faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nas voltinhas do Marão

O meu pai fez a quarta-classe lá para os primeiros anos do século xx. Teve de ir a Tomar fazê-la porque cá por Villa Nova de Ourém a instrução primária ia só até à terceira-classe.
Mas foi uma quarta-classe que teve que se lhe diga... além da viagem de carroça para fazer os 25 quilómetros e volta, e uma noite dormida fora de casa. Uma quarta-classe de que ele se orgulhava e de que fazia alarde. Gostava de me "fazer exames", perguntando-me o que eu ia aprendendo, mas era sobretudo para exibir os seus conhecimentos. De todos os rios de Portugal e seus afluentes, por margem direita e margem esquerda. De todas as serras e cordilheiras. Era... espectáculo. Tudo na ponta da língua, mais de quarenta anos depois!
Quando a vida começou a dar, à família que éramos nós três, alguma folga, o chefe (de família e não só...) começou a organizar viagens pelo país. Primeiro, com famílias amigas que tinham carro (os Sales, o "trio" do António Dias), algumas vezes em "carro de praça" alugado para uma volta (sempre pelo norte), mais tarde no automóvel entretanto comprado (acho que foi só em 1953, ele com 55 anos e eu com quase 18).
Como ele gostava de conhecer e passear pelos sítios, lugares, referências que trazia consigo desde aquela quarta-classe.
Andámos pelo Marão, pois então. E não foi fácil. Ele, o chefe, é que guiava. E guiava mal. Devagar, fora de mão e a buzinar! Mesmo depois de eu ter a carta, emancipei-me aos 18 anos para a poder ter, nem pensar passar-me o volante.
Com que ternura e saudade lembro essas viagens, agora que atravesso a A4 (ou lá que número tem...) mas ainda encontro pedaços de caminho que são os mesmos de então!
Como os olhos do meu pai brilhavam quando via os rios e afluentes, e as serras, de que conhecia, há tantos anos, o nome. Que eram os seus rios e as suas serras. Agora, neste outro tempo, os meus olhos também estão um bocadinho brilhantes...

3 comentários:

Maria disse...

Ai estas memórias que nos trazem emoções... fortes...
(pois se até eu fiquei com um brilhozinho nos olhos... será da idade.)

Beijo.

Justine disse...

...e as voltas que a vida dá - dentro e fora de nós!
(o brilho dos teus olhos chegou até aqui...)

Anónimo disse...

Nâ senhora, não é da idade.
Eu, que tenho 18 (escusam de me lembrar que são quase 62) também sinto esse brilhozinho nos olhos.

Campaniça