faz de conta que o que é, é!... avança o peão de rei.

...
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.

José Gomes Ferreira

quinta-feira, 30 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 25

25.

“Mas não quer, ao menos…, uma boleia? Nem quer que os levemos a casa?”, ainda ouviu, distraído, o Homem.
“Não, não… muito obrigado. Até amanhã.
Depois, amanhã, passo pela Agência e, de lá, telefonarei ao Senhor Administrador, se me puder atender, claro…”
“Com certeza, com certeza…”
, disseram os dois, enquanto a porta do elevador se fechava para eles, com o Homem dentro e a caminho do encontro com a Mulher.

O encontro não se conta. O que já foi dito (pelo Narrador) e assim se cumpre.

Na rua, de mãos dadas como se ainda abraçados, com os olhos húmidos, os dois, a Mulher e o Homem, caminhavam pela cidade como se toda a cidade deles fosse. E era.
Se o Homem não quisera que a Mulher subisse àquele gabinete e se, em duas palavras, lhe dissera porquê e tudo o resto, tudo o resto estava por dizer.
Mas tinham tempo. Todo o tempo do mundo. Refaziam um caminho. O caminho que fora o do Homem quando, naquele já tão longínquo fim de manhã, saíra do gabinete do Senhor Administrador e do banco.
Mas, agora, fazia esse caminho com mãos dadas nas suas.
Até ao Cais do Sodré, atravessado o largo e a avenida como que passando, os dois, por meio das pessoas e dos carros que abriam caminhos. Aquele caminho.
Tomaram um comboio. O primeiro que iria partir para Cascais. Sentaram-se. Era ali, frente a frente, olhos nos olhos, sempre com as mãos dadas, que iriam contar-se tudo o que acontecera, o vivido e adivinhado.

Foi uma viagem bonita. Com uma história para ser contada. De que todos sabemos o enredo, mas contada por ele para ela. Ouvida por ela, por ela chorada e comentada.
Assim chegaram a Cascais. E quando chegaram fizeram o que entre os dois tinham decidido: ir ao posto da GNR procurar o Guarda Republicano.
Na brevíssima troca de palavras quando descera do helicóptero, o Homem ainda dissera ao Guarda Republicano, emocionados os dois, “ainda hoje o procuro…”. O outro sorrira. Apenas sorrira.
Depois, no minuto seguinte, que chegou após um intervalo de horas de entendimento, o Guarda Republicano acrescentara “não tenha pressa… mas não se esqueça que tem lá a pasta no posto…”.

O Homem repetia, ao começo da noite, o caminho que fizera, há muitas horas, acompanhado, sentindo e retendo a funda impressão de que não estava sozinho. Que outros homens, seres humanos, havia.
Assim o sentira, como quem toma consciência, quando, sentado na rocha, rodeado pelo mar que subia, rugia e o ameaçava, se apercebera que o vulto ao longe que com ele se esforçava por comunicar e dar força era o do Guarda Republicano.
Agora, fazia o mesmo caminho com a Mulher, com a companheira. De mãos dadas.

terça-feira, 28 de abril de 2009

ou... "Uma História com Final (aparentemente) Feliz" - 24

24.

A quase surpreendente atitude serena e firme do Homem veio frustrar o que o Senhor Administrador planeara, em que o jantar poderia servir para tentear a receptividade do Homem e da Mulher para uma campanha publicitária em que “o caso” e os personagens fossem tema, discreto, subliminar. “O banco que salva…” ou “Não desespere… conte sempre com este banco” ou “O banco que está onde se (des)espera”. E outras ideias que os criativos trabalhassem.
Mas tudo dependeria, claro, da aceitação do Comendador. A última palavra pertenceria, como sempre, a este. Que comandava tudo. O Senhor Administrador estava apenas a congeminar.
E, enquanto congeminava em como dar a volta à situação, e apenas projectos, em que o jantar era um passo, apercebeu-se que o Director da Agência ainda esboçava uma insistência. Interveio logo “não… não há que insistir… temos de compreender a necessidade do casal conversar… conversaremos noutra altura… até porque tenho algumas ideias…”. Como quem pisca o olho.
O Homem foi um pouco seco:
“O Senhor Administrador desculpe… agradeço a sua compreensão…
Por outro lado, não sei que ideias possa ter... e em que eu entre. Nem quero, agora, saber. A única coisa que pretendo é uma resposta para o problema da livrança, situação conhecida, e que eu, aqui neste gabinete, tomara por decidida – o que muito me perturbou – e que, afinal, não estaria… interpretei mal…
O que aconteceu entretanto nada altera… a não ser, evidentemente, o facto, para mim merecedor de uma gratidão sem preço, do banco ter dado um enorme contributo para me ser salva a vida, que – já o disse – estupidamente pus em risco.”
Caiu algum embaraço entre os três homens. Que pouco durou porque quase logo veio o anúncio, trazido pela Secretária, a prolongar extraordinariamente as horas extraordinárias, de que o motorista telefonara, já em Lisboa, e estava a chegar com a Mulher do Homem.
O Homem voltou a surpreender:
“Os senhores desculpem… peço-lhes que não a façam subir. Que ela espere por mim lá em baixo, à porta… eu vou ao seu encontro.
Compreendam… Queria encontrar-me com ela lá em baixo, fora deste gabinete em que nenhum de nós, nem os senhores nem os dois, ela e eu, estaria à vontade num encontro tão especial para os dois…”
“Com certeza, com certeza…”
, disseram os outros dois com muito pouca certeza do que estariam certos. Mas fizeram, logo, com que as coisas acontecessem como o Homem queria que acontecessem.
E se, com certeza ou sem ela…, os senhores, Administrador e Director de Agência, se viram forçados à descrição, não seria este Narrador, que discreto deseja ser, que iria trazer para aqui, para a praça pública, o primeiro encontro, íntimo e emocionado, do casal que tinha tanto para conversar. Mas lá entre os dois!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Às vezes...

... às vezes fico muito triste, e mais ainda preocupado, quando confronto o desejo de tanta gente em ver o argueiro no olho do outro, em atirar pedras aos eventuais telhados de vidro do vizinho, gente que não se apercebe da poeira que lhe atiram para os olhos, que não sabe, nem procura saber, de que matéria são feitos os seus telhados.
É evidente que o sinto mais quando o argueiro é no meu olho, o telhado (que não é de vidro!) é de minha casa. O que também me dá que pensar.

domingo, 26 de abril de 2009

26 de Abril de 2009


Há dias que transbordam,

como um copo que não contém a água que nele se deita,

como um rio que não suporta as margens que o oprimem,

como um corpo que não cabe na roupa que o cobre,

como um lençol que se puxa para o pescoço e deixa os pés ao frio,

como um fogo que vence as trincheiras da segurança.


.

Como os dias que ultrapassam as suas convencionadas 24 horas,

como um dia de Abril que ignorou calendários de rotina,

como um dia de Abril de 1974 que não foi apenas passo no tempo medido,

como um dia de Abril de 1974 que não foi apenas passo na vida tensa, contida,

como um dia de Abril de 1974 que foi salto para outros dias de futuro,

como um dia de Abril de 1974 que foi salto para uma vida outra, viva.

.

Como um 25 de Abril de 1974 que abriu portas para depois do dia acabado,

como um 25 de Abril de 1974 que rasgou caminhos dos que se fazem caminhando,

como os 25 de Abril sempre, de todos os anos, que não se deixam esquecer,

como os 25 de Abril sempre, de todos os anos, que não deixam esquecer

como este 25 de Abril para um 25 de Abril de novo,

como este 25 de Abril de 2009 que continua hoje, e amanhã, e nos dias que vierem!

sábado, 25 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou... - 23

23.

Com o pé em terra firme, era evidente que o Homem, “recuperado” pelo Senhor Administrador e o Director da Delegação, estava num estado a precisar de cuidados. Desde os sapatos encharcados até à cabeça zonza.
Já tudo fora providenciado pela logística do banco, som ordens rápidas e prontamente cumpridas. Enquanto um carro (com condutor, claro) viria na A1 com a Mulher do Homem, excitada mas contida, outro carro (com motorista, claro) viera buscar os três - o Homem, o Director da Agência e o Senhor Administrador - e levara-os para a sede do banco.
Ali, com a Secretária a fazer horas extraordinárias que a função justificava que lhe não fossem pagas – tal como as dos motoristas – e a esperar a chegada, já com uns sapatos novos, umas meias, fatinho completo e camisa, colocados nos anexos ao gabinete do Senhor Administrador.
O Homem, logo que reentrado naquele lugar de onde saíra para a sua “aventura de um dia”, fora encaminhado para a sala de banho, tomara um reconfortante duche, vestira-se lavado e novo, usara o champô do Senhor Administrador para lavar a cabeça. Por dentro e por fora.
Já se sentia outro, ele, quando voltou ao gabinete, onde o Senhor Administrador e o Director da Agência olhavam a televisão e trocavam impressões.
Tudo eram sorrisos e palmadinhas nas costas “o que tu foste fazer…”, disse o Director da Agências, “o que o senhor foi fazer… (falou o Senhor Administrador) o meu amigo deve ter interpretado mal as minhas palavras… a resposta que lhe dei não foi uma recusa… era, sim, um abrir de hipóteses, de perspectivas, de alternativas…”
O Homem sentia-se outro, mas ele. De repente, sabia o que queria e o que dizer “agradeço muito aos dois – e ao banco – terem-me salvo a vida que, estupidamente, pus em risco… mas agora queria afastar-me um pouco deste episódio… Se me permitissem, queria ir para casa e amanhã falaríamos do caso da livrança. Pode ser?”.
“Claro… (tartamudearam os dois)… mas tínhamos convidado a sua esposa – que deve estar a chegar – para irmos jantar todos…”
“Eu sei... agradeço muito… mas assim que ela chegar quero ter uma conversa a dois… percebem?!... tenho de lhe pedir desculpa pelo que a fiz sofrer… e explicar outras coisas… a sós!… é prioridade absoluta… desculpem… amanhã falarei convosco.”

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hoje é dia de véspra

Hoje, é dia de véspera!
Porque amanhã é sábado,
hoje é véspera de sábado.
Hoje, é dia de véspera!
Porque amanhã é 25,
hoje é véspera de 25
Hoje, é dia de véspera!
Porque hoje é 24 de Abril,
hoje é véspera de 25 de Abril!

Há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Era para ser véspera
de mais um dia de prisão,
de mais um dia de isolamento
de mais um dia de tormento
de um dia de julgamento
(no tribunal plenário);
talvez véspera de começo de interrogatório
talvez véspera de tortura
talvez de café escuro e de pão duro

Há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Era para ser, lá fora,
um dia de véspera de um dia mais
de véspera de um dia de sol triste
de trabalho triste,
de viver triste;
de esperar sem esperança,
de viver calado,
de viver amordaçado,
de viver censurado,
de viver oprimido,
de respirar um ar sem liberdade,
de respirar um ar pesado, denso, tenso
de olhar o outro com desconfiança,
um dia de amores com carácter de urgência,
do amor escondido e perseguido,
de fazer contas para o embarque para a guerra,
ou da fuga da terra para Franças e Araganças.

Hoje, há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Mas de uma véspera outra,
foi um dia de véspera do Dia,
do Dia de Sol,
de Alegria,
de Esperança,
de Vozes ao alto,
de Escrita sem censura,
de Ar livre e puro,
de olhar o outro como amigo,
(o povo unido jamais será vencido!),
foi o dia de começar a amar com amor,
só com amor e enquanto o amor,
de acabar com guerras,
de começar uma vida nova,
um mundo novo,
todo o futuro num ovo.

Hoje, há 35 anos, hoje foi dia de véspera!
Foi um dia de véspera do dia de todas as vésperas
das vésperas que começaram,
das vésperas que estão por cumprir,
das vésperas que foram tão atacadas,
que foram tão perseguidas,
e que tão atacadas,
e que tão perseguidas são.

Mas…


Hoje estamos e somos
o que os 25s de Abris quisemos
e deixámos
que fizessem de nós.

Há 35 anos, como hoje,
todos os dias são dias de véspera,
De vésperas de um futuro,
Se não esperarmos que se faça a hora,
se pelo futuro lutarmos,
agora!,
unidos comos os dedos da mão,
para chegarmos ao fim desta estrada
ao som (ou ao sol…) desta canção.

Hoje, 35 anos passados, hoje é dia de véspera
de Abril
de novo!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 22

22.

É agora a altura do Narrador ter uma palavrinha. Sabe, este, que a sua participação é normalmente perturbadora, nem sempre cumpre os cânones da escrita literária (ainda que de cordel...), e tem os seus detractores contumazes, mas não resiste.
Vem ele, o Narrador, dizer que não vai perder tempo a narrar o mais espectacular, o que poderá eventualmente ser aproveitado para quem desta narração queira fazer um filme: a operação de salvamento, com o helicóptero a sobrevoar o Homem e a “pescá-lo”, o poisar logo ali a poucos metros, o emocionante aparecimento e descida do encharcado homem do passaroco metálico, as palmas, a sua atitude confusa, assarapantada e sem jeito, o abraço do Director da Agência, a calorosa recepção do Senhor Administrador, a emoção do Guarda Republicano... essas cenas todas. Cenas que ficaram registadas para virem a passar no jornal das oito. Quem as não tenha visto no “jornal” televisivo, terá a oportunidade de procurar num desses chamados “aparelhos de busca”, ou no respectivo canal, ou num You Tube qualquer.
Por isso, o Narrador passa nesta jogada.
Afasta-se, discreto. Não sem registar um abraço a que dá muito valor porque quer que ele fique na história que está a narrar: o abraço e a breve troca de palavras entre o Guarda Republicano e o Homem.


E assim poderia terminar O Caso do Homem do Guincho, com a transmissão das emocionantes imagens, que se repetiriam quanto as audiências o justificassem e até em guião para o filme de ficção (do cordel) se já se insinuou ter veleidades de poder ser.
Mas, para tudo isso, e também para aqui, onde vendo sendo contado, O Caso ainda não terminou.
Ainda há uns finais para contar.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O Caso do Homem do Guincho - 21

21.

A centena e meia de quilómetros, a transmissão do directo O Caso do Homem do Guincho criara um enorme alvoroço, em jeito de bola de neve.
Há sempre alguém que está de televisão ligada num dos canais em que se passam as coisas, nem que seja na cozinha em que se prepara o jantar. No entanto, a Mulher do Homem não vira nem ouvira nada.
Estava na livraria, ocupada em atender clientes. Ou, talvez melhor, a falar com passantes que, eventual e raramente, iam comprando um livro.
Ficou por isso espantada quando começou a ver chegar gente que, do lado de fora, através das montras, espreitava para a ver... e parecia hesitar. Até que uma vizinha mais ousada tomou a dianteira. Entrou pela loja dentro e
Oh Mulher… tenho que lhe dizer… vá ver a televisão… já não vai apanhar… olhe que o seu marido está com problemas e apareceu na televisão…”.
“… quê?, o quê?! Diga lá, diga lá depressa… estou à espera que ele me telefone desde a hora do almoço… depressa, diga-me… aconteceu-lhe alguma coisa?...”
A vizinha contou o que vira e o que ouvira. À sua maneira, interpretando e ajuntando pontos, pormenores e comentários seus, pontos e comentários completados por outras e outros que, caminho aberto, também tinham invadido a loja e ganho coragem para entrar numa espécie de coro grego em redor da Mulher do Homem.
Esta, depois da enorme aflição, que aflita estava desde que esperava o telefonema que não viera e as respostas que não tivera para os seus esforços de ligar para o Homem…, mostrou-se à altura dos acontecimentos. Serena, sem arrepelos de cabelos, arrumou as coisas, fechou a loja, com a dificuldade de pôr toda aquela gente da porta para fora, pediu que a deixassem ir para casa e ver o que fazer. Se precisasse de ajuda, pediria e muito obrigada.
Foi quando recebeu um telefonema do Director da Agência que, em seu nome pessoal (e amigo, acrescentou…), e do Senhor Administrador, lhe fez o ponto da situação e a acalmou. Estava tudo sob controlo, e o helicóptero estava naquele momento a levantar com bombeiros e material para irem buscar o Homem.

Fora iniciativa do Director da Agência ligar para a Mulher. Lembrara-se e, depois de ter falado com o Senhor Administrador, fizera-o.
Informou-a e procurava acalmá-la, embora calma – e muito preocupada! – ela se mostrasse.
“Não! Ainda não conseguimos falar com ele, e o telemóvel ficou na pasta que deixou na Boca do Inferno… mas parece calmo e a recuperar da perturbação que terá tido… Porquê?! Não sei bem… até porque a conversa, hoje de manhã, com o Senhor Administrador – o Senhor Administrador está aqui comigo e manda muitos cumprimentos e toda a solidariedade – não, não teria corrido mal... o Senhor Administrador até me manda dizer que correu bem… que tudo se vai compor… que pode ficar tranquila… sim, sim… olhe o Senhor Administrador diz que um carro do banco a vai aí buscar… já não chegará a tempo de ver o helicóptero a chegar com o seu marido, mas o Senhor Administrador faz questão de convidar os dois para jantar… pode ir a casa preparar-se que dentro de uma hora estará aí um carro com motorista a buscá-la… até já!”

sábado, 18 de abril de 2009

ou... "Uma História Com Final (aparentemente) Feliz" - 20

20.
Do seu estacionamento no terraço da sede do Banco, o helicóptero içou-se aos céus. Nele, o Senhor Administrador, o Director da Agência, o Chefe da Segurança. Além do condutor ou piloto, claro… Mas estes raro contam nas histórias que se contam. Já os chefes da Segurança, não. Estes têm tanta coisa que fazer que, por vezes, merecem algum protagonismo, quando não vedetismo.
Este Chefe da Segurança, que vai com o Senhor Administrador e o Director da Agência, fizera o muito que havia a fazer no curto tempo de alguns telefonemas para que o helicóptero ficasse habilitado a levantar voo daquele terraço e a pousar em espaço aberto lá perto da praia do Guincho. Tudo em minutos…

A chegada do helicóptero foi mais um acontecimento a juntar ao caso do Homem do Guincho. Acontecimento que levantou ondas de poeira, no meio das quais o Zé da TV ordenou à equipa sob sua direcção que captasse uns planos de grande impacto.
(E que não tivesse ordenado, o operador estava ali para isso, e era um profissional competente e amante da sua profissão…)

Lá ao largo, o Homem sentia-se cada vez menos sozinho e cada vez mais figura secundária, após a brevíssima passagem por um protagonismo que nunca desejara. As ondas que passavam a seus pés iam deixando ficar sempre mais água, que subia, subia, e já lhe entrava pelos sapatos. Mas, como não se cansava de lhe gritar o Guarda-republicano, o único para quem parecia que o mais importante era mesmo ele e não o que estavam a fazer a pretexto dele, o que era preciso era manter a calma, muita calma.
A espectacular chegada do helicóptero com as grandes pás a passarem por cima da sua cabeça e a pousarem o volumoso bojo lá adiante entretivera-o uns segundos e julgou-se a ver uma cena das séries inevitavelmente estado-unidenses… Recuperava-se, sorrindo a coisas que pensava… sem ser na livraria, na livrança, no banco, na casa. E pensou na Mulher, preocupado com a preocupação em que deveria estar… se já soubesse.
A enorme libélula metálica pousara e regurgitou apressados vultos, onde lhe pareceu reconhecer o Director da Agência e o Senhor Administrador.
O Homem ficou espantado com a importância que lhe estavam a dar. Tudo por causa de uma livrança de 50 mil euros?!

A reforçada equipa de socorro reuniu logo, com o enorme pêso dos recém-chegados, a quem o Comandante dos Bombeiros e o da GNR prestaram devido tributo de admiração e respeito para não se ser excessivo e não dizer vassalagem.
Sob a superior orientação do Senhor Administrador, com a coadjuvação apagada do Director da Agência, orientação que se resumia a um “faça-se”, para os outros ficavam os pormenores técnicos do “fazer-se”, acertados entre os Comandantes e o Chefe da Segurança, e, também, o piloto do helicóptero, chamado a ter alguma importância na operação.
Tudo a postos para o espectacular salvamento sob os atentos olhos e ouvidos das máquinas encarregadas de levar o evento ao jornal das oito, se é que o Zé da TV não ia conseguir o directo que, afanosamente, negociava pelo portátil, desses que tudo têm e fazem. Negociações difíceis, porque as oito se aproximavam naquele fim de tarde mas, pelo menos, iria conseguir uma chamada a abrir o noticiário: O Caso do Homem do Guincho...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"O Caso do Homem do Guincho" ou...

19.

O Senhor Administrador preparava o seu fim de dia.
Fora uma tarde calma. Acertando uns pormenores, assinando expediente e cartas. Nada de excitante.
Satisfeito consigo, esperava-o um jantar “de negócios”, talvez uma ida a lugar reservado de diversão nocturna, com encontros de vário tipo se o jantar lhe desse disposição para mais umas horas antes de recolher a casa.
Comunicara à Esposa o programa, em que ela não entrava e que ajustara à informação adequada, ouvira de novo os anseios e as preocupações sobre “a casa para a nossa Menina”.
Já preparara com a Secretária a agenda para o dia seguinte, e autorizara-a a, após o encerramento do expediente e envio de mensagens, terminar o dia de trabalho.
Descontraidamente, sentou-se no confortável sofá, e começou um zapping inconsequente.
Numa passagem, ouviu falar de O Caso do Homem do Guincho. Deteve-se, por desfastio.
Até que se começou a interessar, e mais que interessado ficou quando, após depoimentos inócuos, viu a imagem do homem, isolado numa rocha no meio do mar que o ia rodeando e breve submergiria. Reconheceu o Homem que ali estivera naquela manhã.
Depois, no testemunho de um GNR, do Guarda-republicano, algumas informações mais precisas, sobre o seu conhecimento daquele homem desde manhã, a pasta deixada na Boca do Inferno, a referência ao problemas financeiros e a uma reunião num banco…
Saltou do sofá. Correu a tempo de apanhar a Secretária, já vestida para sair. “Veja se ainda aí está, nos Recursos Humanos ou noutro sítio qualquer, o senhor Director da Agência de… ele que venha falar comigo. Imediatamente. Vá, despache-se!”
E voltou para a televisão. Ouviu mais uns pormenores sem interesse sobre o salvamento do homem, e o anúncio de que, no jornal da noite, haveria actualização da reportagem se não se viesse a justificar interrupção para um novo directo.

A Secretária introduziu o Director da Agência no grande gabinete. Encontrou o Senhor Administrador nervoso, excitado.
“Não viu a televisão?!...”
“Não, Senhor Administrador… tenho estado nos Recursos Humanos… um problemazito…”
“Deixe isso… quero lá saber… aquele fulano, o seu amigo que me mandou cá hoje de manhã está a dar bronca… e da grossa…”
Contou o pouco que sabia pelo que ouvira na televisão.
“Tem de se fazer alguma coisa. O nome do banco está envolvido… E eu lixado, claro. Ajude-me a organizar uma grande operação de salvamento. Temos de ser nós! Fale aí com a Secretária, mobilizem a segurança, tratem de tudo. Já!”

Assim que o Director da Agência saiu, foi ligar para o Comendador. Não queria que este soubesse do que quer que fosse antes dele o informar… e que estava tudo controlado. Por ele.