faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cenas de um quotiano companheiro

Conversas com torcicolo


Os dois à mesa, almoçando. A conversa a (es)correr, naturalmente.
Ela no fim da sobremesa. Ele a meio do prato e do copo de vinho.
(…)
Ele – … pois… e também me pôs assim, bem disposto, aquele teu comentário no meu blog… mas pareceu-me que trocaste de post. Era mesmo para aquele, sobre o Egipto, que querias escrever aquilo?
Ela – Claro.
Ele – Não era sobre as contas das eleições?
Ela – … não me fales mais de eleições e de números… Estou farta. E não só eu!

Era o que dizes sobre o tempo, na nota sobre o Egipto…
(Há um arrastar de cadeira, e ela levanta-se levando a sua “ferramenta” para o lava-loiça.)
Ele – Ah!... sim. Ainda bem. Mas olha que…
(Ela passa por detrás dele. Ele torcicola, e continua a fala.)
Ele – … mas olha que esse tema, à volta do qual, como tu sabes…
(Ele repara, torcicolando para a esquerda, que ela já está fora de visão e de audição… foi “lá dentro, ao quarto”. Ele cala-se, mete um garfada e bebe uma golada. Ela passa a caminho do quintal)
Ele –… estava eu a dizer que tu também contribuíste para…
Ela (de passagem) – É para isso que conversamos
(Ela sai. Ele acaba o prato, levanta-se, vai buscar uma tangerina. Que descasca, enquanto a vê, pela janela, a fazer festas na barriga do gato esparramado ao sol. Ela entra pela porta do quintal. Ele torcicola para a ver entrar. Tocam-se, festejando-se, na passagem dela pelas costas dele. )
Ela – Já acabaste? (Tira-lhe os pratos e o copo da frente, e coloca tudo no lava-loiça, onde ele irá actuar na sua tarefa doméstica. Ele acompanha-a, torcicolando agora para a direita.)
Ele – … pois é… Gostei do teu comentário, e agora percebo porque se dirigia àquele post…
Ela (encostada ao lava-loiças) – Foi, na verdade, uma dimensão do tempo, a do tempo histórico, a que me ajudaste a perceber a importância.
Ele – Ainda bem. Acho que é fundamental. Mas para lá chegar, ao apuramento dessa dimensão, as nossas conversas…
(Ele, torcicolando mais, ainda a vê entrar na casa de banho.)
Ela – Vou lavar os dentes e…
(Ele já não ouve o “depois conversamos mais”. Destorcicola e resmunga…)

4 comentários:

Maria disse...

Um 'guião' perfeito, já que consegui ver o filme apenas através das tuas palavras...
"Tocam-se, festejando-se, na passagem dela pelas costas dele." é MUITO bonito...

Um beijo.

Justine disse...

Para quando a peça de teatro????
Sem torcicolos:))))

GR disse...

Como a Maria diz, 'guião perfeito”, percorri todos os passos, até o Mounty vi, deliciado com as massagens da Donadele.
Adorei as palavras com gestos cúmplices e esse teu olhar sempre firme.

Bjs,

GR

Raquelsav disse...

ahahahah... ainda estou aqui a rir e a pensar que não há maior sinal de inteligência e sensatez do que saber rir das nossas "rabugens"...
Se a história se repetir, entretanto, posso dar-lhe o contacto de um osteopata estupendo que faz milagres ao pescoço :)
Abraço
Raquel