, embora aquele fosse muito forçado, terá respondido que sim, senhor, façam favor de entrar.
E quando eles entraram... ela saíu! E saíu com a chave na mão, e fechou os pides dentro de casa!
E fugiu!
Os que iam prender ficaram presos na casa de quem iam prender. Que falta de profissionalismo deles e que coragem e determinação da Celeste Amorim.
A Celeste Amorim ficou largos meses fugida, em casa de amigos e camaradas, e só aos poucos, discretamente, tenteando o regresso, foi voltando à vida "normal", tanto quanto podia ser em tempos de fascismo.
Lembro-me tão bem do jantar em casa da Celeste Amorim, onde também esteve o pai dela, quando já eu saído da prisão, nos conhecemos. O que nós rimos da sua proeza.
E tantas mais coisas para recordar!
Tantas mais coisas! Ligadas ao Coro do Lopes Graça, ao nosso afilhado comum. À vida! À luta!

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 4

4.

O “expresso” ia cumprindo a sua tarefa de levar o Homem a Lisboa. Rolara sem quaisquer problemas até passar as portagens. A partir daí, as coisas começaram a complicar-se. Era a “hora de ponta”, da entrada na grande cidade para mais um dia de labuta e correrias.
O Homem viera abrindo e fechando a pasta, prenhe de dossiers, e cada vez que lhe mexia parecia ficar com menos espaço. Ora tirava um dossier, ora tirava outro a substituir o anterior, por ordem de alguma ideia ou lembrança que lhe surgia. Sempre com o caderninho de apontamentos à mão para acrescentar ou corrigir o que decidira dizer ao Senhor Administrador. De forma sintética, organizada, eficaz. Até porque não esperava enormes disponibilidades de tempo. Era uma oportunidade a aproveitar. Com rapidez e resultados práticos.
Um brevíssimo historial da empresa, umas sucintas notas sobre os objectivos não-empresariais, os caboucos da empresa, a sua evolução nos cinco anos de vida, as muitas iniciativas e o seu impacto local, também económico naquele micro-cosmos, as contingências do mercado livreiro e cultural, a questão do PEC e de outras decisões governamentais, tudo para introduzir a demonstração da razoável situação económica, das dificuldades financeiras, sobretudo de liquidez, do papel determinante do crédito bancário com que vinha contando, as garantias sólidas e os avales consistentes, a necessidade da continuidade das reformas da livrança para poder cumprir compromissos a que não queria faltar nem protelar.
Tudo bem articulado até ao pedido final de que fosse revista a decisão. Ainda uma brevíssima referência ao património de raiz familiar, a casa e o quintal (talvez devesse dizer quinta...), que servia de garantia confortável mas que não queria alienar, que era de difícil negociação, ou até impossível por questões afectivo-sentimentais. E valia bem mais que os 50 mil euros... Aliás, para ele, não tinha valor traduzível em euros, ou em dólares ou lá no que fosse.
Ia ganhando cada vez mais segurança no “discurso”, como o actor que se meteu no papel e conhece o texto até às vírgulas e reticências, às deixas e silêncios, e, contraditoriamente, ia ficando mais nervoso quanto mais o "expresso" se aproximava do terminal de Sete Rios.
A difícil entrada em Lisboa estava a pô-lo mais inquieto, ansioso. E ainda houve aquela passagem pelo aeroporto, para deixar dois dos poucos passageiros que, decerto, iriam voltar, de avião, para os seus destinos, depois de cumprida uma promessa ou de uma visita aos lugares pátrios ou mátrios.
As miradas para o relógio foram sendo mais frequentes. Ou o relógio começara a andar mais devagar.
Distraído, abriu o jornal, para reler os títulos e mais um ou outro texto. Desinteressado, sem se fixar.
No entanto, tudo bem… embora com uns minutitos de atraso, o autocarro entrou no terminal com muito tempo para ele estar na Baixa bem antes das 10.30, hora da entrevista no grande e imponente edifício onde era a sede do banco, e onde o Senhor Administrador o esperava. Pela primeira vez sorriu, achando graça aquela ideia de que havia um senhor administrador à espera dele…
Apesar dessa folga, desse tempo que lhe sobrava, achou prudente tomar um táxi, em vez de ir de transporte público como gostava de fazer. Não iria fazer o Senhor Administrador esperar por ele!...
Ao entrar no táxi, de novo sorriu com aquela mesma piada contada para dentro de si.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O jardim dia-a-dia

No sábado, como então mostrei, estava assim:


Hoje, está assim:

Que maravilha!

per curso do reformado

segundo as estações ou o clima:

Logo ao princípio (da situação de reformado):
qualquer que fosse o tempo,
sentia-se bem...
... ia até Belém,
jogar à sueca
dormir belas sonecas.

Neste inverno:
faça chuva ou faça sol,
para seu mal...
... vai, todos os dias, p'ró centro comercial,
ver passar as beldades
lembrar umas "maldades".

Quando chegar a primavera
estará, talvez, no fim...
... já nem irá ao banco de jardim,
da cama p'rá janela
da janela pr'ó sofá
do sofá para a cama.

Sem dúvida!

Dúvida. Um filme.
Um daqueles filmes muito bem feitos, com um quase assustador aproveitamento do meio de comunicação que é o cinema. Com interpretações excepcionais.
Depois… fica a dúvida. Ou as dúvidas.
Alguns discursos-sermões-homilias são notáveis de retórica. Que são um regalo "ouver".
Sobre a dúvida.
Sobre a intolerância.
.
Mas... e então o discurso sobre a tolerância? Sobre as fronteiras entre a tolerância e a permissividade, entre ser tolerante com intransigente respeito por princípios e valores, e tudo compreender e aceitar?
E então o discurso sobre a ambiguidade? Sobre a inocência desprotegida e agredida, que despoleta, por inocente e agredida, todas as ambiguidades?
Mas… ter-se-á que discursar sobre tudo? Não! Claro que não. Mas também não se podem deixar discursos em meio. Porque, se se disserem apenas meias-coisas, fica sempre por fazer o discurso sobre a ambiguidade, ou deixa-se, implícito, o discurso-mensagem da ambiguidade. Vazio de princípios e valores.

Sem dúvida... mas com muitas dúvidas.

Cróniquinha intercalar e contingente

As contingências. O desporto é assim. Com (tin) gente. Às vezes pin gente. Pun gente.

Estava a trabalhar. Aqui. Com o televisor ligado. Com a táctica de ter um ouvido no som apenas audível para olhar as repetições quando algo acontecesse que as merecesse.

Assim, vi aquele primeiro golo dos de Munique. Que não pode acontecer, ó sr. Rui Patrício! E que dá cabo da moral de qualquer um, para mais de quem já a tinha em dúvida ou estava carente dela. Depois, houve aquela saída desastrada, ao encontrão, do mesmo patrício com sr. Polga a oferecerem uma bicicleta com brinde ao mesmo de nome polaco do primeiro, e ainda o espectacular golo "na própria" do mesmo (em)Polga(do) na asneira.
Mas nada valeu a revisita ao golo do sr, João Moutinho. Aquilo, sim, aquilo é um golaço. Que morreu afogado naquele naufrágio.
Foi uma desgraça. Mal empregado golo, ó João. Se o jogo tivesse sido outro, e apenas se repetisse aquele golo, ficavam, o jogo e o golo, na história do Sporting. Assim, fica só o jogo. Que pena! Contingências.
Ah! já não ouvi/vi a segunda parte do desastre. Tinha mais que fazer... E não queria que me fizessem esquecer aquele golo do João Moutinho.

terça-feira, 10 de março de 2009

pinça mentes

Se cada um, em cada momento, apenas se (pre)ocupar com a melhor forma de se adaptar ao momento, ao "estado da nação" (ou ao estado em que está a nação), então vamos todos ter um belo futuro - ah! isso juro - e um lindo enterro, a pagar a crédito (se ainda houver) ...

... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 3

3.

Depois daquele começo de conversa, daquela “má notícia” que o Director da Agência lhe dera, houve um silêncio que durou uma eternidade.
Por fim, o Homem lá tartamudeou:
“É pá!... não pode ser. Como tu sabes, esta livrança é fundamental para conseguir manter o difícil equilíbrio em que tenho aguentado a livraria e o espaço cultural.”
“Eu sei, eu sei… por isso apoiei a reforma, nas condições habituais, com toda a minha força…”
“E agora?… mas as garantias?, os avales?”
“Pois! Mas que queres, eles estão a apertar…”
“Mas não pode ser! Como sabes, e melhor que ninguém, tinha aí umas poupanças em depósitos a prazo, e tu convenceste-me a arriscar numas aplicações que deram para o torto… não tenho qualquer liquidez…”
“Claro que sei e, às vezes, culpabilizo-me por te ter metido nisso… mas estava convencido – porque me convenceram – que ia ser uma aplicação segura e muito rentável… e olha que não foste só tu…”
“Eu sei que também tu foste nessa miragem, e mais amigos nossos. E nem eu te estou a acusar de nada… mas o facto é que essas operações, esses “produtos garantidos”, me levaram as poupanças e, agora, só tenho a casa e o automóvel… e, claro, a livraria… cuja sobrevivência depende do crédito que vinha sendo renovado e para que há todas as garantias e avales…”
“Tens toda a razão… mas que queres? Eles é que mandam. Olha: para veres como me preocupei com o teu caso – e não o posso fazer com todos, e tantos são!… tu nem calculas – eu insisti, insisti, e consegui que o Senhor Administrador da área te recebesse. Foi o mais que consegui.”
“Não percebo. Explica lá isso melhor.”
“Bem… face à recusa da minha proposta, eu insisti, argumentei com as tuas garantias, com os avales, falei do interesse – também cultural – da empresa, da tua seriedade, do teu passado impoluto, disso tudo…”
“E?”
“E nada… mantiveram a recusa a partir dos novos critérios da gestão e etc. e tal. Eu re-insisti e acabei por propor que tu lá fosses, que falasses com o Senhor Administrador e lhe mostrasses, de viva voz, o que eu estava a advogar por mails e faxes… e o Senhor Administrador aceitou receber-te… e olha que o homem é um duro, não recebe ninguém… oeu nunca o vi… está lá, no seu gabinete, no último andar da sede… e dali comanda… e vai à televisão de vez em quando, fazer comentários políticos… tu já o viste, com certeza, e conheces o nome: é o Senhor Administrador …”
“´Tá bem, sei quem é… e então?”
“Então é assim: ele recebe-te e até já consegui que a secretária do Senhor Administrador te marcasse dia e hora para a entrevista… se estiveres de acordo, claro.”
“Claro que estou. Tenho alternativa?”
“Não me parece. Vai lá, vai. Vais à sede, a Lisboa. E…olha: boa sorte!”.

Saíra da Agência, daquele “ar de banco” para o ar livre, um pouco confuso, assarapantado seria o termo a escolher se tivesse de ser escolhido um.

domingo, 8 de março de 2009

No dia internacional da mulher - 8 de Março de 2009

Em 8 de Março de 2002, escrevi uma carta à companheira (ficcionada!... ou talvez uma auto-crítica datada e invertida).
7 anos depois retomo-a, adapto-a e publico-a. Com uma ilustração de Álvaro Cunhal (pormenor de um desenho inédito), em homenagem às mulheres, e com a lembrança comovida das operárias têxteis de Nova York de há 152 anos.

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Carta à querida companheira
por acaso... no dia 8 de Março de 2009,
ano de tantas lutas e eleições


Querida Companheira,
Acordei cansado.
Adormeci tarde, já depois de tu teres chegado da reunião (ou foi de uma sessão de esclarecimento?).
Jantei sozinho, arrumei a cozinha e fiquei, amodorrado, a ver um bocado de televisão. Não havia nada com interesse, já tinha visto o filme da Hollywood, e fui deitar-me com o Expresso… e a intenção de avançar pelo livro que me ofereceste.
Ao ler o jornal, dei-te razão nuns desabafos irritados que te ouvi. Mas há ali matéria para conversa... entre nós. Por isso, fiquei acordado, mesmo depois de desistir de abrir o livro e de ter apagado a luz... para pensar melhor.
Quando chegaste, pressenti os teus esforços para me não acordares, e deixei-me ficar como se estivesse a dormir. Devias vir muito cansada e não seria a altura oportuna para uma conversa a dois.
Hoje de manhã, saíste para um porta-a-porta, como me disseste a correr porta fora, depois de engolir o pequeno almoço e, claro, não era o momento adequado para te dizer o que me foi suscitado pela leitura e pelas reflexões. Assim perdeste o primeiro porta-a-porta, e dentro desta nossa casa...
Ainda pensei que talvez logo à noite... mas é mais que certo que, logo à noite, ou haverá uma reunião, ou haverá um artigo para escreveres, ou haverá um documento para elaborar ou corrigir, ou haverá uma entrevista para preparar, ou, pura e simplesmente, vais cair no sofá, morta de cansaço, incapaz de prestar atenção ao noticiário quanto mais aos meus comentários e à conversa que precisamos de ter. Sim, porque precisamos de ter uma conversa!
Agora, hoje de manhã, quero começar a trabalhar e não sou capaz de o fazer antes de pôr no papel duas ou três reflexões. Por isso, te escrevo esta carta, que não substitui nenhuma conversa mas pode ser dela um intróito.
Sem qualquer dúvida ou hesitação, estou contigo na luta que adoptaste como tua. Conheço, e partilho, as motivações, os princípios, os valores. Sabes que podes contar com a minha ajuda e com toda a minha compreensão. Mas não podes esquecer-te de ti e de nós. Há que colocar alguns limites à entrega, que nunca e em nada pode ser total e incondicional. Há que, de vez em quanto, olhar, parar e escutar como se adverte nas passagens de nível que ainda por aí existem.
Dir-me-ás que sabes tudo isso muito bem mas que, agora, não é possível por causa da manifestação de 13 de Março. Mas também não o foi por causa da preparação do Congresso, como não o foi por causa do pós-Congresso, como não o foi por causa do sim!, é possível, como não o foi por causa dos debates sobre “a crise”, como não o será por causa das “europeias”, e das legislativas, e das autárquicas.
Eu compreendo. Eu sei que não é possível. Mas sei, também, que tem de ser possível. Não falo só por mim. Falo, talvez, mais por ti e pela tua luta, que também é minha embora em escalas muito diferentes. E vejo-me a pensar, e a quase concluir, que é isso mesmo que “eles” querem, que tu e os nossos camaradas não tenham tempo para mais nada a não ser para lhes dar resposta, ou melhor, para lhes dar troco. Mas vocês, melhor: nós temos de inventar tempo e não o gastar todo nesta lufa-lufa a que nos obrigam. Tempo para ler, para estudar, e também!, para nós mesmos e para quem a nós está ligado afectivamente, na relação fundamental, básica de que falava o Marx (gostaste desta?). Como tu e eu que tão ligados estamos como se as nossas vísceras tivessem dado um nó. Mas, atenção!, até os nós mais apertados se desfazem ou cortam... e eu quero ser o teu companheiro, mas não só nas batalhas político-partidárias. Que são a vida mas que não são a vida toda, nem a vida que essas batalhas são se pode fazer sem que as incluamos na vida toda.
Há uma coisa que me ensinaste na teoria e que tens de meter no que comanda a tua - ou a vossa, ou a nossa - prática quotidiana: embora sejamos iguais, somos todos diferentes. É verdade que as circunstâncias fazem o homem e a mulher, mas só nos fazem a partir daquilo que a mulher e o homem são, que cada homem e cada mulher é. Não há circunstâncias que façam de um coxo recordista dos 100 metros, nem há ginásticas e plásticas que façam de mim um Apolo, nem tenho os olhos do Paul Newman, com quem tu, ainda hoje…, me fazes ciúmes (platónicos, platónicos). Temos diferentes cromossomas e os nossos genes não têm a mesmo coloração. Os teus são mais vermelhos que os meus!
A organização é, para o colectivo da tua/nossa luta, fundamental. Mas a organização tem de ter em conta que um colectivo é formado por unidades, todas diferentes, e que existe para mudar a sociedade, sociedade que é formada, na sua esmagadora maioria, por gente tão diferente de nós que está longe de perceber por que sociedade lutamos, até porque há meios gigantescos usados para se impedir essa tomada de consciência e para darem, de nós, de ti e de todos nós-camaradas, uma imagem que é uma horrenda caricatura.
Mas, voltando a nós, o que quero sublinhar é que não podemos exigir o mesmo a todos. Não se pode exigir, a todos, a mesma entrega total, a mesma dedicação absoluta, decerto excessivas quando desenquadradas das realidades. Se a alguém se exige mais do que ele pode dar, corre-se o risco de não se poder contar, para a luta colectiva, com o contributo único, imprescindível, que é o seu.
Querida, este é o começo de um desabafo. Quero fazer, a teu lado, o meu caminho, não quero seguir as pisadas do teu caminho. Quero ser o teu companheiro, quero que tu sejas a minha companheira de uma vida a dois, por isso duas vidas, não quero ser o acompanhante de uma vida, da tua vida.
E não julgues – sei que nunca o julgarás... se puderes arranjar tempo para ler esta carta calmamente... e para a conversa sequente – que tenho qualquer desejo que diminuas a tua militância, que sejas menos aquilo que és. Quero é que... pares, olhes e escutes os outros, a começar por mim, para melhor seres o que és. E de que muito me orgulho.

Beijo-te, com amor companheiro,
XY (como o cromossoma!)

Ainda a tempo: Claro que não esqueci o 8 de Março e que vou à comemoração daqui a pouco. Como sabes, estou nessa luta há décadas. Podias era ter conversado comigo sobre a iniciativa... não devem ser só as mulheres a lutar contra a discriminação de que são alvo (repara que não escrevi vítimas!).

sábado, 7 de março de 2009

Regresso... e coisas pequenas.

Foram só três dias (e meio). Mas pareceram muitos mais porque... me esqueci do telemóvel, porque não tive tempo para abrir o computador. Porque.
Talvez por isso, e porque, quando parti, foi debaixo de chuva e um vento desabrido, ao voltar encontrei o quintal ensolarado e descobri muitas novidades.
Coisas pequenas. Pequenas coisas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

" O caso do Homem do Guincho" ou... - 2

O Homem entrou no autocarro e acomodou-se no lugar que correspondia ao número que estava no bilhete.
Não era assim que costumava fazer. Esperava que todos se sentassem e, depois, entre os lugares vagos, escolhia aquele que mais lhe agradasse, sempre que possível o da janela do lado direito, logo atrás do porta do meio do autocarro.
Desta vez, não. Desta vez, quis instalar-se rapidamente. Para aquietar a tensão que sentia, para que a viagem começasse logo logo. E logo logo chegar a Lisboa.
Teve a sorte de ninguém se sentar a seu lado. Havia poucos passageiros. Àquela hora, em “dia útil”, a clientela do autocarro era escassa. E faltava a fauna habitual das peregrinas e dos peregrinos que, com frequência, tanto marcavam o ambiente e, também já lhe tinha acontecido, faziam da viagem mais um tempo e lugar de culto, prolongando e apregoando a devoção que os e as tomava. Ou também já lhe acontecera haver um senhor prior a acompanhar paroquianas, e as viagens tornarem-se acontecimentos, por vezes quase se diria escabrosos, ou até pornográficos, tal a sensualidade escondida no espectáculo-encenação do pastor com o seu rebanho.
Não, este horário era para poucos e leigos, talvez ateus, decerto agnósticos. O Homem achou piada a estas reflexões que o tinham acompanhado até à chegada à auto-estrada. Seria a altura de começar a ler, ou a escrever, ou a fazer o tal sudoku. Mas não nesta viagem. Tudo em si estava condicionado pela entrevista que iria ter com o Senhor Administrador. Tinha-a preparado muito cuidadosamente. Até ao mais pequeno pormenor. Como se fosse o guião de um filme.
Pousara a pasta no banco vazio ao lado e não resistiu a abri-la para, mais uma vez e não decerto a última, passar em revista os dossiers que tirava de dentro das divisórias da pasta.Tudo em ordem.
Reconstituiu, uma vez mais, as conversas com o Director da Agência do banco na pequena cidade em cuja aldeia dos arredores vivia e onde criara a empresa que estava em risco. Empresa que, ano após ano, fora entretecendo como objectivo para a recta final de uma vida de trabalho e de luta.
Sobretudo recordava, e reconstituía, a última conversa com o Director da Agência, de onde resultara aquela viagem que considerava decisiva.
Fora chamado às instalações da agência, e o Director, velho colega de escola e de actividades desportivas e devaneios e farras, um amigo, podia dizer-se, recebera-o no seu gabinete, com algum formalismo.
Tinha más notícias, via-se.
“Sabes?... é uma chatice! Lá de Lisboa, da Administração, veio recusado o teu pedido de empréstimo, aquela reforma da livrança que todos os meses se ia fazendo, agora nos 50 mil euros…”.
Uma pausa. Um embaraço mútuo.
“E olha que eu propus a operação com todo o interesse e apoio, mas está acima dos meus limites de decisão (que, aliás, a Agência já quase não tem), … mas… sabes? As coisas estão feias, estão más para todos… e eles estão a apertar, a apertar… nem calculas!”

terça-feira, 3 de março de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz"

A história que vos vou contar anda há muito tempo na minha cabeça. Talvez "a crise" lhe tenha vindo dar o empurrão para a fazer sair cá para fora. Mas, mesmo que saísse, na gaveta ficaria, onde iria encontrar boas companhias..., se não houvesse esta coisa dos blogs. Da concepção à concretização é uma história para aqui. Tem um guião, mais: um índice, e está meia escrita, com alguns "capítulos-posts" em forma (quase) definitiva. Vai começar hoje, e duas vezes por semana aqui trarei a sequência da história. Assim uma espécie de folhetim. Do cordel. Como lhe chamar? Já teve vários títulos mas, para agora, ficam estes dois que estão acima, e pode acontecer que venha a mudar.
1.

O Homem chegou com muito tempo de avanço ao terminal rodoviário da “cidade santuário”. Estava ansioso. Assim se sentia, e assim o sentia quem a ele prestasse atençaõ.
Comprou o bilhete para Lisboa, confirmou o horário e que tinha uma larga meia hora pela frente. Entrou no pequeno e deserto bar no canto daquele espaço onde autocarros entravam e saíam, trazendo estudantes que corriam para as aulas, e recolhendo quem esperava por transporte para poder seguir rumo ao seu destino.
A pasta, bem cheia, pesava-lhe no fundo do braço. Pousou-a na cadeira da mesa ao lado daquela em que se sentou, já com a bica na mão, pedida e paga no comprido balcão de tampo de alumínio, metálico e frio.
Escolhera uma mesa de onde visse o relógio na parede, que confirmara estar certo com o seu, de pulso, e com o do terminal rodoviário. Mais minuto, menos minuto.
Para fazer tempo, ou para que este se desfizesse, tirou o telemóvel e ligou para a Mulher.
“Já cheguei à Rodoviária…”. “Pois… já tinhas tido tempo… e como é que estás?”. “… estou nervoso; mas estou cheio de esperança…”. “Claro… não te tinham marcado a entrevista com o Senhor Administrador se não fosse para rever a decisão…”. “Claro, claro… por isso é que estou cheio de esperança… mas não vale a pena estarmos para aqui a conversar sobre o que já tanto falámos.”. “… se te tranquiliza…”. “Claro que sim, falar contigo ajuda sempre… olha… um grande beijo!”. “Para ti, também… boa viagem! Força e muita calma.”. “Obrigado… até logo…”.
Desligou o telemóvel. Arrumou-o. Meticulosamente.
Olhou para o relógio na parede e confirmou no relógio de pulso. Continuavam a par. E tinham andado muito pouco naquele curto intervalo em que não os olhara.
Pegou na pasta, que lhe pareceu mais leve, saiu para o dia a começar, com o sol a espreitar por entre os prédios altos que cercavam o terminal rodoviário. O relógio “oficial” marcava a mesma hora de há um minuto. Com mais um minuto.
Foi à lojita dos jornais e revistas, viu os títulos ainda frescos. Em todos os jornais desportivos as primeiras páginas glosavam o jogo da véspera. Da sua equipa!... e só agora sabia o resultado porque estivera a arrumar os dossiers que lhe pesavam na pasta. A arrumar?!... A abri-los e a fechá-los, a confirmar que não faltava nada. E a tomar apontamentos, num pequeno caderno, sobre uma última lembrança daquilo que não podia deixar de dizer ao Senhor Administrador.
Nos outros jornais lá estava “a crise”. Também glosada. Com os bancos em grandes títulos e pequenas notícias com muitos números.
Comprou o jornal que tinha o sudoku com que gostava de queimar quilómetros quando ia a Lisboa de “expresso” e por razões que não as da entrevista com o Senhor Administrador, como as idas a editoras, a distribuidoras, a livrarias. Era-lhe indiferente o jornal que comprava, e a escolha era feita por ter ou não aquele passatempo. As notícias eram as mesmas em todos os jornais e as “opiniões” pouco variavam, praticamente todas da mesma origem opinativa, com cambiantes de “estilo”.
Distraído, folheou o jornal, num difícil equilíbrio com a pasta e o sobretudo e as luvas.
O autocarro chegou com um ligeiro atraso. Nada que o tivesse inquietado. Nada que mais o inquietasse. Em menos de duas horas estaria em Lisboa e a ser recebido pelo Senhor Administrador.