- Que é que tens?
-Tenho nada...
- Se não tens nada porque é que estás assim?
- Eu não disse que não tenho nada... respondi-te: tenho nada!
- Lá estás tu a jogar com as palavras...
- Talvez. Mas estou a falar português e a recusar aquela ambiguidade da dupla negativa...
- Está bem. Mas tens alguma coisa. Não podes não ter nada... o que é que tens?
- Posso!... Não tenho alguma coisa, e não coisa nenhuma. Tenho nada. Sim, tenho nada.
...
faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.
...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.
José Gomes Ferreira
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.
José Gomes Ferreira
quinta-feira, 9 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Porque és um ser humano... e vivo
Queres parar?
Para!
Como os macaquinhos da estatueta,
com as tuas mãos
(não com outras...),
fecha os olhos,
tapa os ouvidos,
cala a boca
(hão-de chegar-te as mãos!)
É um teste
(estúpido como todos os testes,
ilusório como todas as amostras,
falsificador como todas as sondagens)
Ficas a saber
a falta que fazes,
ou que não fazes falta nenhuma
(é o mais provável...)
Ficas a saber
como tudo continua,
sem que tu vejas,
sem que tu ouças,
sem que tu fales,
berres,
grites
... escrevas)
Não tem importância,
não tens importância.
Mas não te importes
porque tens,
tu,
toda a importância!
A única:
a de seres tu e estares vivo!
Descerra os olhos, vê
destapa os ouvidos, ouve
abre a boca, grita
e,
com as tuas mãos livres
(que são poucas,
só duas,
e as únicas
se não as juntares às de outros),
faz o que tens a fazer:
LUTA
PORQUE ESTÁS VIVO!
domingo, 28 de junho de 2015
Nobsession
Naturalmente (se não for acidentalmente…) os anos que ainda
conto viver contam-se pelos dedos. Talvez os de uma só mão e os dedos dos pés
não contam para estas contas.
Merda, dizia o poeta lúcido. Porra, digo eu que não sou poeta
mas me quero lúcido.
E ainda tanto para aprender e... PARA FAZER!
E ainda tanto para aprender e... PARA FAZER!
sábado, 27 de junho de 2015
O desespero lúcido
Tempo de aeroporto
(lendo sobre Herberto Helder no Expresso)
Casablanca 24.05.2015 em escala para Bissau
O desespero
lúcido
O
contraditório desespero lúcido
dos poetas
Dos poetas
que não entenderam nada
da
vida
da
História
da
Terra
dos outros
de
si
(… enquanto seres
humanos)
seres vivos
no meio das dinâmicas sociais
no seio dos lugares
sendo outros
(os de antes,
os de agora, os de depois)
E eles-próprios
Nós - os eternos desconhecidos
Que sei eu de ti?
Que sabes tu de mim?
Que sabes tu de ti?
Que sei eu de mim?
Que sabemos nós de nós?
Nós
- eu que sou tu,
tu que és eu -
... os eternos desconhecidos!
Que sabes tu de mim?
Que sabes tu de ti?
Que sei eu de mim?
Que sabemos nós de nós?
Nós
- eu que sou tu,
tu que és eu -
... os eternos desconhecidos!
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Sesta - 2 (do Pessoa... como/com o Álvaro)
Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.
Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.
Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência
sem inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
A sesta
O sol a passar para o outro lado das telhas, ainda lambendo as pernas e - logo logo - já só os pés estirados no banco de apoio à "cadeira de convés", os verdes a misturarem-se ao ritmo sem som da leve brisa, um fundo azul uniforme, sem núvens, a empena branca da casa vizinha como que num espreitar ausente de janelas.
O corpo que relaxa, as pálpebras que caem e se cerram...
(só a cabeça resiste e diz, para dentro de si: vou escrever isto!)
'tá feito.
Estou IN
... mas (sempre!) cada vez mais próximo do in-certo dia, da in-adiável hora, do in-exorável momento em que ficarei OFF.
A procurar (como todos... menos os suicidas) bater o RECORD tão badalado do senhor Manuel de Oliveira! E lúcido, merda (como dizia o poeta, malcriado como dizia a minha mãezinha).
A procurar (como todos... menos os suicidas) bater o RECORD tão badalado do senhor Manuel de Oliveira! E lúcido, merda (como dizia o poeta, malcriado como dizia a minha mãezinha).
quarta-feira, 17 de junho de 2015
AUTO-EPITÁFIO
Foi(-se como) uma pena...
uma vida a tanto querer servir os outros
e uns tantos a tanto se servirem dele
segunda-feira, 1 de junho de 2015
NOVAS da GUINÉ
DESDE QUANDO
me invadiu esta desalegria ?
DESDE QUANDO ?...
me invadiu esta desalegria ?
- este não estar bem
- este desamor pela amada
- este desencontro com ninguém
- esta desespera do nada?
DESDE QUANDO ?...
ATÉ QUANDO !
- porque não desisti
AINDA !
26.05.2015
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