faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Poemas cucos - 11

Desta vez, o "cuco" moderou-se (?) e vem contar uma estória.
O poema ao lado - e que abaixo se reproduz sem "cuquisses" - foi lido há 40 anos (ou teria sido há 50?) e fez-me um profundo efeito. Tanto que, de vez em quando, quando as "coisas" estão a precisar de um abanão me sai o que retive desse poema. Não como o autor o termina, mas como eu retive e apropriei. Ao longo destes 40 anos (ou terão sido 50?) não sei quantas vezes berrei a raiva cresce e a esperança multiplica-se. Como "coisa minha"!, por mim criada, inventada, gritada ou escrita.
Mas não... ou apenas (e muito é!) "cuquice".
Aqui há uns tempos, poucos..., a refolhear livros e cadernos de poesia, saltou-me a separata do Notícias do bloqueio - 1, com o poema do Egito Gonçalves e tudo ficou claro, como se pode ver:

Notícias do bloqueio

Aproveito a tua neutralidade
o teu rosto oval, a tua beleza clara
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - nos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta aos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se.

6 comentários:

Justine disse...

"...no es lo mismo pero es igual"...
O importante é deixar que a raiva cresça ou aumente sem nos amargurar, para que a esperança se multiplique ou se reproduza!

Anónimo disse...

E olé!

Maria disse...

Fui ler Egito Gonçalves....

"A mentira que fingem
é verdade.

A submissão
corrompe. Não nasceram
ainda.
Poderão nascer
mais tarde
tão adultos de aspecto?

samuel disse...

Equilíbrio tão difícil... não deixar a raiva que cresce transformar-se em desespero, nem a esperança reproduzir-se em ilusões!

Abraço.

samuel disse...

Para a Justine (via Sérgio)

"Y se esto fuera poco
tengo mis cantos que poco a poco
muelo y rehago
habitando el tiempo
como le quadra a un hombre despierto
y soy feliz
soy un hombre feliz
y quiero que me perdonen
por este dia
los muertos de mi felicidad."

Estou a escrever de memória, portanto pode ter erros. Canto há muito tempo esta cantiga, mas (como as outras) com a letra à frente.
À segunda vez que te vi escrever "no es lo mismo pero es igual", não resisti...

Abreijos.

GR disse...

“…aumenta a raiva
.....................e a esperança reproduz-se.”

Acreditando sempre num futuro melhor,
A Luta é o Caminho!

GR