faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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sábado, 13 de junho de 2009

Histórias de exemplo

1.
Vidas. Vidas com rumos diferentes. Porque com começos diferentes.
O Toino cedo começou a andar à jorna com a prática adquirida na labuta da terra ajudando o pai nas suas courelas. Eu... “segui os estudos”.
Encontrávamo-nos nos fins-de-semana prolongados e nas férias. Nas minhas... que ele nem sabia que era isso. A amizade não esmorecia. Antes parecia sempre a fortalecer-se nas diferenças cavadas pelos rumos diferentes.
Ele fez a tropa. Eu fiz a tropa. Antes da guerra colonial. Ele aproveitou o serviço militar para conhecer outras terras e outras gentes. Para mim, foi um adiamento e um tardio serviço cívico que nem prejudicou os estudos e a licenciatura.
Parecia indestrutível a amizade. E era! Mas tão diferentes as vidas…
Episódios relevantes? O Toino emigrou. De "salto". Safou-se. Eu fui preso. Não me safei…
Os anos passaram somando décadas.
Aconteceu um 25 de Abril. Fizemo-lo… e ao que se seguiu à data e ao golpe.
O Toino começou a vir às festas na aldeia. A construir uma casa com fenêtres e muitas sales de bain. Encontrávamo-nos e era uma alegria. Molhada. E gargalhada com as recordações. Entendendo-nos com as meias palavras e os ça va a que eu respondi com uns ça ira.
Mais décadas passaram. Depressa. A correr. Ele ia-se demorando mais tempo, mas a ter de voltar por causa de questões da retraite. Eu instalei-me aqui para aqui viver a recta final.
Bebíamos os nossos copos, conversávamos como se em linguagens diferentes nos entendêssemos. A mulher trazia “criação” e primícias que iam amanhando, a convivência entretecia-se.
Ele gostava de me perguntar coisas sobre “isso da política” de que eu não desistia, “forte cisma” comentava ele. E eu procurava explicar-lhe alguns porquês.
Até que um dia, numa altura de campanha eleitoral, ele me disse que já falara com o senhor prior e tudo, que quase se desavira com ele (“e por tua causa, vê lá tu…”), e que ia votar. “Explica-me lá isso melhor”, pediu-me ele. Tentei… Pareceu-me fácil. Ele era um homem de trabalho e luta.
No dia seguinte à eleição, passou por minha casa. Vinha todo contente. Consigo mesmo. “Afinal não custa nada”, disse-me ele, “foi só pôr a cruz à frente da foice e do martelo”!


2.
Quando começara a olhar para os resultados eleitorais com intenção de os estudar, achei estranho que na minha aldeia tivesse havido tanto voto no MRPP, quase mais que na CDU. Desconfiei.
E não era só na minha freguesia e naquela mesa de voto, mas ali, conhecendo eu quase toda a gente, aquilo fez-me espécie…
A conversa com o Toino como que provocou uma chispa de compreensão dentro de mim.
“Olha lá, ó Toino… tu votaste na foice e no martelo, foi?”
“Sim, claro. O padre disse que eram coisas do demo e outras baboseiras dessas, mas não me importei nada. São ou não instrumentos de trabalho? E eu não sou um homem de trabalho? Toda a vida! Foi o que tu me disseste… e eu já vi aí por tua casa uns quadros e uns pisa-papéis com umas foices e uns martelos como aqueles que estavam lá no papel do voto…”
“Espera aí, ó Toino, espera ai… puseste a cruz no quadrado em frente de um partido com uma foice e um martelo entrelaçados e sem mais nada?”
“Pois!… olha, como esses que tens aí nesse jornal e que eu, lá na França, conhecia de ver
L’Humanité e noutros jornais… e nos sindicatos, embora nunca lhes tivesse ligado muito… já sei, já sei que devia ter ligado mas tinha lá tempo… só queria era ganhar o meu…”.
“Não é isso, pá... É que havia lá outro partido, ou outra coligação em que está o Partido Comunista, e também tem a foice e o martelo e um girassol, que é do Partido dos Verdes. Esse é que era. Esse é que é o meu. E o teu... Tu votaste no MRPP, pá… é outra coisa.”
“Sei lá disso. Vocês são mesmo complicados… e olha que fui eu, a minha Maria e mais o pessoal todo lá de casa… tudo na foice e no martelo!”
“É pá, desculpa lá. Nem sei que te diga! Agora nem estou capaz de falar. Vamos beber um copo, falar do Cristiano Reinaldo… voltaremos a conversar sobre isto noutra altura. Antes das próximas eleições, antes das eleições…”

6 comentários:

cristal disse...

É capaz de haver por aí muitos como o teu amigo... :)

Ana Martins disse...

Há muitos! Tantos!

Justine disse...

Apesar de ficção, é a verdade nua e crua!

GR disse...

Mais uma deliciosa história, desta vez com um final infeliz!

Vivendo eu no meio dos distritos de Coimbra e Porto, juntando nestes três distritos os votos do MRPP, verificamos que é impossível esta votação, 43 063 (1,21%).
Mostro o Boletim de Voto que estão nos jornais ou net, explico que é no girassol, pela minha parte nunca deixei de me preocupar sobre este grave problema. Não adianta!
Irrita-me! não sei o que fazer, como explicar.
Tanto desperdício!

Bjs,

GR

samuel disse...

Apenas dois comentários:
1. A realidade, como quase sempre, ultrapassa a ficção.
2. O MRPP já só deve existir para isso mesmo...
3. Belo post!
(O terceiro comentário, depois de anunciar dois... foi um toque à Ângelo Correia)

Abraço.

Sérgio Ribeiro disse...

cristal - Eu conheço mais!
Ana Martins - E não têm culpa!
Justine - Tu conheces o "Toino"!
GR - Que fazer? Continuar a luta como tu dás o exemplo!
Samuel - Então o 4º dos dois?

Abraços amigos para todos/as.