faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Uma outra estória da Festa

Hesitei. Conto, não conto, ou rio-me só cá comigo? Conto! Aí vai.
Entre as 16 e as 18 horas estive na “Festa do Livro” na apresentação do meu livro e a autografá-lo. Depois, bebi umas cervejas, comi uma bifana, andei um pouco (pouco!) pela Festa, e depressa se fez tempo para estar, antes das 21 horas, no auditório do “Pavilhão Central” para um debate sobre a crise do capitalismo.
Dei o meu primeiro contributo, e fui bebendo água enquanto os outros camaradas falavam. Animei na parte final, sai relativamente satisfeito do auditório e ainda porque muito bem acompanhado. Percorremos, amigos em fraternidade, o caminho até aos nossos portos de arribação e recuperação de forças – primeiro, o meu em Santarém, depois, o dele em Coimbra.
No percurso, fui vivendo com alguma excitação encontros ocasionais – com alunas, com alunas de há quase 30 anos! –, e pedidos de autógrafos nos livros comprados e à procura do autor. Mais umas imperiais, mais umas conversas, e a necessidade de ir arranjar espaço para novas imperiais.
Sai de Coimbra, atravessei a rampa relvada de corpos em pousio, uns solitários, outros em grupo e conversa, outros aos pares e beijinhos. Cheguei aos sanitários, perfilei-me na fila, esperei a minha vez. Que chegou. Fiz o que ali me levara, dei meia volta e quando comecei a abotoar os botões destes jeans de botões, e a fazer a fila em sentido contrário, com a intenção de passar por onde a minha mãezinha dizia que os meninos deviam ir depois de fazer xi-xi, eis que fui abalroado. “Ah, g’anda Sérgio! Estava mesmo à tua procura…”.
E aquele homem, que vinha, ele, a começar os preparativos para fazer o que eu acabara de fazer (as calças dele tinham fecho de correr), começou a vasculhar na mochila e sacou de lá de dentro o meu livro. “Dá-me aí um autógrafo, comprei-o agora mesmo… sou o Amílcar… lembras-te?… dos Purrianos… toma lá a esferográfica.” Peguei na esferográfica dele (na esferográfica!), com algum constrangimento porque estávamos a provocar um ajuntamento, melhor, dois ajuntamentos – um a entrar, à minha frente, outro a sair, atrás de mim –, escrevi a dedicatória (Para o Amílcar “purriano” com um abraço e tal…) enquanto ia dizendo “Ó Amílcar, ‘tás porreiro, pá?… então não me lembro… temos é de nos apressar…”
É que os ajuntamentos estavam a tornar-se caóticos, naquele estreito corredor para aliviar pressões de bexiga nos sítios indicados pela organização. Mas, curiosamente, assistia-se com paciência e bonomia àquela cena. E que cena!: dois gajos – um já aliviado, outro ainda não – a abraçarem-se, e um deles a escrever num livro que o outro lhe apresentara de esferográfica em punho. Tudo isto no espaço que era aquele, no tempo de segundos que, em certos momentos de aperto, parecem horas.
Quando me encontrei cá for, ao ar livre, sorri e suspirei. Duplamente aliviado.
Ah!, e acabei por não fazer aquilo que a minha mãezinha me ensinou que os meninos têm de fazer depois de fazer xi-xi. Também, por uma vez…

Só nesta Festa! Que não há Festa como esta!

7 comentários:

cristal disse...

Felizmente já tinhas comido a bifana! Os amigos não te deixam mesmo em paz!

Justine disse...

Esta bela história, com mais uns detalhes aqui e ali, dava um grande filme cómico. Pelos Monty Python, por exemplo...:))

Anónimo disse...

Ri-me à gargalhada!

GR disse...

Um momento alto e bonito de camaradagem. Contudo, ao ler visualizei o instante e morri a rir.
È bom termos amigos, mesmo quando nos lembramos deles, tens tantoooooooos!

GR

Sérgio Ribeiro disse...

Estou contente por vos ter feito rir. Eu, ao escrever o que me fez sorrir, também me ri a valer.
Grandes abraços

Sal disse...

eh eh ...
(Já agora, ó Sérgio, isso aconteceu ANTES ou DEPOIS de teres passado pelo pavilhão de Viseu, nessa noite????)
:))))

Sérgio Ribeiro disse...

Ó Sal, olha que não sei ao certo... mas deve ter sido depois senão ter-vos-ia contado de tal modo achei piada ao episódio. Como diz a D. Justine, foi digno dos Monthy Python!