faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobrevivente contumaz

Ah! Como me senti grande ao primeiro volante de um automóvel. Do automóvel do meu pai, um Austin 8 cavalos – BI-13-25 -, ainda sem ter carta de condução, e autorizado para uma pequena volta aqui à volta, e de que desliguei a bicha do conta-quilómetros para que a volta pudesse ser maior!
Ah! Como me senti homenzinho, carta na mão – depois de emancipado –, a poder ir onde quisesse sem ter de “fugir à polícia” e sem fazer arriscadas manobras mecânicas para que não se descobrisse que a volta fora mais larga que o consentido.
Ah! Como me senti adulto, independente, quando me sentei no primeiro carro comprado com algum (muito!) do dinheiro ganho por entrada e resto em letras assinadas para não sei quantos meses, senhor de mim ao volante de automóvel meu.
Ah! Como me sentia excitado cada vez que trocava de carro e subia um degrau na escala automobilística, até me fixar nos Volvos, “pronto, são estes”, nos carros à minha medida e tempo, bons, seguros, confortáveis, nada ostensivos, decidido a que assim seria até ao último.
Ah! Como me soube bem, aos sessentas, atingir a satisfação quanto a um objecto – “é isto que eu quero e não mais!” – que levava a correr por estradas “europeias”, entre Zambujal e Bruxelas e/ou Estrasburgo, e recolher às “boxes”, reformado eu e tembém o objecto, reservado para raios de movimentação na casa das dezenas ou, vá lá, dos centos de quilómetros.
E se o projecto de vida era dedicar-me a uma livraria/espaço cultural em Ourém, a ele sobrevivi quando sobrevivi a um cancro e o projecto não sobreviveu a uns PECs e a outros pequenos grandes pecadilhos, aqui estou eu a sobreviver ao objecto que julgava iria ser o último, e estava a passar dos 300 mil quilómetros.
E o problema (mas que raio de problema!) é que adormeço, ou faz-de-conta que adormeço, a pesadelizar-me sobre a falta de tempo que tenho (e de capacidade de organização e de arrumação) para preparar as coisas para… depois.
E cá continuo a sobreviver. Mas cansado!

5 comentários:

Maria disse...

Cansados se calhar andamos todos. Um pouco. O melhor mesmo é descansarmos o mais possível, sempre vigilantes, porque 'cheira-me' que vêm por aí dias de cansaço maior...

O Volvo, depois de arranjado, ficará como (quase) novo)...

Beijo, solidária

Justine disse...

Assim é a vida, não é? Uma luta de sobrevivência que valha a pena ...
(Belo texto)

Anónimo disse...

Os amigos querem 300, 600.. muitos mais quilómetros dessa tua incansável vontade de fazer coisas.
Pedro da rua Paisana

GR disse...

Cansado do tempo, do conta-quilómetros, dos PECs,
Mas não cansado da vida!
Maravilhoso texto e não me canso de o ler!

Grd BJ,

GR

GR disse...

Cansado do tempo, do conta-quilómetros, dos PECs,
Mas não cansado da vida!
Maravilhoso texto e não me canso de o ler!

Grd BJ,

GR