faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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terça-feira, 14 de julho de 2015

Histórias ante(s)passadas

Era o ano de 1972

Naquele pequeno gabinete, anexo à redacção do Diário de Lisboa, havia três secretárias e éramos três os seus ocupantes.  A Isabel, com a tarefa das traduções das agências estrangeiras, particularmente de coisas da cultura, da literatura, o Zé, com a principal e quotidiana função de escrever as opiniões que o DL tinha, as “notas do dia, e o terceiro era eu, encarregado da área da economia, sobretudo do suplemento semanal.

O ambiente era excelente, solidário, de calma boa disposição e entre-ajuda. Que extravasava daquele gabinete e transportávamos para as nossas vidas “lá de fora”.
De vez em quando, no desempenho das tarefas, trocávamos opiniões e até trechos. Mais de uma “opinião” do DL, na altura das negociações para o acordo comercial com a CEE, por exemplo, teve contributo meu. O que fartamente se compensava com opiniões (da Isabel e do Zé) sobre a minha escrita, que não lhes desagradava, de que elogiavam a facilidade e a espontaneidade… mas a que (sentia-o eu) achavam que faltava… “qualquer coisa”.
O que não foi o caso de uma crónica que escrevi para o Récord, onde colaborava com uma crónica semanal – às 5ªs… feira –, em que eu dizia da minha sensação de irreversibilidade da passagem do tempo e me queixava do avançar da idade (aos 36 anos!) que me ia enterrando sonhos, como o de subir o túnel que ligava os balneários ao relvado do Estádio Nacional para, envergando a camisolas das quinas, ouvir o “heróis do mar, nobre povo…”.
O Zé riu-se (no que não era pródigo) com gosto e gozo, fez rasgado elogio (no que era avaro) à qualidade literária da crónica… e passámos a outras coisas.  
Nunca esqueci esse episódio, e bem longe estava eu (e ele) que aquela avaliação de um escrito meu tinha a chancela de um futuro Prémio Nobel da Literatura.
Hesito em incluí-la no meu currículo…

    

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