faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 30 de julho de 2008

OBsCUROS - 3

As azinheiras
e eu a vê-los passar...
Outrora era assim.
No cimo das azinheiras apareciam virgens a pastorinhos que às suas sombras se acolhiam.
Outrora, mas mais cerca, de azinheiras que não conheciam a idade se serviram para Grandola cantar e para ser dado o sinal de avançar.
Hoje, assim seria se azinheiras houvesse e pastorinhos à roda delas a crescer (e virgens para aparecer),
e hoje assim seria se Zeca azinheiras cantasse para que o povo mais ordenasse (e não ordenhado fosse...).
O que vale é o que está em stock... Além da bem-aventurança da descoberta dos coletes amarelos com riscas laterais, que a legislação impôs para os condutores em “panne”, e que foram adoptados pelos peregrinos em trânsito. Pelas vias, e à margem das vias, e fora das vias. É um ver se t'avias. (o que vale é o que há-de vir!)
Desordenados nos caminhos, ordenhados no destino.
Todos e todas de amarelo riscado. E alguns de cajado.
Ah! as massas...
Quando a rebelião das ditas?
14 de Maio de 2006

OBsCUROS - 2

Auto-retrato em premonição?[1]
Daqui, vejo alguns camaradas mirrados, minados, roídos pela doença, vivos mas já com o visto para a última viagem.
Os cabelos ralos, a pele amarelada, os olhos baços, as mãos descarnadas, agarrando os minutos, os segundos do tempo que foge.
Uma respiração com esforço, um sorriso triste, o olhar fugidio. Um olhar vidrado, ainda não vazio mas um olhar de medo, de angústia, de pânico.
No Partido até ao fim. No Partido lutando as lutas todas. Também a sua contra a morte.
26-28.11.2004 (congresso do PCP nos Dias Incomuns)

01.02.2005
Os primeiros dias. Os primeiros dias do resto da nossa vida. Os dias (ainda) lúcidos. Os dias de lucidez madura antes do apodrecimento. Os dias de lucidez que magoa até à dor física (que alguns chamam enxaqueca). Os dias de fronteira. Da fronteira que não se sabe quando se atravessa, mas que se sabe que se atravessou ao vermo-nos no outro lado, ou ao serem os outros a verem que do outro lado já estamos.
Dias de ainda. Que são, também, dias de agora. Os primeiros dias do resto da nossa vida.
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“Isto está de resto”, dizia o meu pai.
Primeiro com ironia, depois com angústia. Dias de ironia que em angústia se vai tornando. Com a necessidade de fazer boa cara à má fortuna. Que, no fim das contas dos dias, é a fortuna que temos e boa é porque é a única, porque é a de estarmos vivos. E a boa cara é a do riso irónico, do ritus da lucidez que (ainda) não se perdeu. Lucidamente fugindo (ainda) à angústia que aí vem e já por ai anda em visitas rápidas mas cada vez mais frequentes.
(começo de os primeiros dias)
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[1] - sem o saber, já com “o bicho” cá dentro, cujo de “cá de dentro” foi extirpado... desta escapei!
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(papéis encontrados ao acaso e que "me pediram" para ser publicados... aliás também já estava farto de ver a Marisa ao telefone!)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Com toda a franqueza...

Isto é mesmo com franqueza, franquezinha: tinha necessidade disto?!
E é que nem a identificam... aquelas letrinhas ali ao lado, ao alto, são sobre a taxa de juro e o euribor. Com franqueza... até me custa ouvi-la!

CLAR&VIDÊNCIAS - 3

Será que?

Será que perdi a alegria de viver?
(mais que grave, seria dramático!)

Será que já não sei (deixei de saber) rir?
(será que alguma vez soube?...)
Será que conviver perdeu significado,
a definição dicionária de viver alegremente com?

Não!
Não é isso.
Estou é (um pouco) cansado,
e em fase de não aguentar conversas à toa,
opiniões sem sentido ou de sentido contrário
(não às minhas mas ao que resulta de estudo e reflexão)
E não sei (não gosto de) fazer-de-conta,
ou estou com, ou não estou com,
ou se está, ou não se está!

Gosto de (e sei) estar bem,
e só estou bem se estou com outros,
mas, em nome do convívio,
não me escondo do que/não fujo ao que é “a sério”!

Será isto?

domingo, 27 de julho de 2008

CLAR&VIDÊNCIAS - 2...

Será que?

Será que perdi o sentido de humor?
(seria grave!)

Será que não gosto de (deixei de saber) brincar?
(será que nunca soube?...)

Não! Não é isso.
Não sei (não gosto) é de fazer-de-conta,
ou sou, ou não sou
ou se é, ou não se é!

Gosto (e sei) divertir-me.
Recuso é diversões*
para se esconder o que/fugir ao que é sério!

Será isto?
_________________
* - e também detesto manipulações e artes&manhas de sedução, espúrias, estúpidas... embora com verniz de jogo floral!

Histórias ante(s)passadas - 27

Antigamente (espera aí!... não arranjarei maneira menos frouxa de começar a contar uma história, mesmo que seja uma destas estórias ante(s)passadas?!)…
Bem… Antigamente, não se ia à praia como se vai hoje. Antigamente, havia ainda mais vergonha do corpo (o que não é o mesmo que dizer vergonha corpo!)
Antigamente, havia recato! Escondia-se o corpo das vistas do público. E não só em público. Ao que me contaram mas, também, ao que sei. Pois se ainda me lembro de uma conversa, era eu jovem universitário, em que se falava do “escândalo” de um outro jovem, já um pouco mais velho e da redacção da Seara Nova, que andava nu em casa, para não recordar conversas muito menos antes passadas sobre o magno problema dos meninos verem ou não os pais em pelota … e outras, e outras.
Mas antes, muito antes, ainda eu não tinha nascido – mas já os meus pais tinham casado… – era bem pior! Esta fotografia é dos seus primeiros tempos de casados, em companhia dos padrinhos de casamento – o casal todo modernaço, ele de camisa e calças e sapatinhos brancos – e de outros amigos e amigas que não sei quem são, nem houve o cuidado de os meter todos na foto (que não retoquei).
Na praia, pois então. Era assim.
Depois, bem… depois nasci eu. Que comecei a ir à praia de fatinho de banho completo (e camisa por baixo) e, já muito mais crescido, me lembro de ir para a praia de Santo Amaro de Oeiras – ah! os capilés que lá havia ao sair do areal num botequinzinho da esquina para a subida para o comboio… – onde o pessoal masculino só podia andar de calçãozinho à medida e camisolinha de alças, sob a apertada vigilância dos “cabos-do-mar”.
Ah! como os tempos mudaram. Nalgumas coisas, nalgumas coisas…

sábado, 26 de julho de 2008

OPA CIDADES - 1

Ourém, 24 de Julho de 2008

Acabáramos de almoçar. Sardinhas como era de uso à 5ª feira, dia de mercado.
“Vou ali comprar o avante!...”, disse eu.
“Nós vamos ali à Lena Borda d'Água... também por causa do relógio…”. E foram. A Zé, a Bela, o Toino Andrade, a Mariana e o Armando.
Comprado o jornal, tentei recuperar a companhia, com passagem pela Camélia, onde o João abrira a porta e ficara de guarda à loja… que clientes nem vê-los.
Fiz o caminho que julguei ser o acertado. Nada. E a relojoaria ainda nem estava aberta.
Tinha ido por umas ruas, vim por outras, dando esparsas boas-tardes a raras gentes. Ninguém da minha.
Fechado o circuito, fui à livraria ao lado. Talvez lá tivessem ido… Qual quê? Aberta mas deserta. Fui ao café que é central. Deserto estava.
Refiz o itinerário e entrei noutro café que não é central mas fica em caminho. "Às moscas" e deles... nada.
A dois passos, já estava aberta a relojoaria... mas cheguei tarde. Tinham acabado de sair. Ainda deu para cumprimentar pai & filha. Mas acelerei e apanhei-os em fim de rota de regresso.
Reagrupados, tinha um guião completo para uma curta-metragem. Com um título (e sub-título):
À procura dos invasores da cidade morta
– até à 5ª feira!...

CLAR&VIDÊNCIAS - 1

Meia hora num mil(l)énio

Os bancos são a nossa sina
(que cena!...)

Com o nosso dinheiro
põem-nos ao seu serviço,
em bichas, em filas
(ou o raio que os parta)

À espera!
(a ver propaganda aos “seus produtos”)
Para lhes entregarmos o dinheiro
… que é nosso!
Para lhes pedirmos emprestado o dinheiro
… que é nosso!
Para lhe pagarmos todos os serviços
que nos fazem
porque nós lhos fazemos
... com o dinheiro que é nosso!

À espera!
(a ver a propaganda aos “seus”
novos “produtos financeiros”,
em cartazes e folhetos do melhor,
... do mais caro, claro).
Sempre com o nosso dinheiro
… e sem nos perguntarem nada,
nadinha de nada.

Tudo e sempre com o nosso dinheiro.
Que outros aproveitam,
para aumentar o dinheiro de "eles",
dos que já tèm muito, e cada vez mais
… com o nosso dinheiro,
suado e regateado
(ao nível da inflação esperada... segundo "eles").

Mas "eles", esses..., são insaciáveis,
isto é, nada os veda,
nada os veda!

Aqui estou eu.
À espera!
que aquele deposite,
que aquela transfira,
que aqueleoutro consiga o empréstimo
(e a apreciar a qualidade
dos materiais promocionais
dos "novos produtos financeiros"
para levar, e "dar"!, à malta
o dinheiro que da malta é)

E se um dia destes,
todos, mas todos!,
fossemos buscar
todo o nosso dinheiro
que aos bancos confiámos,
cheios de fidúcia,
e retomássemos o hábito do pé-de-meia
(como fazem os monges que não andam descalços…)?

Como é que "eles" se havinham
(tempo do verbo que deve-haver… se houver)?
sempre gostava de os ver…

Todo este “edifício”
(ah! as grandes arquitecturas,
cheias de alturas,
ah! as belas decorações,
feitas de despesões!,
... com o nosso dinheiro)
tudo "isto"
está sobre estacas
que assentam sobre areias movediças
(o nosso dinheiro…)
como se fosse cimento!

Abaixo o crédito!
Viva o débito!

(debitemos, pois
... ámen!)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

OBeSCUROS - 1

Depois da confinação ao Zambujal,
confinado aos blogs
de circuito fechado,
apesar de alguma ventania
em certos comentários e comenta dores

condicionado pela técnica informática
que nos imperializa,
soberba e arrogantemente,
estamos (todos) info-dependentes!

Agora, agora!
Aqui, a mim, a mim!
Aqui d’El –Rei!
Por Santiago e aos mouros,
ou aos ciganos, ou aos ucranianos, ou aos marcianos.

Agora!
Agora e aqui,
declaro-me utópico
(abomino o realismo pragmático
e o pragmatismo realista)
Declaro-me u t ó p i c o !, ouviram?
incuravelmente, irremediavelmente
… mas científico, perceberam?!

Chamem-me louco
… como aos poetas e a certos pintores.
A única diferença entre mim e um louco
é que eu não sou louco
(dizia Dali, que era louco…)

Só estão a mudar as moscas,
que bosta esta!

Gostei mesmo disto...

A D. Tela voltou. Não sei de onde, nem quero saber... não sou coscuvilheiro, nem de vidas de vedetas de telenovelas ou de futebóis.
(re)Apresentou-se ao serviço e saiu-se c'um post que tem este final de que este docordel que eu sou gostou mesmo:
.
"... E como vão as coisas por ? Só passei os olhos pelos títulos dos jornais, mas não percebi grande coisa. A gasolina sobe ou desce? O desemprego sobe ou desce? Ou é tudo uma questão de sabermos encarar a situação com confiança, determinação e pragmatismo? A minha avó que Deus tem, que tinha cá um feitiozinho, costumava dizer: albarde-se o burro à vontade do dono. Mas ela nunca me disse qual era a vontade do burro, e se queria mesmo ser albardado, e se o burro era mesmo burro, e se o dono alguma vez tinha aprendido a albardar, e se o ditado não tinha sido mesmo inventado pelo dono, e se o mais triste não era ver o burro a repetir o que o dono queria. Ora vejam bem para o que me havia de dar. A Tela filósofa! IhIhIhIh!!!"
.
Pois façófavor de continuar a filosofar, que o seu filosofar tem muita graça!