faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

Brel, sempre e eu... j'arrive!

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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Estórias para contar - 1 - ONDE o telefone toca

ONDE O TELEFONE TOCA!

Em tempos que já lá vão – de que alguns leitores ou ouvintes se recordarão – havia um programa de rádio chamado “quando o telefone toca”.
Se bem me lembro, o telefone tocava e um rádio-ouvinte pedia uma música – “posso pedir um disco?...” e tinha de dizer uma frase publicitária patrocinadora do programa –, e o disco, de vinil, claro!..., era posto no prato e servido ao “estimádóvinte”.
Passaram muitos anos e, agora, a estória é outra. Mas que tem ainda uma outra pelo meio. Que é a de “onde estão os meus óculos?”. Estória esta que até deu para título de um livro que me ofereceram quando fiz aí os meus 50 anos, isto é, pela primavera… quando só usava óculos para ler, os de “ver ao perto…”, como se dizia, e acontecia, às vezes, mas só às vezes…, não saber onde os deixava.
“Mas onde raio pus eu os meus óculos?”
Isso passou. Agora os óculos são acessórios permanentes, e até lhes chamam progressivos quando o que acontece é que a visão é regressiva, Tanto assim que há netos que julgam que os avós são aqueles seres que nasceram com óculos, e que servem para eles fazerem aquilo que os pais não os deixam fazer.
… Não nos desviemos do tema e título…
Já não se procuram os óculos, desde que passámos à fase – muito curiosa e engraçada… para os outros… – de termos andado à procura deles com eles postos pendurados no nariz.
Agora a nossa preocupação mais frequente (por mim falo…) é onde teríamos deixado o telemóvel.
Invenção mais recente para o quotidiano do ser humano, o telemóvel tornou-se numa espécie de prótese do ouvido, ou um prolongamento dos dedos e, pela sua dimensão e mobilidade, é frequente não se saber onde ele está.
Qu’é do meu telemóvel, raispartaisto…”

E procura-se, desesperadamente – como se fosse Susana… –, em todos os lugares em que o telemóvel, evidentemente, não está. Nos bolsos do roupão, do pijama (há os que os têm), na casa de banho (ao lado da sanita ou na prateleira da banheira), nas algibeiras das calças que se vestiam ontem, no meio dos comandos da televisão, entre o rato e o computador… sei lá, nas cómodas e incómodas, nos sofás e cadeiras de jardim “... ah! espera aí… terá ficado no carro ontem à noite?”
E passamos em revista todas as últimas horas da nossa vida (incluindo as do sono), revistas sem objecto à vista.
Até que surge o uso ao último recurso.
O telefone toca… e onde toca o telefone será onde o telefone está. Eureka!
Começa, então, uma nova saga. Se o salteador ou o procurador do telefone perdido está acompanhado, pede o auxílio de quem o acompanha; se não está, mas tem a companhia de um telefone fixo, serve-se deste.
Melhor é a primeira hipótese por mais telefonicamente móvel.
“Empresta-me aí o teu telemóvel”.
Vencidas as eventuais resistências (“há coisas que não se emprestam..., não tens um?”, “tenho mas não sei onde está… e é para o o encontrar”, “és sempre a mesma coisa… nunca sabes onde pões as coisas”, e etc. e tal).
Assim preparados para a busca, por mão própria ou marcação alheia, lá vamos marcando o nosso número, de ouvido à escuta, escrutinando a casa toda à procura do som que há-de vir não se sabe de onde, chamado pelo toque de um outro colega de telecomunicações.
A ver onde o telefone toca. Ou melhor: a querer ouvir onde o telefone há-de tocar.
E, às vezes, corre-se a casa toda, e o pequeno jardim e vai-se a outro móvel, ao automóvel.
E ele, o telemóvel desaparecido ou escondido, acaba por aparecer. Com um som sumido, quase se diria tímido e arrependido.
Nos sítios mais inimagináveis. No meio da roupa da cama, debaixo do banco do automóvel, no fundo da algibeira de uns calções que – julgávamos nós – não vestíamos há meses e experimentáramos ontem, já meio-a-dormir, no vaso de flores a fazer companhia a um ramo ontem apanhado para enfeitar a casa, no saco com que se foi às compras, num outro daqueles sacos para meterem os jornais que queremos ler e onde metem tudo o que ler não queremos, ao pé da comida do gato, entalado nas dobras das almofadas do sofá, no meio de um livro… sei lá, nos sítios mais incríveis.
Quantos cantos e santos da casa já descobrimos por toque e graça de um telemóvel perdido episodicamente, e afanosamente procurado por chamamento sonoro?
São as maravilhosas aventuras do tempo presente. Outras virão!

Sérgio Ribeiro

1 comentário:

Justine disse...

Muito divertido e bem escrito. Gostei especialmente do tom tímido e arrependido com que o telemóvel, finalmente, se anuncia:)))))))