faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira
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sábado, 22 de julho de 2017

Histírórias ante(s)passadas - 46 VISITAS - o 2º esquerdo

A DONA LAURA

A Dona Laura era a vizinha do 2º esquerdo. Era a esposa muito senhora esposa do senhor Armando Mendes, homem discreto, apagado, e era a extremosa e preocupada mãe do Armandinho, um dos miúdos do prédio, com mau aproveitamento escolar, estudante de violino mas mais dedicado - muito mais… – à viola e suas variações, a que se entregava no tempo que deveria ser, segundo a Dona Laura, para os deveres escolares e o estudo dos clássicos do violino, seus concertos e sinfonias.
A Dona Laura era uma senhora. Que pontificava, sem alardes ou alarido, no prédio da Rua do Sol ao Rato, que mudara de 85 para 27 na ordenação toponímica. Impunha-se pela postura de Senhora Dona.

Os miúdos do prédio – o ZéLuís, meu primo, também do 2º andar mas direito, os dois irmãos do 1º andar esquerdo, eu do rés do chão – eram os companheiros do Armandinho. De escada e quintal ao rés do chão nosso.
A Dona Laura tinha as suas referências e preferências. Para exemplo do Armandinho. Eu seria um deles. Um rapazinho atilado, bom aluno, um menino que gostava de ler, que brincava mas era comedido e aproveitava o tempo. 
E foi discreta mas clara na solidariedade para comigo no meu pesar por o meu pai não ter comprado o violino para que eu parecia ter jeitinho, tal como ela fizera para o seu Armandinho. Decisão de que não se conhecia o contributo e opinião do senhor Mendes. Se é que este os tivera...
A Dona Laura era uma senhora. E acompanhava, cheia de simpatia (ou empatia?), a minha adolescência e começo de idade adulta. De (bom) exemplo para o seu Armandinho.

Quando voltei da prisão e fui ao prédio, visitei a Dona Laura. Contente e compungida, mostrou-me a sua incompreensão com uma pergunta insistente e intencional:
Não te percebo, não te percebo… o que é que TU queres mais?
Não lhe respondi. Ia lá ela perceber que o mais que queria era, SÓ!…, contribuir para mudar o mundo sempre em mudança, ajudá-lo num rumo de humanização.

A Dona Laura era uma senhora. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Histórias ante(s)passadas - 45

Era o ano de 1972

Naquele pequeno gabinete, anexo à redacção do Diário de Lisboa, havia três secretárias e éramos três os seus ocupantes.  A Isabel, com a tarefa das traduções das agências estrangeiras, particularmente de coisas da cultura, da literatura, o Zé, com a principal e quotidiana função de escrever as opiniões que o DL tinha, as “notas do dia, e o terceiro era eu, encarregado da área da economia, sobretudo do suplemento semanal.

O ambiente era excelente, solidário, de calma boa disposição e entre-ajuda. Que extravasava daquele gabinete e transportávamos para as nossas vidas “lá de fora”.
De vez em quando, no desempenho das tarefas, trocávamos opiniões e até trechos. Mais de uma “opinião” do DL, na altura das negociações para o acordo comercial com a CEE, por exemplo, teve contributo meu. O que fartamente se compensava com opiniões (da Isabel e do Zé) sobre a minha escrita, que não lhes desagradava, de que elogiavam a facilidade e a espontaneidade… mas a que (sentia-o eu) achavam que faltava… “qualquer coisa”.
O que não foi o caso de uma crónica que escrevi para o Récord, onde colaborava com uma crónica semanal – às 5ªs… feira –, em que eu dizia da minha sensação de irreversibilidade da passagem do tempo e me queixava do avançar da idade (aos 36 anos!) que me ia enterrando sonhos, como o de subir o túnel que ligava os balneários ao relvado do Estádio Nacional para, envergando a camisolas das quinas, ouvir o “heróis do mar, nobre povo…”.
O Zé riu-se (no que não era pródigo) com gosto e gozo, fez rasgado elogio (no que era avaro) à qualidade literária da crónica… e passámos a outras coisas.  
Nunca esqueci esse episódio, e bem longe estava eu (e ele) que aquela avaliação de um escrito meu tinha a chancela de um futuro Prémio Nobel da Literatura.
Hesito em incluí-la no meu currículo…

    

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Histórias ante(s)passadas - 44

História de rádio
… com um tio em ondas curtas
e um pai bem sintonizado

Cresci sem que em minha casa houvesse uma telefonia. Vejam lá…
E tinha pena, embora uma pena resignada. Silenciosa,
Ia a casa dos meus tios vizinhos ouvir os relatos (em ondas curtas) dos jogos de hóquei e patins em Montreux, com um grande “orgulho pátrio” insuflado pelos Emídios Pintos (ou Ciprianos) , Antónios Raios, os Edgares, os manos Serpa e os primos Correia (e outros que a memória, injustamente, atirou para segundo plano).

Mas tinha pena de não ter em casa um aparelho em que, à António Silva, abrisse a torneira  e saísse música e o Zéquinha e a Lélé e o anúncio ao Formitrol.
Até que um dia, o miúdo que eu era soube que o meu tio (por afinidade, diga-se… porque a mulher dele é que era minha tia) iria receber um rádio. Não sei ao certo porque bulas, mas julgo que em pagamento de umas injecções de penicilina que ele dava. É que, aos tempos de  então, iso de dar injecções era muito bem pago pois tinha de ser de poucas em poucas horas e durante a noite… pelo que, não havendo Serviço Nacional de Saúde, haveria quem, em troca de um tratamento prolongado, só podia pagar a cura (se cura houvesse…) com  aparelhos de rádio e coisas assim.

Sabedor do meu gosto e desgosto, o senhor meu tio anunciou-me a nova e perguntou-me se o meu pai não estaria interessado em lhe comprar o dito aparelho de válvulas e sons roufenhos.
Fui o intermediário. Interessado. E não me foi muito difícil convencer o meu pai… desde que o preço fosse em conta.
Pelo que, qual mensageiro de boa nova para o próprio mensageiro, corri a casa dos meus tios na disposição de “fechar o negócio”, até na expectativa de muito boa vontade do vendedor…
Qual não foi a minha desilusão quando o dito meu tio me disse, com alguma indiferença – para mim mais do que isso –, que se desinteressara do negócio porque a telefonia afinal até era muito boa, e até queria ficar com ela para ter música e notícias também no quarto (ou na sala de jantar?, já não o ouvi muito bem,,,).

Quando, no regresso a casa, com muita tristeza alimentada por várias e nem todas bem conhecidas razões, trouxe o resultado das “negociações” ao meu pai, (ou)viu-o meio zangado e  a resmungar “pois… se a telefonia não fosse boa já servia para nós, e vendia-ma… rico tio que tu tens!... sabendo do teu gosto…”

Foi uma lição para mim.
Fiquei com algumas irreparáveis reservas para com aquele tio… em ondas curtas.
“On n’oublie rien”.
Em compensação – e se o foi! –, na semana seguinte o meu pai entrou lá em casa com uma telefonia. E das novas e boas, decerto com algum sacrifício... mas com uma boa sintonização.

domingo, 28 de outubro de 2012

Histórias ante(s)passadas - 43

No regresso do que senti ser,
tardia e irremediavelmente,
o corte definitivo da ligação viva
com o meu passado vivido
escolhi o Requiem, de Mozart
“para este domingo” do anónimo do século xxi,
E juntei a nota de que teria “memória”
- ou histórias ante(s)passadas - em docordel
Aqui, e também nos dias de agora.

Histórias ante(s)passadas – 58 (?)

Não vou “literalizar” a questão, e muito menos como “ficções do cordel”, mas sinto necessidade de transformar o luto duplo que sinto em escrita catártica. Porque não foi bem o corte de uma ligação viva, a última, com o meu passado vivido, mas mais o desfazer de um laço, brutalmente, e sentido ao longo de quilómetros ao volante e de horas em que estive voltado para o mais fundo em mim.
Sucederam-se cenas como num filme a episódios.
O mais antigo, as vistas a uma casa onde a Casimira vivia com uma tia, depois de um nunca esclarecido divórcio (isto nos anos 30!), como que em reclusão, e onde a mãe e os familiares maternos a podiam visitar e onde havia uma janela num andar sobre a Duque d’Ávila, muito alto para mim, habituado a rés-do-chão e a sentir vertigens.
Depois, a vinda da Casimira para a nossa companhia no canto familiar da Rua do Sol ao Rato. Os três primos! A Casimira, a mais velha, rodeada de mistério e silêncios (porque havia coisas de que não se falava), o José Luís, com o pai na Penitenciária, por vício do jogos e desvios de dinheiro (também coisas de que não se falava em frente das crianças), onde eu, o mais novo dos primos, o conheci.
A seguir, o namoro da Casimira com o Agnelo da Trafaria, quando, dizia-se…, de quem ela gostava era do José, e cenas insólitas como o Agnelo, baixinho e todo garboso na sua farda de oficial, a subir a íngreme Rua do Sol para passar debaixo da janela da sua amada a comandar um pelotão, num desvio ao RDM (Regulamento de Disciplina Militar)!
E o casamento. Daqueles de fato de cerimónia, em que para mim se arranjou a solução da “capa e batina” feita no A.Lemos da Rua Augusta, e que veio marcar a minha vida de estudante lisboeta a sonhar com Coimbra.
Do casamento nasceu o António Alberto, que estaria agora nos 60 anos se não tivesse morrido há uns quatro ou cinco anos, de uma morte anunciada e de certo modo antecipada para os pais e, também, para mim. Por isso, quando ontem, no cemitério, me disseram que o António Alberto, além do corte total com todos os laços familiares, morrera de sida, senti estar a fazer um duplo luto.



Esta fotografia tem escrito nas costas, com a letra da Casimira, António Alberto com 3 anos e meio – Restauradores 1955













Tudo foi revivido.
O António Alberto foi o meu primeiro bébé! Andava eu no liceu, no D. João de Castro, no Alto de Santo Amaro, e organizava a minha vida para estar com ele, que quase vira nascer. Com os meus 16/17 anos passei horas a brincar com o TóBé, no encantamento de ver um ser humano ganhar corpo e sentidos e consciência. (O que estou a voltar a viver numa terceira etapa da minha vida).
O miúdo cresceu e sempre o fui acompanhando. Com uma enorme ternura. Retribuída, E lembro a alegria que lhe teria dado quando, no começo da sua adolescência, consegui ir ver o sarau de ginástica na Académica da Amadora, em que ele participou e para que me convidara com alguma insistência..
Depois, adolescente inquieto e com um difícil relacionamento com os pais, uma fuga de casa para uma "aventura" por Espanha, terminada em Barcelona com um regresso atribulado, em que também tive um papel bem difícil. Em que fui uma espécie de mediador, fisicamente no meio dele e do pai a impedir a violência, e com a insólita confissão que ele me fez de que terminara a sua “aventura”… por ter sentido a falta do "champoo"!
E cada um foi fazendo a sua vida. Sempre com a Casimira a dar-me notícias, e a encontrá-lo de vez em quando.
Até que chegou um 25 de Abril. Em 1974. Ele com 20 e poucos anos, eu a chegar aos 40. Tempos em que nos teríamos reencontrado. Em que soube coisas dele, na empresa em que trabalhava e do seu impeto revolucionário. Cruzando-nos e abraçando-nos em manifestações. No meio da alegria e do futuro que procurávamos ajudar, eu um pouco preocupado porque ele queria a revolução-já e eu não tinha nem arte nem tempo para lhe provar que as revoluções não se fazem já. Que se fazem sempre. Todos os dias, e mais difíceis são os dias em que se julga que ela está feita.
Ter-se-á perdido, ou terá procurado encontrar-se por outros lados. Por Moçambique e não sei mais por que paragens. Rompendo laços, cortando ligações. Perdi-o!
Soube da sua morte. Quase com indiferença. Até ontem. Até ao acompanhamento da Casimira ao cemitério do Feijó, e ao ter-me sido confirmado, por voz amiga e comovida, que o António Alberto morrera, e como morrera.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

estórias... - 42-Só nos saem duques...

Ontem, foi o Benfica, com toda a histeria dos festejos da vitória (que continuaram por hoje), e a violenta contra-manifestação no Porto, e mais a violenta contra-contra manifestação policial, que me levaram à escrita de uma estória de desporto.
Hoje, entre a visita de ex-ministros das finanças a um dos seus e a visita de Bento XVI à nossa terra e o anúncio (ou só aviso-ameaça?) do aumento do IVA e os 24 que vão à África do Sul dobrar o Cabo da Boa Esperança, ainda sobrou tempo de informação mediática para nos darem pormenores sobre o estado de saúde de um senhor Juan Carlos, ao que dizem rei de Espanha, e foi esta parte do noticiário que me lembrou um outra estória. Fidalga.
Aí vai ela (não terá sido exactamente assim., mas trata-se de ficção... do cordel):
.
O meu pai tinha um viciozito, sim, não chegava a ser vício. Era o viciozito da jogatina. Nada de muito grave, mas suficientemente grave para perturbar o ambiente familiar. Porque as sessões de jogo muitas vezes se prolongavam pela noite e madrugada dentro a entrar na manhã, o que não era nada agradável para a minha mãe (nem para mim, à medida que me ia apercebendo), mas também descobria nela alguma resignação (diria, sob protesto...) feminina. Se calhar, isto é um suponhamos..., a minha mãe preferia que ele "perdesse a noite", sabendo ela onde ele a tinha perdido, do que ele viesse para casa a horas mais apropriadas sem ela saber de onde ele vinha, ou não querendo saber, ou procurando saber através de algum vestígio na roupa ou no odor. No do meu pai, era só tabaco, porque nesse tempo se fumava... mas só os homenes, e então à mesa com pano verde era grande o consumo.
Bom, eram assim aqueles tempos...
Pois um dia, já comigo adolescente, nuns momentos de descontração, que não eram muito frequentes como parece quase nunca serem entre pais e filhos, ele contou-me uma estória me me veio agora à memória.
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- Queres que eu te conte uma coisa que me aconteceu, aqui há tempos, há uns bons anitos, no Ateneu Comercial de Lisboa?
- Sou todo ouvidos...
- ... estávamos a formar uma mesa de jogo com os parceiros habituais...
- Mas não é na Casa do Alentejo que tu vais jogar?
- Agora é... mas nesse tempo era no Ateneu e, como te tenho dito, sempre joguei e continuo a jogar comedidamente, nunca arrisco mais do que posso...
- Pois... mas...
- Já temos falado sobre isso... mas agora queria conta-te a história...
- Conta, conta...
- Estávamos a ver se formávamos uma mesa, e faltava dos nossos parceiros habituais. Então um dos nossos amigos, um fulano muito "da alta", lembrou-se de ter visto a jantar sózinho num restaurante da Rua Jardim do Regedor um seu conhecido com quem costumava fazer umas sessões de jogo, parece que em Cascais... era alguém dos meios do então rei de Espanha, por ali exilado, e perguntou-nos se veriamos inconveniente em o ir convidar... se ainda estivesse no restaurante, Claro que ninguém se opôs, apesar das regras apenas permitirem formar mesas com sócios... mas dada a necessidade e as credenciais...
- E então, ainda apanharam o gajo?
- Gajo?... essa vossa linguagem... Ainda por cima esse a quem tu chamas gajo estava no restaurante, aceitou o convite, era simpatiquíssimo e foi um excelente parceiro. Mas o engraçado da história não está aí.
- Sim, até agora não teve lá muita graça...
- Pois não. A graça está em que, quando o fulano chegou, todo pinoca, cheio de "nove horas", o nosso parceiro o apresentou como... duque de não sei quê, e sabes qual foi a minha reacção?
- Sei lá...
- Muito prazer, é a primeira vez que aperto a mão a um duque fora do baralho.
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Ri-me mesmo a sério, e ainda hoje rio.

Uma estória... - 41-...de desporto

Hoje, apetece-me contar uma estória "desportiva". Porque será?
.

Em Maio de há quatro anos, já noite dentro, voltávamos lá do norte, de uma deslocação com a equipa de hóquei do Juventude Ouriense e parámos, como era habitual, numa estação de serviço.
Vinha tudo bem disposto, todos passaram pelos sanitários (é uma coisa que quando faz um português, fazem logo dois ou três), uns dirigiram-se ao balcão dos bebes-e-comes, outros fizeram a sua vistoria, também habitual, das revistas em exposição com corpos apetitosos em exposição. Uns mais calmos, outros mais excitados.
Sob o olhar vigilante dos empregados da estação de serviço, tudo estava a correr muito bem, ao contrário do que às vezes acontece por aquelas paragens, com claques, no regresso de jogos de futebol. Muito animados, barulhentos, mas nada demasido, nem a animação, nem o barulho.
Um casal que entrou na loja e bar da estação de serviço começou por mostrar alguma desconfiança por ver tanto fato de treino e alguma agitação, mas logo perdeu os eventuais receios porque, na verdade, o grupo estava mesmo animado, ria e brincava mas não havia sinais de excessos ou de que eles pudessem vir a aparecer.
Talvez estimulados pelo ambiente, e porque eu estava um pouco afastado dos mais exuberantes, dirigiram-se-me, a "meter conversa", decerto tranquilizados pelas minhas barbas brancas (já o estavam há quatro anos...).
- Então... parabéns...
- Obrigado.
- Pelos fatos de treino, já vimos que são de Ourém... bonita terra... o que é que jogam?
- Jogamos hóquei...
- Sim, senhor... e o amigo é treinador, ou massagista, ou dirigente?... jogador não é...
- Pois não, pois não... bem gostava ainda... sou o presidente da direcção...
- Ah! muito bem, muito bem... jogaram onde?
- Em Valongo, ou melhor, em Balongo...

(riram-se)

- Sim, senhor... e ganharam por quantos?
- Não ganhámos... perdemos por 6-1.
- O quê?!... E estão assim a festejar... parecem tão contentes... e perderam?!... e por 6-1!?
- Pois é! Nós somos assim. É assim que encaramos o desporto!
Despedimo-nos. com simpatia mútua e desejos de felicidades.
... Só não lhes disse, para não diminuir o efeito... pedagógico, que apesar de termos perdido (e por 6-1) subiramos à 1ª divisão nacional, e que era, por várias razões (não só desportivas), o dia mais feliz da minha longa carreira desportiva.


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Dias depois, ainda festejando,
a cantar Grândola
com o meu amigo Jorge Godinho

domingo, 18 de abril de 2010

Histórias ante(s)passadas- 40- e entrecruzadas, ou entre escudos e euros

1. Em tempos que já lá vão, e muitos tempos são, a gasolina custava 4$60 o litro. E era só uma, nem sei se 95 ou 98 parece que octanas. Ou seja, ao câmbio actual, 2,3 cêntimos.
O que sei, ou do que me lembro, é que chegava a uma bomba de gasolina e pedia ao trabalhador com o emprego de nos atender “20 litros, por favor” (sempre fui assim, educadinho… e para toda a gente).
O trabalhador metia os 20 litros, e enquanto estes iam entrando no depósito, limpava o pára-brisas, perguntava que eu queria que ele visse o nível do óleo e da água.
Pagava com uma nota de 100 escudos, isto é, mais ou menos uma moedita de 50 cêntimos, e seguia viagem com o depósito quase cheio.
Depois, depois houve aumentos. Mas coisa pouca em relação àqueles que, de vez em quando, nos surpreendem nestes tempos de hoje em que estamos em inflação controlada, ou até de deflação, e de salários em perda continuada de poder de compra.


2. Nesses tempos de antes, que tão longe estão e de que não guardo saudades nenhumas a não ser as que de mim e em mim tenho, um amigo que nunca percebi bem se era muito irónico ou muito pouco inteligente (qu’é isto?) dizia-me “comigo, estão os gajos lixados… comigo não ganham eles um tusto… meto sempre o mesmo… chego à bomba e digo meta-me aí 100 escudos, e ando até dar…”.
E acho que o que pensava ter ouvido em primeira mão é estória velha…
Ah! pois é…

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Histórias ante(s)passadas -.39-Uma questão de estatuto

Tinha acabado o meu doutoramento há pouco tempo. Tirado "a ferros". Porque fora da "carreira académica", porque sem cumprir normas e/ou rituais, porque pretendendo defender uma tese marxista. Na área da economia e afirmadamente marxista.
Apesar disso, fui aprovado por "unanimidade com distinção e louvor", embora com duas "curiosas" declarações de voto para dizerem que aquele voto não queria significar qualquer identidade com a base teórica e os conceitos perfil(h)ados pelo doutorando (esta redacção é minha... mas tenho para aí a acta com as declarações de voto com este sentido, ou o que me ficou do seu sentido).
A tese tinha o título "o planeamento dos recursos humanos na estratégia de desenvolvimento dos Países em vias de desenvolvimento", e baseou-se na experiência em missões da OIT em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Adiante... que este é só o intróito à estória.
Pouco tempo depois desse evento (na minha vida) houve um Congresso do Partido. Tive a tarefa de acompanhar uma delegação, como intérprete, motorista e o que fosse preciso. Calhou-me, veja-se lá, o delegado do Benin, onde estivera nessas andanças de técnico da OIT. E, muito agradado, lá ia cumprindo a tarefa.
Até que um belo dia - de Congresso... -, estava em semi-folga (o negralhão beninois teria ido a um almoço de delegações, ou às compras, não sei... mas ficara eu dispensado de o acompanhar) e, à porta da entrada principal, estava à conversa com um camarada, quando se deu o que me traz ao contar.
Fazíamos tempo... Conversávamos. E estava a conversa num ponto que me parecia interessante, ia eu a meio de uma fala, eis que ele me abandona inopinadamente, precipitando-se em direcção a um camarada que, ao longe, acabara de chegar e já estava a receber outras recepções e homenagens a que foi juntar a sua. Perfeitamente desnecessária.
Era o camarada Professor Doutor... Cheio de estatuto. Que não teve culpa nenhuma no incidente que, de vez em quando, me é lembrado. Sempre a despropósito.
É que fiquei ali, de fala inacabada, a pensar na minha falta de estatuto... Que não me faz falta nenhuma!
Coisas que só aqui conto,

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Histórias ante(s)passadas - 38

O meu pai, quando saiu do Zambujal (e de Vila Nova de Ourém), andaria pelos 20 anos, foi para Lisboa, depois de curada uma doença chamada “fraqueza” por ter abusado da juventude, e na procura de outra vida começou pelo comércio em papéis. Não destes “papéis” de que tanto se fala e com cotação na Bolsa, mas papéis para escrever, à mão e à maquina, em todas formas e funções correlativas. Ligadas às escriturações, escolares, de escritórios, cartas comerciais, familiares e de amigos, entre namorados.
E nunca mais deixou o ofício, de loja em armazém de empresas, até se “estabelecer por conta própria", ali à Rua do Sol ao Rato, como “agente comercial”, já eu era nascido e tinha 4 anos.
Por isso, cresci no meio de papéis, de resmas de cartolina, de envelopes, blocos, pastas, fazia visitas frequentes a clientes, a tipografias (ah! o cheiro do chumbo), a encadernadores, e os primeiros trabalhos que fiz foi passar guias de remessa e facturas, e recibos do “agente comercial” Joaquim Ribeiro.
Por isso, a notícia da insolvência da Papelaria Fernandes despertou-me recordações. A Papelaria Fernandes foi uma das empresas em que o meu pai trabalhou. E marcou-o muito. De vez em quando, falava dela. Com boas e más recordações. Como a de um “patrão” que teve na altura, capitão Agostinho Lourenço, que foi director da PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado –, criada em 1933, antepassada da PIDE, para onde transitou como director até 1950.
Também não me é indiferente que a PF seja no Largo do Rato, e muitas vezes entrei naquelas lojas, e sempre as senti como minhas vizinhas, ao lado da Camisa d’Ouro e de outras lojas que desapareceram. E fico com o amargo sentimento de que algo se perco com o desaparecimento da Papelaria Fernandes, mesmo que outra coisa, resultado das “engenharias financeiras”, venha a, aparentemente, continuá-la.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Histórias ante(s)passadas - fora de séries - Celeste Amorim

Morreu a Celeste Amorim.
A notícia chegou-me inesperada (são sempre inesperadas e brutais as notícias da morte dos nossos amigos!).
Fiquei, como sempre também, triste, pensativo. Lembrando.
E com as lembranças - e tantas são as da minha "comadre", da minha amiga, da minha camarada - veio a vontade de contar uma estória. Uma história ante(s)passada. Como uma muito sentida e grata homenagem.
Na prisão, conheci os camaradas que tinham sido presos em Torres Vedras. Naquela "leva" que nos juntou, também aquela organização local fora severamente atingida.
Mas contava-se, na prisão, a proeza da Celeste Amorim. Que nos fazia rir e dava força.
Vivia a Celeste Amorim em Torres Vedras, e na deslocação que a brigada da PIDE fez à cidade (Torres Vedras seria já então cidade?) para trazer para a António Maria Cardoso e Aljube, primeiro, depois para Caxias, os perigosos subversivos, estava incluída uma "visita" a casa da Celeste Amorim.
Cumprindo o seu roteiro, já com algum "peixe na rede" e circulando, clandestina, a informação, a Celeste estaria preparada para a recepção...
Os pides bateram à porta e a "dona da casa" abriu com aparente descontracção. "Eles" identificaram-se. Era, disseram, uma visita de rotina, coisa sem importância, uma "visita" rápida e umas perguntas breves...
A Celeste Amorim, muito jovem, com aquele seu sorriso, embora aquele fosse muito forçado, terá respondido que sim, senhor, façam favor de entrar.
E quando eles entraram... ela saíu! E saíu com a chave na mão, e fechou os pides dentro de casa!
E fugiu!
Os que iam prender ficaram presos na casa de quem iam prender. Que falta de profissionalismo deles e que coragem e determinação da Celeste Amorim.
A Celeste Amorim ficou largos meses fugida, em casa de amigos e camaradas, e só aos poucos, discretamente, tenteando o regresso, foi voltando à vida "normal", tanto quanto podia ser em tempos de fascismo.
Lembro-me tão bem do jantar em casa da Celeste Amorim, onde também esteve o pai dela, quando já eu saído da prisão, nos conhecemos. O que nós rimos da sua proeza.
E tantas mais coisas para recordar!
Tantas mais coisas! Ligadas ao Coro do Lopes Graça, ao nosso afilhado comum. À vida! À luta!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Histórias ante(s)passadas - na prisão - 12A

(Desde 25 de Dezembro não venho aqui contar estórias. A última escrevi-a em Ho Chi Minh ville, e estava eu, na estória contada, na sala dos operados, no Aljube. Fazem-me falta. Por isso, a elas volto).
Havia uma porta a separar a “sala dos operados” da “enfermaria geral”, no último piso do Aljube. Eu, estando em trânsito para Caxias, transitara da segunda para a primeira, por troca com o Custódio Maldonado, que para Caxias não iria.
Na "enfermaria geral" tinham ficado os companheiros que lá deixei, e logo outros vieram juntar-se. Entre outros, gente hoje famosa, das artes. E o Herberto! Com quem eu tinha uma enorme necessidade de contactar.
Na porta que separava as duas salas havia uma fechadura, de que estava cuidadosamente tapado o buraco da fechadura, decerto por um marceneiro. Mas, na madeira, fomos fazendo, pouco a pouco e dos dois lados, um orifício por onde pudesse passar o papel-alumínio dos maços de tabaco, muito bem enrolado. Assim, começaram a circular mensagens entre as duas salas.
O certo é que o buraco começou alargar-se. Para que as mensagens passassem com maior facilidade e, às tantas, começámos a poder espreitar-nos.
E não me esqueço de, numa bela tarde, termos recebido uma mensagem “do outro lado”, em que se dizia “vamos fazer uma foto de família… espreitem”. Assim fizemos. E, enquanto um deles e um de nós estavam de vigilância ao guarda – que, por vezes, era só o servente –, espreitámos pelo buraquito e vimos… os camaradas em pose, como se estivessem arrumados para uma fotografia.
Ainda estávamos a usufruir do gozo que aquela diversão nos provocara, quando recebemos um canudinho de papel-alumínio, vindo do outro lado, com uma intimação: “Então… e vocês daí?!, não pousam para nós?”.
Claro que sim. Ajeitámo-nos, muito arrumadinhos, e… tiraram-nos a “fotografia”.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas - na prisão - 11A

Na organização do tempo da sala, o Viriato Camilo sugeriu informação sobre o coro da Academia de Amadores de Música. O cancioneiro popular. As "heróicas".
Foram horas intensas. Com aulas práticas. Porque cantávamos. Nem sempre bem. Ou quase nunca bem (então eu!)… Apesar dos esforços do exigente Viriato.
Foi ali que descobri o Zé Gomes Ferreira.
Nesse entretempo, nasceu a Susana. A filha mais nova da Teresa e do Viriato.
Horas de alegria, de ansiedade, de sofrimento. Porque, nas condições finais da gravidez, com a Teresa numa angústia e numa excitada “roda-vida”, o parto foi muito complicado e fecharam-se as fontanelas da Susana (se isto que escrevo tem alguma coisa de científico nas relações causa-efeito…).
Para a Susana escrevera o Fernando Lopes Graça, que já era padrinho da Sílvia, a peça “para uma criança que vai nascer”.
A evolução da situação foi uma sucessão de choques que começámos por acompanhar. Ali. Impotentes. Procurando ser solidários. Foi um enorme choque, e uma vida e uma família toda a viver anos e anos esse grave problema. Com um cuidado e um carinho que acompanhei. Fica um pensamento muito solidário para a Teresa e a Sílvia, uma vez que o Viriato Camilo já há alguns anos morreu.

Ainda contaria, até para não acabar assim, que foi nessa sala que o Viriato nos falou a todos da Prelo Editora, e que eu comecei a entusiasmar-me com aquela coisa das editar livros. Até porque, nesse ano, uma edição da Prelo – o Matai-vos uns aos outros – recebera o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, e o autor, o Jorge Reis, escreveu um discurso que foi lido no jantar de entrega do prémio, e que foi lido por nós naquela sala da cadeia.
A entrega de um prémio a um livro, num jantar, com o autor exilado em Paris e o editor preso pela PIDE no Aljube. Que tempos aqueles…
Mas… mas na “sala dos operados”, foi curta a estadia. Foi um intervalo. De trânsito para Caxias.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 10A

Naquela sala – dos “operados” – a vida já estava organizada. E eu integrei-me bem. E depressa.
O Fernando Rodrigues era “um senhor”. Tisiologista de reconhecidíssima competência, era um homem muito afável, que se via que estava a sofrer, depois do que passara nos interrogatórios, Por muitas razões, até familiares. Dentro de si, um turbilhão sob a aparência calma que não escondia o sofrimento. Disso não vou falar.
Falo, sim, de ter então sabido que Fernando Rodrigues tinha casa e consultório com frente para o Jardim da Parada. Em Campo de Ourique. Para onde dava também a minha varanda. E, no prédio ao lado do dele, morava o Noales. Que “brinde” para os pides! Um desses criminosos oficiais, instalado num banco do aprazível jardim, podia vigiar, ao mesmo tempo (e decerto por turnos), três portas de entrada de casa de três suspeitos. Ou mais do que suspeitos porque houvera quem se encarregara de dar informações sobre as nossas pessoas à “instituição”. Mas também não é disso que vou falar.
Nalguns momentos de descontracção, raros, o Fernando Rodrigues contava que, nos dias de calor, fazia consultas com as janelas abertas e perguntava como é que lhe era possível ser médico e sério com um vendedor ambulante, desses de grande lábia e altos berros, no jardim abaixo das janelas abertas a fazer propaganda do que vendia, uma pomada milagrosa, persistindo na científica informação que lhe entrava pelo consultório dentro:

“O dente não dói porque o dente é osso e o osso não dói; a “engiva” e não dói porque a “engiva” é músculo e o músculo não dói; o que dói é o micróbio… e para o micróbio tenho aqui esta pomadinha milagrosa…”
Com aquela concorrência, o cientista sentia-se perturbado e via-se aflito para fazer, com seriedade, o seu trabalho!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 9A

Quando veio a ordem “arrume as suas coisas para mudar de sala”, senti que entrara noutra fase daquele período da minha vida. Depois dos “curros”, dos interrogatórios, da “enfermaria geral”, mudar de sala era a… estabilidade. Deixava a transitoriedade.
No entanto, a mudança foi pequena. Sai da sala grande e, no mesmo corredor, passei para um quarto ao lado, conhecido pela “sala dos operados”, pois era para onde iam os doentes depois de sujeitos a intervenção cirúrgica quando aquele andar era dependência hospitalar das prisões. Independentemente das implícitas conotações, a “sala dos operados” teria sido aquilo que, há pouco tempo, vim a conhecer como “sala de recobro”.

Os que iam para ali deviam ser os “seleccionados” para ir a julgamento. E estavam lá três. Num assarapantamento normal, entrei num espaço reduzido e já habitado por três “operados”.
Começámos pelas apresentações habituais, que iam muito para além das formais. Não nos conhecíamos, embora talvez os nossos nomes não fossem estranhos entre si.
Os nomes… Foi logo o primeiro quiproquó. Já lá vou…
Eu disse quem era, a profissão, que vinha ali do lado, num resumo resumidíssimo do resumo; depois (não sei se foi a ordem…), Viriato Camilo, desenhador de arquitectura, editor, cineclubista,; a seguir (teria sido?), Fernando Rodrigues, médico, tisiologista, IANT, um “senhor”; por último (talvez…) Álvaro Bulhão Pato de Maia Rebelo, engenheiro, grande, caloroso…
E veio o tal quiproquó. Inevitável. “Bulhão Pato?”. “Sim! era meu avô…”. “… o das amêijoas?”. Irritação: “… o poeta, o meu avô era poeta, as amêijoas foram uma graça …”. “Pois… mas são bem boas…”. Irritação: “… os versos são bem melhores…”. Timidez: “… não conheço… desculpe…”.
Não se pode dizer que tenhamos começado bem. Mas, depois, melhorámos muito. E o querido camarada Álvaro Maia Rebelo foi um bom companheiro e amigo naquela sala e em Caxias, para onde fomos transferidos mais tarde. E também cá fora, sempre grande, sempre caloroso.
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Mas, sobre a “sala dos operados” há mais estórias.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 8A

Uma última (talvez…) da “enfermaria geral”.
Naquela “leva”, diria mesmo verdadeira hecatombe, a PIDE tinha duas “escolhas”: os que apenas ficavam fichados para eventuais efeitos futuros e os que “iam dentro”; destes, os que “iam dentro” para dentro ficarem e os que “iam dentro” para apanharem um susto e o transmitirem a amigos e conhecidos. Isto digo eu, a esta distância e juntando pontas… e acrescento que a “selecção” não seria rígida e, no decurso da “operação”, a PIDE teria ido buscar alguns que era para não “irem dentro”, teriam ficado dentro uns que era só para apanharem um susto, teriam saído mais depressa que o projectado outros que teriam sido “recuperados” e “merecedores” de tal mudança nas intenções que para eles haveria.
Entre os (talvez) “escolhidos” pela PIDE para um susto de uns diazitos de prisão (de detenção, se faz favor…) estava um jovem técnico das Nações Unidas a trabalhar no estrangeiro que, embora conhecedor do vendaval que por cá andava, resolveu, quase em desafio, "vir à terra”, o que a PIDE terá achado descaramento demasiado, pelo que o “colheu” directamente do aeroporto para a sala da “enfermaria geral”.
Entrado naquele local de trânsito, já noite dentro, ficou eufórico ao ver amigos em quem inteiramente confiava, que tiveram de o chamar à parte para o pôr ao corrente da situação e dar-lhe a conhecer que as coisas não estavam nada fáceis e que havia ali… alguns “casos”, se é que não éramos todos e cada um, incluindo ele, um “caso”. Passou-lhe a euforia…
E teve, chamado à razão, uma reacção à sua maneira. De manhã, para se preparar (dizia ele), começou a fazer, em largas passadas, os cerca de 15 metros do comprimento da sala, e a dizer, baixinho mas suficientemente audível, sobretudo quando passava perto de algumas orelhas, “quem fala na PIDE é cabrão, quem fala na PIDE é cabrão…”.
Tremendo castigo para quem viera dos interrogatórios a justificar o seu comportamento com “está tudo perdido… não vale a pena qualquer resistência ou sacrifício… só há que confirmar tudo o que eles já sabem…” e que, facilmente se descobrira, fora mais fácil presa dos esbirros por estes terem usado o seu recente casamento com uma jovem, muito mais nova que ele, para o ... "recuperar" com a promessa de rápido regresso para junto da jovem e sozinha esposa.

Estas estórias não são só divertidas. São de vida vivida!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 7A

Durante algum tempo fomos apenas três os residentes da "enfermaria geral". Não foi mais que uns dias, mas o tempo tinha, ali, outra dimensão.
O "outro" era um homem pequeno, muito pequeno, quase nada. Funcionário público, chefe de secção do Ministério das Finanças, dera o seu contributo, estimável como todos, para a luta mas aquele vendaval que levara a tantas prisões apanhara-o, e as suas raízes foram arrancadas pondo-o a flutuar, à deriva, ao sabor do vento. E disto não digo mais que, aqui, é para contar estórias...
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À medida que a sala ia sendo povoada, e as famílias iam mostrando todo o apoio e solidariedade, tornou-se necessário organizar a nossa vida. Distribuiram-se tarefas e responsabilidades.
"Ele", o chefe de secção do MF, foi nomeado uxeiro, isto é, encarregado da gestão da "cantina", mesa onde se arrumava o que as famílias, com sacrifício e amor, nos iam fazendo chegar, depois de passar pelos carcereiros. Eram "mimos" para sentirmos o seu apoio, tão necessário.
Mas o uxeiro tomara o encargo muito a peito e estabelecera normas rígidas. Uma delas a de só se poder consumir o recém-chegado depois de consumido o que já chegara antes. Começou por ser aceite como boa norma, mas à medida que os dias corriam e traziam mais "hóspedes", tornou-se frequente comermos coisas já velhas, algumas em duvidoso prazo de validade, enquanto, ao lado, outras fesquinhas e apetitosas esparavam estarem em igual estado de velhice e decomposição para, então, serem consumidas. Os resmungos e os protestos batiam no muro da intransigência do responsável pela "uxaria".
Até que, uma noite, o Areosa e eu, cama ao lado de cama, nas nossas conversas antes de adormecer, fizemos o "ponto da situação" e resolvemos uma acção directa. Com a argumentação de que não era justo que as nossas famílias nos estivessem a mandar aqueles "mimos", alguns decerto com grande sacrifício, e que tão mal os tratássemos até deixando alguns apodrecer, levantámo-nos e pé ante pé fizemos uma ceiazita com as primícias que nos tinham sido enviadas.
Na manhã seguinte, descoberto a "crime" na inventariação do uxeiro-mor (e único), foi convocado por ele um "tribunal" para julgamento dos réus que tinham confessado e justificado aquela gravíssima infracção às normas ditatorialmente impostas.
Fomos absolvidos e o uxeiro demitido.
Fim da estória,

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 6A

Se havia “trânsito” na “enfermaria geral”, quer de entradas e saídas, quer ao longo do comprimento da sala, havia, também, os que se julgavam um pouco como os “residentes do lugar”. Pelo menos eu assim os via porque, quando lá cheguei, encontrei aqueles dois perdidos no espaço imenso (vinha, de há séculos atrás, de um cubículo com um metro e dez por um metro e setenta, e da passagem sem tempo por dias e noites no “inferno” da tortura do sono… mas adiante).
Um, era alto, enorme – ao tamanho da sala –, aviador trazido de Angola pela revolta e recusa de ser obrigado a lançar napalm contra homens em greve na “baixa de Cassange”; outro, era miúdo, pequeno, pequeno, pequeno, em quase nada se tornara.
Com o primeiro, criança grande, houve empatia imediata, como que um regresso à Humanidade, que depois se transformou em amizade e acerto de posições logo logo de luta.
Muito conversámos e há pormenores que têm de vir para estas estórias.
Mostrava-me ele, o Zé Maria Ervedosa, os seus poemas, alguns de grande qualidade, falava-me com enorme ternura do seu amor, da sua Alma encontrada em Alexandria, via-se que tinha grande necessidade e gosto de conversar e conviver. E contou-me que, quando chegou à sala, o primeiro e sozinho naquela imens(ol)idão, estabelecera uma relação de simpatia com o servente de escala ao andar, com quem conversava no umbral da porta enquanto os guardas andavam por outras vigilâncias. Quando tinham de interromper as falas sobre vidas e situações tão diferentes, contou-me ele que o Martins, assim se chamava o servente, lhe dizia “que pensa o senhor major?, quando o fecho aí dentro, fico eu fechado aqui no corredor…”.
E o Zé Maria ainda me contava que, nesse tempo sem medida, a sua imaginação construíra vários planos de fuga, mas nenhum concretizável porque em nenhum conseguira eliminar um acto indispensável: pôr o Martins a dormir, tirá-lo do caminho da fuga. Confessava que “... além de muito me custar fazer mal ao servente… depois, quando viessem os carcereiros e descobrissem que tinha havido alguma facilitação da sua parte, mesmo que involuntária, que consequências iria ter para o pobre homem... ainda por cima com um "galo" ou a cabeça partida?!”.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Histórias ant(s)passadas (na prisão) - 5A

Na sala enorme, no último andar do Aljube, a que ficou dado o nome de enfermaria geral por em tempos o ter sido, iam chegando e saindo novos “hóspedes” naquele começo de verão de 1963.
A “colheita” tinha sido farta.
Aviadores, funcionários públicos, economistas, engenheiros, bancários, médicos, investigadores, estivadores, vendedores ambulantes. Um corropio! Era assim a modos de um lugar de “trânsito” antes dos interrogatórios na António Maria Cardoso, para uns, e de pausa nos ou de regresso dos interrogatórios, para outros.
Depois da honra de termos tido um Carlos Darwin entre os nomes de registo, e de ele nos ter bem explicado que nem era o “original” nem o filho dele mesmo, e que, por isso, estava ali por engano, o vendedor ambulante, que com ele teria vindo na “leva” lá da Outra Banda, teve uma reacção curiosa.
Era um homem atarracado, pernas arqueadas, de andar bamboleante como se carregasse sempre grandes pesos. De tanto os ter carregado, as suas costas, o seu corpo, o seu andar, tinham-se moldado ao ofício. Calado, durante os primeiros tempos apenas parecia querer ouvir, ouvir todos e tudo. Parecia um pouco surpreendido, perplexo.
E um dia, não me lembro se ao segundo ou terceiro da estadia, mas depois de ouvir o Carlos Darwin insistir nos enganos, acompanhou as suas longas e lentas passeatas ao comprimento da sala, no espaço entre as camas, com um resmungar, tipo cantilena. Dizia ele: “Já percebi, já percebi! A gente estamos cá todos por engano! Todos por engano!”
E andou assim horas.
Até que chegou a sua vez do “prepare-se para ir à polícia”.
Foi.
E não voltou. Parece que, depois de uns bons “apertos”, o puseram em liberdade. Estaria cá por engano?!... Sabia lá ele alguma coisa daqueles jornais em papel fininho que lhe tinham encontrado no meio da mercadoria! Ele nem sabia ler…

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 4A

Esta melhor se chamaria história de para-prisão ou de pós-prisão. Mas é, isso sim, uma estória do tempo do fascismo. E do dia 7 de Novembro que é hoje.
Vai para 50 anos (ou já 60?) um preso político em Peniche e a sua companheira resolveram formalizar perante a sociedade a sua relação, Até por causa da questão das visitas. E escolheram o dia 7 de Novembro para se casarem. Por ser um “dia especial”. Que passou a ser, para eles, um “dia especial” por dois motivos.
Anos depois, com o Gabriel, assim era o seu nome, fora da cadeia, com um grupo de amigos, entre os quais, bem mais jovem, me vi generosamente incluído, começou a festejar-se o 7 de Novembro de uma maneira, digamos, curiosa. Reservava-se uma mesa no Restaurante-Cervejaria Amazonas, ali ao Arco Cego, e lá íamos comemorar a data. Mas não íamos só nós. Numa mesa, ou em mesas próximas, a PIDE colocava alguns dos seus identificáveis agentes para acompanharem aquela comemoração. E fazerem relatórios com os nomes dos presentes e com o que fosse dito.
É dos momentos de gozo que guardo nas minhas recordações. Que, como é inevitável, se vão ficcionando.
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Juntávamo-nos, com alguma incontida alegria por nos juntarmos. Nos abraços, nos beijos, nos parabéns por estarmos no dia 7 de Novembro. E a festejá-lo.
Os pides, mal disfarçadamente atentos, a registarem (o atraso tecnológico deveria impedir a gravação à distância e outras modernices). E não seria muito fácil porque uma das razões da comemorações era tratada em voz baixa e codificadamente como, por exemplo, tratando personagens como tio Vladimiro ou como avô Carlos. Que não tinham podido estar no casamento por uma questão de datas… Outubro até foi em Novembro!
Mas quando mais gozo tínhamos era na altura dos discursos. Levantava-se um de nós, e quando os desgraçados dos pides pensavam ter a vida facilitada com matéria para contar aos chefes, saia um discurso em que o tema recorrente era o facto, glosado à maneira do orador (ou dos oradores), de na noite do casamento que se celebrava, o noivo ter dormido ao lado do padrinho Joaquim Campino, e a noiva ter dormido com a madrinha Luzia Campino, havendo sempre pormenores para actualizar sobre aquela estranha noite de núpcias.
As gargalhadas saltavam, e tudo terminava sempre com um viva o dia 7 de Novembro!
Que assim se festejava no tempo do fascismo. E não só assim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Histórias ante(s)passadas (na prisão) - 3A

Mas não foi só o Seabra Diniz e o Orlando de Carvalho. Outros nomes muito ilustres passaram pela sala “enfermaria geral” do último andar do Aljube. Alguns que, hoje, talvez nem queiram que se saiba que lá estiveram…
Mas há um nome ilustre, histórico, que por lá passou e merece referência, queira ele ou não.
Um dia, estávamos nós, os que já lá estavam, a preencher o tempo quando a porta se abriu e, naquele vaivém a que nos íamos habituando, um guarda e o servente Martins introduziram na sala um homem alto, assaranpatado e de aspecto modesto mas bem parecido (pelo menos é assim que me lembro dele, porque nunca mais o vi ou alguma coisa soube dele… e já lá vão mais de 45 anos!).
Deu-se logo aquele movimento ondulatório de alguns de nós, qual comissão de recepção, para junto do noviço – cá por coisas que noutros locais e oportunidades se explicam –, e ele começou a contar a sua história: era da Cova da Piedade, tinha um filho que “andava nessas coisas da política”, e a PIDE fora lá a casa buscar o rapaz e, como não o encontrara – parece que fugira a tempo –, trouxera-o a ele, ao pai…
Mas como, mas porquê? De tanta história que íamos ouvindo, aquela era talvez a mais estranha… trazerem o pai por não terem encontrado o filho?!
É que temos o mesmo nome, disse ele. Chamamo-nos os dois Carlos Darwin!
E assim tivemos na sala “enfermaria geral” do Aljube, e durante uns dias, o senhor Carlos Darwin!
Que honra… e que maior seria se a PIDE não tivesse encontrado, também, o pai do mais novo (pelo menos então) Carlos Darwin, e tivesse a PIDE ido por aí fora, no recuo dos anos e dos séculos, até encontrar o mais velho e verdadeiramente Charles (Carlos) Darwin, que teria vindo, decerto, muito animar os tempos de (in)formação cultural que estávamos a procurar criar naquela sala.