faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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sábado, 24 de outubro de 2009

Direitos humanos e associativismo - o que faz e o que não faz sentido

Aqui, no meu bairro (poderia ter escrito na minha aldeia), o meu avô e mais alguns amigos do seu tempo, tão reformados como ele, formaram um grupo de jogadores de dominó.
Ao princípio, eram só quatro que se sentavam à mesa, e o grupo só existia para ocuparem umas horas das tardes reformadas.
Depois, as coisas começaram a complicar-se. Aparecerem mais reformados (isto da idade não perdoa...) e começou a ter de se organizar e regulamentar o acesso à mesa e às pedras do dominó. Para isso, formou-se o Clube dos Jogadores de Dominó do Jardim Cinema.
Pediram a um neto de um deles que fizesse uns estatutos, constituíram-se em assembleia constituinte que, por eles constituída, e sob o alto patrocínio técnico-jurídico do neto do avô, cumprindo todas as formalidades legais e administrativas e deram vida à personalidade jurídica com nome registado tal como antes decidido.
Isto já se passou há um bom par de décadas. Organizaram torneios, que fizeram história e antecedentes, criaram escolas de aprendizagem de dominó, foram alargando actividades sempre em torno do dominó e foram passando o testemunho de geração em geração.
Dos sócios fundadores já nenhum sobrevive. Alguns mexeram as pedras até à última “dobla” e curva da vida, outros foram praticar diferentes lazeres que mais os aliciaram, outros ainda retiraram-se da actividade pura e simplesmente.
Ainda há uns vagos netos entre os muitos que se dedicam à modalidade, também por homenagem respeitosa aos avôs, mas o certo é que a colectividade resistiu bem a alguns períodos de crise, que tocam a todos…, e está vivinha na prática e em prol do dominó.
É certo que, de vez em quando, aparecem uns recalcitrantes a fazer propostas, às vezes nem as levando às assembleia gerais mas procurando pressionar de fora para dentro, para que o Clube dos Jogadores de Dominó abandone o dominó e se dedique, por exemplo, às damas ou ao xadrez ou ao golfe, ao que lhes vem à cabeça, ou na cabeça lhes é metido por quem quer aproveitar o interessante património material e cultural do Clube.
Não têm conseguido, porque a maioria dos sócios não quer abandonar o dominó, e ao dominó está mesmo dedicada de alma e coração. Gostam, sobretudo, do ruído das pedras batidas nas mesas.
Mas os outros não desistem. Agora, há um, que até já recebeu prémios mundiais na sua arte, sempre se afirmando fiel ao dominó, que tem insistido em contrariar a direcção do Clube. Não há nada que esta faça com que esteja de acordo; apoia direcções e membros de clubes concorrentes; está sempre a dizer que o dominó é coisa ultrapassada, logo acrescentando que continua a ser adepto do jogo embora não o pratique.
E, muito recentemente, veio com uma ideia nova, novíssima, genial como ele, o direito à dissidência. Isto é, poder continuar-se sócio do Clube dos Jogadores de Dominó estando contra quem joga dominó, e defendendo o jogo da bisca, da sueca ou da canasta como substitutos do dominó.
A resposta a dar-lhe é que ele tem todo o direito à decisão… de deixar de fazer parte do Clube.
Que direito é esse de ser dissidente de onde não se está?
É assim como um ateu reivindicar o direito à heresia. Pois se ele é herético, como reivindicar ser o que é? Não faz sentido!

1 comentário:

GR disse...

Até no Clube de Dominó,dissidentes?
Pois que faça o Clube dos Contra!
Há sempre alguém que é do contra, nem que seja para se contrariar.

Já comprei jogos de Dominó, só pelo facto das pedras serem muito bonitas.

O "neto" ainda tem os Estatutos originais que fez para o avô?
Bjs,

GR