faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Diálogos (re)correntes - 5

- Achas que é por aqui?
- (…)
- Saio agora ali?
- (…)
- As indicações em letras grandes ainda consigo… agora aquelas em letras pequenas, só mesmo muito perto…
- … então vai mais devagar quando te aproximares…
- … tu também!, dás umas boas ajudas dás…
- (…)
- E agora?
- Bom… agora, sai na primeira saída…
- Na primeira?... não será na segunda?…
- (…)
- Pronto… já nos perdemos…
- Pois…
- ahn?... estou mesmo a precisar de ir ao oculista... de lentes de ver também ao longe, das progressivas…
- Olha que é a A8…
- ... mas já estamos na A17, inda vamos parar à Figueira…
- … sai já na primeira…
. … já?...
- … era para ser… temos de recuperar a saída para a A1.
- Para a A1?!
- Sim! Para a A1, como se fossemos para Fátima, está nas letras gordas…
- Quais?
- Aquelas…
- Ah…
(travagem a fundo)
- Já viste este gajo? Ele há cada um… meteu-se mesmo à frente...
- Grande sacana… safámo-nos desta…
- … deste, deste!... era um homem ao volante...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Numa esplanada da Avenida de Roma

Esplanalmoçando na Avenida de Roma:

  • De repente, começo a ver a passar a “fauna” da Avenida de Roma, gente da “fundação” das “avenidas novas” (que já foram novas… e eu bem me lembro delas quando novas eram). Gente, como eu, com tantas décadas em cima! Querendo manter frescura. Carnes mal contidas, balouçantes. Que abundam, que desbundam.
  • Olho mais em frente e mais perto, e pergunto: «E tu? Como é que te manténs tão… viçosa?!», «Ora… são os teus olhos…», «… também são, mas não são só… e não é apenas relativo…», «Pois… também para isso me esforço…», «Eu sei… e às vezes espero, irritado mas calado... porque vale a pena», «…então porque dizes sempre aquela graça alentejana atão porque nã ficas?...», «Para ser engraçado… porque é mentira… aliás, não precisavas…», «Pois…»
  • Na mesa ao lado, assentam(-se) três nativos (das “avenidas novas”, da “fundação”). Estão em casa. Falam alto. Demais. Eu ouço-os. Que remédio… Diz a nativa do trio: «Sabem do que é que eu tenho saudades?...». Contenho a gargalhada que me trouxe a lembrança do título do livro do Rubem Fonseca E do meio do mundo prostituto só saudades (ou era amores?) guardei do meu charuto.
  • E lembro, agora, outro título do mesmo Rubem Fonseca Pequenas criaturas.
  • O almoço na esplanada da Avenida de Roma foi agradável. E não foi. Ou não foi tanto como podia ter sido.

Poemas cucos...

Ainda lembrando e homenageando o Torga
… e hoje, e hoje?

Apetece-te chorar?... não cales o choro!
Apetece-te cantar?... então canta!
Não há mordaça para o povo
nem para o pranto nem para o canto.

Apetece-te fugir?... daqui ninguém foge!
Apetece-te gritar?... então grita!
Não há medo nem algemas, hoje,
nem para o grito nem para a luta.

Apetece sonhar? Pelo sonho vamos!
Apetece viver? Eia... vivamos a fundo!
O futuro com vontade levantamos,
... e anda um espectro pelo mundo.

Oh! malditos deste tempo que vivemos,
coveiros com enxadas douradas,
nada impedirá a vida que não temos,
e venceremos as angústias paradas!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

12 de Agosto

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas,
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas!

Miguel Torga (101 anos, hoje)

Um dos poemas que - para mim - melhor "retrataram" um tempo que vivi, de angústias paradas.
E hoje, e hoje?

Diálogos (re) correntes - 4

- Que chatice, não me lembro se já tomei o medicamento do meio dia… por acaso não reparaste?
- Eu?! Tomara eu não em esquecer dos meus…
- Podias ter reparado… e agora?
- Estava a brincar… Agora, ou não o tomas e já tomaste e tudo certo, ou não o tomaste e tomas e tudo certo, ou o tomas e já o tomaste e tomas duas vezes, ou não o tomas e não o tomaste e ficas sem o tomar…
- Estás mesmo com muita graça… não tomo!
- Não tomes… eu, como é domingo, estou de folga. A minha especialista de dislipidemias, dados os bons resultados, disse para não tomar medicamentos ao domingo.
- Boa! Mas não sabia que agora tinhas uma… como é que chama essa médica?... uma médica para as dislexias?…
- Quais dilexias?!... é para o colestrol.
- Ah! Esse não tenho… por enquanto!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Histórias ante(s)passadas - 34

Em "nome do pai" se escreveu a última história ante(s)passada.
E não havia a intenção de continuar a “fórmula”. Mas parece que algo começou com ela. A estória da vida de um homem que nasceu ao acabar o século XIX, numa pequena aldeia, e dela partiu, homem feito, com bagagens e “armas” - uma que era , então, muito valiosa (e rara), a quarta classe - e se “fez a si próprio”, e levando consigo, no mais fundo de si, o prolongamento das raízes de aqui.
Antes disso, ainda por cá andava em 1917, pelas cercanias e a olhar para azinheiras, particularmente em Outubro desse ano…
Em Lisboa nos anos 20, começou a trabalhar duro. Mas sempre com grande disponibilidade para se “ambientar”, para continuar a estroina para que tanto treinara na “Aldeia”, na Vila Nova.
Especializou-se em papéis e seus artefactos. Na Gomes & Rodrigues (Caneta de Ouro, no Largo da Estefânia), na Papelaria Fernandes (no Largo do Rato, e de que era dono, ou sócio, Agostinho Lourenço, director da PVDE). E o senhor Joaquim Ribeiro fez, ao que consta, brilhante carreira profissional. Apesar das noitadas, e dos patrões…
Quando vivia em quarto alugado perto do Rato, na Rua de S. Bento, procurou relacionar-se com – ou catrapiscar – as raparigas daquele tempo e daquelas paragens, com uma aura de solteirão (aos 30 anos!) e bastante atrevidote. Ao que parece, começou por se “interessar” por uma louraça divorciada (ou por uma divorciada louraça, vá lá saber-se...) que morava na Rua do Sol ao Rato, mas por funfuns e gaitinhas, caiu na rede da mais novinha das três irmãs, da inocentezinha, da “sonsinha”, da Judite. E para casamento! Aos 35 anos, o que era então considerado idade provecta. E não estaria, talvez…, nos seus propósitos e modos de vida.
Lá assentou. Sem ter de todo renunciado a umas saídas nocturnas…
As raízes levadas do Zambujal, marcavam muito a sua organização de vida. Frequentava e vestia-se na alfaiataria Lemos, na Rua Augusto, de um amigo de Alburitel, só comprava camisas e correlativos na camisaria Trezentos, no Chiado, de um amigo de Caxarias, só cortava o cabelo, morasse onde morasse, no Nunes, da Rua Luciano Cordeiro, de um amigo do Alqueidão. (E, quando chegou e enquanto teve idade, lá ia este cronista à Luciano Cordeiro cortar o cabelinho, fazer provas de fatos e de capa e batina na Rua Augusta, comprar gravatas no Trezentos do Chiado…)
Em 1939, Joaquim Ribeiro tomou uma importante decisão: estabeleceu-se. Não de porta aberta mas, como está averbado no BI que ilustra esta estória e que, aos 43 anos anos era… ,"válido perpetuamente", como “agente comercial”, representante de “fabricantes e negociantes”.
Deles se falará. Bem como, claro, dos frutos que deram aquelas bem cuidadas raízes.

domingo, 10 de agosto de 2008

diálogos (re)correntes - 3

- Olha lá, a mim parecia-me que o melhor seria bzzzbzzz…
- … o quê?
- Estás cada vez mais surdo…
- … o quê? Não estou nada. Tu é que estás a falar voltada para esse lado…
- Pois estou… mas estou a falar alto e bem explicado…
- … o quê?‘
Tá bem, pronto, estarei a ficar surdo. Mas estavas a dizer o quê?
- Eu?! Sei lá…
- (…) ? (…)
- Ah! já sei... era daquele caso dos bzzzbzzz…
- … o quê… dos quem?
- ‘Tás a ver?
- … o quê? Se estou a ver? Não, não estou é a ouvir-TE... Era daquele caso dos Sousas?
- Vês?! Ouviste! Já apanhaste foi o vício de perguntar sempre… o quê?
- O quê? Eu?!

Diálogos (re)correntes - 2

- Onde é que eu pus?... mas onde é que eu pus?...
- (…) ? (…)
- (…)
- O quê?
- O quê o quê?
- … o que é que tu não sabes onde puseste?
- … sei lá!

sábado, 9 de agosto de 2008

Histórias ante(s)passadas - 33

Não se vai entrar em piruetas esotéricas ou malabarismos espíritas, mas esta estória vai ser contada… em nome do pai.
É que se tem andado por aqui a dizer coisas dele, nem todas agradáveis, e isso do direito de resposta, ou da presunção da inocência, serve para todas as circunstâncias.
E as circunstâncias têm que se lhe diga. Alguma coisa vai ser dita, em nome do pai, usando-se o discurso directo.

Nasci em 1898, como o meu filho gosta de dizer, precisando a data (21 de Janeiro), quando mostra o quarto da “mansão” em que nasci e onde ele vive agora (fez algumas transformações e acrescentos que francamente… mas adiante… fica para outra ocasião).
Cresci por aqui, fui à escola (o que era raro), fiz a quarta classe (o que mais raro era, e me obrigou a ir a Tomar fazer exame), puseram-me na mercearia dos Souzas como marçano-aprendiz. Aprendi. E arranjei amigos. E andei na estroina. Era o “Jaquim da noite”.
Fui o possuidor da 2ª ou 3ª bicicleta do concelho e, com as deslocações, as noites perdidas (ou achadas) e toda a estroinice, apanhei “uma fraqueza”. Recolhi a casa. Com gemadas e descanso, curei-me. E também me safei da pneumónica e outras epidemias...
Voltei “à Vila” para trabalhar. Fui ajudar o Barão de Alvaiázere que fazia de notário e, depois, arranjei um emprego na Câmara, num lugar de “encarregado de posto fiscal de Carvoeira para cobrança e fiscalização do imposto ad-valorem” que acumulei com “o lugar de zelador municipal”, como se vê no Diploma de funções públicas. Passei a ter “uma remuneração pela percentagem que fôr fixada de forma a ficar com um ordenado não inferior a 100$ mensalmente e o seu quinhão nas multas que aplicar como zelador”.
Tive de assinar uma Declaração de compromisso em que “Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente, pela minha honra, que cumprirei com lialdade (sic) a Constituição da República e as suas leis, e desempenharei fielmente as funções que me são confiadas”, parecida com as dos presidentes da República…
Não gostei. E, pouco tempo passado, pus-me a caminho da capital. Tive de me fazer a mim próprio. Nas circunstâncias que nos fazem. Podia ter-me feito melhor, é verdade, mas também acho que não foi nada mau. Fui um “homem às direitas”. Perdão… à esquerda, como corrigiria o meu filho.
Tenho dito! Embora tenha muito mais para dizer…

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Croniquinha (no) "expresso"

Só quando não pode deixar de ser é que vou a Lisboa – ou a outros lugares – de carro. Por isso, de há uns anos para cá, estou a viajar muito de “expresso”. Ou de “caminhêta” como gosto de dizer.
Sei quantas horas são de viagem, e programo-a. Instalo-me, com o(s) jornal(is), com o(s) livro(s), com o caderninho de tomar apontementos (para crónicas, por exemplo). Quando tenho a sorte de ter um lugar vazio ao lado do meu – e, neste caso, muitas vezes tenho sorte... –, faço desse banco vago uma espécie de secretária.
E são viagens produtivas, para mais de ida-e-volta. Até dá para fazer, ou tentar fazer, sudokus.
Nesta última, porque tinha umas coisas para pensar, reduzi um bocado o programa e, às tantas, estava com os olhos na paisagem, e dei uma volta pela vizinhança.
Confirmei algo que já me tinha chocado, embora só de raspão, nas anteriores viagens. Nem um livrinho nas mãos dos meus e minhas companhias de viagem, Nem um jornalito (e agora há tantos que são “de graça”). Nem uma conversazinha com o vizinho do lado. Nem a olharem para a paisagem. Nem… nada. Todos e todas com os olhos no vazio. Nalguns casos, dormindo ou dormitando.
Só, lá de vez em quando, um toque de telemóvel e um falar sabe-se lá com quem, sabe-se lá de onde, sabe-se lá para onde (nem quero saber!...)
Tudo a pensar!
Muito pensa esta gente! Mas em quê? Decerto na(s) vida(s). Não (ainda…) sobre o que fazer para mudar esta vida.