faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.
José Gomes Ferreira
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Discurso sobre "materialismo histórico"
A série sobre “materialismo histórico” em anónimo do século xxi surgiu de uma proposta-desafio que veio ao encontro de um procedimento pessoal já velho de muitas décadas, e que muito gostaria de ir apurando: observar a realidade que vivo, e nela intervir, escorado numa perspectiva global - quer no espaço quer no tempo - sempre em revisita. Isto é, procurar descortinar os caboucos e as dinâmicas em cada facto observado e vivido, para que a intervenção possa ser de acordo com o que desejo e defendo. Errando aqui, corrigindo ali. Sempre com os outros. Os que já viveram e os que me são contemporâneos.
Se não “fechamos para congresso” – fórmula que muito me agrada porque a vida e a luta não param para que congressemos – não podemos deixar de fazer o vai-vem da História para confrontar o que estamos fazendo com os caminhos feitos e as dinâmicas detectáveis.
Nesta série, sinto-me a fazer, de novo, uma viagem sempre repetida e sempre nova. E não será ela que me impedirá de intervir, com o instrumental que, pela viagem, mais actualizado e adequado quero que esteja. Se o consigo ou não é outra questão...
Não abordo lucro, especulação, financeirização, transnacionalização, e etc. sem a permanente revisita dos mecanismos da exploração, da mais-valia, sem o “mercado mundial” do Manifesto e o imperialismo leniniano, sem o voltar à circulação e o regresso à origem dos circuitos e às (sem) razões das injecções monetárias, sem o capital a perder rosto, e como o vai perdendo enquanto ganha personagens-vedetas em ideologia doentiamente individualista. Sempre na busca de o que fazer em respostas colectivas.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Gosto deste! Assim, tal-e-qual
«Mas estarão os comunistas dispostos
a aceitar a alternância no poder?»)
«Democracia é alternância»
repetiu de novo a embalar o tédio,
um senhor de sonho espesso.
Como se fosse possível!
- ó glória! ó ânsia! -
construir um prédio,
mudando de vez em quando
os mesmos tijolos do avesso.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Histórias ante(s)passadas - 37

terça-feira, 16 de setembro de 2008
Títulos honoríficos
- Ter honras por aquilo que se foi? Nunca!
- Ter honras por aquilo que se é, ou que se pensa que se é, ou que outros julgam que se é? Um pouco...
- Ter honras por aquilo que se faz? Todas!
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Uma outra estória da Festa
Entre as 16 e as 18 horas estive na “Festa do Livro” na apresentação do meu livro e a autografá-lo. Depois, bebi umas cervejas, comi uma bifana, andei um pouco (pouco!) pela Festa, e depressa se fez tempo para estar, antes das 21 horas, no auditório do “Pavilhão Central” para um debate sobre a crise do capitalismo.
Dei o meu primeiro contributo, e fui bebendo água enquanto os outros camaradas falavam. Animei na parte final, sai relativamente satisfeito do auditório e ainda porque muito bem acompanhado. Percorremos, amigos em fraternidade, o caminho até aos nossos portos de arribação e recuperação de forças – primeiro, o meu em Santarém, depois, o dele em Coimbra.
No percurso, fui vivendo com alguma excitação encontros ocasionais – com alunas, com alunas de há quase 30 anos! –, e pedidos de autógrafos nos livros comprados e à procura do autor. Mais umas imperiais, mais umas conversas, e a necessidade de ir arranjar espaço para novas imperiais.
Sai de Coimbra, atravessei a rampa relvada de corpos em pousio, uns solitários, outros em grupo e conversa, outros aos pares e beijinhos. Cheguei aos sanitários, perfilei-me na fila, esperei a minha vez. Que chegou. Fiz o que ali me levara, dei meia volta e quando comecei a abotoar os botões destes jeans de botões, e a fazer a fila em sentido contrário, com a intenção de passar por onde a minha mãezinha dizia que os meninos deviam ir depois de fazer xi-xi, eis que fui abalroado. “Ah, g’anda Sérgio! Estava mesmo à tua procura…”.
E aquele homem, que vinha, ele, a começar os preparativos para fazer o que eu acabara de fazer (as calças dele tinham fecho de correr), começou a vasculhar na mochila e sacou de lá de dentro o meu livro. “Dá-me aí um autógrafo, comprei-o agora mesmo… sou o Amílcar… lembras-te?… dos Purrianos… toma lá a esferográfica.” Peguei na esferográfica dele (na esferográfica!), com algum constrangimento porque estávamos a provocar um ajuntamento, melhor, dois ajuntamentos – um a entrar, à minha frente, outro a sair, atrás de mim –, escrevi a dedicatória (Para o Amílcar “purriano” com um abraço e tal…) enquanto ia dizendo “Ó Amílcar, ‘tás porreiro, pá?… então não me lembro… temos é de nos apressar…”
É que os ajuntamentos estavam a tornar-se caóticos, naquele estreito corredor para aliviar pressões de bexiga nos sítios indicados pela organização. Mas, curiosamente, assistia-se com paciência e bonomia àquela cena. E que cena!: dois gajos – um já aliviado, outro ainda não – a abraçarem-se, e um deles a escrever num livro que o outro lhe apresentara de esferográfica em punho. Tudo isto no espaço que era aquele, no tempo de segundos que, em certos momentos de aperto, parecem horas.
Quando me encontrei cá for, ao ar livre, sorri e suspirei. Duplamente aliviado.
Ah!, e acabei por não fazer aquilo que a minha mãezinha me ensinou que os meninos têm de fazer depois de fazer xi-xi. Também, por uma vez…
Só nesta Festa! Que não há Festa como esta!
Esta parece mesmo ficção...
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Num mundo outro
Melhor porque mais humano,
porque construído sobre trabalho e solidariedade.
Um mundo de gente,
diferente o mundo,
diferentes as gentes.
Por isso,
vi umas coisas que não queria ter visto.
Por isso,
ouvi umas coisas que não queria ter ouvido.
Por isso,
aconteceram umas coisas que, para mim, não deviam ter acontecido.
(... diferentes são as gentes!)
Mas o que vimos, ouvimos e aconteceu
foi a FESTA!
Porque a construímos
porque a fizemos,
porque a queremos nossa
e de todos,
e não deixaremos que a destruam!
E queremo-la assim,
nossa mas aberta,
aberta mas com gente dentro,
gentes diferentes mas gente.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
"Com uma imensa alegria"
Como todas as manhãs, aqui me sento. Esperando o acordar da vida. E das memórias. Da lembrança do escrito de ontem. Irresistível. Sobre esta pedra–mãe. Vista do outro lado.
Mas é daqui, aqui sentado, que mais vezes a vejo. Tantas e tantas vezes – quase sempre… – sem a ver. Como se fizesse parte de mim. Do que fui. Do que sou.
Teve por companhia tábuas de solho, que com ela casavam, agora são quadrados de tijoleira que se ajustam aos seus irregulares contornos.
Sempre se saiu da Casa pisando esta pedra, soleira de todas as portas. No começo de tudo, com serventia para os currais e para o forno, com pés descalços afagando-a, fazendo-a assim, macia e acolhedora, ou com botas cardadas, agredindo-a sem que ela se queixasse. Agora, ali está, a ser Casa, no seu terceiro século. Vivendo connosco a nossa passagem por aqui.
Levanto os olhos.
É ao atirar a vista e o pensamento pelos verdes lá de fora que eles, os olhos e a memória vivida, se prendem a esta pedra.
Esta é a pedra, o assentamento de tudo que é esta Casa.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Esta é a pedra
Esta é a pedra-mãe desta Casa.Sobre ela se construiu a Casa, e é o que resta do que foi a Casa. Como era.
Agora, nesta manhã, nela se espreguiça a sombra das ripas da janela, trazida pelo sol ainda nascente.
Por esta pedra, soleira de todas as portas, sempre se entrou para a Casa, sempre se saiu da Casa.
No começo de tudo, com serventia para os currais e para o forno, para se ir dar a comida ao gado, para fazer uma merendeira; para se sair a labutar na fazenda, enxada às costas, para a ela se regressar, corpo cansado, ao som das avé-marias.
Quanto pé descalço a pisou, a afeiçoou!
Teve por companhia tábuas de solho, que com ela se juntavam, agora são quadrados de tijoleira que se ajustam aos seus irregulares contornos.
A porta já não é a da fundação, de madeira robusta e gateira para os gatos virem caçar os ratos que abundavam; as paredes foram rebocadas e parecem, por isso, outra coisa que não o que foram.
Esta é a pedra! Não a bíblica mas o assentamento de tudo que é esta Casa. Aqui nasceu meu pai. Aqui, naturalmente, morro aos poucos, um dia de cada vez, vivendo a alegria de estar vivo e de saber porquê e porquê com quem.
Nesta pedra gosto de me sentar, a atirar a vista e o pensamento pelos verdes lá de fora e dos longes.
Desta Casa gosto de falar. E sou feliz por não ser só eu, e haver quem o faça de outra maneira, com outros olhos, com outro sentir igual ao meu. Com o igual sentir que há um encanto, uma magia, uma ternura. Um estar bem.
Esta é a pedra!