faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

domingo, 8 de maio de 2011

Foi no dia 25 de Abril de 2011

No dia 25 de Abril de 2011, depois do desfile, dos encontros e dos abraços, voltei à Rodoviária para regressar a casa (tinha a Escola do Sagrado Coração de Maria, de Fátima, no dia seguinte, para contar como fora o meu 25 de Abril de há 37 anos).
Uma enchente. Os “expressos” de todos os dias, com muitos desdobramentos para que toda a gente pudesse regressar.
Como não ia jantar, fui até ao bar, cruzando gente e mais gente. Comprei no pré-pagamento uma cerveja, um rissol de camarão e um pastel de bacalhau, naveguei até um canto sossegado, próximo da parede envidraçada. Os pombos esvoaçavam no meio do alvoroço e, por vezes, procuravam saídas onde o vidro as impedia, e contra o qual se debatiam.
Um pouco afastada, uma família fazia o seu lanche-ajantarado. Uma família de dois casais, pais e avós de duas crianças muito excitadas e alvoraçadas, em correria atrás dos pombos, pelo meio de tanta gente e das pernas das pessoas.
Ao meu lado, um trio de homens grandes, jovens, negros, bebendo as suas cervejas, formando grupo em grande risota e galhofa. No seu pequeno mundo africano.
Os miúdos – numa “chave” de 6 a 12 anos, decerto acertaria… – não paravam, beneficiando da pouca vigilância dos progenitores de duas gerações. Talvez na esperança de que assim se cansassem e fossem dormir durante a viagem…
Diga-se que, ao princípio, não incomodavam ninguém. A não ser as pombas. Até que uma que pareceu ter entrado em pânico entre a espada das mãozitas que as queriam agarrar e a parede que era de vidro e a iludia de que por ali seria a fuga.
Quando a cena me começava a interessar e, porque não dizer?, me começava a incomodar a indiferença dos pais e avós, vejo um dos três homenzarrões calmamente pousar a sua cerveja, aproximar-se da atarantada pomba e, perante o ar espantado e admirativo das crianças, agarrá-la com as duas enormes manápulas.
Suspense!
Eu estava atento, preocupado, hesitante sobre que fazer, se alguma coisa haveria a fazer. Por mim…
O grande jovem negro, sempre sorridente, aproximou-se da porta do bar da Rodoviária, que dá para a gare das camionetas e para o grande largo interior por onde estas entram, virou para este lado, saiu do grande edifício, abriu as enormes mãos e atirou a pomba aos céus. Por onde ela voou, libertada.
Depois, com a mesma tranquilidade sorridente, voltou para o convívio com os companheiros. Como se nada tivesse feito.
Ao passar por mim, os nossos olhares cruzaram-se. Eu levantei o polegar da minha mão direita. Ele correspondeu. Levantou o polegar da sua mão direita, e o sorriso abriu-se ainda mais, ainda mais mostrando os dentes muito brancos.
E tudo voltou ao que era.
Foi no dia 25 de Abril de 2011.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Coisas que se dizem...

- Conheço-o há muito tempo.


- Tenho por si muito respeito e consideração.
- Acompanho a sua actividade com muito interesse.


- Tive conhecimento de posições suas no Parlamento Europeu que muito valorizo.
- Lei-o desde a Seara Nova...
Alto! Quase me apetece dizer "desisto".


Se me conhecem há tanto tempo, e respeitam muito, e valorizam actos e posições, e têm lido o que tenho escrito... para que serviu isso tudo?, para dizerem o que dizem?, para escreverem o que escrevem?, para fazerem o que fazem?


Logo recupero: mesmo no pior terreno há sementes que germinam!


.


Claro que isto é tudo ficção...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É assim!

Ter a vida de amigos presa por fios é, também, sentir em nós a fragilidade dos fios que nos prendem à vida.

É assim. É assim a vida.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Textos da corda

Nem coloco isto no anónimo do século xxi.

Este texto não é político, é "político", é um "texto da corda". E, ainda por cima, escrito por alguém que conheço e tenho por bem intencionado. E que se julga de esquerda...

Aqui fica como registo. Para memória futura das ficções e outras coisas acabadas em ões como ilusões, desilusões, dislates e desvarios.

sábado, 19 de março de 2011

Cruel dúvida...

Ainda valho a pena ou sou, já..., velho apenas?

domingo, 13 de março de 2011

Tempo de luta, como todo o tempo!

Isto vai!
(dizia o Ari,
e acrescentava camaradas!).
Disso nunca tivémos dúvidas
- e tantos houve que...
mas avante! continuámos,
e com a foice e o martelo,
e com o marxismo-leninismo,
e com o centralismo democrático,
e na luta de classes
(porque as havia e há!...)
.
Cada dia, menos dúvidas temos de que isto vai.
Porque cada dia somos mais à procura de caminhos.
Porque cada dia somos mais a recusar este caminho.
Por estes carris.
.
Temos tempo.
Todo o tempo!

quarta-feira, 9 de março de 2011

SS, ou ç, ou só um s?,...

Acabei de assistir a um empossamento (de posse)
... ou foi a um empoçamento (de poça)?
... ou foi a um emposamento (de pose)?
.
e (já agora) foi uma tomada de
... ou foi uma pomada para?
... ou foi um torrada sem manteiga?
... ou foi um espinho enterrado?
... ou foi um caldo entornado?
... ou foi um tornado sem retorno?
.
venha o diabo e escolha!
.
o diabo
... também emposs(s)(ç)ado,
... talvez embuçado,
... talvez emboscado.

as (des)confusões verbais

- Como estás tu?
.
- Estou entusiasmedo!

domingo, 6 de março de 2011

Há gente que...

Há gente que (alguma é só gentinha),
há gente
... que diz que é,
... que pensa que é,
... que julga que é,
... que jura que é,
... que afirma "palavra de honra que sou"
... aquilo que nem o rabo do meu gato é.
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(Ah!, e o meu gato nem rabo tem!)

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terça-feira, 1 de março de 2011

Glosa obrigada por mote (próprio)

Mede-se, quantas vezes…, o estar – seu ou dos outros – pelos resultados do que acontece enquanto se está. Mas não é assim. Porque nunca se está. Apenas ou só. Está-se com quem e porque já se esteve. E também porque se quer estar no que virá e com quem vier. Essas são as razões de estar. Os resultados de estar enquanto se está são outra coisa.