faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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terça-feira, 4 de maio de 2010

De que mundo sou?

Vivo aqui. Os meus vizinhos são aqueles com quem vivo paredes meias, mesmo que as paredes não sejam a meias porque campos as separam. Mas é a gente com quem me cruzo todos os dias, ou quase todos, nestes caminhos que são os da vida.
É com quem quotidianamente convivo… Damo-nos as salvações, ouço-lhe as vozes ou os carros quando passam na estrada, às vezes (e não poucas!) provam amizade ao trazer-me premissas, ovos, uma galinha, azeite, um garrafão do vinho novo. Não para “pagar favores”, que o único favor que lhes faço é ser seu vizinho, com eles conviver e, por isso, ser solidário quando há razões para mostrar solidariedade.
Alguns são velhos amigos. Do tempo de cachopada, de adolescência, de dias inteiros passados atrás de uma bola, ou à porta do Xico ou no Campo de S. Sebastião, de adultos nos descobrirmos. E de sempre nos reconhecermos.
Mas, por vezes, sinto que há mundos a separarem-nos. Não as paredes meias, nem os campos e campos, mas vivências que nos aproximaram esporadicamente e nos afastaram insanavelmente. Nunca fui o senhor economista, ou o senhor deputado, ou o senhor doutor, mas sou o doutor (e o comunista!), tenho mais livros e jornais em casa que toda a aldeia junta, sei de coisas e falo de coisas que não são as coisas que eles sabem e de que eles falam.
Queria tanto estabelecer pontes! Procuro-as, mas pouco encontro para além de uns copos e das recordações comuns. Falar o quê?, de quê?, falar do PEC?, argumentar pelo sim à IVG (e em que condições), e ouvir de resposta «valha-me Deus, que pecado!, tirar a vida a inocentinhos…» pela boca de quem fez sabe lá quantos "desmanchos", com a graça de deus porque sobreviveu aos enormes riscos?, conversar com professores que por aqui procuram a tranquilidade e nada dessas «coisas da política»?
Mas em que mundo vivo? Não é neste e com esta gente, de que sou e de que gosto de ser?

A Dora, com a minha mãe e as irmãs Luisa e Maria "Santo Amaro",

numa foto de há mais de meio século


Tudo isto viaja dentro de mim, mas um dia destes bateu-me violentamente à porta (por esse lado de dentro). Morreu a Dora! A Maria da Adoração Costa, uma vizinha que foi bem mais que vizinha, e de cuja morte apenas soube umas horas depois do enterro. E tinha estado aqueles dias em casa, com o carro visível, se calhar entrando e saindo para pequenos percursos nele montado ou a pé. Ninguém me disse nada!
A Dora era uma muito jovem mãe solteira que vivia com a mãe no Vale da Perra e que, numas férias, veio trabalhar cá para casa, para “criada”, como então se dizia. Veio à experiência, agradou à minha mãe, foi para Lisboa connosco.
Há 60 anos! E ficou anos em nossa casa. Não sei quantos. Quantos quis, até mudar de querer, de vida, de estado. Casou com o Zé da Barroca, velho amigo de futeboladas e festas de aldeia, de quem teve mais dois filhos, e que cedo «foi para adubo», como ele dizia.
Depois, quando a minha mãe precisou de quem a tomasse a seu cuidado, e antes da solução inevitável da ida para um lar, o de Vilar dos Prazeres, onde eu a visitava quase todos os dias até à sua morte, aos 96 anos, ainda foi da Dora que me lembrei e com ela se tentou a continuação da vida na casa da Rua do Sol, e foi como se duas amigas se reencontrassem.
E muitas vezes nos encontrávamos, até porque ela tinha, com outras senhoras vizinhas, o hábito de dar passeios para «fazer bem à saúde», e connosco se cruzava.
E, agora, morreu a Dora e eu apenas soube umas horas depois do enterro. Queria ter-me despedido dela, dar um abraço aos filhos, filha e netas.
.
De que mundo sou?, com quem convivo?

2 comentários:

Justine disse...

Comovente, o teu desabafo. Às perguntas não respondo...terás de ser tu a fazê-lo.Mas o mundo tem tantas facetas, tantos rostos, tantos mundos...

GR disse...

Comovi-me ao ler este belíssimo texto.
O mais importante é que a Dora sabia os vossos laços de amizade, comprovado quando necessitaste de alguém de confiança e amiga. Como a Dora deve ter ficado feliz.
Sim, ela sabia que o “menino”, “o doutor” gostava muito dela e a amizade era recíproca.

Um gd bj,

GR