faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Valham-nos os netos... de outros.

Num fim-de-semana prolongado, de 5ª a ontem 2ª..., estivémos de avós! Para evitar confusões (e eventuais melindres dos propriamente ditos) eles chamam-nos "tios". E fizeram destes dias uns dias cheios, felizes... e derreadores!

Obrigados, Abel e António (por tudo, em particular pela ajuda informática, de um, e a supervisão engenheira em tudo o que são portas, fichas, chaves e fechaduras, do outro).
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Publicidade não paga: Aqui por casa está a pensar-se convocar uma assembleia geral para alterar os estatutos e juntar ao "turismo rural", como uma das finalidades da "firma", a de "centro de apoio a pais e avós" para seu (deles) repouso e nosso cansaço voluntário, agradecido e gratuito.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Será?

Será que, ao caminharmos para velhos (nunca somos velhos, caminhamos para...),vamos ficando menos compreensivos e tolerantes, mais irritadiços, com as manifestações de velhice de quem mais perto está de nós, de quem caminha para velho/a a nosso lado, de mãos dadas?
(a ter em atenção autocrítica!)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Rai's part'ó bento!

Cansado de ser flagelado pelo vento norte, ou fustigado pelo vento sul (nisto venham os que sebam de origem de ventos e de gramáticos e decidam), o homem resmungou, rezingão: "A norte do sistema Montejunto-Estrela?!... mas aqui é o sistema da Serra d'Aire-Candeeiros!, e mais: ali para baixo, logo depois da curva, o vento amaina... Se isto é verão, não sei nada de estações e de apeadeiros... p'ra qu'é que raio mandei fazer a piscina?... rico investimento!... nem netos, nem nada! Ora bolas! , já estou como aquele lá do norte, tão do norte que até era escandinavo que dizia oxalá que o verão este ano seja num domingo. O Mário Soares, e o Cavaco, e o Durão e este Sócrates deram cabo de tudo... Rai's part'ó bento!...eu disse bento? Também serve... aquele Sporting! Isto é que está uma vida!"

domingo, 2 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Será menino ou menina?

Fui filho e sou pai do tempo em que havia alguma expectativa que se prolongava por meses: será menina ou menino? E hesitava-se no nome a dar ao/à bébé, para o que os padrinhos também metiam a colherada. Maria João ou João Maria?
As salas de espera das maternidades eram locais de roer unhas. Por todas as razões e mais esta de Será menino ou menina?, isto quando os partos não eram em casa porque, nestes casos, que muitos eram - sobretudo quando fui filho... nascido no rés-do-chão da Rua Tomás da Anunciação, ali à esquina de Campo de Ourique -, os pais (e os avós e mais parentes e amigos) esperavam, ansiosos, num qualquer compartimento da casa, se houvesse..., pela novidade. Será menina ou menino?
E os enxovais eram feitos na dúvida. Em cor-de-rosa a atirar para o azul ou em azul a atirar para o cor-de-rosa.
E havia palpites, a partir da barriga da mãe ser mais ou menos bicuda. mais ou menos arredondada.
E levava-se o bébé, ou a bébé, ao registo e, na grande maioria dos casos, à pia de água benta para a, ou o, lavar do pecado original de ter sido concebido/a em acto pouco digno do paraíso.
Tudo mudou. Não bem tudo... mas já se sabe, quase logo a seguir à concepção, se será menina ou se será menino, se se chamará Maria ou Manuel, se estes nomes ainda se usassem...
Mas, agora, há uma outra novidade, a substituir a novidade que era a da resposta ao sexo da criança. Agora, o recém-nascido parece que vai ter logo logo, a juntar ou até antes do nome... uma conta bancária. De 200 €.
Por este caminho, ainda transferem a Conservatória do Registo Civil e a tal pia baptismal para uma dependência da Caixa Geral dos Depósitos (se a concorrência não entrar em jogo, ou não vivamos nós numa livre "economia de mercado").
Os/as bébés vão aprender a dizer banco antes de balbuciarem papá ou mamã. E, ao crescerem um pouquinho, só vão aprender a tabuada depois de decorarem o seu número de conta e o código do multibanco.
Pois é, nestes tempos em que gostaria de ser avô, em vez da dúvida será menina ou menino?, será neto ou neta? vamos todos, pais, mães, avós e avôs, ter a certeza de que os pobres nascituros vão ter um número de conta bancária!

Acordei cansado... Acontece!

Não me sinto cansado
Sinto-me cansado DE
Sinto-me cansado de algumas coisas
... coisas de merda!

Não estou cansado de lutar
Estou cansado de lutar EM
Estou cansado de lutar em certas lutas
... lutas filhas-da-puta!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Desabafo triste

O meu pai dizia, em jeitos de fanfarronada, que de homem para homem não vai força de boi. Dizia-o ao contar contar algumas das suas aventuras de rapaz, com boémia e brigas, aqui pela terra e quando à conquista de Lisboa, e queria ele dar a saber que não tinha medo de ninguém... que humano fosse porque de homem para homem não havia diferenças que não fossem humanas. Gravei o dito e pouco (ou nada) usei o que talvez quisesse ser uma lição.
Porque desarquivei, esta manhã, esta lembrança? Porque me vi a pensar em como são diferentes os homens (e as mulheres), e como elas se reflectem nas fragilidades de alguns (algumas) que, de tão estranhas, bem pouco humanas me parecem. Há pequenas coragens que quando não se assumem como ínfima e humana coerência se revelam grandes cobardias.
Ah!, olho à volta e vejo que de homens (e mulheres) para homens (e mulheres) vão diferenças de força que ultrapassam fronteiras que humanas deveriam ser.
Pronto, desabafei. Não me venham é alguns (algumas) dizer que são isto mais aquilo quando não têm força para o traduzir numa tomada de posição consequente, na assumpção que é dar a cara (ou o nome), numa assinatura num papel.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nâo há mais nada para dizer...

De vez em quando, e com uma frequência quer me desgosta, irrito-me com o que o homem (o camarada?) escreve ou diz. Vocifero, zango-me.
(isto sem falar de outras zangas, mais pessoais, maias mágoas, mais fundas, mais tristes porque menos da razão).
Mas, também de vez em quando, rejubilo com o que o escritor põe no papel ou noutros receptáculos do que pensa e com que faz prosa, não como o Monsieur Jourdain, de Molière mas como tão bem sabe. Como ninguém. Por isso, é Nobel.
O homem pensa. Sempre. Nem sempre bem (a meu critério, critério que eu cuido que dele também deveria ser). O escritor escreve o que pensa, e escreve, sempre, bem. Tem bem que gozo ler. Mesmo quando me irrita, me faz vociferar, zangar-me.
Acabo de ler um texto do homem-escritor, e quero aqui reproduzi-lo. Para que os raros vistantes saibam que docordel.blogspot.com também alberga textos de excepção.
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Julho 24, 2009 por José Saramago
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De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer.
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(em O Caderno de Saramago)

Começar de novo, sempre!

Para um amigo que não conhece estes (e tantos mais não conhece, como eu não conheço tantos que ele bem conhece...), e Simone e Ivan merecem ser conhecidos, e logo num vídeo que também é prova de uma grande amizade, da amizade que tanto prezamos:
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terça-feira, 21 de julho de 2009

novaiorquinas (do cordel) - 16

Tenho de partir para outra. Mesmo que a outra seja... Nova Iorque. Ou o Zambujal!
Parece que fico agarrado às viagens feitas. Saboreando-as com a ajuda das fotos e das recordações que elas me trazem.
Não que as outras coisas não vão acontecendo, mas o esvaecer do vivido nestas últimas viagens tem sido (talvez) demasiado lento. Sobretudo S. Tomé, Vietname, Nova Iorque. Uma pulsão a empurrar para falar de, para escrever sobre. Para mais, partilhada. Lembras-te de...? E então quando...?
É bom, mas como tudo que é bom, é preciso não abusar. Por isso, já foi posto o ponto final (o que não quer dizer definitivo...) nas novaiorcadas do anónimo, vou agora colocá-lo aqui. Talvez com uma do cordel que melhor ficaria como reflexão lenta no anónimo. Deixá-lo...
O caso é que, no jardim das esculturas do MoMA há um pequeno lago. Logo junto à cabra do Picasso dos nossos encantos e repouso e convívio. Pois nesse lago, na tão imitada Nova Iorque, que tanto precisa de imitar para se adornar com um passado de séculos e séculos antes de Hudson e dos holandeses, há quem atire moedas como se em Roma estivesse. E uma senhora ali petrificou, marmorizada, não se sabe bem se no gesto turístico de atirar moedads para o pequeno lago, se no esforço para recolher algumas que outros tenham para lá atirado. Ela ali está. Toda nuínha, rechonchuda, em posição incómoda e em risco de "ir ao banho".

Ela ali está. E eu vou partir para outras. Não sem antes contar o que me fez sorrir, e que foi ver um puto, não sei de que nacionalidade mas bem impregnado do novaiorquismo à tio Patinhas, no afã de mergulhar o bracito na água e de retirar moedas do lago e, às mãos cheias, as ir levar à família, ali discretamente a um canto e, também sorridente como eu, muito compreensiva... e metendo as moedinhas nos bolsos!