faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

Loading...

quarta-feira, 2 de março de 2016

Perdidos & Achados - ... e o que somos hoje?

Éramos um povo. 
Éramos um povo nascido, de parto difícil e com dor, quando em certas (ou incertas) contas do nosso rosário humano se viviam os anos 40 do segundo século do segundo milénio.
Éramos um povo que, depois, na mesma escala de medir o tempo, cresceu atribuladamente, teve afirmação de vontade própria em 1383, sacudiu jugo de vizinhos em 1640.
Éramos um povo que descobriu ter o que bem-falantes chamam “vocação marítima”, e que seria a forma de chegar a adulto independente e com vida própria, se aventurou a percorrer, por desconhecidos caminhos, mares atlânticos e de outros oceanos.
Éramos um povo com o destino - ou com esse  fado - de sair para o mar, porque para o interior da terra havia montes, e vales, e gente outra, fronteiras hostis antes de se chegar a mais longínquas fronteiras, de Pirinéus, Franças e Araganças. 
Éramos um povo que só por mar ganhou o direito a… ter a chave de casa. 
(Mas desses primeiros tempos, que também segundos foram, falou um de nós - que lusíadas somos! - como talvez ninguém de outros seus povos terá falado.)

Éramos, em 1974, um povo. Com séculos de história e sendo, então, uns 10 milhões. 
Éramos, então, um povo prisioneiro ou no estrangeiro. Prisioneiro porque sem liberdade, reprimido, oprimido e oprimindo no estrangeiro porque muitos de nós (um que fosse, demais seriam) em guerra. 
Éramos 10 milhões? Decerto mais mas sem números exactos porque muitos abalaram e não voltaram, muitos foram ficando e deixando de ser deste povo que os deixara partir, e teriam sido levados a desistir de serem deste povo.
Éramos, aqui, um povo prisioneiro. Porque sem liberdade, reprimido, oprimido. Resistindo. Uns passivamente, resignadamente; outros clandestinamente, lutando. Lutando por e como este povo que eram. Como este povo que queriam ser. Alguns, presos por o quererem ser. Por lutarem para serem este povo. Livre..

As circunstâncias fizeram-me ser um destes.

2012
(e o que seremos amanhã?

1 comentário:

Justine disse...

Como um poema épico, este texto!