Se
- ao baixares a cabeça -
dos teus olhos se soltarem lágrimas (artificiais ou não),
do teu nariz pingar muco ou ranho,
da tua boca escorrer baba ou resmungo;
se as tuas mãos frias
e os teus dedos incertos
não tiverem outras coisas para nos dizer
ou não sejam capazes de o fazer...
Se não conseguires levantar a cabeça
(sem lágrimas, ranho, baba),
as tuas mãos não ganharem calor,
e os dedos continuarem a errar as teclas...
... desiste
- temporariamente! -,
pousa a cabeça numa almofada,
e vai dormir uma sesta!
faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.
...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.
José Gomes Ferreira
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.
José Gomes Ferreira
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Crónica de um amanhecer hesitante
Hesito, ergo existo. Olho lá
para fora e não chove nem faz sol e, aqui ao lado, ela dedica-se às palavras cruzadas
do avante! e protesta perante as
gralhas (noutras horas do dia é face às do Jornal
de Letras), depois da última etapa do seu pequeno-almoço que, de tão lauto,
pequeno é que não é.
Hesito entre o voltar para a cama como me pede o corpo, ou começar pelo
tratamento pingado nos olhos que pingam, ou tomar os “pózes” em copo cheio de
água em preparação para a colonoscopia, ou banquetear-me com o meu pequeno-almoço
que, de tão pequeno, nem de almoço merecia ter o nome após o hífen.
Hesito. Não me mexo de onde estou, e não tenho que me sói dizer porque calo
(ou surdino) as queixas que são minhas e não comento aquelas suas com que ela
se antecipou, isto depois – ou pelo meio – de alguns trocos sobre coisas várias
e a bela crónica lisboeta do Chico Mota dedicada ao Zé Pires, que não foi
obituário porque de 2004 mas como que antecipada homenagem ao amigo que trazia
a morte (ou o medo dela) consigo.
Hesito. Ainda esboço levantar-me de onde vejo os verdes ainda húmidos e
cinzentos para ir mudar de roupa, mas para quê se, daqui a pouco, quando for
hora de sesta, vou dar uso ao pijama que agora me convida à redeita imediata. Fico-me
pelo esboço ou intenção de acção. Deixo-me ficar assim… pelo menos mais um
bocadinho.
Hesito. Mas… tenho de me decidir porque o relógio não pára de medir e de
me dizer o tempo que passa por muito que eu o queira quieto. Como me apetece
estar.
Reajo. Avanço, decidido – é como quem diz… – para as coisas a fazer, que
inadiáveis são e adiadas estão. Pela hesitação.
Por ordem: copázio de água com “pózes”, duas pequeninas torradas com chá
açucarado, esta crónica de um amanhecer hesitante.
Aqui está ela.
Vamos ao dia que a manhã vai alta! Ainda de pijama… e pingos nos olhos.
Comecemos pelos mails e pelos blogs.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
arroubos sobre os rombos
Andámos dias proustianamente em busca da frase perdida. Acusando as idades do que não é mais que o papel destas: somarem anos, e SÓ um a um.
Depois, feliz da juventude recuperada pela memória, ela lembrou-se. Mas ele achou que não tenha sido bem assim. Ou que podia ser melhor...
Ficou assim (para memória futura):
Ele, o gato deles, de vez em quando esquece os rombos da juventude roubada e tem arroubos de arromba!...
(é como nós, pensámos os dois)
Recuperado ao acaso e por acaso
Todo o Mundo é Ninguém
ou Nada é Tudo
ou Tempo todo começa a ser Nenhum tempo
Todo o mundo: Estás pr’aí a estrebuchar…
Ninguém: Estou a ver se consigo…
Todo o mundo: A ver se consegues… só consegues é fazer-me
rir… tristemente
Ninguém: Cala-te! Deixa-me… Deixa-me tentar… Deixa-me ver se
consigo.
Todo o mundo: Então não havia de deixar… claro que deixo… Mas
Ninguém me deixa rir? Ora essa… Todo o mundo deixa que Ninguém tente lá à sua vontade.
Ninguém: … mas se Todo
o mundo me ajudasse…
Todo o mundo: Isso não! Nem penses...era só o que faltava… Todo o mundo a ajudar Ninguém… Tens cada uma! Ajudar-te?! A tentar
o quê? Com quem? Para quem? Não vais conseguir Nada.
Ninguém: Contigo, com Todo
o mundo talvez Ninguém conseguisse
Tudo.
Todo o mundo: Comigo? Não contes com isso. Ninguém pode contar com ajuda. Todo o mundo tem mais que fazer…
Ninguém: O que é que tu, Todo
o mundo, tens para fazer que te impede de ajudares Ninguém?
Todo o mundo: Nada.
Mas dá-me muito trabalho. E que queres tu fazer?
Ninguém: Tudo… já
te disse
Todo o mundo: Não tens tempo!
Ninguém: Tenho o tempo todo.
Falta-me é a ajuda de Todo o mundo.
Todo o mundo: Pois é! Ninguém
ajuda ninguém. E já não tens nenhum tempo. A culpa é só tua.
Ninguém: Eu sei! Ninguém
carrega com a culpa de Todo o mundo. Nada
consigo de tudo o que tento. O tempo todo já é nenhum tempo.
27.06.2003
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Já...agora, digo-te hoje o que tantas vezes te tenho dito... mesmo quando não o digo em voz alta e (en)cantada
"Compañera"
Patxi Andion en "Encuentro de Música Popular"
Patxi Andion en "Encuentro de Música Popular"
| Duerme sin fin compañera y no sepas lo que pasa. Duerme tu hijo en el sueño. Duerme sin miedo y sin dueño. Ayer me daban dinero parra comprar mi silencio, Por eso mientras tu duermes escribo hoy estos versos. Muchos piensan que arrendé a los que pagan mi canto. No les daré desencanto, más les diré lo que di A los que tienen la plata: Mucho susto y mucha lata. No me arrienda la ganancia de mi canto en los salones. Ni tampoco las razones del que presume pureza. A mí me infunden tristeza, Los que juegan de santones. Me han pinchado por todas partes y por todas partes Me han criticado el grito. Otros me dan y yo quito, La importancia a mi guitarra, que las mentiras desdeña Y a mis verdades se agarra. Bien señores: se acabó el tiempo del acomodo Y les he dicho lo que pasa y he sentido. No se ofendan, no hay motivo, más ninguno se haga el sordo que todos antes me oyeron y hasta algunos aplaudieron cuando he cantado al amor. No se olviden que el dolor, no calla quienes lo hicieron. No cantaré compañera sino a la carne y al hueso, Y dejaré las razones a los que saben de eso. No venderé mi guitarra, no la ganará el silencio, ni el interés, Ni el desprecio, mi canto...mi canto no tiene precio. Guarden su oferta señores, están perdiendo su tiempo. No me importa que se ofendan, Se equivocaron de tienda, Porque aquí nada está en venta. |
O 38º de... "estarmos juntos"
PARA BÉNS
EM TEMPO DE
(DE)VOTOS
Já tinha sido Setembro e Festa no Jamor,
ainda era Dezembro e 1978,
estavam , os dois, a dois dias de acabar o ano
(… ou de começarem já, já que tudo acabava)
e muito acabava na Venda Nova, no Algueirão.
Foi a 29, sem telemóveis mas comunicando,
ela com 31, ele com frescos 43, fresquinhos os dois.
Livros, pataniscas e João Pires branco,
“começar de novo?” perguntado em papel deste[i].
… e desejos de bom ano novo à porta da Venda Nova
Já tinha sido Setembro e Festa no Jamor,
ainda era Dezembro e 1978,
onde ir eu passar o ano se ela fora a Ourém,
por acaso (?!) a casa amiga comum?
Estamos neste 29 de Dezembro,
em que se fazem 38 anos de estarmos juntos,
neste 29 de Dezembro de 2016 que será o 39º a nós
Vai um brinde?
sábado, 24 de dezembro de 2016
Ao começar o 82º ano de vida... e não é ficção!
Por
boca-a-boca amado, às 00:01 de 21.12.2016,
por facebook
amigo, às 00:03
… e pelos
minutos todos a correrem pelo dia fora
até depois
das zero horas e zero minutos de 22 do 12
deste 1º dia
do meu 82º ano devido à vida
(alguns
retardatários, desculpando-se…),
por mais
beijos e abraços
por mais
frases e fotos do facebook,
pelo telefone
(fixo e móvel),
por via
escrita ou oral (por correio azul e doutras cores),
a pé ou a
cavalo noutros meios internéticos e intranetos,
foram
chegando mensagens de parabéns e correlativas.
A todas e
todos queria, comovido, agradecer
a lembrança
e as manifestações de quente ternura e amizade,
as ondas de
carinho, as vagas de saudações/saudades.
Um a um,
uma a uma,
o queria
fazer…
mas alguma
ou algum escaparia
e injusto
seria e não vou correr esse risco.
Obrigado a
TODOS nos/pelos meus 81 anos de vida.
(… rebuscadito, dit-elle…)*
______________________
* - em pré-comentário
sábado, 17 de dezembro de 2016
Coisas para a arca do velho
(...)
enCURRALado, com fundo de António Zambujo, numa
agradável miscigenação “à portuguesa” de Brasil (Chico)-Cabo Verde-fado e cante:
Eu agrido-vos por não acreditar naquilo em que
vós acreditais?
Vós agredis-me porque não aceitais que eu não
acredite no que acreditais… ou imposto vos foi que acreditásseis!
Somos mais de 7 mil milhões de seres humanos viventes à
Vossa imagem criados (dizem alguns…); de quantos milhares de milhões se
esqueceu o vosso omnipotente e universal deus?
&-----&-----&
Temos todos em comum – embora em alguns de nós em recônditos
esconderijos – a razão e a solidariedade, o afecto, o respeito pelo
outro (que sou eu!...).
(...)
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
digo/grito/luto
Observo os outros-que-eu-sou,
as gentes.
Incultas (ou acultas),
ignorantes (ou agnorantes)
e... tenho pena.
Sabendo o que podem saber
muito mais do que sei
(cultas, conhecendo)
indigno-me e digo/grito
luto!
Luto com as forças
(e fraquezas)
que tenho
(que são as minhas,
ainda!)
as gentes.
Incultas (ou acultas),
ignorantes (ou agnorantes)
e... tenho pena.
Sabendo o que podem saber
muito mais do que sei
(cultas, conhecendo)
indigno-me e digo/grito
luto!
Luto com as forças
(e fraquezas)
que tenho
(que são as minhas,
ainda!)
no microcosmos do Curral
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
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