faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

sábado, 9 de agosto de 2008

Histórias ante(s)passadas - 33

Não se vai entrar em piruetas esotéricas ou malabarismos espíritas, mas esta estória vai ser contada… em nome do pai.
É que se tem andado por aqui a dizer coisas dele, nem todas agradáveis, e isso do direito de resposta, ou da presunção da inocência, serve para todas as circunstâncias.
E as circunstâncias têm que se lhe diga. Alguma coisa vai ser dita, em nome do pai, usando-se o discurso directo.

Nasci em 1898, como o meu filho gosta de dizer, precisando a data (21 de Janeiro), quando mostra o quarto da “mansão” em que nasci e onde ele vive agora (fez algumas transformações e acrescentos que francamente… mas adiante… fica para outra ocasião).
Cresci por aqui, fui à escola (o que era raro), fiz a quarta classe (o que mais raro era, e me obrigou a ir a Tomar fazer exame), puseram-me na mercearia dos Souzas como marçano-aprendiz. Aprendi. E arranjei amigos. E andei na estroina. Era o “Jaquim da noite”.
Fui o possuidor da 2ª ou 3ª bicicleta do concelho e, com as deslocações, as noites perdidas (ou achadas) e toda a estroinice, apanhei “uma fraqueza”. Recolhi a casa. Com gemadas e descanso, curei-me. E também me safei da pneumónica e outras epidemias...
Voltei “à Vila” para trabalhar. Fui ajudar o Barão de Alvaiázere que fazia de notário e, depois, arranjei um emprego na Câmara, num lugar de “encarregado de posto fiscal de Carvoeira para cobrança e fiscalização do imposto ad-valorem” que acumulei com “o lugar de zelador municipal”, como se vê no Diploma de funções públicas. Passei a ter “uma remuneração pela percentagem que fôr fixada de forma a ficar com um ordenado não inferior a 100$ mensalmente e o seu quinhão nas multas que aplicar como zelador”.
Tive de assinar uma Declaração de compromisso em que “Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente, pela minha honra, que cumprirei com lialdade (sic) a Constituição da República e as suas leis, e desempenharei fielmente as funções que me são confiadas”, parecida com as dos presidentes da República…
Não gostei. E, pouco tempo passado, pus-me a caminho da capital. Tive de me fazer a mim próprio. Nas circunstâncias que nos fazem. Podia ter-me feito melhor, é verdade, mas também acho que não foi nada mau. Fui um “homem às direitas”. Perdão… à esquerda, como corrigiria o meu filho.
Tenho dito! Embora tenha muito mais para dizer…

6 comentários:

Anónimo disse...

Ora ainda bem que é só o começo porque aqui estou eu prontinha para ler a continuação.

Campaniça

Maria disse...

Estou cheia de curiosidade com a continuação deste relato.
É que o teu pai nasceu exactamente no mesmo ano da minha avó materna (não, não estou a chamar-te idoso, as moçoilas é que se "escapavam" com menos idade que os rapazes...) e eu lembro-me de tantas estórias dela...

Abreijos
(e agora vou ver os jogos...)

Justine disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Justine disse...

Oh Ti Jaquim, olhe que só pelo diploma valia a pena ter mantido o emprego da Câmara. Que lindo papel para encaixilhar...

Sérgio Ribeiro disse...

De 1921! Clicando sobre as imagens, é giro...
Digitalizado está, encaixilhado será.

M. disse...

Continuo a deliciar-me com estas histórias verdadeiras.