faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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domingo, 14 de junho de 2009

Histórias de exemplo

3.
Contei aquela estória do Toino e o meu camarada sorriu. Um sorriso um bocado amarelo…
“Também tenho dessas para contar…”
O meu camarada vive ainda mais para o norte e para o interior. Mas a estória que me contou também podia vir do sul ou do litoral.
Começou por me dizer que, tal como eu, tem um enorme respeito pelos vizinhos e um excelente relacionamento com toda a gente. Apesar de algumas excepções, claro… e apesar “dessa coisa das políticas”!
E contou-me que, aqui há uns anos, numas autárquicas, deu para falar um pouco com um vizinho mais próximo sobre as eleições, e que as conversas tinham sido interessantes e úteis.
“O vizinho tem razão”, dissera-lhe o outro, “estes fulanos só se têm servido e aos empreiteiros, e não fazem nada cá pela terra… vou votar em si e lá no seu partido”. E tê-lo-á feito, contribuindo para o grão a grão que vai compondo o nosso magro papo por essas paragens.
Como homem de muita labuta e poucas letras, aquele gesto foi importante para o vizinho do meu camarada. Ter-lhe-ia quebrado um preconceito, melhor, um pré-juizo. Depois de ter passado anos a votar nas setinhas – nunca, até então, na foice e martelo… t’arrenego! – aquele voto foi como que libertador. O meu camarada confirmou que todos tinham ficado contentes e que as conversas entre eles tinham passado a encaminhar-se mais para aqueles temas de que antes fugiam, ou que não os agarravam.
E vieram as “europeias”. O meu camarada contou que, à calma do fim dos dias, comentaram episódios, confrontaram campanhas, indignaram-se com o evidente tratamento discriminatório da campanha da CDU e com a manipulação para se encaminhar o descontentamento generalizado ou para um partido “nas palminhas” e “ao colo da comunicação social”, ou para a abstenção, ou para outra qualquer atitude de protesto que nunca para a CDU. O vizinho do meu camarada estava mesmo a descobrir coisas…
E assim se chegou ao voto e ao convívio na tarde ensolarada daquele domingo.
“E calcula lá tu o que ele me veio contar, todo satisfeito!... Que quando recebera o boletim de voto ficara um bocado atrapalhado, nervoso mesmo. Ainda são coisas que enervam um bocadinho, disse ele, justificando-se com a pouca prática de mexer em papéis e esferográficas. Vira logo na segunda linha o malmequer ou o girassol ou lá o que era, mais a foice e o martelo, prantara-lhe a cruz, e quando se preparava para sair da cabine de voto ainda viu, mais abaixo na folha, outra foice e martelo, disse-me que hesitou um bocado mas que, para não haver falhas, resolvera também pôr lá uma cruz. Antes a mais que a menos, concluíra ele… e pediu-me para eu lhe explicar aquela coisa… Eu expliquei-lhe mas já era tarde… para estas eleições!”
Ainda conseguimos rir. Embora amarelamente!

6 comentários:

Maria disse...

Trabalho acrescido que temos pela frente, explicando tudo bem explicadinho...

Abraços daqui da terra
ao pé da lagoa :))

Sérgio Ribeiro disse...

Maria!
É extródinário... a falta que nos estavas a fazer! E foram só uns dias... mas nem o telefone atendias (poemato!).

Foi bom ler-te.

Beijos

GR disse...

Leio com todo o cuidado estas tuas estórias.
São bons exemplos para trabalharmos para as próximas eleições.
Não é só no interior que acontece, no litoral e todo o país verificamos estes erros, mais de 43 mil votos, são perto de 40 mil erros, tenho a certeza. Custam-nos muito caro!

Bjs,

GR

Justine disse...

É difícil por vezes compreender o tamanho ( e a importância) da iliteracia do nosso povo. Isto foi uma das imensas coisas que aprendi aqui na aldeia, com os vizinhos.

Artur Ricardo disse...

Desde há muito que acompanho os teus "blogue" com todo o interesse.
Hoje decidi dar o meu modesto contributo para dizer que, em minha opinião, há muitos Toinos e muitos vizinhos como o do camarada. Há também aqueles que sendo dos nossos não os conhecemos.A prová-lo o facto de na mesa de voto em que estive ter aparecido um boletim com a "cruzinha" colocada em ambas as quadrículas à frente da foice e do martelo. Eles fizeram assim a lei, sabem bem porquê.
Um abraço
Artur Ricardo

Sérgio Ribeiro disse...

Ora aqui está (mais) um testemunho do que todos sabemos existir na enorme quantidade de votos nulos.
Um grande abraço, Artur Ricardo,